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Foto 9 Sala de televisão

4 NOTAS PARA UM SAMBA SOBRE O INFINITO

4.1 DISFEMISMOS E EUFEMISMOS: DIREITOS, DEVERES, INCENTIVOS

O regimento interno, especificamente em seus artigos 11 e seguintes, trata dos direitos, dos deveres, dos incentivos e das sanções aplicadas aos/às adolescentes. A essa dinâmica entre prêmios e castigos, Goffman (1999) chamou de sistema de privilégios, bastante peculiar aos modos de organização das instituições totais. Para o autor, o sistema de privilégios comporta três elementos básicos: as regras da casa, os prêmios e privilégios e os castigos.

As regras da casa dizem respeito ao conjunto de prescrições e proibições, não necessariamente todas explícitas e formais, “que expõem as principais exigências quanto à conduta do internado” na rotina diária (GOFFMAN, 1999, p. 50).

176 Na Case/Salvador, existem dois tipos de regras da casa: as formais, escritas e previstas no regimento interno; e as não-formais, não escritas e estabelecidas dentro do alojamento feminino.

As regras formais, representadas pelo regimento interno, são mais sofisticadas e foram elaboradas pelo debate entre um grupo de adolescentes e a equipe dirigente53. As regras formais são relativamente conhecidas dentro do alojamento feminino, tanto pelas adolescentes como pelas socioeducadoras, entre as quais, as mais conhecidas e aplicadas são as sanções, especialmente a sanção- reflexão.

As regras informais são criadas dentro do alojamento pelas socioeducadoras e são pouco conhecidas pelo restante da equipe dirigente. Dizem respeito a questões “menores” ou que podem ser modificadas a qualquer tempo, considerando a dinâmica específica do alojamento ou de determinado dia ou contexto. Acontece que as regras informais tendem a ser modificadas (ou não) e aplicadas (ou não) de plantão a plantão. Em um plantão, determinada atividade pode, em outro, não pode, e num terceiro, depende. Determinada regra consensuada pode ser flexibilizada ou endurecida a depender das pessoas que compõem os plantões, tendo como exemplo a situação citada anteriormente sobre as proibições de ver ou não programas televisivos que contenham o tema “violência”.

As regras informais carecem de objetivo definido dentro da ação socioeducativa, e suas formulações e aplicabilidade parecem estar sujeitas à simples opinião, valores e até mesmo ao estado de humor das socioeducadoras de plantão. Essa dinâmica não se dá sem conflito entre as próprias socioeducadoras: registrei por diversas vezes uma criticando a outra por ser “boazinha demais” ou “grosseira demais”. A desarmonia de regras foi igualmente identificada por Assis e Constantino (2001) e, para as autoras, esses desencontros geram conflitos entre os/as funcionários/as, mas, sobremaneira, produzem sérias implicações no processo socioeducativo.

Mylla afirma que é muito difícil para as outras pessoas saberem o que realmente acontece dentro do alojamento:

53 O regimento interno foi aprovado por assembleias gerais extraordinárias realizadas na Unidade nos dias 15, 25 e 29 de janeiro de 2008.

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Mylla As pessoas precisam vir aqui dentro, ficar aqui dentro para saber o que a gente passa, [o certo seria] ter uma câmara para ver quem é certo e quem é errado, porque tem orientadora [socioeducadora] que procura confusão o tempo inteiro.

Na entrevista, Antônia elogiou a atuação dos/as profissionais da equipe psicossocial e dos/as educadores, mas ressaltou que “uma andorinha só não faz verão, tem que ser todo mundo junto”. Pedi que explicasse:

Antônia Se a unidade, a diretoria a equipe de segurança fizesse o jeito que os educadores faz, a unidade ia para frente, que a unidade tá andando para trás. É orientadora discutindo com orientadora, é orientadora querendo dar tapa no rosto de outra, é uma putaria desgraçada!

O que chamo de regras informais foi nomeado por Goffman de regras difusas, que, segundo o autor, se conflagram em um sistema de autoridade escalonada. Isso significa dizer que “qualquer pessoa da equipe dirigente tem alguns direitos para impor disciplina a qualquer pessoa da classe de internados” (1999, p. 45, grifos do autor) sobre inúmeros itens da conduta, tais como forma de falar e andar, roupa a vestir, tom de voz, programa de televisão a ser visto etc. Por sua vez, estando sujeitos/as a um número razoável de regras, impostas e cobradas por um grupo considerável de pessoas (toda a equipe dirigente), a possibilidade de sanção aumenta significativamente. Em contrapartida, a concessão de prêmios e privilégios não é inversamente proporcional à possibilidade de aplicação de sanções.

O segundo elemento do sistema de privilégios em Goffman são os prêmios ou privilégios, obtidos pelos/as internos/as pela obediência. Salienta que “os privilégios em uma instituição total não são iguais às prerrogativas, favores ou valores, mas apenas iguais à ausência de privações que comumente uma pessoa não sofreria no mundo externo” (1999, p. 52).

Na Case/Salvador, os prêmios e privilégios formais estão definidos no regimento interno sob a nomenclatura de incentivos. Segundo o artigo 15 do documento, o objetivo dos incentivos é reconhecer o bom comportamento do adolescente, a colaboração com a disciplina e a ordem interna, o interesse e dedicação para com as atividades e a evolução, pessoal e coletiva, no cumprimento da medida socioeducativa. Compete apenas à Gerência da Unidade, ouvida a equipe multidisciplinar, conceder o elogio ou recompensa. Vejamos:

178 Artigo 16  São incentivos:

I  o elogio;

II  a recompensa, em observância às prerrogativas da Lei.

§ 1º  O adolescente que cumprir integralmente as disposições contidas no Regimento Interno, demonstrando bom comportamento e colaboração com a ordem e disciplina internas, poderá receber elogio, que será comunicado ao Juiz competente;

§ 2º  A recompensa será atribuída ao adolescente que, além de atender aos requisitos do parágrafo 1º, atingir as metas fixadas no Plano Individual de Atendimento.

As recompensas são como “objetos de desejo”, pois quase sempre significam uma atividade externa à Unidade, podendo ser assistir a sessões de cinema, ir ao teatro, participar de jogos esportivos, participar de exposições de artesanatos e artefatos produzidos nas oficinas da Unidade etc.

Nos prontuários das meninas, não identifiquei nenhuma concessão de incentivos, seja por elogio ou por recompensa. Não obstante, identifiquei a concessão de prêmios e privilégios não previstos no regimento interno e estabelecidos informalmente dentro do alojamento. Assim como as regras da casa, a concessão de prêmios e privilégios dentro do alojamento depende da avaliação que as socioeducadoras fazem das meninas, cujos critérios nem sempre estão bem definidos. Logo, prêmios e privilégios também assumem a característica difusa e de autoridade escalonada pensada, conforme Goffman (1999).

Sobre a dinâmica do alojamento, Mylla se referiu à concessão de prêmios e privilégios como expressão de injustiças:

Mylla Tem umas que têm prioridade em tudo. Até nas saídas mesmo, saída de teatro, essas coisas assim, sempre colocam o nome de Iasmin e Luíza porque elas são as melhorzinhas do alojamento, as branquinhas que se arrumam mais. Sempre foi assim, sempre.

Jalusa E você não concorda com isso?

Mylla Eu não concordo porque o que tem que ser para uma tem que ser para todas. Às vezes, elas ganham perfume, coisa que a gente não pode ganhar elas ganham, espelho elas têm guardado lá dentro, frasco de vidro, tudo que a senhora imaginar elas têm.

Jalusa E não pode essas coisas?

179 Os privilégios informais se materializam quase sempre em cigarros, produtos cosméticos, alimentos etc. Alguns objetos são expressamente proibidos pelo regimento interno por colocarem em risco a segurança dentro do alojamento, tais como produtos de vidro. Como descrito acima por Mylla, identifiquei situações em que privilégios são concedidos a umas em detrimento de outras, quase sempre baseados na relação estabelecida pessoal e individualmente entre um/a profissional e uma adolescente.

Um dos privilégios mais disputados é a (rara) saída externa. Qualquer possibilidade de estabelecer contato com o mundo externo é muito desejado pelas meninas, mas as saídas externas são especiais. Além de tirá-las, ainda que por alguns instantes, de dentro dos muros da Unidade, para aquelas oriundas do interior do Estado é uma oportunidade de conhecer algo da capital. No período em que estive em campo, notei apenas uma saída externa pelas adolescentes, exatamente Iasmin e Luíza. No retorno, olhos brilhantes, sorrisos extasiados e histórias para contar sobre a visita ao Solar do Unhão e ao Museu de Arte Contemporânea da Bahia.

Em oportunidades distintas, questionei os/as profissionais acerca dos critérios para a definição das saídas externas: o bom comportamento apareceu de forma unânime nas respostas de todos/as. No contato com as adolescentes, percebe-se que não é muito definido o que é ter bom comportamento: sabiam quais eram as regras formais e as consideravam importantes de serem cumpridas para serem bem comportadas, mas não conseguiam compreender como, no cotidiano do alojamento, umas tinham privilégios e outras não  exatamente como apontou Mylla. Para Baratta, é justamente a “educação para ser bom preso” que cria essa relação de troca de privilégios em instituições privativas de liberdade (2002, p. 185). O autor acredita que essa educação ocorra “através da aceitação das normas formais da instituição e das informais postas em ação pelo staff”54

, exatamente como constatei na Case/Salvador. A relação estabelecida entre as pessoas privadas de liberdade e o staff se torna característica da atitude do/a preso/a, sendo marcada, “ao mesmo tempo, pela hostilidade, pela desconfiança e por uma submissão sem

54 Diferentemente de Goffman (1999), que se refere ao corpo de funcionários/as como equipe dirigente, Baratta (2002) usa a expressão representantes da instituição ou simplesmente staff.

180 consentimento” (2002, p. 186). O resultado dessa relação é a troca de privilégios no mundo interno da Unidade que tende a gerar mais instabilidade do que disciplina.

O terceiro elemento são os castigos, “definidos como consequência de desobediências às regras” (GOFFMAN, 1999, p. 51). Para o autor, um conjunto de castigos é formado pela supressão temporária ou permanente de privilégios ou pela cassação do direito de tentar consegui-los. Nos termos do regimento interno, de fato existem castigos exatamente como formulou Goffman, mas há também aqueles que representam uma ação punitiva independentemente da supressão de privilégios ou da cassação do direito de tê-los.

No documento consta um complexo esquema de normas dedicadas às sanções, denominado “Do Regulamento Disciplinar”, previsto a partir do artigo 42. Na Unidade, a disciplina deve ser concebida da seguinte forma:

Artigo 42. A disciplina é instrumento de condição e viabilização do projeto político-pedagógico e do plano individual de atendimento, a fim de alcançar o conteúdo pedagógico da medida sócio-educativa, e consiste na manutenção da ordem, por meio de ações colaborativas, na obediência às determinações das autoridades, e de seus agentes, na participação das atividades pedagógicas e no cumprimento da medida exposta.

O estabelecimento de regulamento disciplinar é uma das diretrizes pedagógicas do atendimento socioeducativo. Para o Sinase, a disciplina é “um instrumento norteador do sucesso pedagógico”, e a questão disciplinar implica “acordos definidos na relação entre todos no ambiente socioeducativo” por normas e regras claras e definidas (BRASIL, 2006, p. 53).

As sanções  ou seja, os castigos  são consequência da quebra de regras disciplinares pelos/as adolescentes, classificadas no regimento interno de natureza leve, média e grave. O regulamento disciplinar define como devem ser aplicadas as sanções e determina a abertura de um procedimento disciplinar que comportará as circunstâncias atenuantes, agravantes e, se for o caso, a aplicação de uma medida cautelar.

O regulamento disciplinar previsto no regimento interno da Case/Salvador soa como uma espécie de medida socioeducativa dentro da medida socioeducativa, obviamente com menos sofisticação e complexidade. Destarte, a sanção mais grave

181 prevista no regulamento  a sanção-reflexão é a privação de liberdade dentro da privação de liberdade.

Alessandro Baratta (2002) sustenta que um dos efeitos da privação de liberdade é a possibilidade da ocorrência da dessocialização do ser humano por meio da prisionalização, vez que estar preso/a funciona como um processo de (des)aprendizagem dos valores da vida social e de aprendizagem das regras do mundo artificial da prisão, capaz de reproduzir, por exemplo, o culto à violência. Cirino dos Santos (2000) acrescenta que os sistemas privativos de liberdade se caracterizam pela eficácia invertida, pois, ao invés de reduzir a criminalidade, tendem a funcionar como produtoras de carreiras criminosas e de reincidência.

Se a sanção-reflexão é a privação de liberdade dentro da privação de liberdade, um de seus efeitos pode ser a produção de eficácia invertida sobre a eficácia invertida. Isso porque, para algumas das meninas, a tendência é de maximização da raiva da pessoa cujo conflito gerou a aplicação da tranca, o que pode culminar em conflitos ainda mais graves dentro do alojamento.

Em que pese grande parte das situações motivadoras para a tranca serem brigas entre as meninas, há certa fragilidade nas decisões que fundamentam a aplicação da sanção-reflexão. Também no tocante a essa sanção, o regimento interno tende a não ser respeitado e, mais uma vez, perdura o “depende”, quase sempre baseado nas regras informais. Para determinada situação ser considerada falta disciplinar grave, depende dos critérios que o/a profissional vai usar para avaliar a infração e, como insinua Mylla, depende de quem vai cometê-la. O mínimo para se cogitar a aplicação da sanção-reflexão é decidi-la pela estrita observância às regras da casa, e em hipótese alguma pelos critérios arbitrários e discricionários.

De acordo com os dados apresentados neste capítulo, a aplicação das regras da casa, dos castigos e dos prêmios e privilégios (ou seja, o sistema de privilégios) tende a funcionar da seguinte forma no alojamento feminino: as regras formais (tanto as da casa como as que autorizam a aplicação de castigos e concessão de prêmios e privilégios) são invocadas para, dentro de critérios pouco lúcidos, meramente “fundamentar” e “justificar” a criação das regras informais. Na realidade concreta, as regras informais é que são aplicadas e, fundamentalmente, definidas plantão por plantão, ou ainda, profissional por profissional.

182 Há uma espécie de apropriação das regras formais em nome do alcance da disciplina pensada pelo Sinase e prevista no regimento interno que, no dia a dia da Unidade, podem ser relativizadas, maximizadas e até mesmo (re)criadas, a depender do contexto e dos/as envolvidos/as, mediante critérios nem sempre dotados de coerência e equidade. Daí a dificuldade de se compreender  inclusive para mim, mas especialmente para as meninas  o que pode e o que não pode; o que é passível de relativização e o que é terminantemente proibido; e o que é falta disciplinar grave ou leve. Em suma, uma equação difícil de produzir resultados satisfatórios, tendo em vista os objetivos previstos para a ação socioeducativa.

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