CAPÍTULO I PROCESSOS DE TERRITORIALIZAÇÃO NO
1.2 TEMPO DO IMPÉRIO: OS ALDEAMENTOS INDÍGENAS
1.2.3 Diversidade étnica nos aldeamentos: Alcances e Limites das
Marcante (2012) destaca a grande diversidade étnica que o aldeamento de São Pedro reuniu, além dos Guarani Kaiowá, Guarani Ñandeva e Kaingang, havia africanos livres, não indígenas e não negros (colonos, comerciantes e militares). A diversa composição étnica, segundo este autor, caminhava de encontro com o projeto de civilização imperial direcionado aos indígenas, que buscava a interação entre estes grupos.
Apesar da diversidade étnica na composição populacional dos aldeamentos, principalmente pela experiência do aldeamento de São Pedro de Alcântara, o que a etnografia de Amoroso (2014) nos mostra é os diferentes grupos guardando distâncias entre si, observáveis pela constituição de suas aldeias, roças, plantações mantidas separadas dos outros grupos. Por exemplo, os africanos livres ficavam próximos da sede do aldeamento, os Kaiowá mantinham suas aldeias ao norte da sede, descendo o rio Tibagi na margem esquerda deste. As aldeias dos índios Guarani Ñandeva também ficavam ao norte do núcleo urbano do aldeamento, mas na outra margem do rio Tibagi, em direção ao rio das Cinzas. Por outro lado, os Kaingang mantinham suas aldeias ao sul da
sede de São Pedro de Alcântara, na margem esquerda do rio Tibagi, em direção à vila de Tibagi. Assevera-se, que apesar da distância entre os grupos, isto não quer dizer que não havia contato entre eles, porém havia uma animosidade, principalmente entre Guaranis e Kaingang (Amoroso, 1998; 2014; Marcante, 2012).
As distinções entre os Guarani Kaiowá, Guarani Ñandeva e os Kaingang em São Pedro de Alcântara não se limitaram a divisão espacial das aldeias. É possível também visualizar as distinções quanto à inserção nas atividades produtivas do aldeamento. Amoroso (2014) apresenta que entre 1855 e 1863 as produções agrícolas do aldeamento visavam ao abastecimento interno; após esse período, entre 1863 e 1870, os excedentes começaram a ser exportados para os mercados locais e, após 1870, para mercados mais distantes (Amoroso, 2014, p. 106).
Os diferentes grupos indígenas mantinham distâncias entre si, e se empenhavam em atividades diversas. Frei Timotheo de Castelnuovo, que administrou o aldeamento de São Pedro de Alcântara, qualificava as relações entre os diferentes grupos de Guarani e Kaingang através do conceito de “rivalidades”54
, pois, segundo ele as interações quando ocorriam eram marcadas por conflitos. O frei descreve alguns episódios de “guerras” entre Guarani e Kaingang. Uma destas “guerras” culminou na demanda do frei, pela constituição do aldeamento de São Jerônimo, que atendesse exclusivamente os Kaingang.
As ações da política imperial para os indígenas visavam o “amansamento dos índios”, buscando a incorporação dos grupos indígenas à sociedade brasileira que estava em gestação. Estas ações imperiais buscavam o controle territorial dos indígenas para viabilizar a expansão da sociedade não indígena, na região interiorana da província do Paraná (Marcante, 2012).
Apesar da política direcionada aos aldeamentos imperiais terem sua atuação pautada no convívio e nas interações sociais entre não indígenas e grupos indígenas aldeados, tendo em vista a integração dos indígenas à sociedade nacional, o que aconteceu na prática demonstra uma dissonância do que era esperado. Como exemplo, temos a recomendação do frei capuchinho Timótheo a respeito dos Guarani Kaiowá, Kaingang e dos Guarani Ñandeva no aldeamento de São Pedro de Alcântara, ele dizia que “era preciso aproveitá-los em separado”, a administração do aldeamento se dava a partir de negociações nas quais se levava em conta as distâncias construídas e mantidas entre si pelos
54 Amoroso (2014) destaca o uso do termo “rivalidades” nos relatos dos
coletivos indígenas aldeados e frente aos colonos e a administração (Amoroso, 2014). Os aldeamentos incorporavam as aldeias dos índios localizadas longe da sede do aldeamento. Segundo o frei, a condição de existência do aldeamento era que fossem respeitadas as distâncias políticas constituídas pelos chefes de cada grupo:
“Tais povos supra, pela diversidade de línguas, cores e costumes, formam uma povoação interessante e excepcional, mas que vivem em uma harmonia admirável, se bem [que] vivem cada um separado, com suas casas de moradia e lavouras, assim exigindo a prudência, a fim de evitarem que uns aos outros não se prejudiquem em seus interesses”55.
Deste modo, observa-se que cada etnia respondeu de modo diferenciado às diferentes situações de contato, levando-se em consideração que, quando no mesmo aldeamento, permaneciam espacialmente separados, com fronteiras bem delimitadas, como no caso de São Pedro de Alcântara; ou então separadas em espaços de utilização exclusiva como no aldeamento de São Jerônimo.
Os freis capuchinhos administraram os aldeamentos adaptando o Regulamento das Missões para a realidade dos indígenas no Paraná, de forma a atender as distâncias construídas por cada grupo doméstico e seus chefes, respeitando as distâncias entre as facções. Frei Timótheo enfatizava que era preciso respeitar a desconfiança que os índios mantinham dos cristãos e de tudo o que representavam. Além da relação dos Guarani Ñandeva, Kaiowá e entre os Kaingang, entre si e de uns com os outros, pois os contatos entre grupos eram permeados por “rivalidades”. Estas questões eram para o frei de difícil remoção, e a razão que teria levado ao “fracasso” do Programa de Catequese e Civilização dos Índios (Amoroso, 2014, p.201).
Contudo, no que tange a questão territorial, percebe-se que os aldeamentos indígenas cumpriram com a missão de liberarem os territórios que estavam sendo ocupados pelos indígenas para ocupação dos nacionais e estrangeiros que chegavam, a fim de acelerar a ocupação não indígena no Paraná. Quanto mais os não indígenas se aproximavam, mais confinavam as populações indígenas que iam se distanciando.
55 Frei Timotheo de Castelnuovo ao comissário da Ordem Menor, 31 de junho
No que diz respeito a políticas de miscigenação, temos o que consta no Regulamento das Missões, objetivos explícitos que norteavam a ação dos administradores dos aldeamentos, por vezes registrados nos relatórios dos freis, ao buscarem estratégias para a civilização dos “selvagens”, pensados por meio da interação entre colonos, e a promoção dos intercasamentos. Contudo, na prática o que pode ser observado que os indígenas mantinham distâncias entre os diferentes grupos e destes do “núcleo urbano” dos aldeamentos. Os aldeamentos imperiais só tiveram um prosseguimento, devido as adaptações que os freis capuchinhos realizaram, por meio de negociação entre eles e os diferentes grupos indígenas e seus chefes.
Com o advento da República os estados da federação passaram a ter o controle sobre as terras consideradas devolutas, quando a 1ª Constituição Republicana de 1891 transferiu para os governos estaduais o controle e as decisões sobre essas terras. No que concerne as terras dos índios esta Constituição foi omissa, nem mesmo a demarcação dos terrenos por iniciativa dos agentes federais, como estabelecia no Decreto 8.072 (nos artigos 4º, 5º e 6º), era consensual, pois os governos dos estados exigiam que ocorresse a tramitação pelos institutos de terras estaduais (Oliveira, 2004).
1.3 TEMPO DA REPÚBLICA: FECHANDO O CERCO56: