3. Concepções teóricas acerca dos corpos dissidentes
3.1. Dispositivos de poder: o controle social dos sujeitos
Compreender como raça e sexualidade incidem sobre as experiências de vida das pessoas exige considerar questões culturais, históricas, econômicas e políticas, bem como levar em conta as relações sociais que se vinculam a essa construção. Nesse sentido, Oliveira (2017) e Carneiro (2005) travam um debate a partir do conceito de dispositivo de poder, desenvolvido por Michel Foucault (1979), para discorrer como se construiu uma série de discursos em torno da sexualidade e da raça, que irão influenciar a maneira como as relações sociais se estruturam. Esses discursos estabelecem
diferentes conexões, que operam em múltiplas instâncias, reproduzindo-se e remodelando-se ao longo do tempo, atendendo ao interesse de cada época.
A respeito dos dispositivos de poder, Foucault (1979) afirma:
através deste termo, tento demarcar um conjunto decididamente heterogêneo que engloba discursos, instituições, organizações arquitetônicas, decisões regulamentares, leis medidas administrativas, enunciados científicos, proposições filosóficas, morais, filantrópicas.
Em suma, o dito e o não dito são os elementos do dispositivo. O dispositivo é a rede que se pode estabelecer entre esses elementos. Em segundo lugar, gostaria de demarcar a natureza da relação que pode existir entre estes elementos heterogêneos. Sendo assim, tal discurso pode aparecer como programa de uma instituição ou, ao contrário, como elemento que permite justificar e mascarar uma prática que permanece muda; pode ainda funcionar como reinterpretação desta prática, dando-lhe acesso a um novo campo de racionalidade. Em suma, entre estes elementos discursivos ou não, existe um tipo de jogo, ou seja, mudanças de posição, modificações de funções que também podem ser muito diferentes. (Foucault, 1979, p. 244)
Esses elementos articulam-se em diferentes instâncias da vida social, dão origem a discursos e estabelecem relações de poder, que atendem à necessidade histórica de determinar o “certo” e o “errado” de cada período. Para Foucault “o dispositivo tem, portanto, uma função estratégica dominante” (1979, p. 244).
Nesse sentido, concordo com Oliveira (2017) e Carneiro (2005), as quais compreendem que a noção de dispositivo permite apreender as inúmeras práticas que o racismo e a LGBTfobia engendram na sociedade brasileira, a partir de uma série de discursos, tanto relativos à raça quanto a sexualidade, construídos em diferentes
momentos. Compreender como esses discursos se constituem e se articulam possibilita visualizar as relações de poder que estruturam a sociedade brasileira e explicitar a maneira como raça e sexualidade se estabelecem como um dispositivo de “enunciação sobre o Outro” (Carneiro, 2005, p. 39).
Esse Outro13 permite situar a normalidade a partir de determinadas
características e comportamentos. Dessa maneira, as noções de raça e de sexualidade serão determinadas pelos discursos produzidos, ao longo do tempo, para definir a diferença entre os indivíduos, estabelecendo padrões binários como normal/anormal, certo/errado, bonito/feio, dentre outros dualismos que caracterizam a sociedade e fundamentam as estruturas de poder que organizam as relações presentes nela.
Sendo assim, é importante lembrar que a escola e o cinema fazem parte dessa estrutura de poder e constituem peças fundamentais do que Foucault denomina
“sociedade disciplinar”. A produção de sujeitos disciplinados se dá pelo emprego de exercícios de poder (Oliveira, 2017), que se concretizam em forma de conhecimento, nas imposições de maneiras de se comportar, na produção imagética sobre determinados grupos sociais.
Esses elementos são engendrados em um sistema que se constitui a partir de discursos: religiosos, científicos, instrumentos legais, produções artísticas. Tais discursos se convertem em ações e incidem diretamente sobre o corpo e a mente das pessoas, com o objetivo de legitimar a superioridade do modelo hegemônico, que corresponde ao do homem branco cis heterossexual.
Historicamente, as categorias de raça e de sexualidade foram convertidas em dispositivos de poder, que incidem sobre indivíduos, com o intuito de controlá-los. Esse controle é a peça-chave que estrutura as relações sociais. Sendo assim, o racismo e a LGBTfobia14 são efeitos da aplicação das técnicas de poder e podem ser interpretados como resultado de exercícios disciplinadores que permitem o controle do corpo e da subjetividade de indivíduos, em uma busca constante da “normalização” do
comportamento desses grupos de acordo com o modelo dominante. Oliveira explica que “dos negros e dos homossexuais, espera-se que tomem como referência de normalização a heterossexualidade e a branquitude hegemônicas” (2017, p. 47).
Identificar os paradigmas em que se fundamenta aquilo que se considera como normalidade, bem como compreender seu modus operandi oferece importante aporte conceitual para a discussão da minha pesquisa, uma vez que racismo e LGBTfobia se inter-relacionam na vida de um(a) LGBTQ+ negro(a).
Nesse sentido, Oliveira (2017) esclarece que há duas ações distintas, as quais incidem sobre os mesmos indivíduos. De um lado, há o racismo, que atua de maneira velada, inclusive pelas implicações legais que podem recair sobre sujeitos que o explicitem15, o que impossibilita afirmar, com certa frequência, se determinadas falas e atos são racistas. De outro lado, existe a LGBTfobia16, que tende a ser mais explícita e a manifestar-se na vida diária, pois discursos e atos ridicularizando e inferiorizando pessoas LGBTQ+ podem ser observados, cotidianamente, em diversos espaços, incluindo a escola e os meios de comunicação. Concordo com a autora, quando afirma que:
O racismo e a homofobia não operam da mesma maneira e com a mesma intensidade, e dificilmente atuam de forma simultânea, ao menos na maioria das vezes, na vida dessas pessoas.
Sendo assim, posso supor que na vida de algumas delas o racismo pode ter um peso maior, assim como a homofobia poder ter um peso maior na vida de outras. (2017, p. 49)
As diferentes incidências do racismo e da LGBTfobia na vida das pessoas estão relacionadas à maneira como raça e sexualidade se converteram, historicamente, em dispositivos de controle. Daí a necessidade de explicitar esse processo histórico, seja para compreender diferenças, seja para assinalar as mudanças que ocorreram em resposta à atuação e à resistência dos grupos atingidos por esses dispositivos, pois o jogo de forças não é estático nas relações de poder e, conforme reforça Oliveira (2017).
Nesse sentido, Britzman (2019) lembra que, para Foucault, a produção das identidades envolve uma dinâmica, decorrente da tensão que se estabelece entre a atuação dos dispositivos de controle, que tentam forçar os sujeitos a se encaixarem nos padrões estabelecidos como modelos, e a resistência de novos grupos identitários, os quais passam a demandar ações capazes de contemplá-los. Segundo a autora, “Com a produção dessas novas e conhecidas identidades vêm junto as demandas daqueles grupos assim identificados, demandas que estruturam movimentos sociais atuais tais como feminismo, os direitos civis de gays e lésbicas, os direitos das crianças e a educação antirracista”. (2019, p. 127).
A afirmação da autora elucida a gênese do embate que se desenvolveu ao longo dos últimos séculos, quando negros, LGBTQ+, mulheres e tantos outros grupos
identitários empreenderam ações, para ter suas existências reconhecidas. Para melhor compreendê-lo, é necessário investigar o processo por meio do qual a sexualidade e a raça se converteram em dispositivos de poder.