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3. RESULTADOS E DISCUSSÃO

3.3 DISPONIBILIDADE ALIMENTAR

Relativamente à avaliação da disponibilidade alimentar da Gralha-de-bico- vermelho, foram realizadas amostragens nos locais de alimentação, utilizando armadilhas

Pitfalls para captura de macroinvertebrados terrestres. No total das duas amostragens

(Primavera e Verão do ano de 2008) foram capturados 2247 espécimes na serra do Barroso e 133 na serra do Alvão pertencentes a três Filos taxonómicos diferentes: Artrópodes, Anelídeos e Cordados (Figura 44).

ARTHROPODA INSECTA DIPTERA MUSCIDAE SYRPHIDAE THYSANOPTERA PHAEOTHRIPIDAE HYMENOPTERA FORMICOIDEA APOIDEA VESPOIDEA COLEOPTERA CARABIDAE CANTHARIDAE CERAMBYCIDAE HEMIPTERA GERRIDAE MIRIDAE ORTHOPTERA GRYLLIDAE ACRIDIDAE LEPIDOPTERA NYMPHALIDAE ARACHNIDA ARANEAE ARANEIDAE ENTOGNATHA DIPLURA CAMPODEIDAE COLLEMBOLA LEPIDOCYRTINAE CHILOPODA GEOPHILOMORPHA LINOTAENIIDAE LITHOBIOMORPHA LITHOBIIDAE PAUROPODA PAUROPODINA PAUROPODIDAE ANNELIDA

Página | 66 CLITELLATA OLIGOCHAETA CHAETOPODA CHORDATA MAMMALIA INSECTIVORA SORICIDAE RODENTIA CRICETIDAE AMPHIBIA ANURA BUFONIDAE

Figura 44 – Representação esquemática dos Filos capturados através da utilização de armadilhas Pitfalls na serra do Alvão e do Barroso.

Uma vez que o presente estudo pretendia avaliar a disponibilidade alimentar da Gralha-de-bico-vermelho, foram apenas considerados os espécimes pertencentes ao Filo dos Artrópodes.

Na Figura 45 são apresentados os resultados referentes à serra do Alvão. Pode-se verificar que houve um notório aumento de espécimes capturados da Primavera para o Verão, sobretudo no habitat rupícola (R2).

Figura 45 – Variação do número de indivíduos capturados, por cada local, nas duas amostragens na serra do Alvão (R1 e R2 – Rupícola), na Primavera e no Verão de 2008.

Na serra do Barroso, também se verificou um aumento do número de indivíduos capturados da Primavera para o Verão. Esse acréscimo foi bastante evidente principalmente no habitat rupícola (R1) e na área controle, composta por matos (Figura 46).

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Figura 46 – Variação do número de indivíduos capturados, por cada local, nas duas amostragens na serra do Barroso (R1 e R2 – Rupícola; Q1e Q2 – Queimado; L1 e L2 – Lameiros; Ag1 e Ag2 –

Agrícola).

Note-se ainda para o facto de não ter sido possível a amostragem no ponto agrícola (Ag1), no período de Verão, porque, na altura da visita, este ainda se encontrava coberto por cereal, tendo-se optado pela não realização da amostragem para não causar danos na cultura da propriedade privada onde se localizava o ponto de amostragem.

Em termos de diversidade, o grupo dos Hymenoptera foram os mais abundantes na serra do Alvão (69%), seguido dos Araneae e Diptera (13% e 12%, respectivamente). Na serra do Barroso, o grupo mais abundante foi o Araneae com 28%, seguido do grupo dos

Coleoptera, Orthoptera e Hymenoptera (Figura 47).

Figura 47 – Diversidade de Artrópodes identificados na serra do Barroso e na serra do Alvão.

Página | 68 Um dos fundamentos que poderá ter contribuído para a ocorrência de maior diversidade na serra do Barroso, pode dever-se ao facto de a amostra neste local em termos de habitats ter sido superior do que na serra do Alvão.

Na serra do Alvão, comparando o habitat rupícola e a zona de mato, é nítida a aproximação em termos de diversidade (Figura 48). Esta aproximação poderá estar relacionada com o facto de no período em que se colocou as armadilhas, as duas áreas rupícolas amostradas possuírem uma quantidade considerável de mato.

Figura 48 – Representação da diversidade no habitat rupícola e na área controle (área com mato), na serra do Alvão.

Na serra do Barroso, foi possível constatar uma maior diversidade de macroinvertebrados nos habitats frequentados pelos indivíduos de Gralha-de-bico- vermelho, quando comparados com a área de mato (Figura 49). Apesar disso, observa-se igualmente, que o grupo Hymenoptera é o grupo com maior percentagem de indivíduos identificados em todas as áreas amostradas.

Página | 69 Queimado Agrícola Rupícola Lameiros Mato

Figura 49 – Diversidade nos diferentes habitats amostrados na serra do Barroso.

Rolando et al., (2001), refere a existência de uma correlação significativa entre a frequência de alimentação e a temperatura, assegurando que a taxa de alimentação da Gralha-de-bico-vermelho acresce com o aumento da temperatura do ar. No Verão, o aumento das temperaturas possibilita uma maior disponibilidade de insectos, permitindo aos indivíduos da espécie em estudo tornarem-se mais activos na procura de alimento.

A vegetação existente nos pontos onde foram colocadas as pitfalls, é essencialmente composta por coberto arbustivo (na serra do Alvão) e por coberto herbáceo e solo nu (na serra do Barroso) (ANEXO V).

Relativamente à diversidade florística pode constatar-se um número muito semelhante de espécies entre os habitats rupícola 2 (R2) e de matos. No habitat rupícola 1 (R1) foram registadas 10 espécies (Figura 50).

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Figura 50 – Número total de espécies de flora representadas em cada um dos habitats, na serra do Alvão.

A caracterização da vegetação nos pontos onde foram colocadas as armadilhas

pitfalls na serra do Barroso, mostrou possuir uma grande diversidade de espécies nos

vários habitats amostrados (Figura 51).

Figura 51 – Número total de espécies representadas em cada um dos habitats, na serra do Barroso.

As características dos locais de alimentação desta espécie são bastante semelhantes, estando referidas como zonas normalmente de mato rasteiro e disperso, intercalado com manchas de herbáceas ou zonas de solo descoberto (queimado ou erodido), sendo o terreno relativamente pedregoso. Nestes locais é também possível observar excrementos de gado.

Página | 71 Nos Picos da Europa, num estudo realizado por Dory (1983), obteve-se uma relação trófica entre a alimentação dos indivíduos de Gralha-de-bico-vermelho e a estações do ano: no Outono (animal: género Podismas e vegetal: Juniperus); no Verão (animal: Aphodius,

Staphylinus, Geotrupes e Araneus e vegetal: Crataegus e Ilex); na Primavera (animal: Melolontha, Chortippus, Gryllus e vegetal: Prunus avium e Prunus spinosa) e no Inverno

(animal: Formigas e Minhocas e vegetal: Pyrus).

Segundo Soler et al., (1993), os casais reprodutores durante a incubação e o período de choco, empregam mais de 90% do tempo em actividades de colheita de comida, sendo a alimentação da espécie constituída principalmente por larvas de moscas (Diptera:

Tipulidae), capturadas ao nível do solo. Este autor analisou também distintas fracções da

dieta desta espécie, recolhidas nos dormitórios comunitários, tendo encontrado dois tipos: animal e vegetal. Ele concluiu que a fracção animal constituía cerca de 50% do volume da dieta nas quatro estações. Sementes e grãos eram os elementos vegetais mais importantes, sendo que as presas animais eram cerca de 60% abelhas (Família: Tenebrionidae). Este autor constatou ainda que houve uma marcada variação sazonal na composição em ambas as fracções vegetais e animais, estando esta última associada com uma variação na ocorrência de Orthoptera, larvas de Lepidoptera e Formicidae.

Outra prova da componente vegetal na alimentação desta espécie encontra-se descrita no trabalho realizado por Blanco et al., (1994), que refere que as azeitonas fazem parte da dieta de muitas espécies de aves incluindo os corvídeos. A variação de estação para estação do consumo de azeitonas por parte da Gralha-de-bico-vermelho e a sua importância energética invernal foram estudadas por este autor no Sudeste de Madrid, Espanha. Neste local, os indivíduos de Gralha-de-bico-vermelho utilizavam como dormitório uma gruta vertical situada num corte fluvial, no qual eram recolhidas regularmente sementes de azeitona regurgitadas durante a noite pelas aves, para posterior estimação do índice de consumo mensal. Como resultados estes autores obtiveram que as aves consumiam azeitonas durante todo o ano, especialmente durante o Inverno.

Bignal et al., (1996) ao analisar os locais onde as Gralhas se alimentavam, observou que as aves apenas exploravam os locais onde as larvas de Tipulidae eram abundantes.

Na serra do Barroso, durante os trabalhos de campo, foram bastante visíveis as “bicadas” no solo feitas pelos indivíduos de Gralha-de-bico-vermelho, tal se pode ver na Figura 52.

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Figura 52 – Indício da presença de indivíduos de Gralha-de-bico-vermelho em zonas de alimentação.

Na serra do Barroso, nos dormitórios de Gralha-de-bico-vermelho foi possível observar dejectos que poderiam permitir uma análise posterior da dieta alimentar. Contudo, devido a inacessibilidade dos locais, esses dejectos não puderam ser recolhidos.

McCracken et al., (1992) estudaram a dieta alimentar desta espécie através de análises aos dejectos. As larvas das famílias Tipulidae e Bibionidae, foram os invertebrados mais abundantemente identificados. Foram também identificados adultos de

Coleoptera: Carabidae, Curculionidae, Elateridae, Staphylinidae e Scarabaeidae,

principalmente animais que podem ser encontrados na superfície do solo. A análise multivariada testada por estes autores indicou que a abundância sazonal e a disponibilidade de presas são os factores que mais influenciam a dieta anual da Gralha-de-bico-vermelho.