INTERPRETAÇÕES À LEI DA FICHA LIMPA
2.4 DIVERGÊNCIAS NO STF E O RESULTADO DO JULGAMENTO
Como dito alhures, houver flagrante divergência no julgamento, dada entre os Ministros da Suprema Corte pátria.
É importante, ainda que resumidamente, citar os votos dados por cada um dos Ministros, pois, assim demonstramos a divergência, que não deixa de ser um sinal do amadurecimento da democracia.
Iniciando pelo Relator dos Processos, unidos por prevenção, Ministro Luiz Fux, declarou em seu voto parecer, que as ADCs eram parcialmente procedentes, uma vez entender que em seu bojo, residiam algumas inconstitucionalidades, notadamente, no art. 1º, alínea “k”
da LC 64/90 e no art. 1º, I, alínea “e” da mesma Lei, esta inovada por intermédio da LC 135/10.
Observe, que o resultado do julgamento das Ações Declaratórias de Constitucionalidade (ADCs), concluído em 16 de fevereiro de 2012, estabeleceu o placar de 7x4, a favor da constitucionalidade da Lei da Ficha Limpa.
Obviamente, a constitucionalidade foi admitida pela maioria, porém, não podendo se falar em ampla maioria e, longe de se atingir a unanimidade como em outros julgados na mesma Corte.
Vejamos, alguns pontos basilares de cada voto.
O Relator da ADC, Ministro Luiz Fux, entendeu que parte das ADCs era constitucional e outra, inconstitucional, opinando pela procedência parcial das ADCs 29 e 30.
O Ministro Joaquim Barbosa, que pediu vista para manifestar seu posicionamento, exarando entendimento de que a Lei da Ficha Limpa, era harmônica com a Carta Magna e que era chegada a hora de a sociedade ter o direito de escolher e se orgulhar da escolha de seus candidatos.
O Ministro Dias Toffoli, foi quem abriu a divergência, lastreando a mesma no princípio de que qualquer punição, somente pode ser efetivada, tendo ocorrido o trânsito em julgado de uma sentença condenatória.
A Ministra Rosa Weber, acompanhamento o voto de Joaquim Barbosa, salientou o grande apoio popular para a edição da Lei Nº 135/2010, sendo que a norma, até então, ocupava o quarto lugar no ranking de leis de iniciativa popular com grande êxito no Brasil.
A Ministra Cármen Lúcia, acompanhou integralmente o voto do Relator.
Também o Ministro Ricardo Lewandowski, ao exarar seu voto, bateu pela constitucionalidade da Lei da Ficha Limpa.
Ayres Brito, foi outro Ministro que também manifestou pela Constitucionalidade da Lei, destacando em seu voto, que entende que a Constituição Brasileira e, as normas jurídicas, devem ser mais duras no combate à imoralidade e à improbidade.
Gilmar Mendes acompanhou o entendimento pela divergência aberta por Dias Toffoli, destacando que uma lei não poderia retroagir para alcançar atos e fatos passados, sob pena de se violar o princípio da segurança jurídica.
Já o Ministro Marco Aurélio entendeu pela Constitucionalidade da Lei da Ficha Limpa.
Por sua vez, o decano do S.T.F., Ministro, Celso de Mello, entendeu que a Lei da Ficha Limpa seria inconstitucional.
O Ministro Cezar Peluzo, então, Presidente da Corte, também exarou entendimento defendendo que a LC Nº 135/2010 não pode alcançar fatos ocorridos de sua vigência.
Assim, votaram pela inconstitucionalidade das ADCs, os Ministros: Dias Toffoli, Gilmar Mendes, Celso de Mello e Cezar Peluzo. Pela constitucionalidade: Luiz Fux, Joaquim Barbosa, Rosa Weber, Cármen Lúcia, Ricardo Lewandowski, Ayres Brito e Marco Aurélio.
Com a declaração de constitucionalidade da Lei da Ficha Limpa, tal qual ocorreu agora, quando o Poder Legislativo, abriu uma exceção à regra, ao admitir mudança na Legislação Eleitoral, para um pleito já no ano em curso
É que o Poder Judiciário, à época, e a nosso ver, também abriu uma exceção, ao exarar entendimento de que a Lei da Ficha Limpa, alcançava fatos anteriores à sua edição, ou seja, poderia retroagir par alcançar fatos anteriores à sua vigência.
Destaque-se, quanto à questão das divergências, propriamente ditas, além do próprio placar, alguns pontos, como o esposado pelo Ministro Dias Toffoli, ao abrir a divergência ao voto do Relator, invocando o art. 15, III, da Magna Carta, que “ipsis literis”, estatui que a suspensão dos direitos políticos, somente deveria ocorrer, após uma sentença condenatória com trânsito em julgado, ou seja, irrecorrível.
Ainda, outra divergência apontada pelo Ministro Marco Aurélio de Melo, relacionada à questão da irretroatividade de uma norma a fatos pretéritos, o que no seu entender, vai de encontro aos princípios da anualidade e anterioridade, como já explanados e abordados neste estudo.
Nesta esteira, temos que o princípio da presunção de inocência, a irretroatividade das sanções das normas, dado à anualidade e à anterioridade, seriam divergências que não poderiam ter sido abarcadas na Lei Nº 64/90 por intermédio da LC Nº 135/2010.
Entretanto, apesar das divergências, a mais alta Corte Pátria, até o momento, é assim que decide e aplica, ainda que para alguns juristas e políticos, tal pensamento, interfere na escolha soberana do voto do cidadão e ainda leva à cassação de direitos políticos de determinadas pessoas, que mais tarde, poderão ser absolvidas, sem ter como reparar tal interferência.
Por derradeiro, considerando além da maioria dos Julgadores com assento no STF, a própria vontade popular, pela via da iniciativa à LC Nº 135/210, tem-se que o objetivo da moralização dos pleitos e das atividades inerentes aos agentes políticos na Administração Pública, intenção maior da iniciativa, estão mais próximos de ser alcançados.
O resultado final do julgamento, foi pela declaração de inconstitucionalidade da ADI Nº 4578/DF e pela constitucionalidade da ADC Nº 29 e ADC Nº 30.
Foi preciso, um interstício de tempo de um ano e oito meses, entre 2010 e 2012, para que o Supremo Tribunal Federal, finalmente, decretasse a constitucionalidade da Lei da Ficha Lima.
Entretanto, passados oito anos da história decisão, a judicialização da política brasileira, está cada vez mais, lançada sobre os ombros togados, que a cada eleição, se vê às voltas com diversos questionamentos e procedimentos, que de uma forma ou de outra, retornam a questão à baila.