3. Casuística e Métodos
5.4. Distribuição do LDL em indivíduos com audição normal
A maior parte dos estudos com o LDL em normo-ouvintes foi realizada com poucos sujeitos e desenhada para avaliar os procedimentos de aplicação do teste, as instruções e os estímulos dados, tendo sempre como objetivo a melhor regulagem de próteses auditivas. Assim sendo, não havia a necessidade de se determinar um valor de LDL que servisse como referência de normalidade, já que tal teste sempre seria aplicado apenas em portadores de deficiência auditiva. Também, como para esses casos o objetivo da aplicação do LDL seria o ajuste individual da saída máxima das próteses auditivas, o LDL médio de uma determinada população não seria útil. Talvez por essas razões, os autores não tenham valorizado os dados censurados ou as características de distribuição da população amostral.
Na revisão da literatura também observamos que apenas BEATTIE e SHEFFER (1981) calcularam a média e a mediana do LDL, não encontrando diferenças estatisticamente significativas entre as duas medidas. Os demais estudos restringiram-se somente à média, possivelmente por ser este o parâmetro empregado na comparação entre procedimentos, instruções e estímulos usados na aplicação teste.
Em razão de termos encontrado uma distribuição amostral levemente assimétrica para a direita, a mediana foi considerada o parâmetro que melhor expressou a tendência central de respostas do LDL. No entanto, a diferença entre os valores das médias e das medianas foi muito inferior ao desvio-padrão e, portanto, se a distribuição tivesse sido considerada normal, os resultados provavelmente não teriam sido muito diferentes.
Nossa pesquisa foi a única a valorizar o tipo de distribuição e a oferecer o cálculo das médias, medianas, os primeiros e terceiros quartis e os limites superiores e inferiores do LDL (Tabela X), o que permite ao leitor uma compreensão mais abrangente do comportamento de indivíduos normo-ouvintes em relação ao LDL.
Julgamos a Tabela XI e a Tabela XII as mais ilustrativas dos nossos resultados, por conterem a estimativa da distribuição log-normal das médias dos menores valores do LDL por indivíduo para todos os estímulos testados. A observação destas tabelas permite ao leitor saber qual a fração de indivíduos que responde às intensidades onde se concentrou a grande maioria das respostas, ou seja, entre 80 e 120 dBNA. Lembramos que, para essa
estimativa, foram usados os menores valores do LDL por indivíduo, uma vez que não havia diferenças significativas entre as orelhas nem entre teste e reteste. Priorizamos os valores menores porque, em situações reais com audição binaural, espera-se que o indivíduo já tenha incômodo quando a intensidade de um som alcançar a orelha com menor limiar de desconforto.
Somente para permitir que nossos dados possam ser comparados aos fornecidos pela literatura, apresentamos também as médias obtidas com a pesquisa do LDL das duas orelhas em situação de teste e reteste (Tabela X).
Como a grande maioria das pesquisas com LDL em indivíduos normo-ouvintes foi realizada a fim de determinar procedimentos e estímulos para o ajuste da saída máxima de próteses auditivas, o resultado do LDL foi expresso por vários autores (NIEMEYER, 1971; MORGAN et al., 1974; DIRKS e KAMM, 1976;
BEATTIE et al., 1979; HAWKINS, 1980a; BEATTIE e SHEFFER, 1981; BENTLER e PAVLOVIC, 1989; BORNSTEIN e MUSIEK, 1993) em decibel nível de pressão sonora (dBNPS), enquanto os estudos do LDL para indivíduos com hipersensibilidade auditiva foram realizados em decibel nível de audição (dBNA). Como estas escalas são diferentes e o presente estudo foi feito com dBNA, realizou-se a conversão dos nossos resultados para dBNPS, feita a partir dos valores de equivalência de dBNA e dBNPS da ficha de calibração do audiômetro, para cada freqüência e para a fala. O intuito único de tal conversão foi possibilitar minimamente a comparação dos nossos resultados com os de outros pesquisadores (Quadro 1).
Quadro 1. Comparação das médias do LDL (dBNPS) de diversos estudos
Entretanto, salientamos que esta é uma comparação limitada, pois o presente estudo não foi feito com procedimentos e instruções idênticos aos demais. Também não houve replicação metodológica entre nenhuma das pesquisas referidas.
Não foram incluídos no quadro de comparação os estudos realizados em campo-livre (BORNSTEIN e MUSIEK, 1993), com fones de inserção (BENTLER e PAVLOVIC, 1989), ou cujos resultados tenham sido apresentados por indivíduo, e não por média (NIEMEYER, 1971; FILON e MARGOLIS, 1992).
O Gráfico 9 permite uma visualização mais clara dos dados contidos no
Knobel e Sanchez 2003 Greenfield et al. 1985 Beattie e Sheffer 1981 Hawkins 1980 Beattie et al. 1979 Dirks e Kamm 1976 Morgan et al. 1972 Stephens e Anderson 1971 Hood e Poole 1965
Gráfico 9. Comparação das médias do LDL (dBNPS) de diversos estudos
A partir de tal comparação, averiguamos que nosso estudo foi o único a avaliar o LDL nas freqüências de 500, 1.000, 2.000, 3.000, 4.000, 6.000, 8.000 Hz e para estímulos de fala, oferecendo um panorama mais abrangente a respeito do comportamento do ouvido em relação aos sons.
Levando em consideração os limites inferiores e superiores da média (intervalo de confiança=95%) expostos na Tabela X, nossos resultados concordam com os expostos por HAWKINS (1980a) nas freqüências de 500, 1.000, 2.000 e 4.000 Hz, por STEPHENS e ANDERSON (1971) em 1.000 Hz, por MORGAN et al. (1972) em 2.000 e 4.000 Hz e por GREENFIELD et al.
(1985) em 4.000 Hz.
É possível que, se os demais estudos tivessem avaliado os intervalos de confiança com clareza, outras concordâncias pudessem ser reveladas.
Em relação ao LDL para tons puros, os estudos de HOOD e POOLE (1965) e o de DIRKS e KAMM (1976) apresentaram os resultados mais discrepantes, quando comparados aos nossos e aos demais trabalhos. Em relação ao primeiro, não encontramos dados metodológicos tão diferentes que pudessem justificar tais discordâncias. Em relação ao segundo, é possível que tais diferenças devessem ao fato de que os autores avaliaram orelhas de sujeitos com anacusia unilateral que, certamente, não tinham o mesmo comportamento auditivo de indivíduos com audição normal bilateral. Se considerarmos que a diminuição de aferências sensoriais periféricas pode desencadear uma hiperatividade das vias centrais (JASTREBOFF, 1990), seria esperado que indivíduos com perda auditiva, mesmo que unilateral, apresentassem maior sensibilidade à presença de sons na orelha contralateral à anacusia. Outra possibilidade é que indivíduos com anacusia unilateral se incomodem mais com sons intensos que pessoas com audição normal bilateral, devido a um mecanismo natural de preservação da audição.
Para os estímulos da fala, obtivemos LDL com intensidades superiores aos referidos por outros autores. Não encontramos razões metodológicas ou de análise dos dados que justificassem a diferença. Entretanto, apesar da discordância com a literatura, nossos resultados do LDL para fala foram compatíveis com os valores do LDL para tons puros. A visualização de tal compatibilidade fica dificultada pela escala de dBNPS, devido aos diferentes
valores de correção por freqüência, mas pode ser facilmente conferida na Tabela X.
O Gráfico 9 evidencia ainda uma curva característica do LDL, tanto no nosso estudo como nos de MORGAN et al. (1974) e de HAWKINS (1980a): LDL em intensidades mais altas em 500 Hz, seguida de diminuição e estabilidade nas freqüências de 1.000 a 4.000 Hz. Não obstante, a Tabela X mostra que essas diferenças estão dentro dos limites inferiores e superiores do intervalo de confiança e, portanto, podem ser consideradas semelhantes. O mesmo não ocorreu com as freqüências de 6.000 e 8.000 Hz que, de fato, se diferenciaram das demais, evidenciando um aumento da tolerância para a freqüência de 6.000 Hz e um decréscimo para 8.000 Hz.
Infelizmente, não foi possível comparar nossos achados nas freqüências de 6.000 e 8.000 Hz com a literatura, já que todos os outros estudos com tons puros foram feitos apenas até 4.000 Hz.
Algumas dúvidas permanecem: poderia a curva do LDL refletir a tolerância fisiológica do sistema auditivo às diferentes freqüências? A tendência de rejeição a 8.000 Hz seria decorrente dessa fisiologia ou seria fruto de uma confusão entre o incômodo com a sensação de intensidade e o incômodo com a sensação de freqüência, pois, geralmente, os sons agudos são considerados mais "irritantes"?