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DIVERSIDADE CULTURAL E SEUS TERMOS: MULTICULTURALISMO,

1. DA INCERTEZA SE O PASSADO É DE FATO PASSADO: APROXIMAÇÕES

1.2 DIVERSIDADE CULTURAL E SEUS TERMOS: MULTICULTURALISMO,

HIBRIDISMO.

Falar de diversidade cultural no contexto das mudanças trazidas pelas novas tecnologias, como estamos fazendo nesta tese, requer cuidados no uso de termos que fazem referência, especialmente, a demarcações de identidade. A primeira dela parte daquilo que nos mostra Sérgio Paulo Rouanet (2005), que a questão talvez mais importante seja considerar aquilo que tem sido banalizado: o Estado democrático de direito. “Sem o estado democrático de direito não há como falar em diversidade cultural”47. A democracia não é algo que sempre existiu e sempre existirá. Para Rouanet, é preciso pensar na democracia e na sua fragilidade, é necessário falar dela. Segundo ele, é a democracia política que dá condições de existência a uma democracia racial.

A segunda preocupação diz respeito ao uso de termos que propõem o reconhecimento ou a tolerância às diferenças, presentes em grande parte das políticas voltadas à educação. Se certa compreensão do multiculturalismo pressupõe a coexistência pacífica de diferentes culturas e a interculturalidade “o reconhecimento recíproco e a disponibilidade para enriquecimento mútuo entre várias culturas que partilham um dado espaço cultural” (SANTOS, BOAVENTURA DE SOUSA, 2010, p. 16), convém reconhecer tal compreensão de sociedade, mas também ficar atento para que tais termos utilizados repetidamente nos discursos não terminem, como escreve Arroyo, apenas na “tolerância” ou nos “discursos débeis de tolerância entre os coletivos diferentes” (ARROYO, op. cit., p.143). É nesse sentido que críticas ao multiculturalismo afirmam que nessa concepção de coexistência entre culturas existe a pressuposição de uma cultura dominante que tolera pacificamente a convivência com os diferentes.

Atento a esse diálogo, especialmente voltado aos debates que ocorrem nos EUA, Said (2011) afirma que

se esses debates apontam um caminho para transformações políticas e mudanças na forma como se enxergam as mulheres, as minorias e os imigrantes recentes, não há por que temê-los nem tentar evitá-los. O que precisa ser lembrado é que

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as narrativas de emancipação e esclarecimento em sua forma mais vigorosa também foram narrativas de integração, não de separação, histórias de povos que tinham sido excluídos do grupo principal, mas que agora estavam lutando por um lugar dentro dele. E se as velhas ideias habituais do grupo principal não tinham flexibilidade ou generosidade suficiente para admitir novos grupos, então elas precisavam mudar, o que é muito melhor do que repudiar os novos grupos.48 O grande fluxo de imigrantes para a América do Norte fez com que o multiculturalismo fosse tomado como conceito-chave nos estudos e políticas liberais que versam sobre diversidade cultural. Contrapondo- se à perspectiva de um multiculturalismo conservador que ergue a bandeira da cultura comum e das minorias com bagagens inferiores, de um multiculturalismo humanista liberal, baseado na “igualdade entre as raças” e também de um multiculturalismo liberal de esquerda, que essencializa as diferenças, Peter McLaren (1997) propõe um “multiculturalismo crítico e de resistência”.

Para o autor, tanto a compreensão da diversidade como „igualdade‟ quanto a que a compreende na afirmação da „diferença‟ são essencialistas. Ele nos mostra que o desafio é não acreditar que exista uma igualdade natural entre as pessoas, tampouco que exista uma autenticidade nas diferenças, ignorando sua construção histórica e social49

. Para ele, a diferença não pode ser uma negociação entre grupos culturalmente diversos contra uma possível homogeneidade cultural; tampouco a sociedade deve ser compreendida como um lugar harmônico em que grupos culturalmente diversos possam co-existir sem conflitos e tensões, despidos de suas características, “descorporificados e transparentes”.50 Assim, o multiculturalismo de resistência,

se recusa a ver a cultura como não-conflitiva, harmoniosa e consensual. A democracia, a partir dessa perspectiva, é compreendida como tensa – não como um estado de relações culturais e políticas sempre harmonioso, suave e sem cicatrizes (MCLAREN, 1997, p. 123). 48 Ibid, p.31. 49 Ibid, p.120. 50 Ibid, p.124.

Embora não seja objetivo desta pesquisa aprofundar as teorizações sobre multiculturalismo, compreendo que uma aproximação de tais abordagens constitui uma etapa importante, nas palavras de Moacir Gadotti, na formação de um educador de “resistência”. Isso, especialmente no caso de uma pesquisa como a nossa, preocupada com a chegada das tecnologias digitais às escolas do campo, e a consequente abertura que elas tendem a trazer em relação às culturas globais do capitalismo. A escola é um espaço primordial para debates sobre a diversidade, o pluralismo, as tensões sociais e disputas por identidade, especialmente diante dos novos desafios culturais trazidos pela globalização. Todos esses são temas caros para o exercício da cidadania e essenciais para a constituição de políticas públicas democráticas. Esta é uma justificativa pertinente para que discussões sobre eles estejam presentes nas práticas pedagógicas do presente e preocupadas com o futuro.

Outro aspecto a ser levado em conta quando o assunto em pauta é a compreensão de diversidade, diz respeito a uma compreensão de cultura como agressiva, atrelada à ideia de nação como fonte de identidade: a nação como aquilo que me diferencia do outro, numa apologia aos “retornos à verdadeira cultura e tradição”. Tal compreensão embasa um nacionalismo inveterado, frequente na própria estrutura educacional, onde as crianças na escola aprendem a valorizar e celebrar apenas as “suas” tradições, em um processo que pode gerar fundamentalismos, inclusive religiosos51

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E se, como já vimos em Boaventura Santos (2010a), Arroyo (2013b) e Said (2011), nos processos de dominação cultural uma diversidade enorme de línguas, culturas, etnias foi extinta, como pensar uma copresença das culturas se muitas delas foram extirpadas, caladas, desenraizadas? E aqui trazemos para o debate o conceito de hibridização cultural, muito usado em estudos que fazem referência às redes tecnoculturais globais contemporâneas.

Uma obra que tem servido como referencial teórico na área da educação e comunicação na América Latina, especialmente no que diz respeito às pesquisas sobre mídia-educação no Brasil, é Culturas híbridas: estratégias para entrar e sair da modernidade (2011) de Néstor García Canclini.

García Canclini dá especial atenção aos processos de hibridação decorrentes da indústria cultural e das tecnologias digitais, com foco nos efeitos da industrialização e da massificação global dos

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processos simbólicos. Naquela obra, publicada originalmente em 1989, ele dizia que o conceito estava ainda se desenvolvendo, sendo uma dificuldade o fato de que muitos estudos que se apropriavam do termo se limitavam a apenas descrever as mesclas interculturais. Para ele, muitos dos que criticavam o conceito entendiam-no equivocadamente, como sendo uma fácil integração e fusão de culturas, sem dar suficiente peso às contradições desses processos e àquilo que não se deixa hibridar.

García Canclini define hibridação como um conjunto de “processos socioculturais nos quais estruturas ou práticas discretas, que existiam de forma separada, se combinam para gerar novas estruturas, objetos e práticas” (GARCÍA CANCLINI, 2011b, p. XIX). Em uma reflexão posterior, Notícias recientes sobre la hibridación, García Canclini (2000) retoma a hibridação como sendo uma fusão de estruturas ou práticas sociais que podem gerar outras novas práticas, ocorrendo de modo não planejado, como “resultado imprevisto de processos migratórios, turísticos ou de intercâmbio econômico ou comunicacional”.52

Destaca o papel da criatividade individual e coletiva e do desenvolvimento tecnológico no surgimento de hibridações na vida cotidiana, papel este que é crucial para nossa pesquisa.

No que diz respeito à relação entre cultura e território, García Canclini observa que poucas culturas podem ser definidas como estáveis em territórios delimitados e reforça que o conceito de cultura híbrida não implica indeterminação: “A hibridação ocorre em condições históricas e sociais específicas, em meio a sistemas de produção e consumo que às vezes operam como coações” (Idem, 2011b, p.XXIX).

Para ele, os processos de hibridação, movimentos recentes de globalização que não só integram e geram mestiçagens, mas que também “segregam, produzem novas desigualdades e estimulam reações diferenciadoras” (Idem, 2011b, p.XXXI), produzem aquilo que ele denomina de “reconversão cultural”, ou “estratégias de reconversão econômica e simbólica em setores populares”. Nessas estratégias, ele cita como exemplo o pintor que vira desenhista, o camponês que adapta seus saberes para trabalhar e consumir na cidade, os indígenas que colocam suas demandas em discursos ecológicos e comunicam-nas através de rádio, TV e internet.

Ao problematizar as críticas recebidas pela forma como desenvolveu sua teoria, o autor aponta as principais dificuldades para tratar o tema. Para ele, “não se trata de hibridação em tom celebrativo, como harmonização de mundos, como afirmam alguns teóricos, ou

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quando o cosmopolitismo, ao hibridarmos, nos transforma em „gourmets multiculturais‟” (Idem, 2000, pp.68-69, tradução nossa). Por isso, sustenta diversas vezes em seu texto que o objeto de estudo não deve ser a hibridez, mas sim os processos de hibridação.

Embora concorde com algumas das críticas53

que García Canclini recebeu pelo seu trabalho,54

especialmente por sua abordagem essencialmente culturalista em assuntos que merecem uma posição política mais afirmativa nas questões de fundo epistemológico, é preciso reconhecer que seu pensamento colocou em pauta questões até então pouco abordadas, como os processos de hibridação a partir da relação cada vez mais estreita entre os seres humanos e os meios de comunicação/tecnologias digitais. García Canclini, assim como Jesús Martín-Barbero (MARTÍN-BARBERO, 2004, 2008) mostram como hoje, para abordar a diversidade de culturas, é também preciso levar em conta o acesso às redes digitais e o seu consumo, as formas de circulação cultural, compartilhamento de conteúdos e suas possíveis consequências – envolvendo relações público/privado, mercado, consumo e poder. São todas questões que precisam ser problematizadas o quanto antes no campo das políticas públicas do Brasil.

1.3 OUTRAS INSPIRAÇÕES PARA PENSAR O DIÁLOGO ENTRE