A FLORESTA DE MANGUES: DO VELHO PARA O NOVO MUNDO
2.2 Diversidade plástica da flora do manguezal
A heterogeneidade ambiental característica de espécies com ampla distribuição geográfica pode promover a diferenciação entre as populações locais, as quais ficam submetidas às condições físicas e bióticas singulares e contrastantes (DOMÍNGUEZ et al., 1998). As consequências dessa heterogeneidade para cada população irão depender da importância relativa do fluxo gênico entre as populações e dos processos evolutivos que operam em escala local (WRIGHT, 1931, 1932, 1988; SLATKIN, 1987, 1993).
Os mangues refletem as condições ambientais adversas a que estão submetidos. As folhas, por exemplo, constituem sondas relevantes nos estudos da autoecologia e sinecologia pelo fato de possuírem estratégias evolutivas específicas que dependem da forma como se relacionam com o ambiente (PYYKKO, 1979). Consequentemente, a plasticidade dentro da mesma planta em ambientes heterogêneos é muito importante para sobrevivência dos mangues, do ponto de vista adaptativo (ZUNZUNEGUI et al., 2011).
Esta diferenciação ocorre devido à capacidade que os organismos possuem de interagir com o ambiente e de ter seu fenótipo modificado sob diferentes condições ambientais, o que se denomina plasticidade fenotípica (STEARNS, 1989; GRATANI, 2014).
Na natureza é difícil encontrar casos de ausência de plasticidade. Por esta razão, as pesquisas devem voltar-se para análises comparativas de unidades de estudo com o propósito de verificar diferenças na plasticidade. Quando as questões de pesquisa tomam este foco no âmbito da plasticidade fenotípica e as investigações ocorrem em diversos níveis de organização biológica, a exemplo de populações dentro de uma espécie, é preciso fazer uma amostragem profunda de campo, seguida de uma triagem aleatória de indivíduos (GIANOLI; VALLADARES, 2012).
Ressaltam ainda os autores que o fato essencial para a ecologia de uma espécie diz respeito à expressão de um determinado fenótipo no tempo e espaço e isso independe de mudanças orientadas pelos fatores, tamanho e ontogenia, os quais não afetam na implicação funcional final: a aptidão individual. A seleção natural, portanto, atua sobre as modificações de traços particulares que mostram que a sobrevivência e ou reprodução estão associados com a expressão de determinadas características fenotípicas, independentemente de outros mecanismos que já são inerentes ao processo de desenvolvimento das plantas.
Ao tratar-se da atuação da variável climática sobre os manguezais é relevante observar que pode haver expansão ou contração de habitat devido às modificações de precipitação, bem como mudanças nos padrões da vegetação decorrente das alterações do nível do mar, perda de folhas em meio à infestação de insetos, sufocamento das raízes por sedimentos finos, ervas marinhas ou algas e a desestabilização de árvores por causa da erosão de sedimentos (TREWIN, 2013). Dessa forma, ao considerar que o clima é mais um relevante agente responsável pela heterogeneidade ambiental, é possível inferir que as plantas podem apresentar respostas plásticas às variações desta importante variável ambiental (NICOTRA et al., 2010). Esta afirmação torna-se preocupante na medida em que as condições climáticas têm mudado com perspectivas negativas para o futuro (IPCC, 2007) e as populações de plantas respondem a cada mudança do clima (PEÑUELAS, FILELLA, 2001; PARMESA, YOHE, 2003) para evitar a própria extinção, seja através da plasticidade fenotípica ou da evolução adaptativa (HOFFMAN, 2011).
Além dos fatores climáticos, os mangues também apresentam um elevado nível de plasticidade em resposta à salinidade, inundações e disponibilidade de nutrientes
A salinidade do solo atua de maneira variável nos distintos habitats onde a flora de manguezal consegue colonizar e se estabelecer. Ainda que sejam halófitas em sua maioria e necessitem do sal para completar o ciclo de vida, a salinidade para algumas espécies tem consequências negativas em relação aos processos metabólicos e taxas de crescimento (CINTRÓN et al., 1978).
No caso da salinidade, os custos envolvidos com a sobrevivência das plantas são altos (BURCHETT et al., 1989). Nesse sentido, entre outros fatores que favorecem a adaptação da planta, a anatomia especializada limita a perda de água (TOMLINSON, 1986), o arranjo das folhas é organizado de maneira que o balanço hídrico seja melhor aproveitado pelas plantas e assim o tamanho das folhas sofrerá variações em decorrência de variantes ambientais (LOVELOCK et al., 2006).
A tolerância da flora de manguezal ao alagamento é um dos serviços mais valiosos que as florestas de mangues prestam para a sobrevivência do ecossistema (FELLER et al., 2010). Mas, esta particularidade influencia em processos ligados ao crescimento individual e está fortemente relacionada à morfologia e fisiologia das raízes, o que consequentemente influencia nos padrões da floresta como um todo (YOUSSEF; SAENGER, 1998).
Sobre a disponibilidade de nutrientes no solo, ocorrem variações dentro e entre os ecossistemas de manguezal. A quantidade de nutrientes em localidades próximas ao oceano é extremamente baixa, contudo, é muito elevada nos sistemas de acrecão de lama e nos locais que recebem efluentes resultantes das atividades humanas no geral, especialmente ações antrópicas ligadas à aquicultura (ALONGI, 2002).
O uso eficiente dos nutrientes em meio à alta disponibilidade destes para os mangues, expressa características morfológicas e fisiológicas diferenciadas. Em locais onde há disponibilidade de nutrientes suficientes para o desempenho eficaz da planta, as raízes são mais reforçadas (NAIDOO, 2009), as folhas apresentam alta expectativa de vida (DUKE, 1990), além de serem grossas (FELLER; CHAMBERLAIN, 2007) e a taxa de reabsorção pelos tecidos antes da senescência, também é eficiente (FELLER et al., 2010).
Por outro lado, florestas de mangues situadas em locais de baixa disponibilidade de nutrientes revelam consequências disto sobre o ecossistema, mas ainda assim apresentam espécies que conseguem colonizar e desenvolver-se, como é o
caso das espécies neotropicais altamente adaptadas à baixa disponibilidade de nutrientes: a Rhizophora mangle (NASCIMENTO, 2008; FELLER et al., 2010) e a
Laguncularia racemosa (FELLER et al., 2010).
Dessa forma, as condições climáticas e as variações regionais e locais de áreas costeiras são fatores limitantes que interferem tanto na colonização e desenvolvimento dos mangues, como também nas características morfológicas e fisiológicas das plantas, o que requer estudos cada vez mais atualizados no campo da avaliação da distribuição das espécies e da plasticidade fenotípica dos mangues voltados para conservação do sistema ambiental.
2.3 Diversidade funcional dos manguezais versus degradação das florestas de