A Depressão no meio prisional é uma das respostas adaptativas que o recluso encontra para lidar com essa situação (Gonçalves, 2002). Ou seja, modifica não só o humor ou o afecto no sentido depressivo (com ou sem ansiedade associada), como a auto-estima e a dimensão somática no sentido aviltante (WHO, 2006a).
Apesar de não ser problemas exclusivos da população prisional, a sedentariedade, as alterações sensoriais, as modificações da auto-imagem e a Depressão estão frequentemente associadas às pessoas que estão privadas da liberdade física (Gonçalves, 2002).
Perante a apresentação de resultados, no grupo experimental percebemos que: a faixa etária que aderiu maioritariamente ao PAFA situava-se entre os 25 e os 31 anos de idade; possuíam habilitações literárias superiores aos restantes elementos da amostra; todas as alunas do PAFA frequentavam algum curso ou a escola. Assim sendo, ficamos tentados a especular que o grupo experimental acedeu ao PAFA, pela relevância da condição de sujeitos com mais informações e com maior formação literária tomarem decisões mais racionais face a situações de tensão. O grupo experimental apesar de ter alguma incapacidade cognitiva (Faulkner et. al., 2005), característica dos pacientes com Depressão, e processamento enviesado negativo da informação (Kaplan et al., 1994), frequentava a escola ou um curso profissional e tinha habilitações literárias superiores ao grupo de controlo.
A amostra frequenta as consultas do psicólogo, isto é, usufrui de terapêuticas ajustadas à Depressão e 79% frequenta consultas de Psiquiatra que coincide mais ou menos com a percentagem que toma psicofármacos (81%). O que nos leva a constatar que a amostra tem terapia de cariz psicológico e a maioria toma psicofármacos ora receitada pelo psiquiatra ora pelo médico de clínica geral.
Como nos refere Canova (1993) o psicofármaco é fundamental para o indivíduo com Depressão, uma vez que actua de modo rápido, mas deve ser acompanhado de terapia não farmacológica para permitir uma mudança de posicionamento face a si próprio e ao mundo que o rodeia. A AFA deve constar, identicamente, do tratamento, pois, desperta a atenção, permite uma sensação de bem-estar durante e após a prática, favorece a interacção social, promove a autopercepção da prestação física, distrai (Leith, 2002) e combate o sedentarismo e as doenças físicas associadas (Faulkner et al., 2005).
Assim, a intervenção terapêutica na Depressão deve combinar diferentes tratamentos, designadamente farmacológicos, psicoterapêuticos e AFA (Van Coppennolle, 1992).
Além disso, percebeu-se que no primeiro momento do estudo, 58% da amostra tinha ocupação laboral no EP e no segundo momento 79%, pois 25% do grupo de controlo e 13% do grupo experimental começaram a trabalhar. Quanto à frequência da amostra na terapia ocupacional houve uma ligeira descida, de 4%, uma vez que 37% do grupo experimental deixou de frequentar essa terapêutica.
A variedade de ofertas laborais no meio prisional, normalmente não é a mesma do exterior. Há, usualmente, um afastamento da identidade ocupacional no meio prisional e qualquer que seja o incentivo não terá o significado estrutural que tem no exterior (Goffman, 2005). Estes motivos podem originar uma destruição das expectativas e fechar o campo de prospecção psíquica, evidenciado pelas mortificações do “Eu”, e desta forma, toda a energia da reclusa pode-se direccionar para a manutenção do corpo como símbolo da vida. O trabalho é necessário, mas as actividades de cariz terapêutico e educacional não poderão ser descuradas num espaço que tem como principal objectivo reabilitar o indivíduo.
A Depressão, tanto no primeiro momento como no segundo momento, da amostra variou entre nível leve, moderado e severo. Contudo, o valor médio diminuiu do primeiro para o segundo momento, bem como o máximo e o
mínimo. Este facto pode-se perceber, uma vez que no segundo momento o grupo experimental apresenta valores estatisticamente significativos da Depressão mais baixos, quando comparados com o grupo controlo ou com o primeiro momento. A frequência e a duração da Depressão são menores em pessoas que praticam AFA com regularidade, se compararmos com os que não praticam AFA (Matos et al., 2004). Os indivíduos com maior frequência semanal de AF possuem mais benefícios psicológicos (Biddle e Mutrie, 2001). Como nos transmitem Mutrie (2000) e Lawlor e Hopker (2001) o efeito antidepressivo da AFA pode ter a mesma magnitude de outras intervenções psicoterapêuticas. Além disso, a AFA tem propriedades hedónicas positivas, mais visíveis num PAFA prolongado, mesmo em indivíduos que inicialmente não aderem ou que a frequência no PAFA não seja constante, pois em ambos os casos há efeitos antidepressivos e ansiolíticos (Salmon, 2001).
Percepcionou-se ainda que os efeitos antidepressivos associados à AFA não se devem restringir a formas aeróbias.
De acordo com o nosso estudo os itens que caracterizam a Depressão da amostra são principalmente a autopunição, a culpabilidade e as auto- acusações e os itens que revelam menos interligação são os desejos suicidas, a incapacidade de trabalhar e a libido. Os três últimos itens apresentam valores baixos da Depressão que se podem justificar: pelo papel de mãe, força intrínseca para ultrapassar a reclusão, da maioria da amostra; pela necessidade de trabalhar para a subsistência da família, sustento dos vícios do próprio e de outros companheiros (por diversos interesses) ou para que a direcção e os juízes considerem esses aspectos no momento de avaliação no processo do recluso e no momento de saída do EP; e pelas visitas íntimas ou relações estabelecidas, como forma de adaptação à prisão (Gonçalves, 2002). As dimensões dos itens agrupam-se em três, dimensão auto-estima, afectiva e somática. A auto-estima é a dimensão que apresenta mais ligação à Depressão nesta população, a dimensão afectiva e a dimensão somática apresentam valores mais baixos, respectivamente, 1,20 e 0,96. Todavia, no grupo experimental constata-se uma melhoria, estatisticamente significativa,
nas três dimensões. Além disso, percebeu-se que o peso, entre outros dois itens, não está agrupado a nenhuma dimensão, mas também é estatisticamente significativo no segundo momento de avaliação para o grupo experimental, pois um dos efeitos de um PAFA é a melhoria da estrutura corporal (Leith, 2002).
Logo, verificamos que esta amostra, no ambiente fechado com regras e valores protelados pode ter maior estabilidade emocional face às tensões próprias da instituição, se alterar positivamente as dimensões afectivas e somática. A auto- estima é a dimensão que está estritamente ligada à Depressão da amostra, mas a actuação do PAFA fez contrabalançar a Depressão através das três dimensões, mas de modo mais marcado na dimensão somática e afectiva. O isolamento contribui para uma diminuição dos valores da auto-estima (Gonçalves, 2002) e, consequentemente, aumento da sensação de fracasso, de culpa, de sentido de punição, de ódio ao próprio e de auto-acusações, especialmente quando se sabe que a maioria da amostra é mãe (há remorsos manifestos e latentes).
A AFA é uma forma terapêutica de combater a Depressão e o sedentarismo. Contribuindo eficazmente, principalmente, nos aspectos afectivos e somáticos encontrados, tanto nos resultados do IDB como no diário de campo. Isto é, a interacção social aconteceu na colaboração do grupo e na interajuda; o optimismo começou a fazer parte do dia a dia; a alegria e a satisfação eram visíveis tanto no momento anterior às aulas do PAFA como na realização das actividades propostas; as decisões começaram a ser tomadas com maior fluidez; o cansaço diminuiu drasticamente e o apetite aumentou. Além disso, o estado anímico desapareceu gradualmente, houve concentração e atenção nos momentos basilares das aulas, as memórias de curto e médio prazo sofreram um grande melhoramento, e o empenho, o esforço, entre outros, foram aspectos igualmente patenteados.
O meio prisional proporciona às reclusas actividades de diversas naturezas, isto é, desde cariz laboral e educacional como é o caso da ocupação
profissional e das disciplinas que compõem a escola ou curso, até cariz terapêutico e de lazer como é o caso da terapia ocupacional ou consultas de psicologia e a biblioteca ou artes plásticas.
Se se pode inserir o trabalho no âmbito laboral e a terapia ocupacional no âmbito terapêutico. Já a AFA não se insere num único âmbito, ela é terapêutica e educacional, uma vez que proporciona a redução dos valores da Depressão e permite uma interacção professora-aluna(s) e aluna(s)-aluna(s) com níveis de ensino-aprendizagem cognitivo – conhecimento dos exercícios, activando os centros da memória e da atenção e de informações sobre problemas de saúde física e psíquica – motor e afectivo. E se lazer significa ócio, descanso, então esta actividade em nada está associada à AFA, mas se simboliza a procura do prazer, então a AFA também é do âmbito do lazer.
O grupo experimental desligou-se da micro-sociedade que o rodeava, bem como em alguns casos de entes queridos, colocando inclusive a sua vida em risco. Contudo, após o PAFA estas atitudes alteraram-se bem como nos diferentes itens do IDB.
Apesar da dificuldade de avaliar o contributo do PAFA, de forma isolada, no tratamento de pessoas com Depressão, cruzamos as informações das variáveis, nos diferentes indivíduos e percebemos que o PAFA funciona como um agente profiláctico capaz de contribuir de forma muito positiva, sob os sintomas fisiológicos e psicológicos e sob as consequências sociológicas da doença.
Pelo exposto podemos considerar que a amostra apresenta valores da Depressão elevados nas diferentes dimensões, especialmente na dimensão auto-estima, e que o grupo sujeito a um PAFA diminuiu os valores da Depressão e o grau da Depressão, nas diferentes dimensões e no item peso.