Capítulo 3) Base Sensorial da Dissonância Musical em Psicoacústica e Seus Atributos
3.1.2 Dissonância Sensorial versus Sensory Pleasantness
Consonância/Dissonância são conceitos próprios da musica que costumam ser definidos em Psicoacústica por termos como eufonia e pleasantness (agradabilidade). Dessa forma, julga-se quão agradável ou irritante um som qualquer pode ser, relacionando essa resposta subjetiva a atributos físicos do som. Nesse contexto, diversos estudos foram desenvolvidos completamente desconectados de um contexto musical.
Assim, encontramos pesquisas que avaliam a resposta subjetiva de sons de máquinas, como aspirador de pó, carros e afins. Esse tipo de pesquisa visa, inclusive, permitir a construção e desenho de equipamentos que produzam barulhos menos irritantes, o que, a respeito dos três atributos aqui descritos, significa sons com menos batimentos (Aspereza), maior harmonicidade (Tonalness) e menor energia no registro agudo do espectro (Brilho).
Não está claro ainda como cada atributo da Dissonância Sensorial influencia uma percepção geral de Dissonância Musical. Terhardt (2000b) afirma que, em música, a Aspereza é o elemento mais importante da Dissonância Sensorial e que a Dissonância Sensorial cumpre, sem dúvida, um papel no julgamento de Dissonância em música, mas que apenas contabiliza uma dimensão de Sensory Pleasantness, estando longe de determinar princípios de harmonia, por isso a necessidade de inclusão de um segundo grupo de atributos para dar conta desses princípios. Ao que concerne os atributos da Dissonância Sensorial, Parncutt (1989) afirma que os dois aspectos mais importantes da teoria de Terhardt são a Aspereza e o Tonalness, e simplesmente não menciona o brilho.
Terhardt não apresenta um modelo de Dissonância Sensorial – ou Sensory
Pleasantness – bem definido. O autor tampouco afirma qual exato conceito e modelo
de cada atributo deve ser empregado para uma medida de Dissonância Sensorial. Zwicker e Fastl (1999), em contrapartida, definem um modelo de Sensory
Pleasantness, que é relacionado com os atributos de Aspereza, Brilho e Tonality
(similar a Tonalness). Este modelo poderia ser uma definição completa de Dissonância Sensorial, mas o primeiro problema é que o trabalho desses autores não define – apesar de incluir modelos próprios de Aspereza e Brilho – um modelo claro de Tonality, informando que a medida é simplesmente “subjetiva”.
Terhardt (2000a), ou entende-se que o modelo não diz respeito a sons musicais – fato confirmado por detalhes a seguir.
No final do livro, os autores indicam uma aplicação de parte do conteúdo apresentado em acústica musical. No caso, trata-se da percepção de dissonância, mas o termo adotado, em vez de Sensory Pleasantness, é Consonância Sensorial (conceito complementar de Dissonância Sensorial). Essa definição de Consonância Sensorial também é baseada em Brilho, Aspereza e Tonalness.
Apesar da falta de uma referência direta, há nessa seção do texto um quadro análogo à teoria de Terhardt (1984) – cujos textos se encontram na bibliografia daquela publicação – que une paralelamente o grupo de atributos psicoacústicos de Harmonia ao de Consonância Sensorial. O termo Consonância Sensorial parece então estar levemente desconexo de Sensory Pleasantness.
Outro termo que ainda figura no texto dessa seção é Tonal Consonance, sem, igualmente, ser definido claramente ou comparado com os dois outros termos. Não obstante, levando em consideração o trabalho de Plomp & Levelt (1965), a Consonância Tonal pode indicar um sinônimo de Consonância/Dissonância Sensorial.
O livro de Zwicker e Fastl (1999) não possui um interesse inicial em aplicação musical, tanto que a implicação em acústica musical aparece apenas no fim como um possível desdobramento. A exposição de um quadro com os mesmos atributos de Terhardt não inclui um modelo contabilizando como cada fator contribui para a percepção geral de Dissonância em um contexto musical e não remete diretamente ao modelo previamente apresentado de Sensory Pleasantness, confirmando que não se trata de um sinônimo direto de Dissonância Sensorial.
Encontramos também uma relação entre o modelo de Sensory Pleasantness apresentado por Zwicker e Fastl (1999) e uma publicação de Aures (1985a), que apresenta um modelo análogo composto pelos atributos de Brilho, Tonalness e Aspereza, mas o termo usado, em vez de Sensory Pleasantness, é “Eufonia Sensorial”. Como ambos termos subjetivos de “Eufonia” e Pleasantness (Agradabilidade) são adotados para descrever a sensação de percepção de consonância, fica claro que os modelos de Sensory Pleasantness/Euphony são equivalentes, fora o fato de ambos modelos serem muito similares.
Por fim, torna-se evidente que Sensory Pleasantness/Euphony não dizem respeito a uma aplicação musical e por isso não se adota o termo Consonância/Dissonância Sensorial. Esse, por sua vez, apesar de conter os mesmos
elementos, não possui um modelo bem definido já apresentado na literatura da área, e acaba pressupondo um contexto musical mesmo sendo passível de ser medido em qualquer tipo de som.
3.2 – Quadro de Atributos de Ernst Terhardt
Como já exposto, a Dissonância Sensorial surgiu tendo a Aspereza como elemento principal. Terhardt (1984), entretanto, inclui outros atributos nesse grupo. Mas, no sentido de expandir e incluir novos fatores, Terhardt expõe também um segundo grupo chamado “Harmonia”. O trabalho desse autor influenciou alguns outros como Parncutt (1989) e é uma importante referência desta pesquisa pelo quadro amplo de atributos psicoacústicos que expõe.
Tabela 4. Atributos Perceptivos da Dissonância Musical segundo Terhardt (1984).
Dissonância Sensorial: Harmonia:
- Brilho (Sharpness) - Aspereza (Roughness) - Tonalness - Fundamental do Acorde - Afinidade de Tons: Comonalidade de Altura
Um ponto importante de distinção entre a Dissonância Sensorial e o grupo “Harmonia” é que a Dissonância Sensorial pode ser avaliada e estudada em qualquer sonoridade, sem a necessidade de um contexto dito “musical”. Já os atributos do grupo “Harmonia” acabam sendo os atributos sensoriais da Dissonância Musical propriamente dita – isto é, dependem de sons musicais, aplicados em um contexto musical de Harmonia, como entendido pelo conceito tradicional.
O que o grupo de atributos da Harmonia representa, antes de mais nada, é uma abordagem sensorial para explicar conceitos musicais da própria Harmonia tradicional, ligados ao conceito de Consonância e Dissonância, como na relação com a fundamental do acorde na teoria de Rameau (1722) e relações de similaridade entre notas e acordes.
No decorrer da pesquisa, nos deparamos com muitos trabalhos e modelos dedicados a atributos específicos, como a Aspereza e Tonalness, em que é possível encontrar algumas controvérsias entre diferentes modelos. Em contrapartida, não temos uma completa implementação de um modelo de Dissonância Musical com todos os atributos baseados no trabalho de Terhardt (nem mesmo com outro conjunto de atributos), já que Terhardt não deixa explícito como cada atributo contribui ou deve ser
contabilizado para a percepção ou medida final de Dissonância. Terhardt apenas possui trabalhos a respeito de alguns atributos, em especial do seu conceito de Virtual Pitch (Altura Virtual). Assim, o quadro de Terhardt é um bom ponto de partida, mas ainda está relativamente em aberto.
Encontramos também alguns elementos que devem ser levados em consideração e que não fazem parte do seu quadro, mas estão fortemente relacionados, como o conceito de Fusão Tonal. Abrimos margem também para alguns elementos fora da literatura clássica da Psicoacústica, mas que podem ser igualmente testados de modo empírico em aplicações criativas. Na próxima seção, esmiuçaremos os atributos aqui apresentados, e também apontaremos esses elementos paralelos.
Tabela 5. Subdivisão dos atributos Psicoacústicos em diferentes níveis de percepção.
Atributo: Nível Sensorial:
Brilho (Sharpness) de alto nível e Psicoacústica Interseção entre Descritor de Áudio
Aspereza (Roughness) Psicoacústico
Tonalness & Harmonia elementos Psicológicos (Gestalt)Interseção de Psicoacústica com
Sobre a classificação do quadro de Terhardt em diferentes níveis perceptivos, podemos começar pelo conjunto de Descritores de Áudio, que está em um nível mais baixo. Sharpness (Brilho) se encontra aqui, pois é, inclusive, um dos atributos classificados no projeto CUIDADO (Peeters 2004). Já a Aspereza é um atributo de nível mais alto, com uma dimensão de complexidade maior em sua modelagem, e ainda controverso teoricamente. Os elementos seguintes dependem da teoria de Altura Virtual de Terhardt, de uma ordem ainda superior, compreendida como parte de um processo de aprendizado, produto de uma Gestalt auditiva (Terhardt 1974a), inerente a um processo essencial para adquirir a habilidade de identificar sons da fala.