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A forma com a qual um grupo humano organiza-se formalmente (como associação, ONG, comité, cooperativa, entre outros) dentro dum Estado-Nação, é necessariamente vinculada a um campo político-jurídico que normatiza as possibilidades organizacionais, os papéis sociais e suas funções, ligando assim a emergência formal de um sujeito coletivo a uma história de controle e gestão da vida social. Isto significa que tal sujeito coletivo entrará desta forma a ser parte da vida pública, participando (no sentido também de tomar parte) dum conjunto historicamente pré-estruturado de relações de poder.

Acho extremamente fecundo para minha análise levar em consideração a dupla natureza de qualquer organização formal, representada pelas relações sociais informais das quais nasceu, e pela estrutura organizacional formalmente estabelecida. A formalização é um caminho pautado por condições que pressupõem adaptação e/ou ressignificações criativas dos vínculos formais. Por isso, torna-se necessário descrever o contexto histórico que define as condições de possibilidade da entrada da RSR na arena pública em quanto sujeito formal. Um contexto feito de relações sociais entre diferentes atores.

A perspectiva que movimenta minha descrição da RSR é um olhar atento às dinâmicas sociais, aos conflitos existentes e às relações de poder que estruturam o campo político, na qual um ressalte especial é atribuído à interpretação individual dos papéis sociais por meio das histórias de vida dos atores sociais envolvidos.

No estrutural-funcionalismo inglês tratar a organização social de um grupo humano significava, geralmente, descrever o conjunto de normas que permitem disciplinar a interação entre indivíduos que ocupam e desempenham determinados papéis sociais. Esta organização representa a estrutura social:

as relações sociais, das quais a rede contínua constitui a estrutura social, não são conjunções acidentais de indivíduos, mas são determinadas pelo processo social, e qualquer relação é aquela em que a conduta das pessoas em suas interações com as demais é controlada por normas, regras ou padrões (RADCLIFFE-BROWN, 1973, p.17).

Esta primeira elaboração do estrutural-funcionalismo britânico foi criticada, por vários autores associados à chamada Escola de Manchester, por ter focalizado a atenção nos papéis sociais mais do que nos indivíduos (completamente inexistentes na formulação de Radcliffe-Brown), na manutenção da estrutura social mais do que nas possibilidades de mudança, na adaptação (ecológica, cultural e social) às normas mais do que no conflito e no desvio das regras, levando a análise antropológica para visões a-históricas dos grupos humanos estudados (FELDMAN- BIANCO, 2010), e negligenciando completamente as relações de poder colonial existentes por efeito de uma certa cegueira teórica e epistemológica (GRIMALDI, 2013, p.24).

Quero lembrar apenas esses elementos teóricos, claramente conhecidos na antropologia, enquanto considero que os autores com os quais dialogarei neste trabalho são de alguma forma tributários, diretamente ou indiretamente, destas reflexões, próprias da antropologia britânica.

Na fricção entre indíviduo e papel social, entre agência e estrutura, coloca-se a noção de habitus de Bourdieu. Noção controversa, mas ao mesmo tempo fundamental para uma teoria da prática. Segundo o antropólogo francês os

habitus são sistemas de disposições duradoras e transmissíveis (...)

princípios geradores e organizadores de práticas e representações que podem ser objetivamente aptas às suas finalidades sem pressupor a posição consciente de fins e o domínio explícito das operações necessárias para alcançá-los (...) o habitus, como sistema de estruturas cognitivas e motivacionais, é um mundo de fins já realizados, instruções ou procedimentos a seguir, e de objetos dotados de um “caráter teleológico permanente” (BOURDIEU, 2005, pp.84-85).

Na definição de Bourdieu é evidente como o habitus é inerente ao envolvimento do indivíduo num mundo prático. As “disposições” remitem a um saber

fazer, saber atuar, permitindo ao conceito de habitus de sair da cabeça das pessoas

para interessar os saberes do corpo (PIASERE, 2002, p.84).

Neste sentido, o sociólogo francês aproxima-se à teoria da prática de Ingold. Segundo o antropólogo britânico, Bourdieu tentou demonstrar como o conhecimento “em lugar de ser importado pela mente nos contextos experienciais, é gerado dentro desses contextos durante o recíproco envolvimento com os outros nas questões ordinárias e cotidianas” (INGOLD, 2016, p.71).

O habitus mostra-nos como habilidades e orientações são incorporadas de forma inconsciente. Aqui talvez resida a diferença principal com Ingold. Para este último, desenvolver uma capacidade de se movimentar no mundo está estritamente vinculada à atenção para o mundo. Atenção que é considerada como uma correspondência, um ser no mundo.

Ao mesmo tempo em que esta noção da agency se aproxima à prática, permanece ancorada aos humanos como os únicos capazes de se livrar da mecânica da causalidade. Como sublinhado no capítulo 1, optarei para a noção de “actante” (LATOUR, 2012) para me referir a agency humana e não-humana. Esta noção enquadra o alvo móvel da ação como a forma visível de um conjunto de atores aos quais nosso alvo esta diretamente ligado. Neste sentido, em lugar de procurar a explicação da ação dos sujeitos em macro-entidades como as classes sociais, o inconsciente, entre outros, iremos observar às relações por meio das quais os atores se movimentam.

As interações entre os seres no mundo formam um emaranhado de linhas, trajetórias históricas do movimento dos organismos no espaço, memória viva constantemente reatualizada na prática. Os processos indentitários são por mim entendidos como particulares emaranhados de humanos e não-humanos que formam os coletivos sócio-naturais.

De acordo com o ponto de vista que desenvolverei aqui e no próximo capítulo, emerge uma dupla natureza da Rede exemplificada na dúplice metáfora da rede como malha e da rede como pontos. O primeiro modelo de rede é formado por linhas que se entrelaçam, sustentam, crescem e multiplicam-se. O segundo modelo é representado pela visão mainstream que emerge por efeito do exercício atual do biopoder (FOUCAULT, 2001), no qual os seres viventes são pensados como pontos ou círculos em interação.

Por que os pontos? Porque uma linha pressupõe um desenvolvimento passado e futuro, o ponto é fixado num eterno presente. Como veremos no próximo capítulo, a forma de governo neoliberal é caracterizada pelo encerramento dos indivíduos num contínuo presente por meio de diferentes aparatos tecnológicos que contribuem à formação desta subjetividade pós-moderna.

A metáfora dos indivíduos, e das suas relações, como linhas, vem da “ecologia da vida” de Ingold:

Indeed nothing can escape the tentacles of the meshwork of habitation of its ever-extending lines probe every crack or crevice that might potentially afford growth and movement. Life will not be contained, but rather threads its way through the world along the myriad lines of its relations (2016, p.106).

Aqui Ingold constrói a sua visão da “rede da vida” (MOORE, 2017, p.83) em crescimento através de fendas e rachaduras de qualquer espaço físico pensado como limite ou controle do movimento.

O poder, seja no sentido do poder disciplinar seja no dos mecanismos de segurança descritos por Foucault (2004), é essencialmente interpretável como um conjunto de procedimentos e normas que gerem, limitam ou controlam a capacidade de movimento na rede da vida.

Minha hipótese é que a construção desta conceitualização da vida, como pontos (entidades discretas e separadas) que interagem, é funcional a um sistema de controle e gestão do Estado-Nação perante o movimento na rede da vida. Os dois movimentos (expansão da rede da vida e transformação constante) e a contenção (organização do tempo/espaço da vida social) existem em todos os coletivos de humanos e não-humanos (LATOUR, 1994).

O que há de exclusivo aqui são as formas de contenção atuais, por mim interpretadas como formas proativas, mais do que restritivas, baseadas nos dispositivos biopolíticos descritos por Foucault (2004) e centrados nos conceitos de população e ambientes (tratado seguidamente no capítulo 5).

Daqui deriva uma onto-política da realidade, uma concepção dos organismos viventes, e dos indivíduos humanos particulares, derivante do papel central com o qual os Estados-Nações organizam os campos de desenvolvimento dos organismos viventes como campos políticos.

É importante ressaltar que os Estados-Nações são por mim considerados como entidades múltiplas (formadas por distintos aparatos), que não têm autonomia em si, mas que estão ligados a relações econômicas e políticas globais, das quais dependem para a elaboração de suas múltiplas formas de agency.

O que emerge do meu trabalho é quanto a nossa percepção da realidade é construída dentro e por meio de relações de poder. É nesta ótica que vejo a formação da RSR. O desejo de se constituir formalmente e publicamente como sujeito coletivo é fruto da vontade de participar do embate público, tomando parte

nas relações de poder existentes a partir de uma determinada posição dentro do campo político no qual a noção de agro-biodiversidade tem certa centralidade.

Ao redor desta noção movimentam-se vários agentes sócio-naturais, formas de conhecimento e expertise, técnica de conservação e gestão e uma grande quantidade de dinheiro. Entrar nesse campo político significa ser parcialmente orientado pelas forças que já o tinham estruturado e cujas estratégias são, em muitos casos, naturalizadas e consideradas politicamente neutrais. Neste campo, saber e poder encontram-se extremamente entrelaçados, desde a centralidade e proeminência da linguagem científica, à emergência de novas formas de expertise e o consequente uso da tecnologia para resolver problemas morais e políticos (PELLIZZONI, 2015, p.22).

Por outro lado, entrar neste campo político como associação de segundo nível permite aos membros da Rede atuar em todos os níveis de estruturação das relações de poder, do local ao global. A rede nacional organiza num único movimento indivíduos, redes e associações locais e ao mesmo tempo formaliza-se no âmbito europeu numa coordenação que permite a realização conjunta de projetos e o compartilhamento de ideias e objetivos.

Ao fazer isto, na rede italiana por mim observada, uma atenção especial é dirigida à manutenção das autonomias locais e à criação de espaços, os mais horizontais possíveis, de discussão e compartilhamento de ideias. É assim possível observar a construção de espaços de conhecimento e re-conhecimento muito distintos dos hierarquicamente estruturados durante a modernidade, onde um cientista ou um experto estão imediatamente numa relação hierárquica diante de um agricultor.

Os mecanismos de subordinação são implícitos em muitos casos e não explicitados por nenhuma norma. Geralmente esses mecanismos, enquanto relacionais, são inscritos nas práticas: na forma de ocupar o espaço, de falar, de gerir o diálogo, na tomada das decisões, no conteúdo das coisas ditas e particularmente nas coisas não ditas, não compartilhadas.

Como veremos, o esforço de desconstrução desses mecanismos é inerente ao trabalho da Rede, embora passe por muitas dificuldades e obstáculos que a estrutura do campo político impõe.