É consenso que o grande obeso se comporta invariavelmente como um indivíduo sedentário, possuindo clinicamente todos os efeitos deletérios deste comportamento (CLAO, 1998). Neste sentido, a composição corporal deste grupo de indivíduos sofre mudanças que refletem direta e negativamente na funcionalidade dos mesmos. Dentre estes aspectos funcionais merece destaque a força muscular, por se caracterizar como uma valência física fundamental para a qualidade e quantidade de vida (CARVALHO, 2004). Em relação ao comportamento do lactato capilar basal a presente pesquisa demonstrou que mesmo os valores captados no pré e no pós-operatório não apresentou significância estatística, quando comparados pareadamente, estes estão de acordo com o estudo de FRANCESCONI (2008), que se baseou no estudo de DIGIROLAMO (1989), que foi o primeiro a apresentar o tecido adiposo como um importante sítio para a produção de lactato, demonstrou que os valores basais de lactato em presença de obesidade são maiores que em situação de eutrofia. Vários são os fatores que podem interferir com os valores de lactato basal em obesos. Muitos estão relacionados com a regulação da produção de lactato pelos adipócitos, como por exemplo, o tamanho da célula e a concentração de glicose (DIGIROLAMO et al., 1992). Neste sentido, tendo em vista a diminuição dos conteúdos dos adipócitos no curso do processo de emagrecimento, é possível interpretar por que em nosso estudo os valores da média do lactato capilar em repouso no pós-operatório se apresentaram mais baixos que os plotados no pré-operatório (NEWBY et al., 1989). Desta forma, em referência ao lactato capilar em repouso, nossos resultados também revelam aumento do valor do lactato em regimes que cursam com elevação crônica da glicemia, como é o caso da obesidade e da obesidade mórbida (CHEN, 1993). Podemos então interpretar que os escores abaixo dos valores de referência de lactato capilar em repouso no pós-operatório relacionado à pesquisa, cursam com o cuidado que se deve empreender no controle da lactacidemia de indivíduos obesos que em pré-operatório apresentem valores abaixo dos critérios de referência. A análise da composição corporal relacionada à esta pesquisa, principalmente no que diz respeito aos aspectos relacionados à massa muscular, demonstrou um dado antagônico na amostra em relação a alguns consensos bariátricos. Existem evidências de que os doentes submetidos à cirurgia bariátrica têm reduções significativas de massa muscular até dois anos após a cirurgia e que as perdas de massa muscular podem ocorrer mesmo sem mudanças significativas do índice de massa corporal (BAZZOCCHI et al., 2015). Nosso estudo verificou que houve aumento de 6,61% da massa muscular na média da amostra pré-operatória para a pós-operatória, equivalente a 1,08 kg com significância estatística de p = 0,017. Podemos supor que o intervalo de 8 meses que ocorreu entre a captação dos primeiros valores, 4 meses antes do ato operatório, e a captação dos últimos valores, 4 meses após o ato operatório, caracterizaram um espaço temporal que permitiu aos integrantes da amostra uma adaptação positiva às orientações e intervenções da equipe multidisciplinar, refletindo no metabolismo dos pacientes. Seguindo os estudos de BORTOLUZZO (2005), os resultados positivos na massa muscular podem estar relacionados à manutenção adequada do perfil calórico oferecido, incluindo o perfil proteico dos pacientes da pesquisa, já que é comum que indivíduos submetidos à cirurgia bariátrica façam grandes restrições no valor energético total da dieta que aumentam a proteólise, a fim de fornecer substrato para a neoglicogênese, justificando a diminuição da massa corporal magra. Da mesma forma, de acordo com o mesmo autor, o grau de atividade física pode influenciar na velocidade de perda de peso corporal e na preservação da massa magra. Em relação à força muscular o presente estudo verificou a redução do somatório de forças dos integrantes da amostra do pré para o pós-operatório de Bypass Gástrico em Y-de-Roux, corroborando a achados de STEGEN et al. (2009), que em estudo piloto também utilizando dinamometria, verificou que após 4 meses do pós-cirúrgico de Derivação Gastrojejunal em Y-de-Roux há diminuição da força em membros inferiores, observando 16% em quadríceps e 27% em isquiotibiais. Neste mesmo raciocínio HANDRIGAN et al. (2010) realizaram uma pesquisa onde foi utilizado gastrectomia vertical em 42 caucasianos do sexo masculino, demonstrando redução da força muscular isométrica em extensão do joelho, e inferindo que esta redução afeta o controle do equilíbrio. OTTO et al. (2014) desenvolveram um estudo para verificar a relação da dinamometria de preensão manual com a composição corporal em 25 pacientes que Y-de-Roux. Análise de impedância bioelétrica e força de preensão palmar foram medidas no pré-operatório e repetidas a cada 6 semanas por 4 meses. Uma análise de variância foi realizada para observar as mudanças nesses parâmetros individuais. No pós-operatório, todos os pacientes apresentaram uma diminuição significativa no índice de massa corporal e massa de gordura corporal. A massa extracelular e a massa isenta de gordura dos pacientes permaneceram constantes. A força de preensão manual não apresentou alterações significativas durante o curso pós-operatório. No entanto, a força de preensão manual pré-operatória mostrou forte correlação positiva com a composição corporal pós-operatória (OTTO, KAUTT, KREMER et al., 2014). Foi apresentado em nossa pesquisa um relativo aumento de massa muscular do momento pré-operatório para o pós-operatório de Derivação Gastrojejunal em Y-de-Roux e um resultado de diminuição de força muscular, podemos citar os estudos de MATSUDO (2003), que apresentou que a capacidade funcional de mulheres fisicamente ativas está relacionada, não somente ao volume muscular das mesmas, mas também à capacidade neuromotora para a realização do movimento. Isto quer dizer que a força muscular não está somente relacionada ao índice de massa muscular, mas também, como a massa muscular se relaciona com o próprio músculo e os demais, caracterizando o que ZATSIORSKY (1998) denomina de “coordenação intermuscular e intramuscular”. Partindo do princípio que, apesar de ter melhorado a condição física e nutricional, não havia nos integrantes da pesquisa o treinamento físico que, efetivamente, determinasse o ganho de força. O presente estudo apresenta a possibilidade de inferir sobre a condição futura no estado de força e da composição corporal, a partir da interpretação de valores do lactato capilar sérico. Confirma então a hipótese alternativa de que há diferença significativa entre valores pré e pós-operatórios das variáveis envolvidas na pesquisa, citando a massa muscular e força muscular, que foram objetos de maior atenção na pesquisa, juntamente com os valores de lactato capilar em repouso, que confirmou a hipótese nula. Sendo assim, tendo em vista a proximidade do valor de p para significância entre as médias do lactato capilar sérico pré e pós-operatórios, sugerimos que novos estudos com um “n” maior sejam desenvolvidos, assim como a adição de parâmetros qualitativos em relação à condição nutricional dos participantes das futuras pesquisas. No documento INSTITUTO PRESBITERIANO MACKENZIE FACULDADE EVANGÉLICA MACKENZIE DO PARANÁ INSTITUTO DE PESQUISAS MÉDICAS GUIDO ASSIS CACHUBA DE SÁ RIBEIRO (páginas 61-64)