5. DISPENSA DE MEDICAMENTOS
5.1. DISPENSA DE MNSRM E OUTROS PRODUTOS DE SAÚDE
Os MNSRM são os indicados para o tratamento ou prevenção de determinadas patologias e, como não requerem cuidados médicos, podem ser adquiridos sem receita
32 médica. Estes produtos são constituídos na sua maioria por substâncias cuja ação foi definida como útil e inócua, mas que apesar disso, além de não deixarem de ser considerados medicamentos, não dispensam de aconselhamento por parte do PS e por isso mesmo, devem ser usados com precaução. No ato de dispensa, o PS deve avaliar não só as consequências que advêm de uma terapêutica inadequada, mas também os riscos relativos ao consumo de medicamentos [11].
Na minha opinião, é fundamental que o PS receba todas as informações necessárias para que haja um correto aconselhamento. Ao dispensar-se MNSRM há que ter em conta três situações possíveis que podem melhorar o aconselhamento e a prestação de informação ao utente:
a) Se o utente solicita o MNSRM pelo nome comercial do próprio;
b) Se o utente solicita o MNSRM pelo nome comercial e ao mesmo tempo questiona acerca da sua utilização;
c) Se o utente pede aconselhamento acerca do melhor tratamento para o seu problema de saúde.
Na situação a) procede-se à dispensa do medicamento pedido, esclarecendo todas as dúvidas existentes, enquanto na situação b) e c) procede-se a uma avaliação mais detalhada da informação cedida pelo utente, através das questões WWHAM (Para quem?; Quais os sintomas?; Há quanto tempo duram?; Conhece o modo como se toma?; Faz outra medicação para além desta?) seguidas de outras informações tais como a história familiar, a existência de alergias e outras doenças e os próprios hábitos de vida [12].
Na seleção do medicamento dever-se-á escolher os medicamentos de acordo com o seu perfil farmacológico, equacionando as vantagens e desvantagens de determinado medicamento assim como o seu custo e, ainda, consoante o utente/doente em causa, de forma a compensar as suas carências, dando principal atenção a utentes com necessidades peculiares como é no caso de grávidas, lactantes, crianças, idosos, diabéticos, insuficientes hepáticos, cardíacos ou renais e, ainda, doentes polimedicados.
É essencial que o utente receba toda a informação necessária acerca do medicamento e/ou produto farmacêutico em causa para que faça uma utilização correta e racional. O aconselhamento sujeita-se à prevenção e ao tratamento de sintomas e afeções clínicas ligeiras, auto limitadas e que requerem terapêutica de curta duração, nomeadamente estados febris, constipações, micoses, entre outras situações passíveis de automedicação, regulamentadas no despacho nº 17690 de 2007 de 23 de Julho [13].
Neste caso específico, de dispensa de MNSRM, uma vez que participei ativamente na dispensa de medicamentos, deparei-me com situações diversas. Apareceram diversos utentes
33 com perfis completamente diferentes, com algumas dúvidas normalmente acerca do que tomar para uma dor de cabeça forte, febre, dor de dentes, produtos de produtos cosméticos e de higiene corporal, produtos sazonais (antialérgicos, repelentes, protetores solares) e, ainda, acerca de produtos veterinários.
Existem ainda alguns erros na toma de medicação que embora pareçam óbvios, para alguns utentes ainda surgem algumas dúvidas. Durante o período de estágio, uma utente foi à farmácia pedir algo que “funcionasse” para tratar a infeção genital. Aquando desta situação, questionou-se se já tinha ido a um ginecologista dado ser o especialista na área e a utente afirmou que sim, indicou que o médico lhe tinha receitado Gino-Canesten em comprimidos mas que não provocou nenhum efeito na utente e que pelo contrário, sentia que estava a piorar. Perante esta situação, aconselhou-se a utente a repetir o tratamento dado que ainda só tinha iniciado há dois dias, podendo ser prolongado por mais seis dias, aplicando um comprimido dentro da vagina, preferencialmente à noite, uma vez que tem que ficar na posição horizontal, deitada de costas e com as pernas fletidas. Caso não sentisse nenhuma melhoria com o tratamento, aconselhou-se a utente a voltar ao ginecologista para nova avaliação de terapêutica.
Após os conselhos dados, a utente mostrou-se confusa dizendo que realmente tomava à noite mas que tomou os comprimidos via oral porque como era em comprimido, pensava que era para tomar com um copo de água. Casos como este existem muitos, sendo por isso, imprescindível o aconselhamento, pois existem utentes que, apesar dos medicamentos virem com um folheto informativo a explicar como utilizar e da vasta informação existente hoje em dia, podem não saber ler ou, simplesmente, tomam como garantido que é para tomar como costumam fazer com os outros medicamentos (no caso dos comprimidos).
Enquanto estagiária, tive, ainda, a oportunidade de aprender novas técnicas de venda nomeadamente a cross-selling – prática em que se oferece ao utente produtos complementares àqueles que já foram ou estão a ser adquiridos – e, ainda, a técnica de up-selling – quando se expõe o utente a produtos “premium” que são mais caros mas fornecendo-lhe em retorno um melhor serviço/produto. Durante o período de estágio, aconteceu-me, algumas vezes, um utente ir à farmácia apenas para se aconselhar acerca de um produto não sujeito a receita médica de cosméticos e de higiene corporal e saiu da farmácia a comprar dois produtos dessa mesma gama. Pode-se dizer que apliquei, neste caso, a técnica de cross-selling dado que a utente comprou um outro produto de forma a complementar o produto que a utente procurava. Claro que estas técnicas vão-se desenvolvendo com o tempo, com a experiência profissional e pessoal e além disso, acho que depende da personalidade de cada pessoa; é necessário mostrar e ser convincente e mostrar, ainda, segurança naquilo que se está a dispensar.
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5.1.1. Automedicação
Segundo o despacho acima referido – Despacho n.º 17690/2007, de 23 de julho –, a automedicação consiste na “utilização de MNSRM de forma responsável, sempre que se destine ao alívio e tratamento de queixas de saúde passageiras e sem gravidade, com a assistência ou aconselhamento opcional de um profissional de saúde” e é considerada uma prática integrante do sistema de saúde.” [13].
Os MNSRM, armazenados à parte dos MSRM (Figura 14), são aqueles que contêm substâncias utilizadas no alívio, tratamento ou prevenção de sintomas e síndromes menores, que demonstrem uma relação risco/benefício claramente favorável à sua utilização e cujo perfil de segurança se encontre bem estudado e seja aceitável no contexto da automedicação. Em algumas situações, existem medicamentos que passam de MSRM a MNSRM mas, por definição, nenhuma substância ativa pode chegar pela primeira vez ao mercado sob o estatuto de MNSRM, só passando a sê-lo se estiver há, pelo menos, cinco anos no mercado.
No entanto, esta prática pode acarretar riscos de saúde que devem ser minimizados, através de um aconselhamento, acompanhamento e avaliação por parte do PS, de modo a garantir a segurança e a eficácia do medicamento. Este processo tem em conta um conjunto de perguntas a fazer ao utente, de forma a avaliar os sintomas e por sua vez, selecionar o medicamento adequado à situação descrita [14].
A automedicação é um fenómeno que é efetivamente uma realidade e, infelizmente, não só com MNSRM. Uma das maiores preocupações causadas pela automedicação são os antibióticos tomados regularmente por decisão do utente, sem qualquer tipo de supervisão médica. Tomar antibióticos inadequadamente acarreta consequências, nomeadamente no uso repetido por longos períodos, mesmo em pequenas doses, promovendo à proliferação de bactérias resistentes deixando, assim, o medicamento sem eficiência.
Durante estes quatro meses de estágio, aconteceram muitos momentos em que o utente chegava à farmácia a pedir um medicamento que tinha antibiótico na sua constituição a dizer que já fazia esta terapêutica há algum tempo e que sentia que já não fazia “nada” mas no entanto continuavam a tomar/colocar porque o médico prescreveu quando teve os mesmos sintomas. É óbvio que nestes casos há que alertar a pessoa que o fato de ser uma terapêutica de longo prazo originou bactérias resistentes ao antibiótico em causa, não sentindo o efeito pretendido. Além do mais, aconselha-se o utente a falar com o médico para lhe prescrever algo que seja eficaz.
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5.1.2. Subcategoria de MNSRM – Dispensa Exclusiva em Farmácia
O Governo aprovou no dia 19 de junho de 2013 uma lista com dezassete medicamentos que só poderão ser vendidos em farmácias, apesar de não serem de prescrição médica obrigatória. Nesta subcategoria constam para já, os medicamentos correspondentes a dezassete substâncias ativas, isoladamente e/ou em associação, entre os quais o ibuprofeno (400 miligramas), o ácido salicílico + fluorouracilo, a aminofilina, a amorolfina, o gás medicinal comprimido, o cetoprofeno, a cianocobalamina, a hidrocortisona, a lidocaína + prilocaína, o paracetamol + codeína + buclizina e, ainda, a teofilina [15].
O diploma que foi aprovado cria, assim, uma "subcategoria” de MNSRM ou, também denominada de “terceira lista” de MNSRM, que, atendendo ao seu perfil de segurança ou às suas indicações, apenas podem ser dispensados em farmácias. Esta subcategoria de medicamentos é justificada pela evolução do Sistema Europeu de Avaliação de Medicamentos, que aconselha a introdução desta nova categoria.
Segundo a Ordem dos Farmacêuticos, “o conjunto de medicamentos disponíveis em Portugal fora das farmácias tem vindo a alargar-se muito significativamente e, neste momento, inclui medicamentos de uso prolongado ou que contêm substâncias ativas que, pela sua natureza, perfil de segurança ou pelas suas indicações terapêuticas, exigem aconselhamento e acompanhamento farmacêutico, devendo apenas ser dispensados nas farmácias”. Com a aprovação legal desta “terceira lista” de medicamentos, Portugal passa, assim, a integrar o conjunto de países da União Europeia, entre os quais está o Reino Unido e a Holanda, que adotaram esta mesma solução [15].
Na minha opinião, acho que é a decisão mais acertada e em benefício da saúde pública, uma vez que muitas das vezes alguns locais de venda de MNSRM não possuem um PS qualificado para aconselhar o utente, não havendo um controlo e acompanhamento da terapêutica podendo ser utilizado incorretamente, acarretando sérios problemas para a saúde do utente.