ESTOCOLMO, 1972: A PRIMEIRA CONFERÊNCIA
DISCUSSÕES E CONFLITOS DA CONFERÊNCIA DE ESTOCOLMO
Estocolmo-1972, na observação de Bursztyn & Persegona (2008, p.150), foi uma conferência que, por sua dimensão e para o momento histórico despertou a “atenção das nações para o fato de que a ação humana estava causando séria degradação da Natureza” e, além disso, de que esta ação estaria criando “severos riscos para o bem-estar e para a própria sobrevivência da humanidade”. Ainda para os autores,
A Conferência foi marcada pelo confronto entre as perspectivas dos países desenvolvidos e dos países em desenvolvimento. Os países desenvolvidos estavam preocupados com os efeitos da devastação ambiental sobre a Terra, propondo um programa internacional voltado para a conservação dos recursos naturais e genéticos do planeta, pregando que medidas preventivas teriam de ser encontradas imediatamente para que se evitasse um grande desastre. (BURSZTYN & PERSEGONA, 2008, p.150).
No outro extremo desta discussão, capitaneados pelos países em desenvolvimento, encontravam-se os contra-argumentos de que estas imposições dos países ricos agravariam ainda mais o caos em que os países pobres estavam. Segundo a alegação dos representantes destes países, eles se “encontravam assolados pela miséria, com graves problemas de moradia, saneamento básico, atacados por doenças infecciosas e que necessitavam se desenvolver economicamente”. Assim, questionavam a
legitimidade das recomendações dos países ricos, que já haviam atingido o poderio industrial com o uso predatório dos recursos naturais e queriam impor a eles complexas exigências de controle ambiental que poderiam encarecer e retardar sua industrialização (BURSZTYN & PERSEGONA, 2008, p.150).
O que estava sendo proposto, em especial aos países pobres, era uma “moratória do crescimento”, que constava do estudo produzido pelo Clube de Roma – Os Limites do Crescimento –, e que serviu de “pano de fundo para os debates da Conferência de Estocolmo”. Os autores esclarecem que “era o início de uma complexa fase de negociações e discussões internacionais em torno dos riscos ao meio ambiente, por um lado, e dos papéis dos diferentes países, por outro” (BURSZTYN & PERSEGONA, 2008, p.151).
Para Bursztyn & Persegona (2008, p.151), iniciava-se a problemática sobre a polêmica da “partilha das responsabilidades”, o que tornar-se-ia um “lugar-comum tanto no âmbito diplomático quanto na Academia”.
Afinal, se o crescimento da economia provoca degradação ambiental, o entendimento geral era no sentido de frear a economia. Mas seria essa fórmula justa, se concebida de maneira isonômica a todos os países? Seria plausível supor constrangimentos à expansão econômica dos países pobres? Não seria essa proposta uma condenação fatal dos pobres à pobreza? (BURSZTYN & PERSEGONA, 2008, p.151).
Esta teoria do “crescimento zero”, colocada em discussão através da publicação do relatório Os Limites do Crescimento, em março de 1972, pouco antes da própria realização oficial da Conferência, causou um grande alvoroço acadêmico, econômico, político e social entre as delegações de países, pela própria repercussão internacional provocada pela ousadia da obra e por suas proposições.
Segundo Lago (2006, p.29), este documento “apresentava perspectiva quase apocalíptica das conseqüências do ‘progresso’ nas bases em que se estava desenvolvendo”. Para ele, o livro refletia a visão de que a “sociedade moderna se encaminhava para a autodestruição”, sendo esta uma concepção muito forte adotada naquele momento histórico, o que acabou por promover e dar popularidade às teorias de Thomas Malthus “de que a população mundial ultrapassaria a capacidade de produção de alimentos”.
Para o autor, quanto ao conteúdo do relatório,
As soluções apresentadas colocavam em questão diversos aspectos da sociedade industrial moderna, mas pressupunham a necessidade de ações drásticas nas áreas demográfica e de preservação de recursos naturais, “problemas” associados aos países do Terceiro Mundo. Estes, naturalmente, viam com temor o apoio do Clube de Roma às idéias de alguns setores do movimento ecológico, que interpretavam o desenvolvimento dos países pobres como uma ameaça para o planeta. Para estes setores, os países desenvolvidos poluem, mas, se os pobres se desenvolvem, a escala da destruição será muito maior (LAGO, 2006, p.30).
Em que pese os posicionamentos observados entre os países participantes e suas delegações, desde antes da conferência, através das reuniões preparatórias setoriais e regionais e propriamente durante a conferência, restou latente o posicionamento marcado pelo embate entre países desenvolvidos (ricos e socialmente estruturados) e os países em-desenvolvimento (pobres e socialmente fragilizados).
De um lado, fortemente influenciados pela posição norte americana, estavam os países contrários à livre exploração dos recursos naturais pelos países pobres, tendo como discurso central (ideologizado) a necessidade de conservação dos recursos naturais e do patrimônio
global, além de restrições ao financiamento indiscriminado às políticas ambientais, assim como a defesa de uma austera política de controle da natalidade (McCORMICK, 1992; LAGO, 2006). Do outro lado, capitaneados pelo Brasil, sobressaia-se o posicionamento de que os países pobres teriam todo o direito de poluir, uma vez que ainda não haviam conquistado o desejável patamar de bem-estar e conforto que os países ricos já haviam obtido. Afirmava-se, neste discurso, que o desenvolvimento econômico dos países pobres estava acima das questões ambientais (McCORMICK, 1992; LAGO, 2006).
Ainda sobre os impactos do relatório The Limits to Growth, McCormick (1992, p.88), afirma que a tese essencial do trabalho, baseado em modelos matemáticos aplicados a simulações computacionais (uma abordagem inovadora para a época), era de que a crise ambiental residia no crescimento exponencial, tanto do ponto de vista populacional (as teses de Malthus), quanto na vertiginosa necessidade de recursos naturais. Para o autor,
a catástrofe era inevitável já no final do século, causada pela exaustão dos recursos e pelas taxas de mortalidade crescentes devido à poluição e à carência de alimentos. Um aumento do suprimento de alimentos, a descoberta de novas fontes de energia e avanços tecnológicos para o controle da poluição poderiam reverter essa tendência. Em última análise, porém, havia uma necessidade urgente de atingir um equilíbrio global através do reconhecimento dos limites do crescimento econômico e populacional (McCORMICK, 1992, p.88).
McCormick (1992, p.88), destaca ainda que esta publicação levou o Clube de Roma (que a financiou e patrocinou), a postular uma série de conclusões acerca das questões ambientais e, em muitos sentidos, conclusões bastante severas sobre o futuro ambiental global. Segundo o autor, estas conclusões diziam que:
era essencial que houvesse consciência quanto às restrições quantitativas do meio ambiente mundial; a pressão populacional por si só era suficiente para impelir a sociedade a buscar um estado de equilíbrio global;
o desenvolvimento global estava tão intimamente entrelaçado a outras questões, que era necessário conceber uma estratégia geral, a fim de enfrentar todos os problemas principais, particularmente a relação do homem com o ambiente;
se a sociedade pretendesse tomar um novo rumo, eram necessárias medidas internacionais concatenadas e planejamento conjunto de longo prazo numa escala sem precedentes; a imposição de uma interrupção no crescimento econômico e populacional não deveria conduzir a um congelamento do desenvolvimento econômico (McCORMICK, 1992, p.88).
O autor define o modelo apresentado pelo pesquisadores como sendo um modelo “apocalíptico”, pois o mesmo acabou por tornar-se um tema notável para debates e críticas, uma vez que estas eram especialmente dirigidas à “recomendação de uma política abrangente de não-crescimento” – drasticamente sobre o populacional –, que acabaria por produzir uma “recessão industrial de grandes proporções nos países mais desenvolvidos”, além do que também colocaria um “freio no desenvolvimento dos menos desenvolvidos” (McCORMICK, 1992, p.91).
No mais, segundo McCormick (1992, p.91), o relatório interessava aos “políticos conservadores de linha dura”, que buscavam, claramente, fundamentações políticas que sustentassem seus anseios para “bloquear o que consideravam como reformas sociais excepcionalmente progressivas”.
Seja como for, Lago (2006, p.32), assevera que a Conferência de Estocolmo, “constituiu etapa histórica para a evolução do tratamento das questões ligadas ao meio ambiente”, tanto como temática internacional como também enquanto problemática interna de muitos países. Todavia, para o autor,
O tema, no entanto, ao ganhar crescente legitimidade internacional, passou a ser discutido cada vez menos do ponto de vista científico, e cada vez mais no contexto político e econômico. Como consta no relatório da Delegação brasileira à Conferência de Estocolmo, “o ‘meio ambiente’ corresponde a [...] uma problemática essencialmente política. [...] o que realmente importa saber é quem toma as decisões, a quem estas últimas devem beneficiar e a quem deve caber o ônus (LAGO, 2006, p.32)38.
Se tomarmos esta afirmação de Lago, podemos refletir que as discussões ambientais que vinham sendo conduzidas dentro do âmbito científico, a exemplo das questões específicas sobre poluição, contaminações e outros (o livro Primavera Silenciosa ou o acidente na Baia de Minamata), em compasso com as questões econômicas e sociais (ECOSOC 1968 – os perigos para o desenvolvimento e o ambiente humano), Estocolmo, em 1972, elevava as discussões a outro nível – de fato internacional –, porém, vinculado às questões diplomáticas.
Isto é, os países chamados a participarem abertamente das discussões sobre os problemas ambientais, tendo em vista os aspectos amplos destas questões, também passaram a questionar as decisões, ou melhor, os rumos que eram dados aos assuntos e os encaminhamentos
38 As afirmações que Lago (2006, p.32), faz, são compilações a partir dos documentos “Relatório da Delegação
Brasileira à Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente – Vols. I e II”, produzidos pelo Ministério do Interior em 1972. Disponível em: <http://www.cetesb.sp.gov.br/proclima/publicacoes/344-conferencias- internacionais-sobre-meio-ambiente >. Acesso em: 5 jan. 2014.
propostos. Nesta tônica, os países em-desenvolvimento, conforme as colocações que o autor faz, não se permitiam tão somente a observar, como expectadores, o que estava sendo proposto e, assim, tomaram as rédeas (para o bem ou para o mal), daquilo que definiria a própria soberania destes países em alcançar seus patamares de desenvolvimento.
Com ênfase neste foco de negociações – e de discursos – por meio dos quais se buscava encontrar um caminho dentro das perspectivas econômicas, políticas, diplomáticas e – também – ambientais, Lago (2006, p.33), pondera que essas negociações podem conduzir a avanços. Para o autor,
de maneira geral, no entanto, a importância do tratamento diplomático do tema do meio ambiente, e os resultados obtidos graças às negociações internacionais, não são percebidos pelo grande público, pela imprensa e, muitas vezes, sequer por autores de influentes livros sobre a matéria. O processo negociador é visto muito mais sob um ângulo pessimista – como um triturador de idéias progressistas – do que de maneira positiva, como um mecanismo de introdução e fortalecimento de algumas idéias progressistas, de maneira imperfeita, mas consideravelmente democrática.
Por sua vez, McCormick (1992, p.106), avalia que a Conferência de Estocolmo, atestou a “nova percepção da posição dos países menos desenvolvidos”, o que os encorajou a equipararem, nas discussões engendradas, diversas temáticas ambientalistas a problemas sociais maiores, como poluição e degradação da natureza às questões de desenvolvimento.
Nas palavras do autor, muitos destes países viam a “poluição como uma evidência externa de desenvolvimento industrial”, ao passo que os “esforços para controlá-la eram vistos como esforços para restringir o desenvolvimento”, notadamente uma imposição dos países desenvolvidos aos anseios dos países em-desenvolvimento (McCORMICK, 1992, p.106).
O embaixador Keith Johnson, da Jamaica, relator geral da conferência, observou que muitos dentre os países menos desenvolvidos sentiam um “temor latente de que a conferência fosse simplesmente outro expediente dos países desenvolvidos para evitar o apoio à revolução do desenvolvimento”. Um tema que esteve presente em muitos discursos do Terceiro Mundo era que não se deveria permitir que os fatores ambientais viessem a restringir o crescimento econômico. A questão foi bem colocada. (McCORMICK, 1992, p.106).
McCormick (1992, p.106), continua afirmando, a partir das reverberações diplomáticas instadas na conferência que, depois de Estocolmo, tornar-se-ia muito difícil para os “ambientalistas ocidentais” continuarem encarando a temática ambiental de modo “provinciano”. Segundo o autor,
o ponto de vista dos países menos desenvolvidos dominou as discussões em quase todos os assuntos e forçou os ambientalistas ocidentais a abandonar o provincianismo e a começar a ver os problemas ambientais numa perspectiva global. Os países mais desenvolvidos tinham ido para a conferência determinados a discutir suas próprias definições dos problemas ambientais críticos, e viram-se levados pelas discussões a uma posição de compromisso sobre as prioridades relativas dos países menos desenvolvidos e as suas próprias (McCORMICK, 1992, p.106).
Por fim, McCormick (1992, p.107-108), destaca a presença das Organizações Não- Governamentais como outro fator importante nos debates de Estocolmo. Segundo ele, embora apartadas diretamente dos debates oficiais, mais de quatrocentas ONGs estavam representando oficialmente países desenvolvidos e em-desenvolvimento (embora estes últimos em minoria). Mesmo assim, apesar do “peso limitado das ONGs nos assuntos da ONU”, a era “pós- Estocolmo” veio a demonstrar um “crescimento revigorado na formação de novas ONGs39”.