1. A CONTRIBUIÇÃO DA NOVA RETÓRICA COMO CAMPO DE PENSAMENTO PARA AS
2.1 Discutindo a Contemporaneidade
2.1.1 Discutindo a Música
2.1.1 Discutindo a Música
Inserida nesse panorama discutido até aqui com os ecos da modernidade em seus
modelos rígidos e definidos a partir da razão científica cartesiana, razão técnica e dualista, a
música apresenta uma complexidade, ao lado da educação e da sociedade no contexto
contemporâneo do século XXI.
Surgem as primeiras inquietações no que se refere à leitura da contemporaneidade em
suas duas concepções de sociedades, ou seja, conceber música (arte), educação e sociedade
como inseparáveis faz necessário entender que a sociedade, relacionada a um tipo de música e,
por sua vez a uma educação, pode trazer contribuições para enfrentar conflitos e contradições
através de novos acordos e acepção de valores que possam reconstruir a deformação formulada
pela estratégia de domínio pelos interesses financeiros. (NOGUEIRA, 2008;
LIPOVETSKY,2004; MAFFESOLI, 2012)
Em suas novas relações - culturais, sociais, políticas e econômicas, a música inserida
na leitura dessas duas sociedades poderá, dentro de novos acordos, referenciar a vida como um
benefício a ser atingido em contrapartida à balança de Kant que sugere como paradigma a
verdade que conduz ao bem e promove a beleza.
A contrapartida em questão é dada pelo paradigma Beleza-Benefício-Bondade, que
altera a balança kantiana no seguinte sentido: a verdade se coloca como aquilo “que identifica
as qualidades ou propriedades essenciais de um objeto, seja pela beleza entendida como a
satisfação à sensibilidade estética do indivíduo; o bem ou bondade (IKEDA, 2010, p. 25, 26;
MAKIGUTI, 1999)
A criação de valores em face dessa alteração segundo Ikeda (2010, p. 26) pode ser
considerada como um parâmetro que mede a relevância ou o impacto de algo (objeto ou evento)
sobre o indivíduo:
O valor surge da relação entre o sujeito avaliador e o objeto de avaliação. Se um dos
dois se modifica em relação ao outro, é evidente que o valor percebido também muda.
As diferenças e mudanças nos códigos éticos ao longo da história são provas notáveis
da mutabilidade de valor. (IKEDA, 2010, p. 26)
Essa medida de relevância sobre o indivíduo ou o surgimento da criação de valores,
de certa forma, contribui para as inquietações e questionamentos que dizem respeito aos
padrões de responsabilidades socioculturais eleitos por critérios lógicos, ilógicos, verdadeiros
ou falsos voltados para a valoração da aura da obra musical, ou seja, do seu valor de
autenticidade e de originalidade como objeto científico separado do sujeito social.
Uma separação pelo sentido de promoverem unilateralmente um processo mítico de
hierarquização, homogeneização e elitização da música em suas concepções de espaços,
repertórios, demandas e experiências, causando um distanciamento da relação da música com
a sociedade. Dessa maneira, percebe-se que essa forma de compreensão sobre a organização e
expressão humana e as suas representações interativas não dialogam entre si. (BENJAMIM,
1983; ADORNO, 1986 ; QUEIROZ, 2005).
O valor da aura do objeto, ou seja, da música é deslocado em si mesmo para um critério
de reconhecimento por todos que, por sua vez, como uma noção confusa, torna o
comportamento valorativo uma ficção em mercadorias musicais padronizadas. O indivíduo é
levado pela opinião pública e deslocado de sua própria decisão quanto ao objeto valorado.
O orador Estevam (2016) entende pela noção da evasão escolar, que a música na
contemporaneidade encontra-se enfraquecida de seus valores e significados principais que o
orador Stewart (1987), a nível de ilustração, preconiza em relação à sua funcionalidade
comunicacional e Terapêutica por um processo no decorrer de quatro eras e não por rupturas
em sua própria força social, a saber:
•Música Primordial que usava a voz e o canto inspirada nas fontes sonoras da
natureza manifestada culturalmente pelas invenções e criações que incluem brados,
cantos, hinos ; (b) Música da Ambiência passa a desenvolver a etnicidade a partir da
manifestação tribal, mais conhecida como música folclórica, por sua vez, destituída
de sua força social pela influencia da música elitista; (c) Música Individual enfatizada
pela criação individual da Antiguidade até a Idade Média pelas matizes de seu meio
ambiente e sociocultural, enfraquecida pelo controle dos institutos religiosos
ortodoxos versus pagãos que transcodificavam suas principais noções confiáveis a
um nível secundário; (d) Música Clássica noções congeladas e também enfraquecidas
pela sistematização estéticas da notação formal e do espetáculo em detrimento da
força social dos movimentos ambientais socioculturais. (STEWART, 1987, p. 30-41)
Nesse sentido, surgem auditórios que corroboram com a tese de “música séria, erudita,
elitizada” bem como os auditórios que concebem a música como “música de entretenimento,
de massa, descartável”, a vê como dissociada ou alienada ou distanciada das questões
socioculturais, ou seja, promove uma dissociação de noção do termo música.
Segundo Perelman (1996) procedimento como esses alteram noções para aspectos antes
não pensados, apropriando-se de valores universais e abstratos como o bem, o justo e o
verdadeiro para assim normatizar o sentido racional que se quer atribuir à música, hoje
desligada da poesia e apoiada pelas narrativas que reafirmam valores absolutos como verdades
livres de questionamentos.
Como ilustração, há alguns oradores de alguns auditórios particulares e não
participativos que concebem a música no século XXI como estando esvaziada em seus
significados o que permite perceber a diferença do público, ou seu auditório,
De qualquer forma, o orador Adorno (2011), em sua Introdução à sociologia musical,
comenta que esse público hoje se encontra dividido em expert, amateur, ouvinte de cultura ou
consumidor cultural e ouvinte emocional em face desse quadro tão heterogêneo que se coloca
em meio a uma cultura de massa que estabelece novos parâmetros e se desfaz pela efemeridade
do descarte, apresentando então sete tipos de comportamento musical:
(a) ouvinte ideal, a quem nada escapa e a quem o compositor considera como o único
que pode compreendê-lo perfeitamente, graças a uma audição totalmente adequada e
uma escuta estrutural; (b) o bom ouvinte, aquele também escuta algo mais que
fenômenos sonoros sucessivos, compreendendo, perfeitamente, o sentido da música,
embora, de forma pouco consciente, por não ser um técnico; (c) o consumidor de
cultura, tipo especificamente burguês, que tende, hoje, a substituir o bom ouvinte; (d)
o ouvinte emocional, ao qual a música serve, essencialmente, para liberar os instintos
habitualmente rejeitados ou reprimidos pelas normas sociais; (e) o ouvinte rancoroso,
que faz do tabu imposto ao sentimento a norma de seu comportamento musical, sendo
superficialmente não-conformista, refugia-se no passado, que ele imagina mais puro;
(f) o “expert” em Jazz, que não é necessariamente, um técnico, mas é, sempre, um
especialista; (g) o a-musical, indiferente ou hostil, que é aquele a quem a música e
totalmente inútil e incômoda.
Não há dúvida que, a partir do discutido acima, a música como arte é necessária no que
se refere a superar o processo de fetichismo que se dá com a redução de seus significados e o
esvaziamento de sua escuta apoiada pela imagética, bem como os conflitos sociopolíticos
configurados como históricos e culturais pela perda do seu valor tradicional necessário ao
equilíbrio e à dignidade do homem e do mundo.
Isso significa torná-lo um, com o todo da realidade e, a natureza humana que anseia
integrar-se e absorver o mundo circundante e integrá-la a si, ser mais do que apenas ele mesmo,
um ser humano total e não um indivíduo separado, ou seja, alcançar a plenitude da vida,
fraudada pelo processo da individualização humana. (FISCHER, 1972).
Fischer (1972, p. 15) nos ajuda nessa questão ao informar que “a arte deve apoderar-se
da plateia não através da identificação passiva, mas através de um apelo à razão que requeira
ação e decisão” e aponta alguns passos da importância da arte como um fenômeno
surpreendente que viabiliza o contato do ser humano com a sua concretude sociocultural.
Entretanto, é necessário entender que, por outro viés, nos envolvemos com a arte como
se estivéssemos em fuga, como se quiséssemos escapar de uma insatisfação por não ter uma
existência mais rica. Assim, nos deixamos levar pelo entretenimento como se fôssemos
esquecer ou resolver problemas sem perceber que o contato com a arte nos coloca em contato
com o próprio mistério da infinita capacidade humana para a associação e circulação de
experiências e ideias.
É necessário, para isso, que a arte mostre em seu domínio estético de conteúdo e forma
a sua própria decadência pela alienação do tema e dos personagens, apresentando a realidade
social em seus mecanismos de aprisionamento em contradição com a arte mercadoria que busca
apenas intervir no processo cognitivo do indivíduo e reafirmar o conflito entre a música como
arte ou como mercadoria que apresenta um paradoxo entre a expressão da criatividade e a
impressão do espectador.
Esse paradoxo apresenta uma contradição trazida pelo conflito entre teorias estéticas e
teorias filosóficas a partir de noções nobilitantes e inconsistentes entre emoção, gosto, prazer,
forma, representatividade, imediaticidade e ilusão que se contradizem entre si e deslocam a
natureza da arte, que, tal qual a da ciência, tem a função de fazer com o que o espectador
conheça algo desconhecido por ele anteriormente. (LANGER, 2011)
Assim, em face da alienação promover a evasão para um mundo ilusório e de ficção
onde as condições se permitem alterar e suplantar-se na imaginação e não na realidade, o valor
que a arte expressa em si mesma é uma noção confiável, uma experiência, uma necessidade
que, embora não colocadas em prática apresentam-se como seus componentes mais essenciais
de revolução.
Esses componentes traduzem a possibilidade de uma preocupação social tornar-se uma
revolução de sua própria forma estética pela criação de valores para representar na forma de
realidade a sua função crítica no que diz respeito às questões interditas e reprimidas.
A arte, em sua autonomia, é, portanto, o que permite refletir a ausência de liberdade dos
indivíduos na sociedade ou a negação de sua liberdade por trazer à tona a possibilidade de
reflexão. Caso contrário, expõe e reafirma um lugar fictício para solucionar os problemas do
mundo ou faz um convite ao entretenimento, sugerindo um apagar de problemas, ou seja, uma
fuga de si mesmo em contradição com a natureza humana.
A educação nessa concepção de inseparabilidade com a arte e a sociedade denomina-se
educação para uma vida criativa ou de criação de valores, ou seja, busca ter o seu objetivo nas
necessidades do dia a dia dos indivíduos, fazendo com que busquem ir além da felicidade
superficial do hedonismo, colocando uma preocupação além da satisfação imediata do
indivíduo, pois contribui para a gênese de uma consciência social para valores mais
aprofundados à vida.
A arte nessa profundidade não se permite superficial, como objeto utilitário, já que está
interligada à sociedade e à educação por transitar entre a doxa, o mito e a filosofia em âmbito
social, ou seja, constrói conhecimentos e promove a criação de valores.
Inseparáveis, a arte e a educação voltam-se para a criação de valores, tornando real a
possibilidade da natureza humana criativa e estabelecendo o que Makiguti (1999, p. 23) aponta:
“para que fins e no interesse de que valores, a criatividade humana deve ser direcionada”. Dessa
forma, a inseparabilidade entre a arte e a educação apoia-se na criatividade e o efeito esperado
é ter uma sociedade voltada para o bem de seus membros individualmente e para o bem comum.
Nesse âmbito, educação, música e sociedade constituem-se em importante instrumento
político inserido no processo de transformação dos homens com a missão social recíproca de
compartilharem entre si a compreensão do mundo. Alerta-se, então, para a necessidade de
assumir alguns pressupostos que permitam entender qual visão contribui melhor para esse foco,
bem como viabilizar acordos preestabelecidos e novos acordos a serem estabelecidos. Entre
eles, o de conscientização de formação do músico profissional e do professor de música sobre
sua responsabilidade social em atuar em prol da criação de valores na sociedade.
2.1.1.1. Discutindo a Música na Educação
Enfim, pensar a educação inseparável da música e da contemporaneidade é trazer
novamente à tona sua força sócio criativa, entender a sua força de movimento social no que
diz respeito às normatizações específicas que garantem a música no plano de cultura,
Projetos esses, que se voltam para a interatividade dialógica e a criatividade de valores
enfatizada por Alencar (1994) como força intelectual dentro do mesmo patamar de criação
científica por trazerem, as duas, a criação de valores e interatividade dialógica, as mesmas
proporções metodológicas: “Duas matérias distintas, mas que utilizam essencialmente os
mesmos métodos de pensamento.”
A esse respeito. Alencar (1994) nos esclarece por três grupos de fatores:
(a) características pessoais semelhantes comumente apresentadas entre cientistas e
artistas; (b) características relacionadas à sociedade, clima sociocultural, os valores e
condições de trabalho, dimensões estas do ambiente que podem facilitar como
obstruir a produção criativa; (c) a relevância dos antecedentes, englobando um
conjunto de fatores nos primeiros anos do indivíduo, ao nível de influencia da família
e da escola. (ALENCAR, 1994, p. 26-27)
Dessa forma, a visão redentora da pedagogia na contemporaneidade, considerada por
alguns autores ou oradores, uma visão utópica, contradiz e ignora o propósito para uma tomada
de atitude em prol da criação de valores éticos na educação escolar (estendida neste trabalho
para a educação musical), ou seja, propicia lugares comuns que impedem uma ação voltada
para a formação de um cidadão justo, generoso e crítico.
Essa visão, segundo Mazotti e Oliveira (2002), opõe-se à visão argumentativa: os
alunos só podem aprender a ser éticos se ensinarmos a desenvolver a capacidade de consciência
crítica para argumentar e ponderar sobre os pontos de vistas conflitantes. Demo (1994), por sua
vez, estabelece a educação como ponto chave para o desenvolvimento da qualidade como:
(a) instrumento que sinaliza a construção do conhecimento e, como um fim, a
preocupação em torno da humanização da realidade e da vida; (b) ligada à construção
do conhecimento, impacta de modo decisivo tanto a cidadania quanto a
competitividade, ganhando o foro de investimento mais estratégico; (c) como
expediente formativo, primordial das novas gerações, apresenta procedimento dos
mais pertinentes em termos de qualificar a população, tanto para fazer os meios como
para atingir os fins; (d) principalmente, estando na base da formação do sujeito
histórico e criativo, educativo perfaz a estratégia mais decisiva de fazer oportunidade.
(DEMO, 1994, p. 15)
Percebemos que estas visões somam-se ao que Oliveira e Lemgruber (2011, p. 23)
expõem como o que “figura entre os principais objetivos do ensino fundamental, no Brasil, que
a escola desenvolva a capacidade argumentativa de seus alunos”.
Nesse sentido Oliveira (2013) aponta, entre muitos caminhos, revisitar estratégias de
ensino para o crescimento de pesquisas no cenário brasileiro e comenta sua própria trajetória
trilhada pelo viés humano social na relação professor/aluno.
Pensar um caminho estratégico significa, então, propor o desenvolvimento de
estratégias para um trabalho integrado no diálogo como confronto de argumentos entre a
postura do professor como orador que desperta em seu auditório discente expectativas e a
motivação da interatividade dialógica para reintegra-lo como orador nessa mesma perspectiva
argumentativa.
Dessa forma, contribuir ora como orador, ora como auditório para a superação de três
dificuldades, dentre muitas percebidas na contemporaneidade, que se apresentam na
pedagogia: (a) a não formação interativa dialógica interdisciplinar ; (b) o modelo da virtude
discente contemplada pela visão docente; (c) a valorização da monologia em detrimento ao
diálogo.
No primeiro caso, as disciplinas não conversam entre si, não compartilham saberes e
experiências; no segundo, cristalizam-se padrões de comportamento que muitas vezes se
chocam com as histórias de vida dos estudantes e, no terceiro, apenas o professor dita o que
considera o melhor, o mais correto e o mais útil à formação dos seus alunos, que acabam por
assumir posturas passivas e acríticas.
As preocupações político-pedagógicas na contemporaneidade, por sua vez, esbarram
nas lutas representadas por um forte movimento democratizador tanto político quanto social.
Sader (1988) afirma que esses movimentos como uma atitude de reconfiguração devem ser
valorizados como expressões de resistência, de autonomia e criatividade. Sader também os
percebe com uma atitude inovadora na medida em que o cotidiano passa a ser o locus para
reformulação de suas práticas de resistência.
Atualizados por suas próprias demandas inventadas ou reformuladas em seu próprio
espaço social, esses movimentos passam a constituir um modelo de atuação interativa e
dialógica de atores sociais que precisam formular acordos entre oradores e auditórios diversos
que enfraqueça a fragmentação dos movimentos ou o chamado corporativismo em suas
reivindicações pontuais.
Assim, em continuidade ao processo do pontapé inicial em prol de uma atitude ética
como contribuição para os desafios enfrentados pela educação musical na contemporaneidade,
a construção de um projeto pedagógico Interdisciplinar não deve ser tomado como a junção de
disciplinas, que, isoladamente, toma para si a tarefa de coordenar a constituição de um corpo
de saberes e, sim, ao que Fazenda (2013, p. 21) entende como: “uma atitude de ousadia e busca
frente ao conhecimento que cabe pensar aspectos que envolvem a cultura do lugar onde se
formam professores”.
A interdisciplinaridade deve, portanto, ser construída pelas diversas disciplinas na
adequação de temas, assuntos, objetos comuns a elas. Isso significa que não se deve diferenciar
em cada disciplina os problemas teóricos metodológicos trazidos à tona por todas elas.
Nesse sentido, a validação da interdisciplinaridade se dá quando há inadequação a certo
objeto por uma disciplina particular, que Oliveira & Mazzotti (2002, p. 76) exemplificam com
as interdisciplinas físico-química, bioquímica, psicossociologia, cujos objetos de estudo só
podem ser tratados pelas disciplinas que se coordenaram.
Os mesmos autores acrescentam, ainda, que uma concepção interdisciplinar, para ser
factível, não deve expressar significados limitados com base em alguma teoria geral como:
“Ciência do todo”, “Uma unificação das ciências”. Mazzotti (2002, p.77) diz que há duas
concepções de interdisciplinaridade a serem consideradas: A “forte” e a “fraca”. A forte
sustenta a coordenação de teoria em um domínio particular, mantendo-se a integridade de cada
disciplina em outros; a fraca refere-se à noção de que é factível constituir uma teoria geral do
mundo, ou uma ciência unificada.
Assim, a possibilidade da construção de uma teoria interdisciplinar só é possível na
perspectiva que coordene interativa e dialogicamente contribuições alheias e organize um
sistema inteligível do já realizado legitimando o fazer pedagógico e não o saber científico
constituído por leis universais, apoiadas pela crença no determinismo absoluto, ou leis
universais que estabeleçam verdades.
Enfim a possibilidade de refletir sobre uma perspectiva pedagógica interdisciplinar
legitima e valida, também, as reflexões para a constituição de uma ciência da educação, que
Mazzotti & Oliveira (2002, p. 71) entendem “como um empreendimento que produz
conhecimentos confiáveis sobre os objetos estudados”.
Para esses autores, tanto nas ciências da natureza quanto nas ciências humanas, os
conhecimentos são construídos por meio do embate entre teorias rivais, o qual tem lugar em
um contexto de argumentação controlada. Isso porque os processos argumentativos demandam
o estabelecimento do contraditório, isto é, a apresentação de enunciados favoráveis e
desfavoráveis, mostrando porque são adequados, inadequados ou parcialmente adequados ao
objeto que está sendo discutido.
Nessa discussão, intervêm fatores de natureza cognitiva e de natureza social, já que
o conhecimento é confiável na medida em que explica certos domínios da realidade e também
prevê que desdobramentos serão possíveis para o melhoramento da qualidade de vida e do
convívio entre os homens.
Como conhecimento confiável, enfim, entende-se o que permite ao homem conhecer,
alcançar o estado de fazer e envolver-se com a sua própria concretude ao buscar transformar
as condições humanas, a vida social e as condições materiais que o cercam.
Tal concepção soma-se ao que Ikeda (2010) e Makiguti (1999) trazem como
contribuição para a educação em geral e, por isso, viável para a educação musical como
proposta inovadora, que se volta também para a constituição de conhecimentos confiáveis, a
partir da criação de valores éticos na potencialização de conteúdos didáticos, pedagógicos e
humanísticos e a possibilidade da interdisciplinaridade como uma ciência da educação que
entabule diálogos socioculturais.
Assim, pensar a perspectiva de uma educação humanística e dialógica relaciona-se com
a interdisciplinaridade ao conceber os conhecimentos confiáveis que permitam ao ser humano
constituir-se a partir do conhecimento apreendido à sua própria criatividade. Para tanto, se faz
necessária a distinção do que deve ser incluído e excluído como conhecimento, bem como a
diferenciação entre verdade e valor..
A verdade pode ser entendida, segundo Makiguti (1999), como “um trabalho de
descoberta [...] que implica isolar algumas características comuns ou qualidades gerais da
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Vicente Estevam
(páginas 55-73)