1. ESTABELECENDO UM CAMPO DE ANÁLISE
1.6. Dispositivos disciplinares: os documentos
A preocupação com a marginalidade, em que relações de gênero e diversidade sexual assumem nos currículos de Psicologia remontam a ordem dos dispositivos disciplinares, pois ao analisarmos os documentos oficiais do Ministério da Educação, do Conselho Federal de Psicologia e dos Projetos Pedagógicos dos
59
cursos de Graduação das Universidades, encontramos as sutilezas dos discursos disciplinadores que reproduzem a organização do lugar de gênero e diversidade sexual, ao manter este poder longe dos “olhos” vigilantes da disciplina, silenciados, e com eficiência reproduzir a legitimação do lugar de poder.
A construção de dispositivos hierárquicos de disciplinamento utilizam de várias tecnologias, aqui compreendidos os documentos oficiais criados dentro do MEC e do CFP, e na sequência dentro das Universidades, os colegiados e departamentos, que institucionalizam as disciplinas curriculares em uma hierarquia na Graduação em Psicologia, delegam o caráter marginal ao tema de relações de gênero e diversidade sexual, apresentado em pequenos trechos como estudos transversais, que se espreitam entre as disciplinas, e os temas que surgem para além da grade curricular e não assumem caráter de poder legitimado.
Se os produtos da ciência podem ser considerados regimes de verdade, resultantes de processos históricos determinados a cada contexto social, segundo Foulcault (1979) se territorializam e desterritorializam desde as forças de poder circulantes no discurso social, passando igualmente de estruturantes e estruturados por ela, a moderna estratégia de governar se centraliza em produzir um cidadão governável, obediente e cumpridor das leis. Este é produzido por técnicas que transformam as características desejáveis em normais e naturais. Assim, há que se reconhecer segundo Fonseca (2008) a eficácia da ciência quanto ao seu poder performativo estruturante capaz de dizer as espécies que o mundo contem e as que dele se encontram excluídas.
Propostas subversivas dentro dos currículos de Psicologia se mantêm inertes à dominação masculina, ao recriar corpos adestrados e fabricados a irreflexão deste dispositivo de poder. Foucault ao falar da correta disciplina como arte para o bom adestramento refere:
O poder disciplinar é com efeito um poder que, em vez de se apropriar e se retirar, tem como função maior “adestrar”; ou sem dúvida adestrar para retirar e se apropriar ainda mais e melhor. Ele não amarra as forças para reduzi-las; procura ligá- las para multiplicá-las e utilizá-las num todo. Em vez de dobrar uniformemente e por massa tudo o que lhe está submetido, separa, analisa, diferencia, leva seus processos de decomposição até as singularidades necessárias e suficientes.
60
“Adestra” as multidões confusas, móveis, inúteis de corpos e forças para uma multiplicidade de elementos individuais (...). A disciplina “fabrica” indivíduos, ela é a técnica especifica de um poder que toma os indivíduos ao mesmo tempo como objetos e como instrumentos de seu exercício. Não é um poder triunfante que, a partir de seu próprio excesso, pode se fiar em seu superpoderio; é um poder modesto, desconfiado, que funciona a modo de uma economia calculada, mas permanente. (...) O sucesso do poder disciplina se deve sem dúvida ao uso de instrumentos simples: o olhar hierárquico, a sanção normalizadora e sua combinação num procedimento que lhe é específico, o exame. (FOUCAULT, 1987. p. 143)
E assim, esses documentos produzidos assumem lugar de poder que sanciona a construção dos meios pelos quais os profissionais serão adestrados. E ao compartimentalizar as disciplinas curriculares em pontos específicos e distintos produzem um não sentido histórico, uma impossibilidade de análise dos meios pelos quais produzimos e reproduzimos enquanto objetos do poder, a dominação e a subordinação à norma. Mesmo quando em alguns processos e experiências se tenta criar subversões a esta forma de poder, os desdobramentos e divisões de análise microscópica impossibilitam um rompimento a esta estrutura profundamente interligada.
Esta relação disciplinar é articulada e sutil, de forma que os próprios criadores das normas e regras disciplinares entendidas como “necessárias” ao bom profissional são submetidos e criados pelos mesmos dispositivos de poder, e expressam em sua forma de legitimar o poder, através dos documentos oficiais essas subordinações.
Considero ainda, que esta organização curricular que prioriza determinadas disciplinas e correntes teórico-ideológicas devem ser compreendidas como dispositivos disciplinares, e assim, na Psicologia as normativas propostas pela Câmara de Educação Superior no Conselho Nacional de Educação do Ministério da Educação sancionam dentro das diretrizes curriculares dos cursos de graduação em Psicologia o “necessário” para compor este curso, e ser adquirido durante a formação, os princípios, compromissos político-ideológicos e teórico- metodológicos, competências, habilidades gerais. Propostas que são incorporadas aos Projetos Político Pedagógicos dos cursos analisados, documentos
61
disciplinadores, que exercem um poder de legitimar e ignorar a temática de relações de gênero e diversidade sexual em seus princípios norteadores, fortalecendo a predileção por processos psicológicos individualizantes da constituição das relações.
Assim, as discussões mantêm concepções que compreendem os seres humanos como generalizáveis em suas diferenças. Tentam formar homogênea e genericamente profissionais que assim como em suas formações humanas e educacionais, reproduzam essas relações de poder, de forma arbitrária e culturalmente associadas as discursividades.
São poucas as proposições que refletem sobre as relações de gênero e diversidade sexual enquanto construção social, e assim, esses currículos consentem em manter e tornar a eficácia simbólica dos discursos psicológicos, que quando não generalizam, universalizam e homogeneízam os sujeitos sociais (FONSECA, 2008). Deste modo, as teorias psicológicas androcêntricas e individualistas contribuem para produzir e legitimar crenças no individuo como entidade autônoma, abstrata, universal e masculina, perpetuando visões binárias e imutáveis entre sexo/gênero, como se elas estivessem dentro dos indivíduos.
Como vemos, na totalidade dos documentos analisados fazem uso gramatical do sujeito do gênero masculino, como ao referir-se a formação do “psicólogo”. A universalidade do sujeito que é enunciada aqui, é a do sujeito (que se escreve no masculino), que se estende a todos os seres humanos, em todos os tempos e lugares (NARVAZ, 2009). Deste modo ele é supostamente assexuado, desracializado, sem classe social, sem cor, sem crenças políticas ou religiosas, mas no entanto, esse sujeito é masculino, branco, burguês e europeu, o Homem, pois a representação da subjetividade, pressupõe a masculinidade como sinônimo universal de “Humanidade”. Assim, o homem é o Sujeito, e a mulher é o Outro (BUTLER, 2003).
Fonseca (2008) acrescenta que a psicologia é implicada no poder de influenciar com as palavras, com o poder de nomear e subjetivar. Assim, ocultam o poder de suas “verdades” que são consideradas absolutas e inquestionáveis, e se colocam como discursos de violência produzidos por sujeitos, para sujeitos que formam sujeitos.
62
Assim, os compromissos políticos suscitados pelos estudos feministas assumem inicialmente a necessidade de assumir que a Psicologia e as ciências estão distantes de estabelecer parâmetros para a problemática. Da mesma maneira esses compromissos denotam uma profunda articulação com a necessidade de transformação social, sua estruturação com as lutas contra as exclusões, podem se tornar, aos olhos das psicólogas(os), um exemplo ético de ciência, como modo criativo e subversivo na produção de conhecimentos que possibilitem uma outra governamentabilidade social, acolhedora da multiplicidade como da pluralidade e criatividade das populações apontadas na política queer.
Deste modo, retomar o que Foucault (1987), Louro (2001), Butler (2003), Preciado (2011) e Scott (1995) propõem ao problematizar lugares sociais, públicos e privados ocupados por homens e por mulheres, desconstruir as certezas em relação as subjetividades, aos corpos e aos desejos, bem como desvelar os discursos produzidos na psicologia, seus efeitos na produção de saberes, vão produzir e legitimar determinadas formas de pensar e fazer psicologia(s).
63