6. ASSUJEITAMENTO E EMANCIPAÇÃO NO TRABALHO
6.2 Dispositivos e ideologia
Os trabalhadores são ideologicamente interpelados pelo discurso dominante e, voluntariamente, a ele se integram porque a ideologia se apresenta como uma interpretação do real que condiz com suas práticas sociais e alimenta suas aspirações quanto à concepção de mundo. Quanto mais as organizações atendem as expectativas dos empregados, mais estes compartilham da ideologia patronal e mais participam de sua elaboração, aumentando a sujeição. A participação do trabalhador na elaboração da ideologia patronal será tão maior quanto seja sua integração ideológica, pela interpelação discursiva ou pelos dispositivos de gestão, que são práticas discursivas.
Os dispositivos técnicos e ideológicos sofisticados das empresas hipermodernas submetem sem a necessidade da ameaça e assim desenvolvem as forças produtivas, pelo aumento da dominação e da exploração, mascarando as relações sociais de produção.
Os dispositivos são, para Foucault220, um “conjunto que engloba discursos, instituições, organizações arquitetônicas, decisões regulamentares, leis, medidas administrativas, enunciados científicos, proposições filosóficas, morais, filantrópicas”, formado por uma rede de elementos, ditos e não ditos, discursivos ou não, que
220 FOUCAULT, Michel. Microfísica do poder. 25ª ed. Rio de Janeiro: Edições Graal, 2008.p.138,139.
mudam de posições e funções. Atendem a uma urgência num determinado momento histórico, detendo função estratégica de dominação e de poder.
Como estratégia vão se substituir às categorias Universais da razão, como o estado, poder, soberania e lei, não de forma individualizada (tal lei, tal medida), mas na rede que se forma entre tais elementos221.
O termo dispositivo, segundo Agamben222, tem uma origem na teologia. Oikonomia em grego era a administração da Oikos (da casa), que se valia de uma práxis, de uma atividade prática para resolver um problema ou questão particular. A teologia cristã querendo justificar o termo Trindade das figuras divinas (que poderiam evocar politeísmo e paganismo) passou a se utilizar de Oikonomia, dizendo que, enquanto ser e substância, Deus era uno, mas, na administração da vida e do mundo que criou, era tríplice. Assim, Deus se tripartia e delegava a seu filho, Cristo, a economia, a administração e o governo da história humana, mantendo, entretanto, seu poder e unidade. Nisso, os teólogos separavam no discurso, o logos da teologia e o da economia, e a oikonomia se convertia num dispositivo responsável pelo dogma da tripartição e pela ideia de um governo providencial divino na fé cristã.
A teologia, tentando evitar que o ser de Deus se rompesse, acabou por fazer uma cisão e articulação entre Deus - como ser e práxis, natureza ou essência - e o modo como ele administrava e governava o mundo das criaturas.
De igual forma fazem os “dispositivos", dentro os quais a linguagem é o mais antigo. Ela se refere à Oikonomia como “um conjunto de práxis, de saberes, de medidas, de instituições cujo objetivo é de administrar, governar, controlar e orientar, em um sentido em que se supõe útil, os comportamentos, os gestos e os pensamentos dos homens”223.
Assim, de um lado tem-se a ontologia dos seres viventes e do outro os dispositivos para governá-la, e entre eles o sujeito (um indivíduo, uma substância),
221 FOUCAULT, Michel. A edição brasileira dos cinco volumes da coleção Ditos e escritos, organizada por Manoel Barros da Mota [Rio de janeiro: Forense Universitária, suprimiu esta entrevista de Michel Foucault. Na edição francesa o texto aparece sob o título "Le jeu de Michel Foucault", entrevista concedida a D. Colas, A. Grosrichard, G. Le Gaufey, j. Livi, G. Miller, j. Miller, j.-A. Miller, C. Milliot, G. Wajeman, e publicada primeiramente em Ornicar? Bulle Un periodique du champ freudien [n.l 0, julho de 1977, p.62-931. (N.T.), apud AGAMBEM, Giorgio. O que é um dispositivo. Palestra realiza no Brasil, em setembro de 2005; a tradução foi feita a partir do original em italiano por Nilcéia Valdati.
222 AGAMBEM, Giorgio. op.cit. p. 12.
que vai se subjetivando em uma acumulação de dispositivos, fomentada pelo crescente capital.
O mesmo ocorre na empresa/organização, que se deifica erigindo-se em sujeito da história, princípio ativo da criação. Nisso, ao tempo que engloba, suplanta as pessoas, excluindo-as na representação do fundamento da criação, avocando-se como única produtora e transformadora do mundo. A organização assume um compromisso de perfeição, envolta num poder divinal impondo-se como modelo de conduta, tal como “Deus criou o homem à sua imagem”224.
À mensagem proferida, integram-se os receptores, tanto aqueles a quem a Organização se dirige, quanto àqueles que a integram, absorvidos por um discurso fechado, do qual, segundo Pagés225, “não” há escapatória. Segundo ele, o trabalhador precisa reconhecer a organização como princípio único e nele se reconhecer, aderir e crer, pois, na hipótese contrária, fica à margem da consideração e do reconhecimento.
A organização reforça sua imagem positiva através de ideologia e práticas ideológicas, cuja função é impedir o trabalhador de perceber as contradições das políticas da empresa e as sociais nela subentendidas.
A ideologia não é uma experiência do sensível entre a consciência e o objeto, mas o resultado da práxis social, de uma atividade coletiva que produz objetos e sentidos. Partindo da experiência imediata de sua vida social, o indivíduo constrói seu sistema de ideias e representações sobre a realidade. Por isso a ideologia não se dá somente através da doutrinação, de forma mecânica, externa aos indivíduos, ela é dialética, comporta contradição e negação interna. Segundo Chauí226:
A ideologia não é um “reflexo” do real na cabeça dos homens, mas o modo ilusório (isto é, abstrato e invertido) pelo qual representam o aparecer social como se tal aparecer fosse a realidade social. Se a ideologia fosse um simples “reflexo invertido” da realidade na consciência dos homens, a relação entre o mundo e a consciência não seria dialética (isto é, contraditória ou de negação interna), mas seria mecânica ou de causa e efeito. Se a ideologia fosse o espelho “ruim” da realidade, ela seria o efeito mecânico da ação dos objetos exteriores sobre nossa consciência, como a ação da luz sobre nossa retina.
224 PAGÉS, Max. et al. op.cit. .p.85.
225 Ibid. p.85.
Os trabalhadores podem perceber as contradições nas políticas empresariais mediante suas experiências pessoais diversas, como também pelo contato com distintas ideologias oriundas dos sindicatos e partidos que frequentam, ou pela imprensa, ou através dos estudos que realizam.
Porém, como a consciência individual é palco de conflitos, o indivíduo pode resolver essas contradições internas se autopersuadindo, num processo chamado de cerco ideológico, em que acaba se autodoutrinando e reforçando a ideologia dominante, deixando a ideologia da liberdade e da diversidade individuais em segundo plano, mas convicto de pensar livremente.
O trabalhador pode ainda, para resolver suas contradições ideológicas, camuflá-las, antes mesmo se tornar consciente das mesmas, num processo denominado redução da dissonância cognitiva227. Diante da ameaça de conscientização das contradições externas, ele cria um princípio através do qual mantém coerentes suas ideias e preenche as lacunas do sistema. Ele percebe a contradição, mas a deixa no nível dos fatos, sem elevá-la a princípio, à forma de conhecimento, e continua vivendo de acordo com seus próprios preceitos, atenuando a doutrina. Nisso colabora ideologicamente com a doutrina oficial, ao tempo em que ele mesmo acaba produzindo uma.
A organização também faz um assujeitamento do indivíduo pelos processos inconscientes de identificação, projeção e introjeção228. Por meio deles o trabalhador tenta se amoldar ao tipo de personalidade buscado pela empresa, que faz com que o ideal coletivo se sobreponha ao ideal do Ego individual, num processo conforme já visto no item “processo de subjetivação - estádio do espelho” de Lacan.
Quando há uma forma de satisfação e valorização nisso, o trabalhador, normalmente o melhor remunerado e que trabalha em melhores condições, aceita trabalhar sob as pressões exercidas pela carga de trabalho. Quanto maior a satisfação, maior a aceitação da carga e quanto mais poderosa a organização mais satisfação traz àquele que se identifica com ela. De outro lado, o trabalhador que
227 PAGÉS, Max. et al. op.cit. p.89.
228 A projeção é um processo inconsciente onde aspectos do indivíduo são renegados e atribuídos ao objeto (Organização). O indivíduo projeta parte de si sobre o objeto e se torna uma parte do objeto, que em seu lugar vai expressar os aspectos renegados, permitindo-lhe viver sem os assumir. Inversamente, o objeto externo (a Organização) investido pelo inconsciente é simbolicamente introduzido e tomado como parte do indivíduo. O resultado desse duplo processo é a identificação.
não faz a fusão de seu ideal de ego com o da empresa, aquele que trabalha sob as piores condições e remuneração, não tem nenhuma satisfação narcisista, o que, no nível dos sentimentos, provoca dependência e constante insatisfação por falta de correspondência às exigências229.
Ao tomar o lugar do ideal do ego dos indivíduos-trabalhadores, a organização, ao tempo que canaliza suas energias em seu benefício, torna-os dóceis, sem espírito crítico. O trabalhador identificado com a organização na qual investiu projetivamente, quando percebe que não pode influenciá-la, enfraquece seu ego e a ela se assujeita (defendendo-se de seus impulsos destrutivos que não mais testa em suas relações com a mesma).
Frente ao assujeitamento o indivíduo pode internalizar e reproduzir o discurso dominante da Organização, sem transformar o social, ou, contrariamente, pode assumir uma postura crítica, constituindo-se como sujeito.
O trabalhador se alça à instância de sujeito e reelabora seu próprio discurso, num exercício de alteridade, partindo do individual, da compreensão do si mesmo para a compreensão do outro. A compreensão interpessoal se dá quando há um reconhecimento do outro como sujeito, portador de identidade, vontade e interesses distintos, e iguais direitos.
Dejours afirma que, para a realização dessa construção identitária, se faz necessária uma negociação entre os sujeitos. Para tanto deve ser criado um espaço público potencial, dentro da organização - o espaço da palavra - que possibilite ao trabalhador discutir sobre o trabalho, sobre a forma como é desenvolvido. Nisso ele usa seus saberes, seu potencial criativo, para a identificação e a solução de problemas, oportunizando-lhe a fixação das regras para a práxis do trabalho num
agir comunicacional230:
229 Ibid. p.159, 160.
230 DEJOURS, C e JAYET, Christian. Psicopatologia do trabalho e organização real do trabalho em uma indústria de processo: metodologia aplicada ao um caso. in DEJOURS, C, ABDOUCHELI, A. JAYET, C.: Psicodinâmica do Trabalho Contribuições da Escola Dejouriana à Análise da Relação Prazer, Sofrimento e Trabalho. São Paulo. Atlas. 1994.p. 116.