3. Mapeamento das políticas públicas para jogos digitais (2003-2014)
3.3 Políticas de fomento e geração de demanda
3.3.2 Dispositivos de fomento ao setor do Audiovisual
Os produtos do setor de desenvolvimento de jogos digitais brasileiro, podendo ser caracterizados dentro das categorias do audiovisual interativo, passam a pleitear inclusão nas políticas que concernem ao setor audiovisual. Uma das demandas é que – a exemplo da Lei Rouanet – jogos eletrônicos sejam incluídos no escopo da Lei do Audiovisual (Lei 8.685/1993), que cria incentivos fiscais para pessoas jurídicas e físicas interessadas em investir em projetos de cunho exclusivamente audiovisual. O Artigo 1º se refere à aquisição dos chamados Certificados de Investimento Audiovisual, títulos representativos de cotas de participação em obras cinematográficas, cujo investimento é até 100% dedutível do Imposto de Renda, limitado a 4% do IR devido. O investidor torna-se cotista da produção a fundo perdido, com participação nos lucros gerados pela obra audiovisual na proporção de seu investimento no projeto.
A Lei do Audiovisual também substitui a Lei Rouanet para o investimento em Cinema de longa-metragem desde de 2007 (Artigo 1ºA, incluído pela Lei nº11.437/2006). Diante da dificuldade apresentada pelos projetos de jogos digitais para a captação de recursos pelo artigo 26 da Lei Rouanet, a inclusão destes no dispositivo da Lei do Audiovisual tornaria o investimento mais atrativo, principalmente ao oferecer cotas de participação nos lucros gerados. Outro dispositivo é o descrito pelo Artigo 3º, destinado ao investimento de empresas estrangeiras distribuidoras de obras audiovisuais no mercado brasileiro. As produtoras internacionais, que exploram obras audiovisuais em território nacional, podem abater até 70% do imposto de renda devido em contrato de coprodução com produtoras brasileiras.
Este dispositivo, caso os jogos digitais entrem no escopo da lei, estimularia o investimento e parceria de grandes produtoras estrangeiras com as empresas brasileiras, não só criando mais uma linha de investimento aos desenvolvedores locais, como possibilitando a criação de projetos mais ambiciosos e de maior projeção e alcance que os permitidos pelas condições financeiras e de infraestrutura locais. A Lei do Audiovisual é gerida pela Ancine (Agência Nacional do Cinema), agência
reguladora criada em 2001 pela Medida Provisória 228-1, que tem como atribuições o fomento, a regulação e a fiscalização do mercado do cinema e do audiovisual no Brasil. A agência foi criada no fim do governo Fernando Henrique e estava vinculada ao Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC), passando a ser subordinada ao Ministério da Cultura (MinC) no governo Lula em 2003.
A MP 228-1 também cria o CONDECINE (Contribuição para o Desenvolvimento da Indústria Cinematográfica Nacional), que incide sobre as obras cinematográficas e videofonográficas com fins comerciais. Caso os jogos digitais sejam incluídos no espectro da legislação, duas modalidades do CONDECINE poderiam ser aplicadas.
O CONDECINE Título incidiria sobre a exploração comercial de obras audiovisuais em cada um dos segmentos de mercado (salas de exibição, vídeo doméstico, TV por assinatura, TV aberta e outros mercados), com o valor da contribuição variando conforme o tipo da obra (publicitária ou não), o segmento de mercado e, no caso das obras não publicitárias, a duração (curta, média ou longa- metragem) e, ainda, a forma de organização da obra (seriada, na qual a cobrança se dá por capítulos ou episódios). Neste sentido, para incluir os jogos digitais uma regulação específica precisaria ser realizada, tanto para definir como estabelecer os segmentos de mercado explorados, como nos tipos de organização da obra, equacionando valores de contribuição realistas, com as condições do setor produtivo de games, que difere do cinema.
Essa diferenciação pode dificultar a cobrança e fiscalização do dispositivo, que precisa construir uma estrutura própria, alinhada com as demandas do setor de jogos digitais.
Já a modalidade do CONDECINE Remessa constitui uma alíquota de 11% que incide sobre a remessa ao exterior de importâncias relativas a rendimentos decorrentes da exploração de obras cinematográficas e videofonográficas, ou por sua aquisição ou importação. Estarão isentas do pagamento da CONDECINE as produtoras que optarem por aplicar o valor correspondente a 3% da remessa em projetos de produção de conteúdo audiovisual independente em território nacional, aprovados pela ANCINE.
Em um mercado digital de games que movimentou U$ 1,5 bilhões no Brasil em 2014 (SuperData, 2014), a retenção de parte deste faturamento para a produção de jogos digitais nacionais poderia impulsionar a consolidação da indústria de
desenvolvimento. A resistência à adoção do CONDECINE pode estar relacionada com a alta carga tributária que já incide sob jogos digitais. Com 72% de impostos, a inclusão de mais uma taxa pode encarecer o produto no Brasil. O alinhamento com o setor audiovisual, entretanto, pode abrir caminho para equacionar a carga tributária dos jogos digitais (a mesma que incide sob jogos de azar) com a do cinema, que é de 30%.
A partir da aprovação da Lei nº 11.437/2006 as receitas da taxa CONDECINE são voltadas para o Fundo Setorial do Audiovisual (FSA), e o recolhimento por parte dos jogos digitais possibilitaria eventuais editais voltados especificamente para o setor, por meio do fundo. Regulamentado pelo Decreto nº 6.299/2007, ele é destinado ao desenvolvimento articulado da cadeia produtiva do audiovisual, incluindo produção, distribuição/comercialização, exibição, e infraestrutura de serviços42 O FSA possui diversos programas voltados aos segmentos da indústria do audiovisual. Na área de produção e distribuição, há linhas de ação voltadas à produção cinematográfica (PRODECINE), produção de conteúdos audiovisuais independentes (PRODAV), além de uma linha dedicada para comercialização de obras cinematográficas (Programa Cinema Perto de Você).
42Diretrizes do FSA: Melhorar a posição competitiva das empresas brasileiras independentes de cinema e de audiovisual nos mercados interno e externo; Atuar em gargalos existentes no setor audiovisual; Ampliar o consumo dos produtos brasileiros do cinema e do audiovisual; Estimular modelos de negócios menos dependentes de recursos públicos e compartilhar os riscos inerentes da atividade audiovisual entre os agentes públicos e privados; Aperfeiçoar a competência artística, técnica, gerencial e financeira das empresas brasileiras do cinema e do audiovisual; Estimular a produção de conteúdo cinematográfico e audiovisual com alto grau de competitividade nos mercados doméstico e internacional; perfeiçoar a capacitação profissional do setor audiovisual. (ANCINE, 2008, p.5)
Tabela 5 - Orçamento do Fundo Setorial do Audiovisual
Fonte: Ancine, Online43
O principal programa do governo federal que se vale dos fundos do FSA é o Brasil de Todas as Telas, instituído pelo decreto nº 8.281/14 e formulado com base nos Planos de Diretrizes e Metas para o Audiovisual (ANCINE, 2013). Ele concede à Ancine poderes para adotar medidas que visam a desburocratização e a simplificação de procedimentos de fomento ao audiovisual. O primeiro dos quatro eixos do programa é o “Desenvolvimento de projetos, roteiros, marcas e formatos”, que recebeu 94 milhões de reais em investimento para três linhas de ‘Núcleos Criativos’, de ‘Desenvolvimento de Projetos’ e de ‘Laboratórios de Desenvolvimento’.
Os editais da linha são lançados por meio do Programa de Apoio ao Desenvolvimento da Indústria Audiovisual, PRODAV, voltado ao incentivo a projetos audiovisuais independentes em formatos variados, constando, como objetivo específico do desenvolvimento de projetos do Regulamento Geral do Programa, “incentivar a aproximação dos desenvolvedores de jogos eletrônicos com as cadeias produtivas de conteúdos para cinema e televisão, financiando o desenvolvimento de projetos integrados” (ANCINE, 2014, p.8), colocando entre os beneficiários “as
empresas brasileiras desenvolvedoras de jogos eletrônicos ou para outras obras audiovisuais” (p.11).
São cinco linhas de editais do PRODAV, sendo os dois primeiros voltados para projetos e conteúdos para o mercado da televisão e os demais voltados para o desenvolvimento de audiovisual. Os editais visam o desenvolvimento de projetos e obras audiovisuais destinados à TV paga e aberta, salas de exibição e vídeos por demanda (VOD) podendo prever a realização de episódios-pilotos, ‘webisódios’ e demos jogáveis, e realização de pesquisas qualitativas elaboradas por institutos de pesquisa, visando a contratação para apoio financeiro.
São três linhas, uma voltada para o desenvolvimento por meio de Núcleos Criativos (BRDE/FSA PRODAV 03/2013 e 03/2014), outra para o desenvolvimento por meio de Laboratórios de Desenvolvimento (BRDE/FSA PRODAV 04/2013 e 04/2014) e outra individual (BRDE/FSA PRODAV 05/2013 e 05/2014).
Somam-se os eixos de “Capacitação e formação profissional” (que inclui o PRONATEC Audiovisual); a “Produção e difusão de conteúdos brasileiros” (que envolve 700 milhões de reais investidos para produzir uma meta de 2 mil horas de conteúdo nacional); e o “Programa Cinema Perto de Você” (que envolve 350 milhões de reais para a abertura e modernização de salas de cinema em todo o Brasil).