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DISCUSSÃO

No documento MICHELE JAQUELINE DENCKER (páginas 45-49)

A partir das isolinhagens utilizadas, com uma amostragem relativamente baixa para as análises realizadas, os resultados apresentados com um número tão alto de polimorfismos de inversão chamam atenção para um grau de polimorfismo nunca encontrado antes, para nenhuma espécie do grupo Cardini. Dados tais resultados, algumas das novas inversões foram documentadas em artigo intitulado “New chromosomic paracentric inversions in Drosophila cardinoides (Diptera, Drosophilidae) at Santa Catarina Island, South of Brazil.” (Dencker et al.,2016).

Rohde e Valente (1996) descreveram quatro inversões (A,B,C e D) para a espécie, todas elas situadas no braço cromossômico 3L. Mais tarde, De Toni (2002) registrou mais uma inversão neste mesmo braço cromossômico, nomeada 3LE. As populações do primeiro estudo citado acima provinham de Porto Alegre (RS); já do segundo estudo citado, provinham de pontos da Ilha de Santa Catarina e continente (devemos considerar que a amostragem continental deste trabalho foi menor), sem estudos prévios para a Caieira da Barra do Sul. Destes trabalhos realizados podemos considerar alguns pontos comparando com os resultados aqui encontrados. O primeiro é sobre o alto número de inversões nas ilhas: De Toni (2002) verificou que as populações insulares, inclusive de D. cardinoides, foram mais polimórficas que as continentais; bem como em estudo anterior (De Toni et al., 2001) onde o mesmo ocorreu para populações insulares de Drosophila polymorpha, Drosophila cardinoides e Drosophila cardinoides (grupo Cardini). Essa informação das populações insulares serem mais polimórficas que as continentais fica à contramão do que outros autores haviam encontrado até então para espécies do grupo Drosophila, onde populações continentais eram consideradas mais polimórficas que as insulares. Rohde e Valente (1996) corroboram com a ideia das populações insulares citada. Elas trabalharam com D. polymorpha e encontraram apenas 1 inversão numa população continental, sendo que De Toni (2002) e De Toni et al. (2001) encontraram maior número de inversões paracêntricas heterozigóticas em populações insulares e menor número de inversões em área continental. Isso pode sugerir que talvez,

o uso de diferentes recursos, os quais eventualmente poderiam estar envolvidos na seleção de cariótipos com distintas inversões. As inversões endêmicas encontradas por De Toni (2002) podem ser explicadas como ajuste das moscas a um ambiente menos homogêneo encontrado na Ilha. Também se concluiu neste último estudo, que as ilhas analisadas ofereciam as condições ideais para D. cardinoides e outras do grupo.

Um segundo ponto que devemos considerar é que no trabalho de Rohde e Valente (1996) foram utilizadas populações selvagens e de área urbana. Isso porque a espécie em foco está mais presente na borda das matas e próximo às habitações humanas, tendo sua frequência em regiões conservadas abaixo de 1% (Da Cunha et al., 1953). Um estudo realizado na Caatinga observou que Drosophila cardinoides foi coletada apenas fora da área da reserva ambiental estudada, em locais no entorno desta (Oliveira, 2015) o que pode assinalar a preferência destas por áreas de maior estresse ambiental.

Todos os estudos realizados até o momento apontam para o fato de que durante a evolução do gênero Drosophila, diversas e numerosas reordenações cromossômicas foram produzidas (dentre elas as inversões) e se fixaram em cada espécie - com poucas exceções que não apresentam esse tipo de rearranjo (Powell, 1997). Em dípteros, tem sido considerado que a natureza das inversões cromossômicas é adaptativa (Dobzhansky, 1943; 1947; 1948; Stalker e Carson, 1948; Krimbas e Powell, 1992; De Toni, 2002).

Considerando então os polimorfismos cromossômicos adaptativos e balanceados, o grau de polimorfismo de uma espécie corresponde ao número e variedade de nichos ecológicos que as populações desta ocupam (De Toni, 2002 apud Da Cunha et al., 1950, 1959; Da Cunha e Dobzhansky, 1954). Portanto, quanto maior o número de recursos e biótopos diferentes que uma espécie explorar, maior o número de polimorfismos adaptativos em comparação com espécies de nicho limitado, pois haveria diversificação de seleção sobre as inversões (Powell, 1997; De Toni, 2002). Tendo como bioma de coleta a Mata Atlântica, era esperada a presença de inversões, já que este ambiente, juntamente com o Cerrado, é considerado altamente diversificado e rico (Da Cunha et al., 1953).

Além da natureza das inversões poder ser considerada adaptativa, há uma diferença em sua ocorrência por conta do hábitat e região geográfica. O que mais chama atenção dos pesquisadores é a comparação entre populações marginais e centrais de uma área de

distribuição de determinada espécie. O padrão encontrado em muitos casos é de maior número de inversões heterozigotas nas populações centrais, diminuindo quando em direção às margens de limite da população; a suposição para explicar isso é de que no centro de distribuição de uma espécie, sua ecologia seria ideal, ao contrário do que ocorreria nas margens. Porém, um estudo realizado por Prakash e Levitan (1973, apud Powell, 1997), não observou isso; eles encontraram alta taxa de heterozigosidade tanto na margem como no centro e não observaram polimorfismos de inversão para as aloenzimas que pesquisaram. Vale lembrar que esse ponto foi tratado considerando a fixação das inversões nas populações, e cita também que essa teoria do centro de dispersão/margem não foi testada suficientemente. Devemos salientar, contudo, que até hoje, nenhum estudo aprofundado com o cariótipo de D. cardinoides foi realizado, levantando os arranjos em populações naturais para que esta hipótese fosse eficientemente testada para esta espécie (Powell, 1997).

Outra questão levantada que vai na direção oposta do que vimos até aqui, é a falta de evidências de que inversões sejam diretamente relacionadas com o ambiente (Powell, 1997). Em estudos sobre polimorfismos em áreas de colonização por drosófilas, o baixo nível deste foi explicado pelo alto índice de homozigose da população dessa área (Fontdevila et al., 1982). Contudo outros autores apontam para a intrínseca relação entre estes arranjos e o ambiente (Ranz et al,1997).

Considerando a diversidade dos nichos e de hábitats citados acima, nosso trabalho aponta para a concordância com a ideia de que o resultado aqui encontrado está ligado a condições favoráveis do ambiente para a espécie utilizada, aumentando seu grau de polimorfismo para inversões paracêntricas (De Toni, 2002). A ocorrência de inversões paracêntricas heterozigotas não significa a fixação destas numa população, e é necessário circunstâncias precisas para sua fixação, o que raramente acontece em populações naturais. Quanto mais recente a inversão for, conforme ela modifique a interação dos alelos nela contida e dependendo de sua frequência na população, maiores as chances dela se estabelecer (talvez a única), caso em heterozigose. Ainda como critério está seu tamanho, quanto maior, maiores as chances de ter alelos favoráveis à aptidão, porém, a supressão de recombinações fica menos

No documento MICHELE JAQUELINE DENCKER (páginas 45-49)

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