CAPÍTULO 5: TRANSFORMAÇÕES RECENTES NO MERCADO DE
5.1 Evolução geral da estrutura do mercado de trabalho japonês
5.1.2 Força de trabalho
5.1.2.1 Distribuição setorial da força de trabalho
O Japão tem seguido uma tendência semelhante àquela observada nos países avançados em termos da distribuição ocupacional entre os três grandes setores da atividade econômica (primário, secundário e terciário), em função dos aspectos já abordados no capítulo 2. O setor terciário concentra atualmente a maior parte da força de trabalho ocupada e já representa a maior parcela do PIB do país, em detrimento tanto do setor primário – que apresenta queda já secular – como da indústria de transformação do setor secundário. Esta evolução tem sido permeada por uma intensificação no grau de
segmentação dos trabalhadores, com crescimento da parcela com contratos de trabalho menos protegidos e, portanto, em condições mais precárias.
A tabela 11 ilustra a evolução relativa dos setores econômicos em termos da força de trabalho ocupada e participação no PIB em anos selecionados desde a década de 1950. É possível observar que a participação do setor primário tem registrado forte queda desde o pós-guerra, mas principalmente desde a década de 1970, quando do término do período de forte crescimento econômico. A participação do setor secundário em termos do PIB e de pessoal empregado, após ter crescido nas décadas de 1950 e de 1960 e chegado a seu pico na primeira metade da década de 1970, passa a cair gradativamente, atingindo 26,5% do PIB e 27,0% da força de trabalho em 2005. Já o setor terciário, por outro lado, tradicionalmente caracterizado por atividades mais heterogêneas, tem registrado um crescimento constante tanto em termos de PIB quanto de pessoal empregado desde o pós- guerra. Este setor passou a representar mais de 50% do PIB já em meados da década de 1960, e na década seguinte passou também a ser responsável por mais de 50% da população ocupada. Em 2005, o setor terciário empregava 67,4% da força de trabalho e era responsável por 71,8% do PIB do país (MIC, 2006).
Tabela 11: Evolução relativa dos grandes setores de atividade econômica por pessoal ocupado e participação no PIB em anos selecionados. Japão.
(%) População Ocupada Produto Interno Bruto (PIB) Ano Setor Primário Setor Secundário Setor Terciário Setor Primário Setor Secundário Setor Terciário 1950 48,5 21,8 29,6 - - - 1955 41,1 23,4 35,6 19,2 33,7 47,0 1960 32,7 29,1 38,2 12,8 40,8 46,4 1965 24,7 31,5 43,7 9,5 40,1 50,3 1970 19,3 34,0 46,6 5,9 43,1 50,9 1975 13,8 34,1 51,8 5,3 38,8 55,9 1980 10,9 33,6 55,4 3,5 36,5 60,0 1985 9,3 33,1 57,3 3,1 35,1 61,8 1990 7,1 33,3 59,0 2,4 35,7 61,8 1995 6,0 31,6 61,8 1,8 30,3 67,9 2000 5,0 29,5 64,3 1,3 28,4 70,2 2005 4,4 27,0 67,4 1,7 26,5 71,8
A queda da participação do setor secundário no PIB e na população ocupada, especialmente na indústria de transformação, tem sido observada desde a conclusão dos Acordos do Plaza, em 1985, e no setor de construção desde meados da década de 1990, tanto em função da estagnação econômica como da aceleração do processo de globalização econômica. Mais recentemente, as indústrias japonesas de transformação têm deslocado parte de sua produção para a China e outros países asiáticos com o objetivo reduzir custos, especialmente com mão de obra. Assim, a redução do emprego neste segmento no Japão reflete as novas condições da divisão internacional do trabalho43, com as empresas retendo no Japão as áreas associadas a um maior valor agregado, como pesquisa e desenvolvimento.
Dentre os principais motivos que explicam o forte ritmo de crescimento do setor terciário está o avanço da tecnologia da informação, responsável pelo forte impulso no número de empresas de software e serviços de informação. Outra razão para o avanço do setor de serviços é a aceleração, desde meados da década de 1970, do ritmo de mudanças na demanda do consumidor, em função do aumento da renda e do estilo de vida do japonês, elevando a demanda por serviços e lazer.
A tabela 12 apresenta a distribuição absoluta e relativa da população ocupada por setor e ramo de atividade no ano de 2005. Nota-se uma forte concentração de trabalhadores na indústria de transformação, que representou 66,7% do setor secundário; no segmento de comércio varejista e atacadista (26,2% do total empregado no setor terciário), indicando uma característica do sistema de distribuição japonês, extremamente diluído44; e no segmento de serviços de saúde (12,9%).
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O índice de produção no exterior da indústria de transformação japonesa (razão das empresas japonesas que estabeleceram operações e fábricas no exterior) tem registrado tendência de elevação desde a década de 1990, sendo que, em 2004, em torno de 60% das empresas na indústria de transformação (particularmente no segmento de processamento) tinham operações no exterior, com esta produção representando aproximadamente 14% do total (MIC, 2006a).
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O número de estabelecimentos comerciais por mil habitantes no Japão era de 13,2 em 1990, bastante elevado em comparação aos números exibidos por outros países industriais avançados: EUA, 7,9; Reino Unido, 8,1; França, 9,7; Alemanha, 8,5 (FLATH, 2000, p.293).
Tabela 12: Distribuição absoluta e relativa pessoas empregadas por setores e ramos de atividade e gênero. Japão, 2005.
Setor Pessoas Empregadas %
(milhões) % Homens Mulheres
Total¹ 63,560 58,6 41,1 Setor primário 2,820 100,0 57,8 42,2 Agricultura e silvicultura 2,590 91,8 56,4 43,6 Pesca 0,230 8,2 73,9 26,1 Setor secundário 17,130 100,0 73,7 26,3 Mineração 0,30 1,7 75,0 25,0 Construção 5,680 31,6 85,7 14,3 Transformação 11,420 66,7 67,8 32,2 Setor terciário 42,850 100,0 52,5 47,5
Eletricidade, gás, aquecimento e água 0,350 0,8 88,6 11,4
Informação e comunicações 1,760 4,1 74,0 26,0
Transportes 3,170 7,4 83,0 17,0
Comércio atacadista e varejista 11,220 26,2 49,5 50,5
Finanças e seguro 1,570 3,7 50,0 50,0
Imobiliário 0,750 1,8 62,2 37,8
Restaurantes, bares, hotéis, etc. 3,430 8,0 41,1 58,9 Médico, saúde, previdência 5,530 12,9 23,5 76,5 Educação, apoio ao aprendizado 2,860 6,7 45,1 54,9 Serviços (postal e cooperativas) 0,760 1,8 64,5 35,5 Serviços (não classificáveis) 9,160 21,4 56,6 43,4
Governo 2,290 5,3 78,6 21,4
Fonte: Elaborada pelo autor a partir de MIC (2006b) ¹ Inclui os “Setores não classificáveis”
Em termos da distribuição setorial por gênero, cabe notar a elevada participação feminina no setor terciário, particularmente nos segmentos de comércio varejista e atacadista, serviços de saúde, educação e hoteleiro/serviços de alimento.
Em relação à população ocupada por tipo de ocupação e gênero, o número de trabalhadores na indústria de transformação e construção caiu de 17,02 milhões em 1990 para 14,16 milhões em 2005 (tabela 13). Por outro lado, a expansão do setor de informação esteve por trás do forte aumento no número de trabalhadores “profissionais e técnicos”. Ainda, nota-se uma tendência a conformação de uma economia de serviços, com a categoria ocupacional “serviços de saúde e previdência” registrando um constante aumento devido ao rápido envelhecimento da população japonesa.
Tabela 13: Distribuição e evolução da população ocupada por tipo de ocupação e gênero em anos selecionados. Japão.
(milhões) Ocupação 1990 1995 2000 2005 % (em 2005)
Homens Mulheres
Total¹ 62,49 64,57 64,46 63,56 58,6 41,4
Profissionais e técnicos 6,90 7,90 8,56 9,37 54,0 46,0 Executivos e cargos administrativos 2,39 2,36 2,06 1,89 90,0 10,0 Serv. escritório e outros 11,57 12,52 12,85 12,47 39,0 61,0
Vendas 9,40 9,45 9,11 8,92 61,8 38,2
Serviços de saúde e previdência 5,35 6,10 6,77 7,57 43,6 56,4 Agricultura, silvicultura e pesca 4,48 3,63 3,21 2,79 59,1 40,9 Transporte e comunicações 2,33 2,37 2,21 2,04 94,6 5,4 Artesão, operários e construção 17,02 16,87 15,80 14,16 75,9 24,1 Trabalho não especializado 2,74 3,10 3,47 3,63 55,9 44,1 Fonte: MIC (2006b)
1) Inclui “status de força de trabalho não registrada”
É interessante também observar a composição da economia japonesa em termos do número de estabelecimentos e do número de funcionários por estabelecimento. Segundo o “Censo de Estabelecimentos e Empresas” de 2004, havia no Japão 5,73 milhões de estabelecimentos comerciais, empregando um total de 52,07 milhões de pessoas (tabela 14). Contudo, as grandes empresas (mais de 300 funcionários), que representavam 0,17% do total de estabelecimentos, foram responsáveis por uma parcela de 11,91% das pessoas empregadas no setor privado, ao passo que 88,09% da população empregada no setor privado estava concentrada em empresas de 1 a 299 funcionários, conforme a ilustra a figura 4 (MIC, 2006b).
Tabela 14: Número de estabelecimentos comerciais e pessoas empregadas no setor privado. Japão, 1999 e 2004. Número de estabelecimentos (mil) Pessoas empregadas (mil) 1999 2004 1999 2004 Total 6.203 5.728 53.809 52.067
Por tipo de entidade legal
Negócios próprios 3.243 2.859 8.828 8.094 Empresas (Ltda. +S/A) 2.924 2.837 44.801 43.843 Empresas Ltda. 2.626 2.528 40.039 38.422 Organizações não incorporadas 36 32 178 130 Por número de funcionários
1 – 4 pessoas 3.907 3.526 8.154 7.594 5 – 9 pessoas 1.161 1.099 7.531 7.151 10 – 29 pessoas 843 813 13.462 13.008 30 – 99 pessoas 239 230 11.710 11.335 100 – 299 pessoas 43 43 6.813 6.779 Acima de 300 9 10 6.137 6.200
Fonte: Elaborada pelo autor a partir de MIC (2006b)
Nota: Todos os estabelecimentos comerciais (excluindo-se aqueles pertencentes à pessoas físicas nas atividades agrícola, silvícola e pesqueira) localizados no Japão, incluindo lojas, fábricas, escritórios, bancos, escolas, hospitais, templos e igrejas, hotéis e pousadas.
Figura 4: Participação das firmas comerciais¹ e da força de trabalho ocupada por escala de empresa. Japão, 2004.
Fonte: MIC (2006b)
¹Exclui os estabelecimentos de propriedades individuais nos segmentos de agricultura, silvicultura e pesca.
Esta distribuição assume importância pelo fato de que tanto o período de permanência no emprego quanto a proporção das diversas formas de relações contratuais utilizadas pelas grandes empresas japonesas tendem a ser distintas daquelas observadas
nas pequenas e médias empresas (SATO, 1997), como mencionado no capítulo 4. O número total de trabalhadores empregados sob o sistema japonês de emprego permanente “puro” (com longo período de permanência no emprego e sob condições favoráveis de proteção no emprego) nas grandes empresas e no governo corresponde a cerca de 20% do número total de empregados no Japão, enquanto que os trabalhadores com relações contratuais atípicas, como aqueles em tempo parcial e com contratos através de agências de emprego, e que trabalham tanto para grandes como médias empresas, correspondem a cerca de um quarto do total. Entre estes dois grupos há os trabalhadores empregados nas médias e pequenas empresas com contratos de trabalho com “prazo indefinido”, mas que também desfrutam de relações de emprego mais estáveis e com maior proteção.