Jacques A. Wainberg1
Resumo:
Este estudo analisa o conteúdo das piadas produzidas e apresenta- das por comediantes stand-up que, em várias partes do mundo, tratam de uma temática comum, a inserção do árabe e do muçulmano na modernidade. Este gênero de humor se difundiu em vários países do Oriente Médio e da África, à semelhança do que ocorre em outros continentes. Os governos de países como Arábia Saudita, Bahrein e Egito toleram hoje em dia, em algum grau, a dissi- dência proposta por tais humoristas. Ver a sociedade árabe e muçulmana rir de si é ocorrência nova e surpreendente, pois rompe com a imagem estereotipada de que ela é incapaz de suportar a sátira e a ironia por estar dominada pelo medo e o conservadorismo.Palavras-Chave: Comédia Stand-Up; Humor; Piada; Dissidência
Abstract:
This study is a content analysis of jokes produced and presented by stand-up comedians that in various parts of the world deal with a common theme, the inclusion of the Arab and the Muslim communities in modernity. This kind of humor became popular in many countries of the Middle East and Africa, similar to what is occurring in other continents. Countries like Saudi Arabia, Bahrain and Egypt nowadays tolerate to some degree dissent proposed by such humorists. Seeing the Arab and Muslim societies to laugh at themselves is a new and star- tling occurrence, since it breaks with the stereotypical image that they are unable to bear the satire and irony for being dominated by fear and conservatism.A R T IG O 164
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Três maneiras excepcionais têm sido utilizadas no Oriente Médio para enfrentar a onda liberal que desafia a sobrevivência de vários regimes autoritários da região. A primeira é a guerra civil, como a que ocorre na Síria desde 2011. A segunda é a distribuição de benesses ao público. Esta medida de ‘comprar’ a oposição foi aplicada com sucesso na Arábia Saudita. O governo deste país distribuiu à sua população um total de US$ 139 bilhões de benefícios entre fevereiro e abril de 2011. Essa ati- tude fez fracassar o Dia da Ira marcado para março de 2011. A terceira maneira é tolerar em algum grau a competição de ideias, algo que ocor- re através do YouTube, Facebook e Twitter em vários países da região.
No caso da Arábia Saudita o establishment religioso se esforça em abater o anseio liberal de uma parcela significativa dos jovens. Por isso mesmo ele se opõe à iniciativa governamental de mandar todos os anos milhares de estudantes às universidades ocidentais.2 Os tradicionalistas percebem que no retorno muitos deles reivindicam alguma alteração nos rígidos padrões dos costumes do país. Ou seja, esta experiência in- tercultural tem contribuído à dissidência social, religiosa e política de parcela da juventude. São muitos os sinais dessa tensão na Arábia Sau- dita contemporânea. Um total de 46,18% dos 27 milhões de sauditas estava em 2015 abaixo dos 24 anos. Naquele ano a idade média de sua população era de 26.8 anos.
Ou seja, o desemprego da juventude e suas ambições tornaram-se motivo de profunda preocupação política da autoridade. Exemplo disso foi a campanha dissidente promovida através do YouTube pelo direito das mulheres sauditas dirigir automóvel.3 O tema da posição da mulher na sociedade faz parte agora das considerações elaboradas no documen- to “A Visão Saudita 2030”. Este documento produzido pelo príncipe Mohammed bin Salman (conhecido por MBS), o jovem Secretário de Defesa do país (ele tem 31 anos), e segundo na linha sucessória ao trono, é o plano estratégico da Arábia Saudita para as próximas décadas. Por
2 Eles eram 199.285 no ano acadêmico de 2012-2013. 3 https://www.youtube.com/watch?v=sowNSH_W2r0
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fim, as petições enviadas às autoridades do governo solicitando medidas liberalizantes é outra ocorrência inesperada dos novos tempos.
As reações da autoridade saudita a essas tensões são ambíguas e in- cluem por vezes a repressão. O blogueiro Hamza Kashgari, por exemplo, ficou preso entre 2012 e 2014, após ser condenado por apostasia. Seu crime foi ter postado mensagens com dúvidas sobre a natureza divina de Maomé. Já o ativista dos direitos humanos Muhammad Fahad al-Qa- thani foi condenado por sua militância a dez anos de prisão em 2013. O clérigo Qassim al-Ghamdi também tem desafiado a ultraortodoxia ao afirmar que a fé permite a convivência social entre os homens e as mu- lheres, assim como a audição de música e a prece em grupo.
A tensão entre os liberais, os governantes autocráticos e os seus apoia- dores conservadores caracteriza o que se convencionou chamar de O Dilema dos Reis (OTAWWAY; DUNNE, 2007). Este conceito criado por Samuel Huntington implica em apontar a dúvida que abala todo monarca absolutista sobre como democratizar sem perder o controle político do país.4 No Egito, por exemplo, a rebelião da Praça Tahrir resultou da incapacidade do regime de Hosny Mubarak ver que suas realizações “poderiam corroer, em vez de consolidar, seu poder” (AL- -SAYYID, 2013). No caso da antiga União Soviética, a revolução das comunicações foi fator decisivo para o desmantelamento da experiên- cia comunista (SHANE, 1995). No caso clássico da França em 1789, o rei Luis XVI, um monarca esclarecido, tornou-se vítima do processo de abertura política que ele próprio inaugurara.
Para os fins deste estudo que trata da comédia stand up como a maneira que jovens sauditas encontraram de fazer crítica social cabe ressaltar o fato de que a relativa liberalização das comunicações desse país, em especial a mídia social (Twitter, Facebook e YouTube), é outro exemplo das iniciativas apaziguadoras da autoridade. O uso do Twitter por quase três milhões de sauditas (o maior índice no Oriente Médio e 40% dos usuários deste canal no mundo árabe), embora vigiado, tem permitido ampla difusão das ideias e das opiniões neste país. Quase 32% 4 Ver seu livro ‘Political Order in Changing Societies’, 1968.
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dos 16,2 milhões de seus usuários de internet são ativos no Twitter e 18,26% possuem páginas no Facebook. Um total de 91% dos seus jovens com idades entre 18 e 24 anos são usuários da Internet. A Arábia Saudita é também o maior consumidor do YouTube no mundo chegando a 90 milhões de visualizações todos os dias. Isso se explica pelo fato de haver pouca oferta de entretenimento. Ou seja, esta programação contribui para quebrar o enfado social existente no país. Isso também acontece com a ajuda dos vídeo-clips produzidos por jornalistas independentes. 5
Entre os dissidentes sauditas que se utilizam das novas mídias está, por exemplo, Salman al-Awdah, um crítico moderado do regime sau- dita e do wahabismo. Ele possui 1.6 milhões de seguidores no Twitter. Seu livro Questões da Revolução, banido pelo governo, circula agora na internet. Nele o autor faz uma síntese entre as fontes do salafismo e célebres autores do ocidente, entre eles Karl Marx, Karl Popper e Franz Fanon. Outros exemplos de dissidentes são o clérigo Salman al-Qudah, um televangelista livre pensador que em dezembro de 2013 cultivava 3.9 milhões de seguidores, e @Mujtahidd cuja verdadeira identidade é desconhecida. Em 2012, o Grande Mufti da Arábia Saudita, Abdul-Aziz ibn Abdullah Al Shaykh, tentou silenciar suas postagens que denunciam a corrupção, os escândalos financeiros e as extravagâncias da família real. Destacam-se também Walid Abu al-Khayr e Muhammad al-Bijadi, dois jovens ativistas dos direitos humanos.
O Twitter também se transformou no meio preferencial de luta dos conservadores sauditas. O clérigo Muhammad al-Arifi é um dos mais po- pulares. Ele possui sete milhões de seguidores. Sua prédica usualmente inclui diatribes antissemitas, contra os xiitas e em favor da subjugação das mulheres. Já Ayed al-Qarnee (cinco milhões de seguidores) costuma alertar seus simpatizantes sobre os perigos dos valores ocidentais, em especial seu materialismo.
5 https://www.youtube.com/watch?v=SlSBqgW5xx0 https://www.youtube.com/watch?v=G7yuRNL37XU
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Humor e Comédia
Neste contexto de incertezas e transformações sociais e políticas a co- média se tornou num veículo popular de expressão da Arábia Saudita contemporânea e de outros países árabes. Uma nova geração de co- mediantes soube aproveitar as novas plataformas de comunicação para difundir sua crítica social, cultural e política. Os astros sauditas do You- Tube acabaram chamando a atenção da mídia massiva. Esse tipo de celebrificação (DRIESSENS, 2012) ocorre quando a ‘microcelebridade’ (TUFEKCI, 2013) conquista seu espaço na programação das emisso- ras de televisão graças ao sucesso que ele obtém na web (WAINBERG, 2016). Rafinha Bastos é, no Brasil, exemplo deste tipo de ocorrência.
Comunicação dissidente (astro do ativismo na web)Microcelebridade
NARROWCASTING Twitter/Internet
↓
BROADCASTING Mídia MassivaMacrocelebridade (astro do showbis da mídia massiva)
Os comediantes sauditas são jovens educados em universidades estrangeiras que trouxeram do exterior ao país a experiência da comé- dia stand-up. Entre eles está, por exemplo, Khalid Khalifa6. Wonho Chung7, um saudita cujo pai é coreano e a mãe é vietnamita, é outro astro do stand-up que vive na Jordânia. Muitos destes comediantes são bilíngues, nasceram e/ou vivem no exterior, e seu sucesso no Ocidente alcança todo o Oriente Médio. Eles quebram estereótipos sociais e con- tribuem à melhoria do humor coletivo da região. Expressam em seus monólogos, músicas e programas muitas das ideias que circulam nos ambientes jovens da região. Fazem também uma síntese criativa entre a cultura ocidental e a cultura árabe. Exemplo é o vídeo No Woman,
6 https://www.youtube.com/watch?v=wG-7UhQHurM 7 https://www.youtube.com/watch?v=2Pd0hSAYPVo
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No Drive de Fahd Albutairi8, o primeiro comediante saudita a atuar pro- fissionalmente no país. Sua música é uma paródia de Bob Marley. A letra satiriza o argumento, usual na Arábia Saudita, de que a saúde dos ovários femininos fica ameaçada quando a mulher dirige um carro. Ele diz: No Woman, No Drive/ Say, Say/ Say I remember when you used to sit/ In the Family car, but backseat/ Ova-ovaries all safe and well/ So you can make lots and lots of babies.” Noutra passagem ele alerta as mulheres para não tocarem no volante do carro: “No Woman, No Drive/ Hey little sister, don’t touch that wheel/ No woman, no drive.” Ele diz, ironicamen- te, que ‘rainhas não dirigem’, mas elas podem cozinhar e fazer “minha janta”. O argumento contra o qual ele protesta docemente é: “Your feet is your only carriage”. Fahd Albutairi também brinca com seus cabelos, compridos e desajeitados, um padrão estético pouco usual na Arábia Saudita; ironiza o temor de se dizer palavrões na TV de seu país; denún- cia o racismo; e faz critica social ao mostrar a inauguração de um novo Departamento de Arte – num prédio decaído e abandonado.
Seu programa La Yekthar Show9 produzido para ser divulgado pelo YouTube, tornou-se um dos canais mais populares do país. Em sua ter- ceira temporada alcançou um milhão de assinantes. Outro programa similar denominado 3al6ayer Show10 tornou seu mentor, Omar Hussein, outra celebridade do YouTube. O fato de boa parte dos comediantes ára- bes e muçulmanos atuar no Ocidente explica porque a temática étnica e religiosa está presente em seus monólogos. Maz Jobrani, um comedian- te iraniano-americano, define seu papel como educativo. Suas tiradas irônicas almejam quebrar estereótipos étnicos e nacionais.
Teorias
Cabe salientar o fato de que a comédia é uma atividade profissional que visa, através de piadas e esquetes, fazer as pessoas rirem. O tema do riso, 8 https://www.youtube.com/watch?v=aZMbTFNp4wI
https://www.youtube.com/watch?v=nk7kveb88nQ 9 https://www.youtube.com/watch?v=V2p7j7ipPLc 10 https://www.youtube.com/watch?v=KZn2MvLdYHo
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da gargalhada (usualmente definido como ‘sorrir mostrando os dentes’) e do que é risível (ALBERTI, 1999) é objeto de estudo da gelotologia ou risologia, como é conhecido no Brasil (PROVINE, 2001). Ou seja, toda comédia implica em humor, embora nem todo humor implique em comédia.
Este conceito pode ser tratado ainda como ocorrência intrapsíquica, como proposto originalmente por Freud (1905). Por isso mesmo é usual a referência ao bom humor e ao mau humor de alguém. O estado de espírito da pessoa é maleável e pode mudar de acordo com as circuns- tâncias.11 A propósito cabe lembrar que segundo a clássica definição de Hipócrates, o temperamento da pessoa resulta da balança e da com- binação de quatro humores: o sanguíneo, o fleumático, o colérico e o melancólico.
Muito embora existam mais de cem teorias que tentam explicar as propriedades do humor dá-se destaque aqui à Teoria da Violação Be- nigna (MCGRAW; WARREN, 2010) para descrever e explicar não só o humor, mas também o que ocorre com a comédia.12 Outras teorias relevantes são, por exemplo, a que realça a capacidade do humor de apresentar uma perspectiva inesperada à determinada situação (Teoria da Incongruência, LATTA, 1998; BOYD, 2004); a teoria da superio- ridade (o riso expressa esta sensação por parte do público); o humor depreciativo (o que agride e ofende o alvo da piada); o humor como me- canismo de defesa (usualmente utilizado pelos mais fracos para revidar a humilhação sofrida dos mais fortes), de adaptação e de alívio. 13 Teorias linguísticas do humor são as propostas por Victor Raskin (Teoria do Script Semântico do Humor)14; por Victor Raskin e Salvatore Attardo (Teoria Geral do Humor)15; por I.M. Suslov (Teoria Neuro-computacional do
11 Ver a propósito http://www.oocities.org/hotsprings/Villa/3170/Slavutzky.htm 12 http://www.iep.utm.edu/humor/
13 Ver as principais teorias do humor no arquivo Chapter 8 em http://facstaff.uww.edu/shiblesw/humorbook/h8%20theory.html(Chapter
14 http://www.ufjf.br/revistagatilho/files/2013/05/O-Humor-e-a-Sem%C3%A2ntica-de-Frames1.pdf 15 http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-44502003000300009
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Senso de Humor (1992)16 e por P. Marteison (Teoria Ôntico-Epistêmica do Humor, 2006), entre outras.
Por ser um tipo de comunicação benigna, o humor é um eficiente lubrificante social. O pianista Borge Rosenbaum (1909-2003), conhe- cido por seu nome artístico Victor Borge, um pioneiro da comédia stand-up, costumava afirmar que “a risada é a menor distância entre duas pessoas”.17 Algo similar diz o comediante egípcio Ahmed Ahmed. “So- mos todos iguais quando rimos, apesar das diferenças”. Além de conectar as pessoas, o dito jocoso também autoriza a comunicação dissidente do comediante. Segundo esta interpretação, o risível ocorre quando a piada quebra alguma expectativa do público e viola uma norma ou crença da audiência. Isso também ocorre quando a situação da interlocução entre o falante comediante e o público ouvinte não é ameaçadora (o contexto é soft) e quando a percepção destas duas condições pelo público ocorre simultaneamente.18 Este é o caso em que o humorista brinca com as identidades humanas, a sua inclusive. No caso do comediante desafiar os estereótipos sociais e culturais ele aproxima as pessoas e facilita a co- municação intercultural.
O show do egípcio Khaled Khalafallah faz exatamente isso. Ele brin- ca com a dificuldade que os ocidentais têm em pronunciar seu nome e com os estereótipos que abominam os árabes. Ele diz, “everyone is nervous around arabs”. No encontro com sua audiência ocidental ele também faz comparações sobre os métodos de disciplina utilizados nas duas culturas. Russell Peters, um humorista nascido no Canadá de des- cendência hindu, também faz piadas étnicas.19 Este conteúdo é típico
também do que se convencionou chamar de humor judaico.20
O humor benigno acontece quando o comediante não está compro- metido com o ‘dolo’ praticado ou porque ele está pessoalmente distante 16 http://arxiv.org/abs/0711.2058 17 https://www.youtube.com/watch?v=LWqFaGwNCMU&list=PLrAlz0YmXl9N0tIhwxwcwXvm jiFz2mxBq 18 https://www.youtube.com/watch?v=PpVt1POOHvQ&nohtml5=False https://www.youtube.com/watch?v=83guK7V7_5M&nohtml5=False 19 https://www.youtube.com/watch?v=gv1XQ9_4lgE&nohtml5=False 20 https://www.youtube.com/watch?v=5V4zYe23QLg
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da norma violada em sua elocução (isso acontece quando a violação não atinge diretamente o comediante, quando ela aconteceu muito tempo atrás ou porque o dolo praticado não parece ser algo real). A violação é benigna também quando existe uma explicação alternativa para a nor- ma violada, a que permite torna-la aceitável de alguma maneira. Por vezes uma violação maligna torna-se benigna quando o observador se aproxima da norma desrespeitada. É o que ocorre na ‘comédia de situa- ção’ usual na programação das estações de televisão. O sitcom costuma realçar o que há de errado nas ocorrências do dia a dia de uma pessoa.
Segundo McGraw e Warren (2010), situações puramente benignas e puramente malignas também não são engraçadas. É o caso de uma pessoa que cai na escada e se machuca. Quando não há quebra de certa expectativa de como a realidade deve ser não há humor. Quanto maior for esta incongruência maior será o humor acionado. Dito de outra ma- neira, não é engraçado ver uma pessoa tentar fazer cócegas em si, mas é engraçado ver alguém ameaçar outra pessoa com cócegas.
Por vezes o resultado da elocução humorística surpreende o come- diante. Isso acontece porque ele (como qualquer emissor de qualquer mensagem) não é capaz de controlar a recepção de sua elocução. Ou seja, uma parcela da audiência pode interpretar certo enunciado como violação benigna enquanto outra pode trata-la como violação maligna. Quando isso acontece o resultado é a geração de emoções negativas no público. Para superar este tipo de impacto o ouvinte deverá necessa- riamente entender a violação como sendo algo aceitável (engraçada). É o caso de um amigo que cai na escada (violação das expectativas), mas que não se machuca (algo benigno). Resulta que o humor deve ser compreendido como o julgamento que a pessoa faz de uma situação, de sua resposta emocional e de seu comportamento (com a geração do riso e da gargalhada, por exemplo).
Segundo as teses de Krichtafovitch (2006), o humor é inato aos pri- matas e a outros animais. O sorriso e a gargalhada são expressões do prazer que ele causa. Como mencionado, o humor é obtido também em decorrência da sensação de superioridade que a piada eventualmente
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causa ao ouvinte, ou em decorrência da sensação de triunfo que a pessoa sente ao resolver o enigma proposto pelo chiste (alivio). O público reage melhor à piada quando está receptivo à mesma (é o que ocorre no espe- táculo stand-up). O humor é também um fenômeno social e uma arma intelectual que serve de defesa do fraco contra o forte. Na sua “agressão” o comediante usualmente utiliza a sátira, o sarcasmo e a ironia.
Inesperado
O mencionado caso saudita é laboratorial e serve para documentar essas máximas. Trata-se de um país cuja norma social limita sobremaneira o usual laissez-faire dos costumes das sociedades liberais. Portanto, con- siderando o contexto autoritário saudita, a proliferação de comediantes stand-up no país é um fenômeno social inesperado. O que chama a atenção é o grau de entusiasmo popular que seus comediantes desper- tam agora no público. Isso é consequência do conteúdo dos programas que, em geral, desafiam temas tabus. É o caso, por exemplo, do Broad- cast Show.21
Algo similar ocorreu no Egito com o show Al-Bernameg apresen- tado por Bassem Youssef. A partir de 2011, este médico cardiologista converteu-se em estrela do showbis após divulgar no YouTube suas pos- tagens satíricas. Seus mordazes vídeos contra a Irmandade Muçulmana despertaram sentimentos de simpatia e de ódio, simultaneamente. Ini- cialmente, ele utilizou seu pequeno apartamento para a produção do The B+ Show. Depois, conquistou a audiência massiva replicando no Egito o formato americano do programa de TV americana The Daily Show with John Stewart.22 Al-Bernameg ficou no ar até 2014, quando então seu programa foi encerrado devido às pressões políticas.
A popularização do gênero stand up23 tem sido interpretada como faceta adicional da americanização cultural do mundo (SJÖBOHM,
21 https://www.youtube.com/watch?v=UQvIk7EPi-g&list=RDUQvIk7EPi-g#t=21 22 https://www.youtube.com/watch?v=WYCF_rppZCY
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2008).24 Nos Estados Unidos a lista de comediantes que lhe deram fama internacional é enorme. Entre eles estão Bob Hope, Ed Sullivan, Mort Sahl, Dick Gregory, Woody Allen, Lenny Bruce, Richard Pryor, Johnny Carson, Robin Williams, Jenny Seinfeld, Whoopy Goldberg, Ellen De-