2 DIALOGANDO COM OUTROS
2.3 Poder, governamentalidade e subjetivação política
2.3.1 Dispositivos de controles de condutas e a governamentalidade
Até aqui viemos destacando contextos de existência de Organizações Não- Governamentais e iniciamos uma discussão sobre a participação juvenil nestes espaços, pois estes são o contexto e o público com que dialogamos ao longo da tese.
A partir de então, cabe-nos problematizar os chamados modos de subjetivação a fim de que possamos, em seguida, investigar repercussões subjetivas desta participação, atentos às propostas e formas de execução de trabalho dos projetos sociais, que vão desde o atendimento a essa população (jovem como público-alvo), à proposição de formação política (jovem engajado em temáticas ou causas específicas), culminando com a formação de jovens trabalhadores de um “mercado do social”, tal como apresenta e discute André Sobrinho (2012). Nestas diferentes perspectivas, nosso foco está em perceber os dispositivos e as reverberações de subjetivação política em jovens que participam destes projetos.
Nosso olhar às relações de poder e suas repercussões na produção de modos de subjetivação tem inspiração foucaultiana. O filósofo Michel Foucault (2010a, p. 244) já
afirmou: “Não é o poder e sim o sujeito o tema geral da minha pesquisa”. Apesar desta afirmação, boa parte de sua obra traz o tema do poder não numa tentativa de conceituá-lo, mas de evidenciá-lo e problematizá-lo nas relações cotidianas, numa busca pela compreensão de seus mecanismos e implicações. Em seus livros, entrevistas e cursos, Foucault constrói interseções entre os dois temas: com o foco no sujeito (e modos de subjetivação), lança um olhar a dispositivos e estratégias que compõem relações de poder nas mais diversas instâncias: em instituições coercitivas – como as prisões e manicômios, no ambiente científico, nos discursos e na linguagem que permeiam relações afetivas, familiares, sexuais, médicas, etc. Foucault tematiza as relações de poder como constituintes das relações humanas e como condição de possibilidade de emergência do sujeito.
Assim é que, para pensarmos nos sujeitos ou nos modos de subjetivação, necessário faz-se, antes, conhecermos as reflexões construídas por Foucault quanto à temática do poder, uma vez que o próprio autor evidencia a imbricação destes elementos – sujeito e poder – em suas pesquisas: “quando o sujeito humano é colocado em relações de produção e de significação, é igualmente colocado em relações de poder muito complexas”22.
Como dissemos anteriormente, Foucault não teoriza sobre o poder, mas sobre as relações de poder. Para ele, um perigo a enfrentar são os esquemas mentais que as pessoas já evocam quando pensam em poder: vêm à tona idéias de estrutura política, de governo, de classes sociais dominantes, de relações hierárquicas e de subalternidade, e estas idéias são inflexões distintas de suas concepções acerca do poder. Para ele, o poder não deve ser conhecido como algo detido por um grupo dominante que deixa alijada a participação dos dominados. Foucault, aliás, não fala em poder, mas em relações de poder que se encontram em diferentes níveis, uma vez que são permeadas por mobilidade, reversibilidade e instabilidade, não sendo de autoria ou posse de apenas um sujeito:
Nas relações humanas, quaisquer que sejam elas – quer se trate de comunicar verbalmente, como o fazemos agora, ou se trate de relações amorosas, institucionais ou econômicas -, o poder está sempre presente: quero dizer, a relação em que cada um procura dirigir a conduta do outro. São, portanto, relações que se podem encontrar em diferentes níveis, sob diferentes formas; essas relações de poder são móveis (FOUCAULT, 2004, p. 276)
Percebemos, assim, junto à idéia de mobilidade, a existência de um poder que é ramificado e enraizado na sociedade. Assim, não haveria uma essência ou princípio de poder
22 Texto publicado por Foucault em 1982, como apêndice da primeira edição do livro “Michel Foucault: uma trajetória filosófica para além do estruturalismo e da hermenêutica”, de Hubert Dreyfus e Paul Rabinow (FOUCAULT, 1982).
que dominaria a todos ou ao menor dos elementos da sociedade, uma vez que ele estaria disseminado em toda a rede social. Tampouco o poder seria uma apropriação do Estado – este ser quase abstrato tantas vezes vocalizado diante de queixas de insatisfações sociais e políticas. O que temos é uma contínua estatização das relações de poder ou uma captura de focos de poder pelos aparelhos do Estado, mas as relações de poder preexistem ao Estado. Reconhece-se o poder do Estado, mas seu papel é relocado em relação a análises tradicionais, uma vez que se abandona qualquer modelo centralizador. Não há, enfim, pontos de poder, mas uma rede que articula e integra focos de poder como o Estado, o hospital, a escola, as prisões, os asilos, a família, a relação entre marido e esposa, empregado e empregador, colegas de trabalho.
Para que haja relações de poder, a condição é que estejamos lidando com sujeitos livres: “se um dos dois estiver completamente à disposição do outro e se tornar sua coisa, um objeto sobre o qual ele possa exercer uma violência infinita e ilimitada, não haverá relações de poder” (FOUCAULT, 2004, p. 276). A condição de seres livres está na possibilidade de, somente assim, o poder ser dotado de mobilidade e circularidade. Para que haja relações de poder, tem que restar ao outro da relação a possibilidade de condutas, estratégias e subterfúgios que invertam a situação. Não há poder sem liberdade e sem potencial de revolta.
Foucault (2004) afirma ainda que o poder, tal como o concebe, não é mau, mas é compreendido como jogos estratégicos através dos quais os indivíduos tentam conduzir a conduta de outros sendo, também, conduzidos por eles. Noutras obras do autor encontramos, inclusive, sua defesa acerca dos efeitos produtivos das técnicas e estratégias do poder: “o que faz com que o poder se mantenha e que seja aceito é simplesmente que ele não pesa só como a força que diz não, mas que de fato ele permeia, produz coisas, induz ao prazer, forma saber, produz discurso” (FOUCAULT, 1979, p. 08).
Maia (1995) também reflete sobre esta perspectiva produtiva e até sobre uma positividade do poder:
Ora, chega a causar estranheza se imaginarmos que as relações de poder se fundam exclusivamente em um caráter negativo: como explicar o sucesso das inúmeras redes de dominação existentes em sociedade? Como explicar a relativa tranqüilidade do poder burguês em uma sociedade injusta e desigual, onde uma iníqua divisão de bens e poder vem se perpetuando com certa facilidade? Talvez seja modificando nossa percepção do fenômeno do poder que possamos entender melhor essa dinâmica (p. 86).
Compreendendo o aspecto produtivo do poder – produz realidades, produz jogos de verdade, produz modos de subjetivação –, interessa a Foucault uma compreensão acerca de como estas relações de poder se estabelecem, quais as táticas e estratégias empregadas, como
funcionam. O interesse, assim, está em fundar uma perspectiva analítica do poder que esteja atenta ao seu funcionamento em campos e discursos específicos e não uma teoria geral do poder que tenha uma perspectiva a-histórica, geral, globalizante e, por que não, naturalizante dos sujeitos em relação. Como reflete o próprio autor:
Se o objetivo for construir uma teoria do poder, haverá sempre a necessidade de considerá-lo como algo que surgiu em um determinado momento, de que se deveria fazer a gênese e depois a dedução. Mas se o poder é na realidade um feixe aberto, mais ou menos coordenado (e sem dúvida mal coordenado) de relações, então o único problema é munir-se de princípios de análise que permitam uma analítica do poder (FOUCAULT, 1979, p. 154).
A analítica do poder é apenas uma das vertentes dos estudos empreendidos por Michel Foucault, mas é uma perspectiva a que muitos pensadores e cientistas sociais vêm dedicando atenção. De modo geral, a sua obra é ordinariamente dividida em três fases. Compreendemos a primeira delas como uma fase arqueológica, cujo foco está na relação ser-saber, na qual a questão central pode ser identificada em: como nos tornamos sujeitos do conhecimento? A segunda fase, a que chamaremos de genealógica – e é aquela em que temos centrado nossas observações – tem seu foco na relação ser-poder. Uma questão que se põe nesta fase é: como nos tornamos seres que se relacionam e que exercem ações sobre os outros? O terceiro tempo foucaultiano está identificado com o estudo da ética e a relação ser-consigo, quando a questão que se põe é: como nos tornamos senhores de nossa moral e de nós mesmos?23
Embora o olhar ao sujeito em relações de poder esteja presente em toda a obra, chamam-nos a atenção os diferentes focos: na relação com os saberes científicos, quando os sujeitos são produzidos pelas ciências médicas e sociais (Fase 1); na relação com instituições, com o Estado e com o outro, quando o poder circula nas relações interpessoais e institucionalizadas demandando modos de existência (Fase 2), e na relação consigo, quando o sujeito precisa dominar-se, exercendo o poder sobre si mesmo (Fase 3).
Na fase 2 – a genealógica – quando a analítica do poder se centrou sobre as estratégias e tecnologias de poder em uso pelas instituições, pelo Estado e pelas pessoas na perspectiva da condução das condutas, identificamos algumas modalidades de exercício de poder, como a soberania24, a disciplina25 e a biopolítica26.
23
Agradeço às trocas realizadas numa produtiva tarde com o amigo e professor Taciano Valério, com quem essa construção temporal da obra foucaultiana foi ganhando cor e forma.
24 No poder de soberania, a gestão da vida tem como um dos atributos fundamentais a decisão sobre a vida ou a morte do outro, ao que Foucault chama “deixar viver e fazer morrer”. Nesse sentido, quando os indivíduos se reúnem para constituir um soberano, o fazem no intuito de proteger a própria vida, pois a vida e a morte dos súditos só se tornam direitos pelo efeito da vontade soberana. Outra característica é que o bem comum vai
Embora existam estas diferentes modalidades, ao final, parece-nos que todos eles, de algum modo, persistem em direção ao exercício de um controle social, controle este que alcança tanto indivíduos particulares (funcionando, as disciplinas, como uma ação anátomo- política do corpo), como populações (cujo objeto é biopolítico e está no corpo vivente, no corpo-espécie), todos reunidos sob o nome de biopoder. Este último se mostraria, então, em sua dupla face – com o poder sobre a vida e sobre a morte – numa estatização da vida.
Mas como funcionam esses sistemas? A que estratégias recorrem, a quem se dirigem, de que modo se exercem? Estas também eram, possivelmente, questões levantadas por Foucault. Castro (2009, p. 326) assim sintetiza algumas problematizações levantadas pelo citado pensador:
A pergunta de Foucault não é o que é o poder, mas como ele funciona. Desde as extremidades, desde um ponto de vista positivo e reticular sobre o poder, haverá que se perguntar: a) que sistemas de diferenciação permitem que uns atuem sobre outros (diferenças jurídicas, tradicionais, econômicas, competências cognitivas, etc); b) que objetos se perseguem (manter um privilégio, acumular riquezas, exercer uma profissão); c) que modalidades instrumentais se utilizam (as palavras, o dinheiro, a vigilância, os registros); d) que formas de institucionalização estão implicadas (os costumes, as estruturas jurídicas, os regulamentos, as hierarquias, a burocracia); e) que tipo de racionalidade está em jogo (tecnológica, econômica). Cada uma dessas instâncias quer descrever e analisar modos de ação que não atuam direta ou indiretamente sobre os outros, mas sobre suas ações.
Embora o filósofo esteja voltado a uma analítica do poder, é ele mesmo quem, contudo, reflete as dificuldades em se produzir ferramentas capazes de viabilizar o estudo das relações de poder. Uma estratégia que ele defende é a de analisarmos o poder a partir de seus antagonismos (estudar a loucura para conhecer a sanidade, por exemplo), oposições (a
existir quando todos os sujeitos obedecerem às leis, quando exercerem positivamente seus cargos e ofícios. O poder sobre a vida e a morte dos súditos é ritualizado e visibilizado na soberania (FOUCAULT, 2010b). 25 O poder disciplinador, como o próprio nome sugere, é baseado na disciplina e na normalização de condutas e
comportamentos, manifestando-se sob o formato de uma vigilância dos pormenores. Há um esquadrinhamento do tempo, do espaço e dos movimentos dos corpos individualizados. Esse controle minucioso das disciplinas tem como fim a sujeição dos corpos e uma relação de docilidade-utilidade, a fim de que se produzam corpos úteis e dóceis política e economicamente. O objetivo que se almeja é o aumento do domínio de cada um sobre si, sobre seu corpo, aumentando-lhe suas habilidades e tornando estes corpos tanto mais obedientes quanto úteis (FOUCAULT, 2011).
26 A biopolítica se instaura como tecnologia de poder mapeando e controlando fenômenos populacionais como natalidade, mortalidade, longevidade, identificando e tratando endemias, sua natureza, extensão, duração. É a natureza dos fenômenos que é levada em consideração: fenômenos coletivos que só aparecem com seus efeitos econômicos e políticos e que só se tornam pertinentes no nível da massa. A população aparece como objetivo último do governo que se volta a melhorar o seu destino com o intuito de aumentar riquezas. Assim é que é introduzida uma medicina cuja maior função é de higiene pública e garantia de extensão da vida. O olhar e as ações, nesse sentido, não se dirigem mais ao homem-corpo, mas ao homem ser-vivo, ao homem-espécie. Vive-se o “fazer viver e deixar morrer” (FOUCAULT, 2010a; 2010b).
oposição ao poder do homem sobre as mulheres ou do pai sobre os filhos) e das lutas27. Sobre estas, Foucault distingue três tipos, mas inclinando-se mais fortemente sobre uma delas, argumentando ser esta a luta que prevalece sobre todas as outras: trata-se da luta contra formas de sujeição.
Refletir sobre a luta pela expressividade de uma subjetivação que não seja aquela previamente determinada e moldada por forças políticas e sociais com fins de manutenção de privilégios é, portanto, um modo de nos implicarmos numa reflexão sobre dispositivos de poder que são utilizados com fins de governar e, então, de sujeitar. Como reflete o autor: “O poder, no fundo, é menos da ordem do enfrentamento entre dois adversários ou do compromisso de um frente ao outro que da ordem do governo” (FOUCAULT, 2010e, p. 276).
E para Foucault o governo, ou as relações de governança, só podem existir quando lidamos com sujeitos livres, ou seja, sujeitos que dispõem de um campo de reações, condutas e comportamentos possíveis. Onde as determinações estão saturadas, não há relações de poder ou de governamento.
Com efeito, o saber e o poder se apoiam e se reforçam mutuamente. E não há como negar o expressivo poder-saber de instituições educativas, familiares, corretivas, sem falar naquelas que se propõem como promotoras de formação complementar, cidadã, política, tal como ocorre em diversas Organizações Não-Governamentais que ocupam, em comunidades populares, o lugar de instituições de referência, de saber, atuantes numa proposição de formação de sujeitos políticos e agentes de transformação social. Nesse sentido, lançamos um olhar sobre as ONGs posicionando-as também como agentes de governamentalidade.
Edgardo Castro (2009) em seu Vocabulário de Foucault, assim define a governamentalidade:
Foucault utiliza o termo governamentalidade para referir-se ao objeto de estudo da maneira de governar. Há duas ideias de governamentalidade. Em primeiro lugar, um domínio definido por: 1) o conjunto constituído pelas instituições, procedimentos, análises e reflexões, cálculos e táticas que permitem exercer essa forma de exercício do poder que tem, por objetivo principal, a população; por forma central, a economia política; e, por instrumento técnico essencial, os dispositivos de segurança. 2) A tendência, a linha de força que, por um lado, no Ocidente, conduziu à preeminência desse tipo de poder que é o governo sobre todos os outros: a soberania, a disciplina, e que, por outro, permitiu o desenvolvimento de toda uma série de saberes. 3) O processo, ou melhor, o resultado do processo, pelo qual o Estado de Justiça da Idade Média converteu-se, durante os séculos XV e XVI, no Estado administrativo e, finalmente, no Estado governamentalizado. O estudo das formas de governamentalidade implica, então, a análise das formas de racionalidade, de procedimentos técnicos, de formas de instrumentalização. Em segundo lugar,
27 Tal discussão é assumida por Foucault no apêndice que faz à primeira edição do livro “Michel Foucault: uma trajetória filosófica para além do estruturalismo e da hermenêutica”, de Hubert Dreyfus e Paul Rabinow (FOUCAULT, 1982).
Foucault chama “governamentalidade” ao encontro entre as técnicas de dominação exercidas sobre os outros e as técnicas de si (p. 190-191).
A partir desta definição, compreendemos a governamentalidade como a produção de práticas, tecnologias, recursos e meios específicos a fim do exercício da governança, e que inclui o governo do Estado, o governo dos outros e o governo de si. Contudo, a fim de trabalharmos com este conceito de modo mais livre e até ampliado, recorreremos simplesmente ao termo “governo”, tal como propõe Bampi (2002, p. 128): “qualquer forma – mais ou menos – calculada e racionalizada de direção das condutas”. A noção de governo, assim, será usada para referir-se às diferentes maneiras de guiar, conduzir, dirigir a conduta dos indivíduos ou grupos, ou seja, a noção de governo apontará para a diversidade de forças envolvidas na regulação da vida.
A referida autora percorre a trajetória das obras foucaultianas a fim de identificar deslocamentos teóricos nas pesquisas que teriam levado a uma progressiva substituição do conceito de poder pela noção de governo. Assim afirma:
A partir de 1976, a noção de governo aparece como resultado de um deslocamento teórico no eixo do poder. A idéia de poder, como relação de forças, é substituída por uma noção de poder direcionada para uma teoria da ação que conduz à noção de governo. O governo passa a ser visto como uma espécie de região intermediária que não é liberdade nem dominação, não é consenso nem coerção. Tal região localiza-se
entre um tipo de poder como um conjunto aberto, reversível e estratégico de
relações entre as liberdades, e a dominação como algo que fixa e bloqueia essas relações. Por isso, o governo é viabilizado através das liberdades daqueles sobre os quais é exercido (BAMPI, 2002, 134-135).
A autora, além de indicar esse deslocamento teórico – do poder ao governo, da força à ação –, afirma que esta mudança é também acompanhada de uma abertura aos estudos das relações estratégicas ou movimentos de resistência. Reflete que, enquanto Foucault tratava de relações de poder, estas eram situadas a partir de uma linguagem da guerra, da batalha e da luta, o que identificava o poder à idéia de dominação (mesmo que o autor sempre tenha afirmado que não há relações de poder sem resistências). Porém, é ao falar do governo de condutas, do governo de um sobre o outro e sobre si mesmo, que a noção de jogos estratégicos entre sujeitos livres fica em evidência permitindo-se, assim, uma maior fruição das possibilidades – tanto de existência quanto de compreensão – de movimentos de resistência.
Do exposto percebemos que enquanto, de um lado, a governamentalidade ou o estudo dos governos trata da incidência do sujeito sobre si (auto-governo) e sobre um indivíduo ou grupo exterior, do outro lado – nas relações de dominação ou luta – o governo
se estabelece sempre a partir da lógica do controle sobre o outro e suas ações, domando-as e guiando-as. Seja, então, refletindo sobre a noção de poder – tal como afirmada por Foucault – ou analisando sua noção de governo, ambas perspectivas afirmam a presença de sujeitos livres, muito embora esta presença seja mais demarcada nas relações de governo (que se distanciam da noção de luta ou força). As relações de dominação, por sua vez, se afastam das lógicas anteriores, pois nela não há sujeitos livres; pelo contrário, na dominação só há espaço para o assujeitamento dos indivíduos e as vicissitudes do eu são completamente sufocadas.
Interessante destacar, porém, que embora possamos pensar que as relações de dominação só existiam em contextos como a escravidão, por exemplo – em que fica clara a existência de sujeitos não-livres – Foucault (2004) nos alerta à (ainda) existência de efetivas dimensões de dominação econômica, social, institucional e sexual. Nestas relações de dominação, encontramos sujeitos que vivem relações de poder fixadas e perpetuadas de modo assimétrico, com uma margem de liberdade extremamente limitada, sem condições de produção de subterfúgios que possam inverter a situação.
Desse modo se há, por um lado, relações de poder ou governança nas quais o sujeito é livre e há alternâncias ou mobilidades na condução das condutas há, por outro lado, contextos em que os limites determinantes entre uma condição de poder ou uma condição de dominação