4 A TEORIA DOS CAPÍTULOS DA SENTENÇA NO DIREITO PROCESSUAL CIVIL
4.3 DISTINÇÃO ENTRE CAPÍTULOS "PROCESSUAIS" E CAPÍTULOS DE
4.3 DISTINÇÃO ENTRE CAPÍTULOS "PROCESSUAIS" E CAPÍTULOS DE "MÉRITO"
Como indicado acima, o conceito de capítulos de sentença que melhor se
adéqua a realidade jurídica brasileira considera possível a cisão da decisão,
notadamente seu dispositivo, em partes que versem sobre o pedido imediato e outras
161 DINAMARCO, 2009b, p. 34. 162 APRIGLIANO. 2007, p. 122. 163 CINTRA, 1986, p. 43. 164
Sobre a opinião da doutrina nacional, confiram-se os seguintes trabalhos: BUENO, 2008, p. 1447; CRUZ E TUCCI, 2002, p. 89/92; APRIGLIANO, 2007, p. 123/125; BONÍCIO, 2006, p. 41; WLADECK, 2011, p. 6.
165
CINTRA, 1986, p. 45/46. 166
que tratam do pedido mediato
167. Ou seja, admite-se a existência de capítulos
processuais e capítulos de mérito, pelo que se faz necessário analisar o que se
consistem cada um deles.
Toda demanda posta em juízo possui, mesmo que implicitamente, duas
pretensões. A primeira e mais óbvia delas refere-se ao próprio mérito da causa, que só
é satisfeito em sua integralidade, na maior parte das vezes
168, com a outorga da tutela
jurídica pretendida ao final do processo (pedido mediato). Já a segunda, que é
consequência lógica da primeira e meramente instrumental, refere-se ao direito de obter
provimento jurisdicional em relação a primeira (pedido imediato), ou seja, o
reconhecimento de que os pressupostos de admissibilidade do julgamento de mérito
foram cumpridos.
Nisso se constitui, como ensina DINAMARCO, a natureza bifronte de toda
demanda posta em juízo. Por isso, essa dualidade de pretensões demonstra a
existência de dois momentos lógicos em toda a sentença: “(a) o do reconhecimento do
direito do demandante ao provimento jurisdicional e (b) o da afirmação ou negação do
seu direito ao bem da vida pretendido”
169. É justamente dessa dicotomia e da natureza
bifronte das pretensões postas em juízo que decorre a distinção entre capítulos
processuais e capítulos de mérito.
Dessa forma, capítulo processual, por sua vez, forma-se quando a sentença
acolhe ou rejeita preliminar para negar ou garantir o direito da parte ao julgamento de
mérito da ação. Pode ser que existam várias preliminares, por exemplo, arguindo a
167
V. item 4.3. 168
Fala-se na maior parte das vezes porque existem ocasiões em que a própria decisão liminar, seja pelo deferimento ou indeferimento, acaba por esgotar o objeto do processo. Isso porque a urgência da questão, no caso de indeferimento, pode fazer com que o pedido final perca seu objeto, ou o próprio deferimento do pedido liminar acaba outorgar a tutela jurídica pretendida com o ajuizamento da ação. Sobre essa questão, rebatendo os argumentos de que seria inviável a concessão de medida liminar que tendesse a exaurir o objeto do processo, recentemente a décima turma do TRF-1 decidiu que, “No que se refere à impossibilidade de concessão de medida liminar em virtude do esgotamento do objeto da ação (cunho satisfativo), presentes os requisitos legais, quais sejam, fumus boni iuris e periculum in mora, o julgador não pode se furtar à concessão da liminar, em respeito ao princípio constitucional da dignidade da pessoa humana (...).” (TRF1 - AI 201003000294291 - Relator Juiz Subst. de 2o
Grau Walter do Amaral - Décima Turma - DJF 08/09/2011).
169
ilegitimidade passiva do réu, sendo que o acolhimento de apenas uma delas já é o
bastante para barrar o julgamento de mérito da ação.
Sobre essa questão, DINAMARCO defende que os capítulos processuais são
aqueles que tratam do cumprimento dos pressupostos de admissibilidade da demanda.
Esses, por sua vez, podem implicar na extinção do processo (preliminar extintiva) e/ou
versar sobre vícios meramente protelatórios e sanáveis (preliminar não extintiva). Por
isso, no caso da inexistência, em uma mesma demanda, de pressupostos das duas
naturezas, “sem ingressar no exame do mérito, a sentença pode desmembrar-se em
capítulos distintos, todos de eficácia puramente processual.”
170.
Assim, para o professor paulista, no caso de ser indeferida a preliminar de
incompetência absoluta e, na sequência o juiz extinguir o processo por carência de
ação, existirão dois capítulos de sentença, um relativo ao indeferimento da preliminar
de incompetência absoluta e um segundo inerente ao autor ser carecedor de ação.
Ainda, caso todas as preliminares sejam tendentes a extinguir o processo, o que
se terá na sentença será a resolução de várias questões versando acerca do pedido
imediato (pretensão ao julgamento de mérito), mas somente um capítulo processual.
Isso porque, a imperatividade do comando sentencial será uma só, ou seja, a
declaração de existência, ou não, dos pressupostos processuais.
SCRIPES WLADECK concorda com tal entendimento, contudo faz a seguinte
ressalva, que é tomada como premissa no presente trabalho, e por isso merece ser
integralmente transcrita:
Não nos parece, porém, que, se ao lado das preliminares extintivas houver aquelas não extintivas, possa haver mais de um capítulo processual referente a um mesmo pedido. As preliminares não extintivas, tanto quanto as extintivas, configuram possíveis obstáculos ao julgamento do mérito da causa. São, tanto quanto aquelas, questões processuais destinadas a inviabilizar o acolhimento do pedido imediato (e, por conseguinte, o julgamento do pedido mediato). Sua diferença em relação às preliminares extintivas e não extintivas consiste em questões processuais referentes a um mesmo pedido, o pedido imediato. Sua rejeição consiste em condição ao acolhimento de tal pedido. E a parte do dispositivo da sentença que, ao rejeitar todas essas questões processuais em que consistem preliminares extintivas e não extintivas, afirmar o direito do autor
170
a um julgamento de mérito será um só capítulo. Com efeito, haverá uma só disposição imperativa decorrente da solução dada às questões processuais pelo juiz, no sentido de afirmar o direito do autor a um julgamento de mérito.171
Esse entendimento é partilhado por LETÍCIA BADDAUY
172e confirmado pelos
casos em que se extingue o processo por falta de mais de um pressuposto de
admissibilidade, formando-se somente um capítulo de sentença processual. Isso
porque, caso somente a inexistência de um deles seja alvo de recurso pela parte
sucumbente, os outros subsistirão, o que, por si só, será suficiente para que o capítulo
processual que anteriormente reconheceu a ausência dos pressupostos seja
integralmente mantido
173.
Já, por sua vez, os chamados capítulos de mérito só existirão no caso de
declarada a existência dos pressupostos pelo capítulo processual, que correspondem à
complexidade do objeto do processo, seja em virtude do cúmulo de pedidos constante
da inicial, ou superveniência de algum deles no decorrer da própria cognição (p. ex.
reconvenção). Assim, se terá na sentença de mérito tantos capítulos quanto forem os
pedidos postos, seja por parte do autor ou do réu, à análise do juízo
174.
Disso se conclui que, nos moldes do pensamento de CHIOVENDA
175, cada uma
dessas pretensões de mérito eventualmente cumuladas em um mesmo processo,
poderiam ter sido propostas em demandas separadas no tempo e no espaço, o que
daria azo a mais de um processo. Com isso, segundo DINAMARCO, a autonomia dos
capítulos de mérito assume dois significados. O primeiro relativo à viabilidade de que
cada um deles seja objeto de um processo próprio, sendo o segundo inerente ao fato
de que cada um possui pressupostos exclusivos, que necessariamente não se
confundem com os dos demais
176.
Com isso, a presença de mais de um capítulo de mérito na sentença ocorrerá
quando, por exemplo, (a) a demanda tiver pedidos cumulados; (b) com o cúmulo ulterior
171 WLADECK, 2011, p. 9. 172 BADDAUY, 2006, p. 92. 173
WLADECK, op. cit., p. 12/13. 174 DINAMARCO, 2009b, p. 42. 175 V. item 3.1. 176 DINAMARCO, 2009b, p. 43.