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ASPECTOS ECOLÓGICOS DO CONSUMO DE FRUTOS DE

2.4.4. Dispersão e Comportamento dos Dispersores

A dispersão é um dos acontecimentos de maior importância ecológica nas florestas. A dispersão dos frutos e sementes é o principal processo responsável pelo fluxo de genes, pela colonização e recuperação de novas áreas e pelo afastamento dos propágulos das plantas matrizes. Processos estes que reduzem os efeitos danosos do parentesco e da endogamia; restauram a fragmentação florestal e ainda reduzem a densidade de plântulas que germinam perto das matrizes de que tiveram origem, o que reduz doenças, predação e a competição entre irmãos (Janzen, 1970; Connell, 1971, 1979). Neste sentido, é fundamental destacar que o agente responsável por estes serviços de valor inestimável é a fauna, e que grande importância deve ser dada à manutenção de áreas que ofereçam condições para sua sobrevivência (Howe e Smallwood, 1982; Morellato e Leitão-Filho, 1992; Phillips, 1997).

Analisando os dados obtidos, pode-se perceber que a principal forma de dispersão que ocorre com os frutos do palmiteiro é a primária, pois o transporte de 39,4% (±4,2%) do total de frutos produzidos ocorre pela ação direta da fauna sobre as infrutescências (Tabela 1 e Figura 5).

Os animais mais observados alimentando-se nas infrutescências, durante as avaliações, foram as aves, e dentre elas, as mais comuns foram: tucanos (Ramphastus discolorus), araçaris (Baillonius bailoni, Selenidera maculirostris), aracuans (Ortalis squamata), tirivas (Pyrrhura frontalis), periquitos (Brothogeris tirica), papagaios (Pionus maxamiliani), sabiás (Turdus amaurochalinus, Platycichla flavipes) e outras aves de pequeno porte.

O comportamento alimentar mais comum observado, foi o transporte, como os próprios dados indicam, porém este se caracterizou, na maioria das vezes, como de pequena distância, o que resulta na curva

leptocúrtica de dispersão, concentrada próximo as matrizes, já observada por Reis (1995), Matos e Watkinson (1998) e Reis e Kageyama (2000).

Esta movimentação, basicamente se constitui no ato de apanhar os frutos em pequenos vôos e pousar em um poleiro próximo. Neste procedimento, 2,8% (±0,6%) do total de frutos foi derrubado abaixo dos cachos, dentro dos coletores. As aves mais observadas com este comportamento, foram as menores, e o fato de perderem os frutos provavelmente se deve a dificuldade de segurá-los.

Aves maiores, como tucanos, papagaios, periquitos e tirivas, procuram alimentar-se pousadas sobre as infrutescências. Tucanos, periquitos e tirivas geralmente realizam uma despolpa completa, ao contrário dos papagaios, que foram observados retirando apenas um lado da polpa, preferencialmente no lado do fruto onde se encontra uma pequena depressão, denominada de rafe. Este comportamento disponibiliza mais polpa para a fauna que se alimenta no solo, principalmente pelo fato de derrubarem muitos frutos em uma única visita.

Apesar da bibliografia citar a predação de sementes de Euterpe edulis por tirivas e papagaios este comportamento não foi observado. No caso das tirivas (Pyrrhura frontalis) por formarem bandos, observou-se relações de dominância entre os animais, onde de três a quatro aves alimentavam-se da infrutescência madura e, por disputa, forçavam as demais a alimentarem-se nas infrutescências imaturas da matriz em que pousavam. Esta ação, apesar de não destruir as sementes, exerce um efeito predatório, pois os embriões das sementes nos frutos imaturos estão em formação e conseqüentemente possuem limitada capacidade de germinação.

Nos coletores instalados nas matrizes, também foram capturados alguns animais, caídos e armazenados junto com os frutos, como por exemplo: ratos, cobras, aranhas, besouros, escorpiões, caracóis e grilos, bem como diferentes tipos de penas, pelos e fezes, sendo estas últimas, compostas na grande maioria das vezes, por polpa seca dos frutos de E. edulis. O habito de alguns animais defecarem sobre as infrutescências alerta para o risco de zoonoses. Dos animais caídos nos coletores, cabe destacar que uma espécie de caracol foi capturada 28 vezes, inclusive observada durante a contagem dos frutos. Esta espécie, realiza uma despolpa muito superficial dos frutos, deixando epiderme dos frutos rugosa, com o aspecto semelhante ao de um ataque de fungos. Estando sua presença sempre vinculada, como as de outras espécies de caracol, a semanas chuvosas e úmidas.

Além dos frutos de palmiteiro, sementes de 8 espécies foram observadas nos coletores (Inga sessiliss, Talauma ovata, Cabralea canjerana, Virola oleifera, Annona cacans, Ocotea sp, Eugenia sp., e sementes de uma liana não identificada), retratando o transporte e a dispersão de propágulos de outras plantas, bem como o processo de alimentação dos animais, que envolve visitas em diferentes espécies da flora.

Já a dispersão secundária, que caracteriza-se pela movimentação dos frutos caídos no solo, envolveu o transporte de 12,6% dos frutos que chegam ao chão (Figura 5), 11% do total de frutos produzidos, que tem como origem 19,8% de frutos intactos, 25% de frutos despolpados, 2,8% de frutos arranhados e 39,4% de frutos transportados (Tabela 1). Sendo representada principalmente pela movimentação dos frutos maduros que chegam ao solo, responsáveis por 86,2% da dispersão secundária. Cabe destacar, que este valor de 11% da dispersão secundária é subestimado, pois a fauna que se alimenta no solo, pode ainda, movimentar os frutos e sementes transportados pela dispersão primária. No entanto, este percentual não será muito maior, pois como os animais na dispersão primária transportam os frutos motivados pelo interesse na polpa, os frutos muito provavelmente serão descartados despolpados, e como apresentado na Tabela 02, estes são pouco dispersados pela fauna que atua no solo.

Dos animais observados no solo, destacam-se as formigas e roedores. Entre as formigas, foram observadas duas espécies, e ambas não transportaram os frutos. A formiga tigre (Dinoponera australis), que embora seja considerada carnívora, despolpa os frutos onde os encontra, no nível do solo; e as formigas da segunda espécie (não identificada), mesmo sendo muito menores que as anteriores, preferem enterrar os frutos no processo de despolpa, geralmente a uma profundidade de 1cm. Não foram identificadas as espécies dos roedores que se alimentaram dos frutos de E. edulis, mas cabe destacar, que a medida que uma grande quantidade de frutos maduros começava a amontoar-se na área de amostragem, por volta de 100, tocas de ratos eram cavadas muito próximas, entre as raízes da planta matriz. A ação dos ratos, porém não se limitou a despolpa dos frutos no solo, pois estes animais conseguiram subir nas matrizes e alimentar-se sobre as infrutescências, fato confirmado pela captura acidental de dois animais dentro dos coletores. A captura acidental de uma jararaca (Bothrops jararaca) nos coletores, possivelmente faz parte deste ciclo ecológico, onde cobras também devem utilizar as infrutescências como território de caça.

Foram ainda observadas, 12 fezes de animais de maior porte, dispostas ao longo de carreiros, que continham em média 16,4 sementes completamente despolpadas e aptas a germinar, possivelmente atribuídas a catetos (Tayassu tajacu), que foram observados na área. O número máximo de sementes encontrado por fezes foi de 37 sementes.

2.4.5. Modelo do Consumo de Frutos e Percentual de Sementes