• Nenhum resultado encontrado

Diversidade de Autores

No documento Download/Open (páginas 68-70)

Com o intuito de refletir sobre as formas de produção científica presentes no levantamento, um dos primeiro passos foi mapear a formação dos autores que compuseram estas pesquisas. Desta maneira torna-se viável questionar, com mais propriedade, métodos e posicionamentos empregados e perceber como se manifesta a diferença e/ou a comunicação entre as ciências em um campo intrinsecamente interdisciplinar como a conservação da biodiversidade.

A sistematização da formação dos autores da base empírica foi realizada através das informações disponíveis sobre cada um deles na Plataforma Lattes. Dividimos os autores em grupos segundo com suas formações de Mestrado e Doutorado88 89. De acordo com esses critérios procuramos fazer uma classificação dos 8390 dos autores em três categorias: cientistas humanos, cientistas naturais e os híbridos. O maior contingente é de fato o de cientistas sociais (27), ou seja, possuem mestrado e doutorado nas disciplinas de sociologia, antropologia ou ciências políticas. Faria ainda parte de uma categoria mais abrangente “ciências humanas” dois historiadores, dois turismólogos, um psicólogo e oito geógrafos, totalizando 40 cientistas humanos.

88 Este critério foi utilizado e não a formação desde a graduação, pois isto tornaria muito difícil a classificação já que muitos autores possuem o primeiro estágio da vida acadêmica em uma área na qual não atuam hoje em dia. Além disso, os cursos de mestrado e doutorado foram privilegiados uma vez que é somente neste momento que a grande maioria dos cientistas realmente começa a exercer seu papel enquanto pesquisadores.

89 Nem todos os autores possuem doutorado. Neste caso foi considerada apenas a área onde foi exercida a pesquisa necessária à obtenção do grau de mestre.

90 Não foram contados mais de uma vez os autores reincidentes no levantamento. São eles: FERREIRA, Lúcia da Costa; CAMPOS, Simone Vieira; GIULIANI, Gian Mario;TEIXEIRA, Cristina; SILVEIRA, Pedro Castelo Branco. Interessante observar que todos estes são cientistas sociais.

59 A geografia é uma ciência de fronteira, portanto, poderia haver uma dúvida sobre sua classificação enquanto ciência humana. Todavia, nas pesquisas ocorridas na base são do campo da geografia humana, utilizando os referenciais da geografia cultural, geografia das percepções e geografia urbana e não os da geomorfologia, hidrologia ou pedologia. Outro aspecto importante é que entre geógrafos não há interdisciplinaridade, eles só trabalham com outros geógrafos desenvolvendo pesquisas referenciadas a autores da geografia, lançando mão de enfoques e metodologias típicos desta disciplina.

Entre os cientistas da natureza há, como era de se esperar, uma primazia dos biólogos, contando com 10 autores com mestrado e doutorado nas áreas de ecologia, ciências biológicas e biologia evolutiva. No campo das ciências naturais temos ainda três geólogos e quatro agrônomos, totalizando 17 autores nesta área do conhecimento.

Entretanto, um expressivo número de autores não se encaixa nem nas ciências sociais nem nas das ciências naturais: oito autores têm formação de mestrado e doutorado em centros interdisciplinares de ciências ambientais ou desenvolvimento sustentável, e outros 14 autores possuem formação pluridisciplinar, ou seja, cursaram o mestrado em uma disciplina e o doutorado em outra, na maioria das vezes sendo uma do campo das ciências sociais e outra do campo das ciências naturais91. Ou seja, 22 autores possuem uma formação de caráter híbrido possuindo contato com diferentes disciplinas e áreas do conhecimento.

Há ainda quatro autores que não estão cadastrados na plataforma Lattes, pois não exercem funções acadêmicas, como é o caso de uma promotora e de um executivo de alto escalão de uma empresa “ambientalmente responsável”. Isto corrobora o argumento explicitado no capitulo 1 de que não cientistas participam do processo de construção do conhecimento científico na área da conservação da biodiversidade.

Apesar de a pesquisa ter se pautado na produção dos periódicos de ciências sociais, os sociólogos, antropólogos e cientistas políticos, embora sejam o maior contingente, não representam nem 20% do grupo. Acompanhando o argumento de Kanashiro (2010), questionamos se isto não seria resultado da inclusão dos periódicos que se autointitulam interdisciplinares na classificação “Sociologia” da base Qualis da Capes. Seria possível assim explicar a presença tão frequente de cientistas de outras áreas em um levantamento voltado para a produção científica no âmbito das ciências sociais.

Entretanto, a presença de cientistas de diversas áreas não afasta o enfoque social proposto pelas revistas uma vez que todos os artigos focalizam o aspecto social de uma determinada situação onde a conservação da biodiversidade aparece como questão. Embora haja uma multidisciplinaridade92 no que diz respeito à formação dos cientistas, que se reflete no aspecto metodológico, quanto à temática, a problematização social prevalece.

A multidisciplinaridade, já clara neste primeiro mapeamento dos autores, fica ainda mais patente se observarmos a forma como os autores se distribuem nas pesquisas. É extremamente recorrente a coautoria entre pesquisadores provenientes de diferentes áreas do conhecimento. Ou seja, as fronteiras e definições entre as pesquisas das ciências sociais e ciências naturais não são claras aos olhos do leitor. As perspectivas dos dois campos se complementam e se misturam através do diálogo com pesquisadores de outros campos, ou até mesmo a partir de uma trajetória pessoal de pesquisa dialogada e multidisciplinar.

Isto não quer dizer que não haja diferenças metodológicas e teóricas entre as pesquisas. Há uma intensa heterogeneidade e diversos trabalhos que não se identificam

91 Se graduação dos autores também fosse incluída como critério teríamos mais 16 autores no grupo da formação pluridisciplinar.

92

Se há ou não interdisciplinaridade é uma questão mais complexa e profunda que será tratada adiante. Entendo aqui multidisciplinaridade como a convivência de mais de uma disciplina tratando da mesma temática e

interdisciplinaridade a fusão metodológica das disciplinas com o intuito de gerar uma forma de conhecimento mais complexo e profundo (JAPIASSU, 1976) .

60 totalmente nem com um campo nem com outro. Mas as características de produção científica demonstram que há disparidades entre as formas típicas de trabalho das ciências sociais e das ciências naturais, que estão relacionadas a diferentes formas de compreender o que é “ciência” e como deve ser praticada a construção do conhecimento científico.

No documento Download/Open (páginas 68-70)