Com a análise dos nossos dados, descobrimos uma prática de evasão muito importante que não foi contemplada nas tipologias de Galasinski (1996) e Clayman (2001): evasão por meio do uso de perguntas retóricas. Em nossos dados, encontramos ainda algumas construções que não eram evasivas, mas que também não traziam respostas satisfatórias, portanto, constituíam “não-respostas”. Tais respostas são denominadas na literatura como “respostas intermediárias” (Bull, 1994).
Cabe destacar que não encontramos na literatura nenhuma referencia à prática de evasão que foi por nós denominada como “evasão por meio do uso de perguntas retóricas”. Entretanto, em nossos dados, respostas com essas perguntas tiveram uma freqüência muito expressiva.
Uma outra forma de não responder, que embora não seja considerada uma prática de evasão, também não pode ser considerada uma forma de responder satisfatoriamente, são as respostas que se dão por meio do uso das denominadas “respostas intermediárias” (Bull, 1994), isto é, respostas que negam os pressupostos das perguntas. Este conceito nos foi muito útil, pois durante a análise dos dados, as respostas desse tipo se mostraram muito freqüentes e havia uma certa dúvida sobre como classificá-las, visto que uma resposta em que se nega o conteúdo da pergunta, não há, necessariamente, uma resposta e que as tipologias adotadas por nós como referência não traziam nenhuma menção a esse tipo de resposta.
Nos nossos dados, as “não-respostas” apresentaram uma ocorrência expressiva tanto no contexto da entrevista política quanto no contexto do PROCON. Esse tipo de respostas nesses contextos parecem se explicar pelo fato de que esses são contextos em que se esperam posições bem estabelecidas e claras e que, portanto, são utilizadas perguntas que, de certa forma, desafiam o interlocutor.
Lembramos que a dificuldade em se dar uma resposta direta a essas perguntas decorre não apenas da natureza “complexa” de tais perguntas, mas do contexto em que elas se apresentam. Afinal, dizer diante do país (numa rede de televisão) ou diante de
advogados que você fez algo ou que vai fazer algo que você sabe que não será muito bem aceito, é altamente comprometedor.
Destacamos que dentre as oito práticas de evasão abertas apontadas por Clayman (2001) e Galasinski (1996), as práticas mais recorrentes em nossos dados foram:
justificativa para a mudança/evasão com justificativa de mudança de foco, caso especial/categorização genérica e implicatura/evasão por implicatura. Essas práticas
foram utilizadas, conforme vimos na análise dos dados, principalmente, na entrevista com o ministro da educação Paulo Renato. Muitas vezes, ele atribuiu os problemas referentes à educação a causas genéricas, tais como: história da educação no Brasil e natureza da universidade pública. Outras vezes, por implicatura, pudemos perceber que os investimentos na educação ainda não são suficientes e que ele não tinha interesse em se candidatar à presidência.
Destacamos que a forma de “não-resposta” encontrada em nossos dados e que gostaríamos de dar especial atenção são as perguntas retóricas: primeiro, porque elas foram muito recorrentes; segundo, elas não tinham sido apontadas por nenhum autor como possível tipo de resposta evasiva; terceiro, embora elas exerçam a função de direcionar o discurso, elas podem ainda ser usadas com propósitos diferentes nos contextos político e do PROCON - mostrar algo e desafiar o entrevistador ou aquele que pergunta.
Notamos que as perguntas retóricas podem ser utilizadas pelos falantes como estratégia de construção de argumentação, pois é a partir delas que o falante argumenta sobre o que defende, direcionando o que deseja falar. Entretanto, enquanto o ministro utilizou perguntas retóricas com respostas dadas por ele mesmo, principalmente, para ter possibilidade de refocalizar e de mostrar/falar sobre o que lhe seria conveniente; no PROCON, essas perguntas foram muito usadas sem respostas para desafiar a outra parte, mostrando que o que ela diz é impossível de ocorrer ou algo muito óbvio, ou seja, apresentaram propósitos diferentes em cada um dos contextos analisados.
Assim, enquanto no contexto político o ministro construía respostas com perguntas retóricas e as respondia, focalizando o que gostaria de colocar em destaque e, algumas vezes, evadindo-se por completo do posto/pressuposto da pergunta original,
formulada pelo entrevistador; no contexto do Procon, as perguntas retóricas também apareceram nas respostas, mas podiam ou não ser respondidas pelo locutor.
Ressaltamos que na entrevista com o político Paulo Renato, as “perguntas retóricas” que eram utilizadas, principalmente, para guiar uma argumentação distinta do que foi proposto pela pergunta, se realizavam sob a forma de “por quê?”. Assim, enquanto o entrevistador formula uma crítica/agressão, o entrevistado/respondente faz uma refutação à crítica colocada, mudando o foco. Para mudar o foco, o ministro utiliza as perguntas retóricas, principalmente, “por quê?” e, com isso, fornece razões que sustentem o que ele fala.
As perguntas retóricas, conforme já foi visto, são perguntas que não esperam resposta verbal ou ação de outras pessoas. Para nós, o uso de tais perguntas nas respostas, constitui uma prática de evasão encoberta, pois ao usá-las, em nenhum momento, o locutor tenta explicar sua “não-resposta” ou demonstra que não dará a resposta esperada. Além disso, muitas das perguntas trazem críticas ao governo/gestão dos políticos, o que faz com que eles não aceitem as críticas e as desafiem, negando os seus pressupostos ou, simplesmente, as ignorando. O ministro Paulo Renato, por exemplo, ignora ou não aceita a crítica de que o Fundef poderia abrir espaço para a corrupção e em sua resposta defende que o Fundef está fechando o caminho para a corrupção, sem sequer mencionar a possibilidade desse projeto facilitar a corrupção, conforme colocado na pergunta que lhe foi direcionada.
Acrescentamos que durante a análise trabalhamos com os conceitos de afiliação/desafiliação e alinhamento/desalinhamento propostos por Stivers (2008). Segundo essa autora, uma atividade é considerada desalinhada quando interrompe o fluxo discursivo. Assim, notamos que na maioria dos casos as respostas eram alinhadas, visto que davam continuidade ao discurso. Por outro lado, essa mesma autora coloca que uma atividade é considerada desafiliada quando não há compartilhamento/concordância com o que foi dito. Deste modo, nos nossos dados, principalmente nos casos em que ocorreram “respostas intermediárias”, encontramos atividades em que o interlocutor não compartilhava com o que foi dito, isto é, o interlocutor participou de diversas atividades desafiliativas, embora produzisse uma resposta alinhada à pergunta.
De modo geral, houve muitas respostas alinhadas e desafiliativas, o que era de se esperar, visto que as respostas dadas pelos interlocutores, embora não fossem, de fato, respostas, se produziam discursivamente. No entanto, contestavam ou ignoravam o que foi dito, sendo, portanto, desafiliativas.
Além disso, as “respostas intermediárias” nos pareceram muito interessantes e freqüentes visto que o ministro Paulo Renato fez uso constante dessas respostas, o que nos leva a crer que esse tipo de resposta é utilizado como forma de não aceitar as críticas às suas políticas, isto é, são utilizadas em contextos em que não se deve aceitar o conteúdo sugerido pelas perguntas.
Não há ainda estudos claros sobre as perguntas retóricas, principalmente a respeito do uso que encontramos, isto é, como prática de evasão. Nada encontramos a respeito do uso das “perguntas retóricas” em respostas, seja como estratégia de argumentação ou de evasão. Assim, embora tenhamos apontado aqui alguns pontos a respeito desse uso, acreditamos que há necessidade ainda de estudos mais aprofundados sobre as “perguntas retóricas” e suas funções discursivas.
Buscamos por meio deste trabalho apontar alguns aspectos interessantes a respeito do uso das “perguntas retóricas” nas respostas e a respeito da evasão nas respostas em contextos específicos: PROCON e entrevista política. Assim, correlacionamos contexto ao tipo de pergunta e à prática de evasão/ “não-resposta” utilizada, tentando encontrar uma explicação para a ocorrência desse tipo de resposta.