3. O modelo de gestão analisado pelo cabedal proposto
3.3. Discutindo a mudança cultural empreitada pelo Paidéia
Com pelo menos um século e meio de pesquisas sobre diversidade cultural, e conforme já referido na introdução – intervalo de tempo em que produziu mais de uma centena de definições do termo – a antropologia me ensinou, de maneira mais ou menos geral, que a cultura é uma complexa estrutura de significados que os indivíduos tecem historicamente através de suas interações cotidianas e que dá sentido à vida coletiva, tanto na sociedade como em suas instituições. Assim, busco esclarecer o leitor que não pretendo tratar sua possível mudança como um componente sobre o qual o administrador, público ou privado, possa intervir como o faz com os agregados gerenciais internos à empresa, como tecnologia ou alocação de recursos. Há que se considerar o que, para uma simples unidade de trabalho cooperado, é um dado a ser desvendado e até monitorado, mas cuja manipulação é cercada de toda uma complexidade, cujos limites estão longe de ser controláveis.
Feito este breve esclarecimento, indico que procurei manter-me fiel à linha teórica do Paidéia tanto neste quanto no próximo item, desde que ao mesmo tempo, isso não impossibilite o diálogo com as abordagens de teoria antropológica centrais aqui utilizadas,
49 e discutidas no primeiro capítulo. Pretendo, assim, continuar testando o modelo, ao confrontar sua base teórica com a aplicação prática, e então, buscar uma aproximação entre elaboração e execução do projeto. Para tanto, a principal teoria de mudança cultural empregada na estruturação da presente análise, não por acaso, é também uma das que mais influenciou o autor do Método da Roda, segundo meu exame de sua bibliografia.
A teoria da mudança social de Gramsci, principal base teórica utilizada por Campos no Paidéia, caracteriza este fenômeno social como um processo longo e gradual de formação de uma nova cultura em uma sociedade vista como orgânica. É assim, então, que procurarei entender os efeitos morais e intelectuais acima citados: “político-social”, “subjetivo”, “pedagógico”, além do “gerencial”, pretendidos pelo Paidéia, e ainda, tendo em vista os objetivos definidos de análise.
Neste sentido particular, acho possível fazer uma leitura em que Gramsci parte de um “primeiro momento”: Da argumentação de que todos os indivíduos têm uma concepção de mundo que os instrumentaliza para a tomada das decisões cotidianas, a partir da máxima gramsciana: “todos os homens são filósofos” (1978:11). E se assim o é, põe-se quase que automaticamente um “segundo momento”: de crítica e consciência, onde se defrontam, de um lado, a participação mecânica em uma concepção de mundo dada pela estrutura vigente; e de outro, a elaboração da própria visão, com a conseqüente escolha nas esferas de ação.
Da mesma forma, às concepções de mundo de um indivíduo implicaria um correlato pertencimento dele a grupos afins, que compartilhem de visões de alguma sorte socialmente compatíveis. A mesma lógica operaria quando ocorresse a necessidade de elaboração, para respostas a determinados (e/ou originais) problemas colocados pela realidade. Assim, mantendo-nos focados na mudança, Gramsci questiona a maneira com que se percebe quando nossas concepções são “modernas”, e alternativamente, quando são “atrasadas”. E isso, para demonstrar como o presente, através de um novo problema, vem questionar o passado, cujas concepções podem não dar conta de uma nova questão. Como desdobramento, a superação da própria concepção se daria através da crítica a ela, num movimento que visasse torná-la novamente unitária e coerente. Tal processo se iniciaria com a consciência do que somos realmente. Significaria, também, criticar toda a filosofia prévia. Assim, tal superação só seria possível pela consciência da própria historicidade de nossas concepções, relativas a uma fase específica de desenvolvimento, bem como pelas
50 alheias; e que podem ser mesmo antagônicas às nossas, mas igualmente legítimas. O iniciador deste tipo de processo de mudança seria identificado teoricamente com a denominação de “intelectual orgânico”. Mas vale esclarecer que, segundo minha leitura de Gramsci, este ator não existe a priori, e assim, seria um papel desenvolvido potencialmente por qualquer pessoa, uma vez que “todos os homens são filósofos”.
Ora, por analogia, se o processo de mudança pretendido fosse dado pela relação entre o novo modelo e o anterior – identificando este último no referencial teórico, como o de senso comum – em Gramsci, isso só poderia ser assegurado pela “política”. E neste sentido, pareceu-me claro que a SMS escolheu a hierarquia formal como forma de “negociação”. E se assim for, revelaria uma definição relativamente pouco abrangente dos conceitos correlatos de política e poder, talvez, numa adaptação paradoxal a nossa cultura arbitrária acima contextualizada, mas que, neste caso, se revelaria inconsistente com o enfoque teórico escolhido. Mesmo assim, e dito isto, este processo teria ocorrido primeiro na relação entre SMS e coordenadores. Subseqüentemente, nos casos em que houvesse “composição” – da SMS com a coordenadoria – para a construção do processo hegemônico em torno dos objetivos do projeto, haveria sua continuidade, mas agora em direção às forças internas aos CS. Mais especificamente, de sua gerência com o conjunto dos trabalhadores da unidade. O coordenador seria, então, o iniciador do processo de mudança nas regiões adscritas, no que parece ser mais uma vez, uma leitura muito particular do “intelectual orgânico” de Gramsci. Quanto a todo este processo, as observações de campo revelaram que as relações hierárquicas realmente tiveram um papel central, já que, como indiquei, mesmo os “contra-poderes” constituídos não só tinham a participação do representante da administração central, como também era por ele exercida sua direção .
Desta forma – melhor explicando esta tentativa de síntese, e focando a construção hegemônica de Gramsci – o coordenador precisaria antes dar seu “consentimento ativo” ao projeto Paidéia, se revestindo como representante da “nova filosofia”: do Método da Roda. Nos casos em que isso tenha ocorrido – e de alguma forma não prescrita, nem normatizada pela SMS, mas sinalizada qualitativamente como hierárquica – executar a implantação, que novamente em Gramsci, apenas seria possível pela articulação dos diversos interesses, tendo em vista a formação de uma ação política unitária que derivasse, então, numa conseqüente mudança social. Contudo, resultaria num formato final imprevisto, já que
51 referenciado na composição entre os diversos interesses de indivíduos heterogêneos. E assim, mais uma vez nos deparamos com um sério problema teórico.
Numa aproximação ainda maior, no plano individual, o trabalho de campo percebeu a ocorrência dos diferentes momentos a que se refere Gramsci. Contudo, eles se deram de acordo com a organicidade administrativa específica a cada agente social, isto é, vinculando cargo a função, numa clara contradição com seus próprios objetivos finais. Assim, o coordenador foi o primeiro a lidar com o processo de confrontar sua própria visão de mundo com as demandas hierarquicamente recebidas da SMS. Mas diferentemente do “receituário” gramsciano, a “nova filosofia” fora apresentada seguidamente a uma platéia passiva, em etapas, como um imperativo para quem quisesse continuar no cargo de coordenação, pelo menos segundo a unanimidade dos relatos. Por exemplo, no que tange a seu cronograma, o trabalho junto ao Conselho Local de Saúde (CLS) fora acionado aproximadamente um ano antes do referente ao Colegiado Gestor (CG). Caberia, então, ao coordenador implantar cada uma das ferramentas do Modelo, a partir de exposições conceituais coletivas das mesmas, ministradas no programa de qualificação da SMS, partindo-se da recomendação de que, apesar de imperativa, a aplicação não necessitaria ser rigorosa, mas negociada. Isto me parece um paradoxo entre hierarquia e autonomia, compatível com a redefinição utilizada por Campos, mas de difícil equacionamento. Aliás, uma solução não encontrada no trabalho de campo. Mas vamos prosseguir com a explanação, agora, do momento seguinte da mudança gramsciana.
No plano coletivo, mudar uma cultura, adicionando novos elementos a ela, parece significar, em Gramsci, socializar criticamente “verdades” individuais, transformando-as numa nova base de ação do grupo: um novo elemento de coordenação e de ordem moral e intelectual. Desta forma, a partir do diálogo entre diversas filosofias ou concepções de mundo presentes, sempre seria feita uma escolha complexa e contraditória entre elas. Mesmo porque, em consonância ao até aqui exposto, algum contraste seria revelado até mesmo entre o que é intelectualmente afirmado e o resultante da ação real, revelando certa descontinuidade, definida conceitualmente como “contrastes de natureza histórico-social”. Contudo, em Gramsci, tal ação deveria ganhar uma direção consciente neste processo, que em sua dinâmica, se revista de unidade e coerência repartidas pelo grupo, e determinada por uma dada ideologia a ser crescentemente compartilhada. No caso proposto, o “Método da
52 Roda” se propunha a isto, já que propunha significativas mudanças nas relações sociais das diversas regiões de abrangência dos CS, e inclusive nas hierarquias presentes.
Precisarei, então, fazer uma última e derradeira aproximação, buscando completar a presente analogia teórica tendo em vista a análise da “ideologia da roda”, se me for permitido um trocadilho, empregada na constituição do que Gramsci chamou de bloco cultural e social, no caso, internamente a cada unidade analisada.