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CAPÍTULO I: PEDRA, REDES E MALHAS: TEORIA E ENTRADA NO

1.2 DISCUTINDO REDES SOCIAIS: TEORIA E APLICABILIDADE

Quando se ouve falar em rede social, em pleno século XXI, pode vir à mente a lembrança da grande rede mundial de computadores, as redes sociais populares praticadas na internet, como pode lembrar as redes de lojas, redes de comunicação e outras tantas que se utilizam da tecnologia da informação, onde há todo um aparato facilitador da comunicação e dos relacionamentos sociais virtuais existentes no planeta; que vem trazendo mais celeridade nas comunicações, principalmente a partir da última década do século XX. Lembra as redes globais, mas lembra também das redes sociais presenciais, onde há predominância dos contatos face a face entre as pessoas que as compõem.

Tais complexidades iluminam o papel que a internet pode ter especificamente nas comunidades locais com alcance global (WELLMAN, 1993), isso traz ao senso comum a ideia de ver o mundo como uma aldeia global. “A internet e outras tecnologias de

comunicação estão facilitando a mudança da natureza das comunidades ou grupos fisicamente fixos” (WELLMAN, 1993, p. 5). No entanto essa celeridade e facilidade estão longe de substituir as relações humanas que se interconectam em redes sociais no trabalho, nas escolas, nas congregações religiosas, nos partidos políticos, dentre outras instituições sociais específicas.

Não obstante, em algum momento da história, as relações sociais passaram a ser percebidas e explicadas como redes, onde as pessoas eram compreendidas como estando interligadas umas às outras. Essa concepção antecede a aplicabilidade dos benefícios proporcionados pelas redes virtuais, e resultou em modelos usados pela rede mundial de computadores e por instituições comerciais, bancárias, governamentais, dentre tantas. A informação pode fluir numa rede social somente no momento em que pode ser discutida, avaliada e, por isso, transformada e até reformulada pelo debate da Rede (TOTARO, 2014, p. 290).

Assim, foi possível trazer dos agrupamentos humanos – cujos membros que o compõem se relacionam entre si – a ideia da rede social que, por diferentes processos de transformação, inspirou os modelos dos complexos conglomerados das redes globais.

O antropólogo britânico Radcliffe-Brown (2013, p. 170) ao definir o conceito central de seu pensamento, a estrutura social, como “a rede de relações complexas que cria laços entre os seres humanos”, inaugurou o uso simbólico da expressão e da ideia de “redes e laços, ainda em 1940” (BARNES, 2010, p. 177), prenunciando, visionariamente, a importância que a análise de redes sociais ganharia a partir dos anos 1950 na antropologia social (MAYER, 2010, p. 141).

Em um contexto antropológico, rede social é um modelo analítico com o qual procura-se observar, descrever e compreender processos sociais que envolvem conexões que transpassam os limites dos grupos e categorias (BARNES, 1987, p. 163). Para esse autor:

Quer a rede possa ou não ser associada de maneira útil à estrutura social, não podemos encontrá-la nem aqui nem ali. Independentemente de qualquer coisa, a rede social é uma abstração de primeiro grau da realidade e contém a maior parte possível da informação sobre a totalidade da vida social da comunidade à qual corresponde. Chamo-a de rede social total (BARNES, 2010, p. 179).

Partindo dessa definição é necessário ter claro que rede social, neste trabalho, é a interpretação ética das relações existentes entre os nativos em um determinado contexto, ou seja, não é uma evidência empírica imediata, mas uma abstração realizada a partir da interpretação de práticas e sentidos êmicos.

A relevância e a multiplicação da análise de redes sociais na antropologia coincidiram com o deslocamento da ênfase de seus estudos, que privilegiaram as sociedades e povos ditos primitivos na primeira metade do século XX, em direção as sociedades complexas ou contextos urbanos das sociedades industriais, a partir do 2º Pós-Guerra. Essa mudança na predominância do espaço de pesquisa fez emergir novos problemas ao método e a teoria antropológica. Hannerz (2015, p. 179) corrobora com essa perspectiva ao afirmar que “a análise de redes não é apenas uma ferramenta da pesquisa urbana, embora a tendência tenha sido de seu crescimento e importância em virtude do interesse antropológico em sociedades complexas”.

Em 1954 Barnes publicou o primeiro artigo empregando a ideia de rede social em um sentido mais específico no seu estudo de Bremnes, uma pequena comunidade norueguesa de pescadores e cultivadores (HANNERZ, 2015; p. 179), para “descrever como noções de igualdade de classes eram utilizadas e de que forma indivíduos usavam laços pessoais de parentescos e amizades na comunidade” (BARNES, 2010, p. 173). Em seguida, em 1955 e 1957, Elizabeth Bott apresentou resultados de pesquisas utilizando o conceito de redes sociais em estudos de parentesco, realizados com “famílias comuns” em Londres, trazendo essa análise para os contextos urbanos (HANNERZ, 2015; p. 180).

Para Mitchel (1974, p. 279), a partir dos trabalhos desses autores, “a ideia de redes socais se tornou cada vez mais popular entre os antropólogos sociais e sociólogos como uma forma de compreensão do comportamento humano”; a perspectiva inaugurada com esses estudos possibilitou a interpretação da realidade social a partir da articulação de redes, o que permite relativizar as fronteiras dos espaços dentro das ordens locais e globais – que passam a ser vistas como estruturas complexas e interpenetradas.

A relevância e multiplicação da análise de redes sociais na antropologia coincidiram com o deslocamento da ênfase de seus estudos, que privilegiaram as sociedades e povos ditos primitivos na primeira metade do século XX, em direção as sociedades complexas ou contextos urbanos das sociedades industriais, a partir do 2º Pós-Guerra. Essa mudança na predominância do espaço de pesquisa fez emergir novos problemas à pesquisa e a teoria antropológica. Fenômenos sociais até então fora das preocupações científicas, como a fofoca e a amizade, passaram a ser encarados como aspectos da realidade que deveriam ser compreendidos e explicados, como é possível reconhecer nos contextos dos trabalhos que Feldman-Bianco (2010) coligiu sob o título de Antropologia das sociedades contemporâneas.

Essa identificação impõe considerar que nas últimas décadas do século XX, sociedades diversas foram transformadas em contemporâneas de um novo modelo de desenvolvimento organizado e sustentado sob o princípio da circulação tecnológica da informação em escala planetária. Essa nova face do capitalismo, comumente chamada de globalização, foi analisada por Castells (2013) a partir de uma de suas principais características: organizar a sociedade em rede.

O sentido sociológico de sociedade em rede resulta de uma abordagem multidisciplinar que funde abordagens da economia, história, geopolítica, tecnologia da informação, comunicação, urbanismo e ciências sociais, para apontar os delineamentos da complexa estrutura social que será o campo onde o século XXI apresentará a ação de seus atores. As fronteiras institucionais dos Estados nacionais são abaladas por intensos fluxos de informação que ampliam o horizonte de contato entre grupos e atores sociais. Dessa forma, elementos culturais surgem virtualmente à consciência de sujeitos geograficamente distantes. Em um fluxo desigual, diferentes formas de organização da experiência coletiva entram em contato e são remodeladas, incorporando e alterando elementos externos, de acordo com a capacidade de acesso à base tecnológica de navegação nessa rede.

Apesar da ênfase atribuída à revolução tecnológica, baseada nas tecnologias da informação, como vetor de remodelação da base material da sociedade o sociólogo espanhol também aponta um movimento de reagrupamento em direção à elementos identitários primários. Dessa forma, ainda que aparentemente ocorra uma integração cultural planetária, as formas de vida e sociabilidades regionais e locais também se articulam e ganham força gerando movimentos de revalorização.

Seguindo esse raciocínio, pode-se classificar dois sentidos da categoria redes, quais sejam: O sentido sociológico, relativo às relações de interdependência entre economias e nações (CASTELLS, 2013), incluindo aí as redes baseadas na tecnologia da informação que lhe dá sustentáculo; e o sentido antropológico que explica as inter-relações entre os sujeitos (BARNES, 2010). As redes estudadas aqui são aquelas estabelecidas entre indivíduos que se movem, reciprocamente, em relação uns aos outros construindo identidades em meio a razões práticas próprias de sua atividade econômica.

Assim, o conhecimento teórico sobre redes sociais na antropologia é necessário para a construção dos modelos de relações sociais, que foram utilizados na análise das Redes, ou mesmo de seus diversos fragmentos (BARNES, 2010, p. 179). Para o autor, a análise de redes sociais fica mais plausível quando considerado uma parte dessa, a qual ele chama de

rede parcial40. Barnes considera que, para empreender análise de redes, é importante o conhecimento quanto aos instrumentos analíticos disponíveis (BARNES, 2010, p. 177), entre os quais ele aponta a necessidade de construir um modelo que contenha a representação de pessoas, algumas das quais estão em relacionamentos sociais com algumas outras.

Na construção do modelo, o fato empírico crucial é que toda pessoa real se conecta com outra ou entra em contato com várias outras pessoas. Isso inclui o fato de que, no modelo, as pessoas não formam uma cadeia simples ou uma única estrela41, mas várias estrelas que formam a Rede. Na estrela há um elemento tomado como centro de ligações ao qual Barnes chama de elemento alfa42, é como o centro da estrela.

Outro instrumento de análise é um modelo parcial ou total de uma rede, onde aparecem seus elementos, chamados de nós43 e suas ligações44, laços ou conexões. A esse modelo facilitador de análise Stanley Wasserman e Katherine Faust (2009) chamam de sociograma. Através dos modelos de redes parciais, é possível examinar seus elementos ou nós, “com base na posição, na forma ou no conteúdo” (BARNES, 2010, p. 180).

Sociogramas45 e sociomatrizes foram usadas pela primeira vez por Moreno, que demonstrou como eles poderiam representar as relações retratadas (WASSERMAN e FAUST, 2009, p. 77). Trouxe assim a ideia dos grafos46, onde há os modelos das ligações entre os nós interligados em forma de sociomatrizes ou sociogramas. O uso de grafos, sociogramas e sociomatrizes, é necessário para se criarem modelos, sistemas simplificados de representação, de redes de relacionamento, porém não é possível representar sua totalidade, é modelo simplificado para permitir análises. Wasserman e Faust (1994) publicaram seus estudos a partir de bibliografias existentes, levando em consideração o que foi produzido por seus antecessores, mas trazem à tona métodos e aplicações das análises de redes sociais, permitindo que se utilizem tanto nas ciências sociais como nas ciências exatas e computacionais na busca de modelagens antes impossíveis

40 Rede parcial para Barnes é qualquer extração de uma rede total, com base em critério que seja aplicável a essa.

(BARNES, 2010, p. 179).

41 Estrela significa “um indivíduo que, em termos comparativos, é o frequentemente escolhido por seus

companheiros em contextos específicos”; Barnes (2010, p. 181) atribui seu uso inicial a Moreno, na década de 1930,se refere a um elemento e suas ligações diretas.

42 Elemento alfa é a representação de uma pessoa da rede tomada como referência para examinar a rede a partir

do seu ponto de vista (BARNES, 2010, p. 180).

43Nó de uma rede é cada elemento que compõe essa rede social e está passível de ligação com outro nó. 44Ligação, laços ou conexões de uma rede é a conexão entre os elementos ou nós da rede social.

45Sociogramas ou sociomatrizes são modelos da rede parcial passível de ser analisadas, na visão Wasserman e

Faust (2009).

46 Grafos é o conjunto de todos os pares de elementos interligados em um modelo de rede social

A Teoria do Graphos em associação com a teoria sociométrica para representar o modo como se ligam os atores ou nós de uma rede, pode ser aplicado em pesquisas de cunho antropológico para análises das características de seus componentes. “As características morfológicas de uma rede social são aquelas que lidam com a forma ou padrão das ligações de uma rede” (MICHELL, 1969, p. 280). Podendo apontar posições de elementos importantes da Rede, como os elementos de centralidade.

É possível identificar a centralidade de um ator em uma rede em razão da quantidade de laços nos quais está ligado. Dessa forma, a centralidade é definida pelo número extenso de relações que o ator mantém em relação a outros sujeitos e com a maior visibilidade que alcança em razão disso (WASSERMAN e FAUST, 2009, p. 173).

A compreensão das Redes de circulação do pescado tem como pressuposto as interações sociais estabelecidas pelos indivíduos para se interconectar nas diferentes etapas desse processo. Essa estrutura de sociabilidade produz entre seus atores “nós” ou laços de relacionamentos distintos das relações institucionalizadas e impessoais comumente estabelecidas entre vendedores e consumidores, ou entre tomadores e prestadores de serviços, cada qual anônimo nos limites dos papeis sociais que desempenham.

As interações existentes nas redes sociais da Pedra envolvem processos comunicativos baseados em informações incorporadas (GOFFMAN, 2010), ou seja, no fluxo de mensagens que o emissor comunica através de sua própria atividade corporal e que depende da presença dos corpos dos sujeitos envolvidos no diálogo para sua sustentação e compreensão. Esse tipo de interação simétrica é caracterizado por um rico e contínuo fluxo de informações retroalimentado constantemente enquanto os sujeitos se comunicam, e é condição necessária para a tessitura de redes sociais.

A análise de redes se volta para o entendimento das sociabilidades em uma dimensão que escapa aos modelos analíticos de grupos duradouros ou instituições fundamentadas em conjuntos normativos bem definidos e constantes. De acordo com Granovetter (1973), através da análise de relações interpessoais em redes, torna-se possível interpretar as interações cotidianas e próprias de pequenos grupos com o repertório analítico das ciências sociais. Dessa forma, o estabelecimento de laços entre os diversos indivíduos concretos que atuam intencionalmente na circulação do pescado na Pedra não se limita ao campo econômico-comercial, avançam para estágios que envolvem, principalmente, confiança, alianças, desafios, conflitos e reciprocidade.

A teoria das redes sociais foi aplicada nessas relações para analisar as posições dos atores sociais, a centralidade de sujeitos de categorias específicas, a força de seus laços e

formas de suas práticas. As relações sociais na Pedra vão dos laços mais fortes, em função da proximidade entre os atores sociais, às mais amplas, que geram os laços mais fracos.

Assim, os referenciais teóricos sobre redes sociais foram proporcionados por Barnes (1972, 2003 e 2010), Mitchell (1969), Hannerz (2015) e Wasserman e Faust (2009), dando o suporte necessário à teoria de redes sociais aplicada à tese. De modo subsidiário consultou-se ainda Bott (1976) e Wellman (1983), além de Granovetter (1973), ainda na temática sobre redes sociais, que é um item de muita importância nesta tese.

Barnes (2010) deixa claro as possibilidades de uso dos estudos de redes sociais, tanto em níveis institucionais mais amplos, quanto em grupos locais, que “têm em comum o fato de serem vistos como processos que levam sujeitos e grupos mobilizando seguidores para seus objetivos e ao mesmo tempo influenciam pensamentos e ações de seus adeptos” (p. 171). Esse autor trouxe embasamento para que no período de 2012 a 2015 eu pudesse adotar suas contribuições para estudar a Rede, como uma “rede social total” (BARNES, 2010, p. 179). Pude a partir de seu embasamento teórico, comparar seus modelos com as interconexões empreendidas pelos atores envolvidos na cadeia produtiva do pescado, que tem a Pedra como elemento fixo e como lugar de sua centralidade, para fazer circular o pescado na Cidade.