CAPÍTULO 5 – MÉTODO
5.3 Dispositivos e procedimentos da pesquisa de campo
Utilizamos, nesta pesquisa, dois dispositivos para a pesquisa de campo. O primeiro deles foi uma adaptação do método formulado por Michael Balint para a pesquisa de grupos. Balint foi um médico e psicanalista húngaro que, tendo vivido grande parte da sua vida na Inglaterra, esteve profundamente envolvido no tratamento de feridos de guerra e ex-combatentes (Brandt, 2009b). Observando as dificuldades enfrentadas por seus colegas médicos no atendimento e tratamento de seus pacientes, Balint desenvolveu um método de base psicanalítica que continha dois objetivos: um deles era a investigação das relações médico-pacientes, com foco nas manifestações contratransferenciais por parte do profissional, e o segundo era a formação desses mesmos médicos na prática psicoterápica adaptada às necessidades clínicas (Balint, 1988). De acordo com Salinsky (2008), os encontros grupais de Balint eram conhecidos como “treino com pesquisa”, o que denota sua intenção de, por um lado, preparar os médicos para a relação médico-paciente, tornando-a mais humana e, ao mesmo tempo, realizar uma investigação qualitativa daquilo que de fato ocorria no universo médico. Pechberty (2007), nesse contexto, ao falar de como a proposta de Balint se insere na tradição psicanalítica, destaca que “a obra freudiana sempre ligou sua dimensão de pesquisa com os progressos da terapêutica” (p. 24).
O dispositivo proposto consistia originalmente na reunião em grupo de profissionais médicos, em sessões de aproximadamente 2h, com regularidade semanal. Uma vez reunidos, o pesquisador convidava cada um dos participantes a relatar em poucas palavras um caso clínico, sem a consulta a qualquer tipo de anotação, com foco em sua interação com o paciente. Após a manifestação de todos os presentes, o grupo escolheria um ou dois casos para serem aprofundados. Balint enfatizava que tanto os relatos quanto as intervenções dos ouvintes deveriam ser feitas nos moldes da associação livre (Balint, 1988).
Para o psicanalista húngaro, o psiquismo humano é essencialmente grupal, “constituído em relação, inicialmente na relação bebê-mãe, depois no conjunto das relações primárias, para finalmente chegarmos à complexidade das relações do mundo adulto” (Brandt, 2009a, p. 203). Dessa forma, a discussão em grupo dos casos traria a possibilidade de que esse funcionasse como um “espelho” para o participante, em que, por meio de projeções e identificações, sua própria personalidade, angústias e formas de reação se tornassem claras, alcançando assim uma
“considerável, embora limitada, transformação da personalidade” (Balint, 1988, p. 268). Não obstante isso, Balint evitava que assuntos pessoais fossem abordados nesses encontros, o que, segundo ele, configuraria um setting terapêutico que fugiria ao escopo do trabalho, restrito à análise das práticas profissionais. O propósito do grupo era, portanto, alcançar mudanças nas formas de lidar com o outro, sem, contudo, adentrar um universo psíquico profundo. Nesse sentido, Balint defendia que, não só a fala tinha uma função terapêutica, como defendido por Freud, mas também a escuta.
Ainda que fazer psicoterapia de base analítica pudesse estar entre os objetivos dos primeiros seminários propostos por Balint, essa ideia logo foi abandonada (Salinsky, 2008). Balint concluiu que o processo não poderia se constituir enquanto tal, ainda que pudesse haver efeitos psicoterápicos derivados. Dessa forma, o assim denominado grupo Balint não consiste em um grupo terapêutico, uma vez que não busca soluções e tampouco dispõe dos elementos de um setting apropriado para tal fim. Consagrou-se, antes, como uma metodologia de investigação do inconsciente e é nesse sentido que será compreendido e utilizado neste estudo. Por outro lado, é verdade que pode revelar efeitos terapêuticos como consequência de proporcionar um espaço de expressão de angústias e escuta (Pedroza, 2010).
De acordo com a proposta de Balint, o proponente do grupo não deve atuar como condutor das discussões, em um esforço de demonstrar que não ocupa um lugar de poder com relação aos demais membros e que tampouco dispõe das respostas para as angústias do grupo. Ao se colocar nesse lugar de igualdade, Balint se apresentava como alguém que nada sabia sobre o campo das relações e que estava ali para aprender. Todas as vezes em que era convocado para assumir o lugar de saber, Balint se eximia. Assim, aquelas projeções que seriam direcionadas para um Ego dominador, para um lugar de saber que poderia funcionar como modelo, se distribuíam entre os membros do grupo. O clima de confiança era fundamental e o analista contribuía para isso ao não desempenhar a função de mestre (Balint, 1988).
Apesar de inicialmente proposto – e frequentemente utilizado – como um método para grupos profissionais médicos, em que particularmente a contratransferência em relação aos pacientes seria analisada, o dispositivo tem sido proficuamente empregado em contextos distintos, com os quais guarda similaridades. O método Balint tem sido utilizado, com interessantes resultados, em pesquisas com professores (Pechberty, 2007; Pedroza, 2010), psicólogos (Guimarães, 2014), outros profissionais das áreas social e da saúde (Brandt, 2009b) e estudantes (Missenard, 1994). Essa diversidade leva a que alguns critiquem as inovações como deturpações que não poderiam mais ser chamadas de grupos Balint. Essa é uma discussão que se estende já há algumas décadas e que alguns interessados na área têm tentando contornar ao chamar os encontros que realizam de grupos de inspiração Balint ou ao afirmar que suas propostas estão inseridas em uma abordagem Balint, entendida de forma ampla (Cohen-Léon, 2008).
Nesta tese, lançamos mão de um dispositivo que, apesar de guardar importantes distinções da proposta original de Michael Balint, mantém com ela similaridades, o que nos leva a tomar a liberdade de denominá-lo grupo de inspiração Balint12. Nesse contexto, ressaltemos algumas das diferenças: aborda-se
aqui não a atividade profissional, mas a formação profissional, e não em nível superior, mas no nível técnico. Trata-se, nesse caso, de uma abordagem inovadora da metodologia, uma vez que esta vem sendo utilizada prioritariamente com profissionais com formação superior e membros de classes economicamente privilegiadas. Outra diferença importante é a de que não impusemos restrições a manifestações de cunho pessoal da mesma forma que Balint, uma vez que, ao entender, conforme Marx, as nossas sujeitas de pesquisa enquanto totalidade – ou seja, enquanto síntese de múltiplas determinações –, sentimos a necessidade de deixar que elas associassem livremente sobre o tema, ainda que isso significasse adentrar a esfera íntima. Tendo em vista a limitação temporal dos encontros e a omissão da pesquisadora, não entendemos que isso tenha levado a que os encontros configurassem psicoterapia, mas tampouco descartamos que o espaço aberto de fala e escuta possa ter tido efeito terapêutico.
Em nossa proposta, foram objeto de análise as dimensões afetiva e subjetiva das questões identitárias envolvidas no processo de formação, o que levou a que relações interpessoais não restritas ao espaço educacional fossem trazidas à tona. As relações contratransferenciais apareceram não como aquelas dirigidas a pacientes, mas dirigidas a professores, colegas e outras pessoas que circundavam a vida das profissionais em formação. Valemo-nos da abordagem psicanalítica, que embasa e fundamenta essa proposta metodológica e sem a qual essa seria descaracterizada.
Interessou-nos, nesse dispositivo, o contexto propício para o deslocamento de angústias dos participantes e, ao mesmo tempo, sua identificação inconsciente com questões que inicialmente se apresentam como sendo de outrem. A quase invisibilidade assumida pelo pesquisador nesse processo revela o reconhecimento, por parte desse, de que nada sabe sobre as mobilizações do outro e, por isso, se coloca no lugar da escuta. Além disso, o método pareceu-nos particularmente adequado para acercar o fenômeno da identidade, uma vez que essa envolve questões nem sempre imediatamente ao alcance da consciência. A citação abaixo, de Pechberty, aborda com detalhes a dinâmica psíquica que se estabelece nos grupos de pares, em que prevalecem identificações, elaborações e o cuidado de si e do outro através da fala e da escuta:
Esses grupos permitem, assim, uma elaboração psíquica dos ressentimentos em grupo que mostram a diversidade das moções psíquicas entre os participantes e a comunidade, e sua relação ao inconsciente, a mais singular. Por trás das evocações, são ativados tempos diferentes: o presente (...) e a trama psíquica inconsciente que se repete. (...) Esses grupos têm efeitos terapêuticos, os participantes cuidam de sua posição comum, em grupos de pares. Cuidar quer dizer aqui situar-se em uma dimensão narcísica e ocupar-se de si, restaurar-se, em um duplo movimento que concerne a si e ao outro. O olhar e a escuta dos pares, convidados à exposição de situações e às elaborações psíquicas, favorecem as simbolizações possíveis nos relatos e nas associações. Esse efeito de cuidado deve-se aos deslocamentos que se produzem no relato, no mais íntimo e no mais partilhado, por meio das transferências em jogo no grupo (Pechberty, 2007, p. 23).
Conforme Pedroza (2010), o espaço de fala e escuta é propício para a tomada de consciência de conteúdos inconscientes que se fazem presentes no dia a dia, bem como para o deslocamento psíquico na subjetividade que favorece a diminuição da angústia. Abre-se a possibilidade de elaboração de novos sentidos, sem a pretensão de se alcançar uma verdade: “Os participantes do grupo são vistos como seres autônomos que farão suas próprias análises com a ajuda do coordenador e o conjunto do grupo” (Pedroza,
2010, p. 91). De acordo com Balint (1988), por um lado, o sujeito que relata uma situação consegue com mais facilidade elaborar psiquicamente suas próprias emoções quando sente que o grupo o compreende e se identifica com ele. Por outro lado, a audiência tem suas próprias expressões inconscientes ativadas pelo relato de outrem.
Em nossos encontros, procedemos da seguinte forma: inicialmente, convidávamos as participantes a rapidamente relatar uma situação interna ou externa ao curso, que estivesse influenciando seu processo de formação. A seguir, era escolhido um tema, que seria aprofundado naquele dia. A participante era convidada a narrar com mais detalhes a situação trazida, expressando seus sentimentos na forma de associações livres. Em seguida, as colegas faziam perguntas e colocações a partir de como haviam escutado o relato. Seguia- se uma discussão livre sobre as questões que haviam emergido. A pesquisadora procurava intervir apenas em momentos pontuais, de modo a acolher participantes em momentos mais emotivos e também no sentido de manter no grupo o respeito pelos sentimentos alheios. Buscou-se também promover novas formas de encarar, interpretar e se implicar nas questões discutidas. Quando faltavam aproximadamente 15 minutos para o término, pedíamos à pessoa cuja situação havia sido o tema do encontro para relatar a experiência de expor sua angústia e escutar as demais. Nesse momento, incentivávamos a participante a refletir sobre as elaborações possibilitadas pelo compartilhamento de experiências com o grupo. Em seguida, finalizava-se o encontro.
Inicialmente havíamos planejado realizar apenas os encontros Balint, mas sentimos a necessidade de reencontrar essas mulheres a fim de aprofundar algumas temáticas levantadas nos grupos. Consideramos propício que isso fosse feito após a finalização da formação técnica, uma vez que tínhamos o objetivo de entender os fatores que as mantiveram no curso, apesar das dificuldades, e o modo como a realização da formação impactara-as subjetiva e identitariamente. Convidamos cada uma delas então para uma conversa em que abordamos temáticas relacionadas à história de vida com foco em seu histórico educacional e profissional, em questões de gênero e na divisão sexual do trabalho. Não seguimos de forma sistemática a metodologia de histórias de vida (Meneghel, 2007), mas tiramos dela alguma inspiração ao convidar a participante a relatar momentos de sua trajetória pessoal.