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PARTE I – ENQUADRAMENTO GERAL

1. DA DIVERSIDADE CULTURAL NAS SOCIEDADES ÀS SUAS IMPLICAÇÕES PARA OS

1.1. DIVERSIDADE CULTURAL: CONTRIBUTOS PARA UMA EXPLICITAÇÃO

… todos nós somos hoje multiculturais, nem todas as sociedades conseguem ser interculturais, pois nem todas procuram activa e programadamente retirar benefícios da multiculturalidade nelas eventualmente existente. Dizendo a multiculturalidade respeito a factos, em parte produzidos automaticamente pelos sistemas sociais, a interculturalidade só pode resultar de um projecto em que uma cultura se disponibiliza a ser polinizada por outras, absorvendo elementos delas, de forma a produzir novos entrosamentos ideológicos e mais ricos capitais sociais e culturais, abertos a tudo o que é promissor e acrescidos nas suas potencialidades pela interacção diferencial. (Lages & Matos, 2009, p. 26)

Lages & Matos (2009) registam o facto de que hoje as sociedades não podem deixar de ser multiculturais advertindo, contudo, que dessa situação não se conclui que elas sejam interculturais. Esta constatação remete-nos para o campo da diversidade cultural patente socialmente não só a nível local como a nível global. Assume-se, assim, a multiculturalidade social como a existência de uma pluralidade de culturas, partilhadas por um conjunto de indivíduos, ou seja uma diversidade de culturas coexistindo numa determinada sociedade, num determinado espaço geográfico.

Importa, agora, recordar ou seja o que se acolhe, neste estudo, como diversidade cultural recorrendo para isso a Kiyindou (2006) e a Arnesen (2010a). Kiyindou (2006) considera a existência de duas conceções, uma conceção inicial como produto da expressão cultural de uma comunidade ou grupo, centrada na arte e na literatura, e uma outra fruto de uma perspetiva sociológica e antropológica do que é cultura de onde sublinha os modos de vida, os direitos humanos, os valores, as tradições e as crenças.

Arnesen (2010a) alia, ao apresentado, a leitura de ser este um conceito com múltiplas conotações e interpretações do que é cultura em função da sua evolução histórica e, consequentemente, social. Considera-o um conceito em evolução tal como outros conceitos. Assim, a diversidade cultural pode ser

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entendida segundo diversas conceções, particularmente no modo como a cultura é assumida, ou tem sido assumida, na evolução histórica da humanidade.

São várias as explicitações do conceito de cultura por teóricos de referência. Identificamo-nos com uma perspetiva dinâmica de cultura, em que o indivíduo é um elemento ativo na sua construção e não somente alguém que absorve a cultura do seu grupo ou classe de pertença, alguém que em função do contexto e do que necessita, il la construit, il l’élabore en fonction de stratégies diversifiées, selon les besoins, et les circonstances, et ce, dans un cadre marqué par la pluralité, ce qui multiplie d’autant les sources et les références (Abdallah- Pretceille, 1999, p. 50).

De acordo com Nieto & Bode (2008) cultura consists of the values, traditions, worldview, and social and political relationships created, shared, and transformed by a group of people bound together by a common history, geographic location, language, social class, religion, or other shared identity9 (p. 171), não podendo, por isso, ser definida isoladamente pois “só nas relações de oposição e convergência com outras formas de olhar e simbolizar a realidade, e de se posicionar perante ela, é que os sistemas culturais se identificam” (Lages & Matos, 2009, p. 15). Podemos pois considerar que a cultura se apreende, se partilha, se adapta sendo um sistema dinâmico que continuamente se altera (Gollnick & Chinn, 2006).

Face ao que se reconhece como cultura, Ouellet (1991) coloca-nos perante a questão da identidade cultural individual e o que lhe está subjacente, designadamente valores, etnicidade, religião, género, idade, classe social, língua materna, localização geográfica, zona de residência urbana ou rural, excecionalidade, sendo esta última entendida como característica única, de exceção, de diferenciação. Gollnick & Chinn (2006) identificam o acima exposto como características predominantes na construção da identidade cultural individual ou de determinado grupo ou classe social numa contínua interação que propicia trocas culturais entre membros de diversos grupos.

9 Consiste nos valores, nas tradições, numa visão de mundo e nas relações sociais e políticas criadas, partilhadas e transformadas por um grupo de pessoas ligadas por uma história, localização geográfica, língua, classe social, e religião comuns ou outras identidades compartilhadas. (tradução da autora do estudo)

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Recorrendo a uma interessante analogia com um quebra-cabeças os mesmos autores sintetizam (figura 1) os elementos que consideram preponderantes na construção da identidade cultural.

Figura 1 - Identidade Cultural

Fonte: Gollnick, D.M.; Chinn, P.C. (2006). Multicultural Education in a Pluralistic Society. (7th ed.). New Jersey: Pearson Prentice Hall. (p. 21)

São, assim, vários os elementos inerentes à construção da identidade cultural, intrínsecos ao que se pode entender como cultura individual ou de grupo ou classe social. Podemos ir mais longe na analogia. Num quebra-cabeças as peças são de diferente dimensão, mas todas indispensáveis e insubstituíveis. Se faltar uma peça o quebra-cabeças não pode ser concluído. Se à representação da identidade cultural faltar um dos elementos constituintes há uma lacuna na sua constituição o que poderá ter uma influência nociva no seu desenvolvimento quer a nível individual quer a nível social.

Como sabemos a multiculturalidade social não é um «fenómeno» recente, tem raiz na construção da maior parte das nações. Contudo, o modo ou modos como tem sido equacionada ao longo da evolução histórica da humanidade possibilitou

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não só a sua visibilidade local como global, permitindo posicionarmo-nos perante a atualidade.

Um dos fatores que marca a realidade atual, ou seja, a visibilidade da multiculturalidade, está alicerçado nas migrações. Estas podem ter diversas causas, Stuart Hall (2011) lista-nos algumas:

Impulsionadas pela pobreza, pela seca, pela fome, pelo subdesenvolvimento económico e por colheitas fracassadas, pela guerra civil e pelos distúrbios políticos, pelo conflito regional e pelas mudanças arbitrárias de regimes políticos, pela dívida externa acumulada de seus governos para com os bancos ocidentais, as pessoas mais pobres do globo, em grande número, acabam por acreditar na “mensagem” do consumismo global e se mudam para os locais de onde vêm os “bens” e onde as chances de sobrevivência são maiores. (p. 81)

Outros fatores contribuíram, igualmente, para o incremento das migrações, não só fatores, como os acima referidos, outros, diretamente relacionados com a sociedade global. São disso testemunho o deslocar de trabalhadores inseridos em grandes empresas multinacionais, ou de funcionários adstritos a organizações supranacionais, como é o caso, entre outras, da Organização das Nações Unidas (ONU).

Pode-se, pois, afirmar que

… a segunda metade do século XX, devido principalmente a factores económicos e políticos, foi marcada por um processo progressivo de erosão ou mesmo dissolução dos grandes Estados-Nação do século XIX, constituindo-se uma geografia político-cultural marcada por aquilo que poderemos chamar Estados poliétnicos ou seja, Estados que acolhem no seu seio comunidades fortes de etnias e nacionalidades diferentes ou Nações que se dispersam por diferentes Estados. (André, 2012, pp. 17-18)

Banks (2014) baseado num estudo de 2012, realizado nos Estados Unidos10, refere que o número de indivíduos residentes fora do seu país natal passou de 120 milhões em 1990 a 214 milhões em 2010.

O processo migratório, intensificado ao longo da segunda metade do século XX, tornou, assim, possível a aproximação de grandes massas de pessoas portadoras

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de culturas diversas com “novas formas de identidade, novas formas de cidadania, novas formas de posicionamento no mundo do trabalho, novas formas de pensar e de viver o território” (Stoer & Magalhães, 2005, p.118). A propósito de novas formas de identidade recordamos um poema do escritor moçambicano Mia Couto11, por nós considerado paradigmático de como a identidade se constrói em interação.

Identidade

Preciso ser um outro para ser eu mesmo Sou grão de rocha

Sou o vento que a desgasta Sou pólen sem insecto Sou areia sustentando o sexo das árvores

Existo onde me desconheço aguardando pelo meu passado ansiando a esperança do futuro No mundo que combato

morro

no mundo por que luto nasço

Mia Couto (1977)12

Em suma, são novas formas de construção de identidades, novas formas de percecionar o mundo, novas formas de relacionamento social e de trocas culturais, tendo como pano de fundo a etnicidade. Etnicidade compreendida como “as práticas culturais e os modos de entender o mundo que distinguem uma dada comunidade das restantes” (Giddens, 2004, p. 248).

A visibilidade da multiculturalidade social e a sua expressão têm, igualmente, raiz na primeira metade do século XX dilacerado por duas grandes guerras

11 Escrito em 1977 sendo só posteriormente editado.

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mundiais, seguindo-se o eclodir de vários movimentos pela igualdade de direitos. Banks (2014) caracteriza estes movimentos ao referir que:

During the course of U.S. history marginalized and structurally excluded identity groups have organized and worked for their group rights which resulted in greater equality and social justice for marginalized groups within the United States as well as in other nations.

The Civil Rights Movement in the United States echoed throughout the world and empowered marginalized groups in other nations to organize and protest for full structural inclusion into their nation-states and societies.13

(p. 5)

Lembremos, entre outros, Martin Luther King Jr. e a sua luta pelos direitos civis dos negros, a luta das mulheres por direitos civis e salários iguais, os movimentos estudantis com o auge no “maio de 68”, os movimentos de âmbito mais cultural e anti belicista, nomeadamente o movimento hippie, os de preservação da Natureza, de liberdade religiosa, e os movimentos revolucionários que conduziram à independência de vários países até aí subjugados a potências colonialistas.

O exposto aliado à queda de várias ditaduras, designadamente na Europa, ao fim do apartheid na África do Sul, via Nelson Mandela, possibilitou o emergir de toda uma multiculturalidade até aí confinada a determinados espaços geográficos e ou silenciada por poderes políticos monoculturais e, por vezes, ditatoriais.

Ao apresentado, junta-se, sem qualquer dúvida pela importância que desempenhou e desempenha, o avanço tecnológico e o papel dos media no acesso à diversidade, seja esta de que âmbito for. A gastronomia é um dos exemplos, entre outros como a música, o cinema, a pintura, o artesanato, a literatura, ou debates sobre diferentes conceções sejam estas de cariz político, jurídico, ético, linguístico, religioso ou outro.

As guerras, os atentados, o flagelo exercido a alguns povos, tornaram-se, também, casos com que os media, em particular os televisivos, nos confrontam

13 No decurso da história dos EUA marginalizados e grupos identitários estruturalmente excluídos organizaram- se e trabalharam para os seus direitos de grupo, tal resultou numa maior igualdade e justiça social para os grupos marginalizados dos Estados Unidos, bem como para outras nações.

O Movimento dos Direitos Civis nos Estados Unidos ecoou por todo o mundo e possibilitou a outros grupos marginalizados, de outras nações, organizarem-se e protestarem para a inclusão estrutural plena em seus estados-nação e nas sociedades. (tradução da autora do estudo).

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dia-a-dia. Recordemos a este propósito, três exemplos marcantes. Um, ainda, no século passado dois já em pleno século XXI. O primeiro diz respeito a 1990, à Guerra do Golfo, onde, segundo me é dado lembrar, pela primeira vez, em Portugal, se assistiu ao início de um confronto militar em direto, neste caso com o intuito de libertar o Kuwait ocupado por forças militares iraquianas. Os outros dois exemplos referem-se, também, ao se assistir, em direto, aos atentados do 11 de setembro de 2001 a diversos pontos dos Estados Unidos da América, e, mais recentemente, ao infortúnio de milhares de pessoas, provenientes de países dilacerados por guerras, tentando procurar refúgio na Europa.

Face ao já exposto quanto à intensificação e correlação de relações económicas, políticas e sociais, e consequentemente culturais, a nível local e global encontramo-nos perante o que é, em regra, definido como globalização (Giddens, 2004), ou seja “processos atuantes numa escala global, que atravessam fronteiras nacionais, integrando e conectando comunidades e organizações em combinações de espaço-tempo, tornando o mundo, em realidade e em experiência, mais interconectado” (Hall, 2011, p. 67), ou, ainda, como Santos considera: “os conjuntos de relações sociais que se traduzem na intensificação das interacções transnacionais sejam elas práticas interestatais, práticas capitalistas globais, ou práticas sociais e culturais transnacionais” (Santos, 2006, p. 90).

Tal não implica a leitura de que esta intensificação de práticas sociais e culturais não faça emergir conflitos face à la difficulté de faire cohabiter cette pluralité de cultures, de groupes ethniques, de religions et de visions du monde14 (Canen & Santiago, 2013, p. 43).

Alguns dos aspectos considerados como geradores de possíveis conflitos face à coexistência de uma multiplicidade de culturas são aspectos como o etnocentrismo, o relativismo cultural e o racismo.

O etnocentrismo representa uma visão centrada nas «lentes» com que observamos os «outros» diferentes de «nós», ou seja uma análise que conduz a uma interpretação à luz dos valores e crenças do nosso grupo ou classe de pertença, uma visão etnocêntrica, tal como a origem grega da palavra nos

14 Perante a dificuldade de coexistência desta pluralidade de culturas, de grupos étnicos, de religiões e de visões de mundo. (tradução da autora do estudo)

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sugere15. Assim, consideram-se os «outros» mais ou menos desenvolvidos culturalmente em função dos padrões culturais com que são analisados (Cardoso, Sequeira et al, 1998).

O relativismo cultural é uma atitude que se baseia no princípio de analisarmos as características de outras culturas como se delas fizessemos parte, ou seja uma atitude que conduz à observação dos «outros» através das suas próprias «lentes» culturais (Gollnick & Chinn, 2006). Vejamos um exemplo paradigmático relatado, pelos autores, como sendo um provérbio originário dos índios norte- americanos: Never judge another man until you have walked a mile in his moccasins16 (p. 20).

Todavia, o relativismo cultural e a relativização de valores que dela decorre, a aceitação de todos os valores como defensáveis só porque perfilhados por alguma comunidade, podem levar ao choque com valores universais tidos como património da humanidade de que é exemplo o direito à vida. Nestas condições, o relativismo cultural é pernicioso por estar a legitimar posições que merecem ser combatidas e por dificultar ou impedir, de facto, a interculturalidade.

O racismo fundamenta-se no conceito de raça, ou seja no pressuposto da diferenciação de fenótipos, e na superioridade de uma raça sobre outras. Diferenciam-se as pessoas pelas suas características físicas, especialmente a cor, ou seja a menor ou maior quantidade de melanina ou traços morfológicos, justificam discriminação, partindo-se do princípio que uma “raça” (seja a branca ou outra) se sobrepõe a qualquer outra. Porém, podemos considerar haver outras manifestações de racismo não fundamentadas na biologia mas sim em ideologia (s). Vejamos o que a este propósito refere Munanga (2004): “É um conceito carregado de ideologia, pois como todas as ideologias, ele esconde uma coisa não proclamada: a relação de poder e de dominação” (p. 22), o que tem implícito a apropriação do poder por classes ou grupos maioritários, e a consequente dominação de classes ou grupos minoritários, conduzindo, assim, à supremacia da cultura maioritária sobre a minoritária, discriminando-a. Em

15 Eethnós,- eos,raça,povo+cêntrico.

16 Nunca julgue outro sem que primeiro tenha experimentado os seus mocassins. (tradução da autora do estudo)

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suma, não se discrimina pelos traços morfológicos mas sim pela pertença cultural, conduzindo, por vezes, à xenofobia (Vala & Lima, 2002).

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