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2. PERSPECTIVAS DE FORMAÇÃO E PROTEÇÃO INTEGRAL NO

2.1 A PROPOSTA CURRICULAR DO ESTADO DE SANTA CATARINA

2.1.2 A diversidade

Uma vez reconhecida a escola como um espaço de direitos que atingem indistintamente cada sujeito e reconhecendo que cada um destes é único, é imprescindível atribuir à diversidade um protagonismo central no exercício destes direitos. A unicidade que faz de cada sujeito, um cidadão portador de uma biografia única é o que inspira a compreender que a diversidade é fator primordial para que se edifique a concepção de que a escola (educação) é um espaço em que todos podem e devem caber.

Crianças e adolescentes que se encontram em seu início de percurso formativo e cidadão carecem da necessidade tácita de acolhimento indistinto para que tenham estabelecido também, o pleno direito à proteção. Afinal não há que se falar em proteção integral se alguma criança ou adolescente não for plenamente acolhido em suas necessidades educativas.

Neste cenário, a primeira necessidade educativa a ser acolhida é a pedagógica, através da qual, para além do reconhecimento de que todos são “inteligentes”, estabelece-se que todos devem ser devidamente desafiados, para que possam demonstrar e aprimorar o seu potencial. A isto muitos denominam de inclusão, o que na verdade corresponde a um elementar respeito aos que se aproximam da escola em busca de uma formação minimamente integral.

Afinal como supor uma formação integral que não respeite a identidade portada por cada sujeito, expressa também em suas potencialidades únicas? Como acreditar que uma escola seja capaz de formar integralmente um sujeito se submete à todos às mesmas práticas metodológicas e às mesmas avaliações? Certamente, isso faz com que na escola, estabeleça-se um certo ranqueamento, uma vez que a padronização típica da escola, faz com que alguns poucos que tenham habilidades coincidentes com as exigidas no meio escolar, logrem êxito.

Associe-se a esta lógica (a do desafio), a compreensão elementar de que todos tem capacidade de aprender, porém de forma diferenciada metodológica e temporalmente. Para além da capacidade, é também inegável o desejo de aprender, uma vez que há na identidade integral de cada sujeito, uma vontade explícita por fazer algo, intimamente associada às habilidades que possui. a significação deste desejo assenta-se também no prazer de estar no ambiente escolar e da aplicação daquilo que aprende às reais necessidades de sua vida.

Assim, a garantia de uma formação integral passa necessariamente pela clareza do entendimento de que há entre os seres humanos uma forte relação de completude na exata proporção em que se reconhece a desigualdade que os diferencia. Desigualdade que deve ser contemplada por oportunidades diferenciadas para que cada indivíduo possa valer-se de meios para alcançar com dignidade, seu espaço na teia social, uma vez que a sociedade não funcionaria se todos fizessem as mesmas coisas.

Do ponto de vista legal, a educação básica como conceito, surge com a LDB, a qual fortaleceu a criação de Diretrizes e Resoluções, para que antes de reconhecer a diversidade como fundamento educativo, fosse possível tornar o direito a esta formação elementar, acessível à população. A expressão educação básica procura oferecer a esta fase da formação humana a ideia de base associada à de estrutura, para estabelecer a ideia de fundamento sobre o qual deve se alicerçar todo o percurso de formação escolar em favor do exercício da cidadania.

A perspectiva da formação cidadã é ressaltada no documento da Proposta Curricular de Santa Catarina quando esta afirma que

A diversidade está relacionada com as aspirações dos grupos humanos e das pessoas de viver em liberdade e no exercício de sua autodeterminação, como também à aspiração da vida em democracia e à necessidade de vivenciar coletivamente as realidades sociais que são múltiplas e de lutar pelo reconhecimento dos direitos humanos e a respeitá-los. (SANTA CATARINA, 2014, p. 54)

Assim, nota-se a interface entre a formação integral propriamente dita e sua condição de alicerce para a sensibilização pela luta pela sua proteção integral. Neste sentido privilegia a conduta protetiva, garantindo à todos uma formação elementar acessível à todos e todas, sedimentando duas outras dimensões, fundantes para sua realização: a ideia de uma educação comum e a ideia do respeito à diferença.

A educação comum associa-se o entendimento de que todos os seres humanos, por mais diferentes que possam ser, tem o direito de apropriar-se das bases do patrimônio cultural da sociedade em que vivem. Conhecendo estas bases e tomando-as para si, os seres humanos tornam-se autores de sua própria proteção, não permitindo que qualquer tipo de violência ameace sua condição humana livre.

Em relação ao respeito à diferença, é visível o quanto avançou-se e quanto ainda há que se caminhar. É inegável que ao longo dos últimos, por força da própria

LDB, políticas educacionais de natureza pública, vêm sendo afirmadas visando unificar os seres humanos em favor de uma formação que lhes confira condições básicas para aprimorar suas características individuais. Não por acaso, observa-se que estes avanços foram possíveis após o término da ditadura civil-militar (1964 – 1985), notadamente com o advento da Constituição de 1988.

O texto constitucional que abriga também o direito à proteção integral à todos os seres humanos viventes em território brasileiro, reconhece implicitamente que cada ser humano possui experiências de vida e de culturais, que são únicas. Assim a referida constituição assevera a necessidade (obrigação) de que se respeitem todas as organizações sociais, etnias, nacionalidades, gêneros, orientação sexual, religiosidades, etc. Aplicado com a devida profundidade, este entendimento revela uma forte tendência a se respeitar as múltiplas singularidades, manifestadas inclusive na escola.

Para que este preceito constitucional seja respeitado e para que cada sujeito possa ser integralmente o que lhe cabe ser no conjunto do tecido social, outro valor essencial é a liberdade. A liberdade de conviver com quem é diferente ou até mesmo divergente sem necessariamente sentir-se obrigado à aderir ao que o outro faz, pensa ou manifesta. A convivência respeitosa implica portanto, no respeito e salvaguarda à liberdade individual, que neste sentido aponta forte relação com a proteção integral, afinal qualquer ameaça a liberdade constitui-se em flagrante ruptura desta modalidade protetiva.

No contexto escolar, onde ocorre parte da chamada formação integral não se pode acatar a ideia de que há grupos que mereçam o rótulo de diferentes ou diversos, uma vez que cada sujeito é um diferente. Também não é cabível, num cenário de respeito à diversidade em favor da construção integral de cada sujeito, que se estabeleçam identidades ou saberes hegemônicos.

A ruptura de determinadas hegemonias, quer sejam no âmbito pedagógico como no legal, demandam movimentos em favor de políticas públicas que contemplem a diversidade como fator essencial para a propositura de ações interventivas. Neste sentido a Proposta Curricular de Santa Catarina assevera que

Para as políticas públicas educacionais, o reconhecimento e a acolhida da “Diversidade” podem ser vistos, num primeiro momento, como uma indiscutível questão de direito e de cidadania plena. (SANTA CATARINA, 2014, p. 84)

Assim, a Proposta Curricular de Santa Catarina, além de um documento de natureza educacional, estabelece uma necessária interface com a seara dos direitos. Não há como se propor uma educação cidadã sem desafiar os alunos, por meio do reconhecimento de sua condição diversa, a participar de um processo educativo que os respeite.

Num cenário eurocêntrico como é o estado Santa Catarina, a compreensão de tudo isso parece desafiar profundamente mentes e sistema o que exige uma ampla revisão de comportamentos que deve se dar para além dos muros da escola. Esta evolução paradigmática deve ser observada também no contexto da família, primeira célula formadora de seres humanos.

Se é preciso garantir uma formação integral (com participação do espaço escolar) que fortaleça o respeito aos direitos de crianças, mulheres, jovens, idosos, homossexuais, negros, quilombolas, indígenas, pessoas com deficiência, entre outros, é fundamental que estes direito sejam socialmente reconhecidos. A oferta igualitária de direitos, portanto, não pode desconsiderar as diferenças culturais e individuais. Neste sentido é preciso reconhecer que

A educação destina-se a múltiplos sujeitos e tem como objetivo a troca de saberes, a socialização e o confronto do conhecimento, segundo diferentes abordagens exercidas por pessoas de diferentes condições físicas, sensoriais, intelectuais e emocionais, classes sociais, crenças, etnias, gêneros, origens, contextos socioculturais, e da cidade, do campo e de aldeias. Por isso, é preciso fazer da escola a instituição acolhedora, inclusiva, pois essa é uma opção „transgressora‟, porque rompe com a ilusão da homogeneidade e provoca, quase sempre, uma espécie de crise de identidade institucional (BRASIL, 2013, p. 25).

Diante disto há que se discutir também à luz do direito, sem perder a percepção pedagógica da educabilidade integral e universal, quem são estes sujeitos diversos e detentores do direito à educação e proteção integral. Historicamente percebe-se que a chamada inclusão se deu por segmentos sociais e humanos definidos. Assim foi com os escravos e seus descendentes, com os indígenas, com os portadores de deficiências, etc. Nota-se que há uma tendência a generalização como se todos os descentes de escravos, ou os indígenas ou os deficientes físicos pudessem ser incluídos em blocos, inserindo-os numa instituição de ensino. Em verdade, embora necessário, este é apenas o primeiro passo para que cada sujeito, independentemente de sua condição histórica, econômica, étnica

ou cognitiva possa ser incluído no processo de formação escolar (para da formação integral) que lhe ofereça condições basilares para sua emancipação.

Mesmo assim, considerando que sujeitos da diversidade somos todos nós, há que destacar os grupos que objeto direito de preconceito e discriminação, principalmente, no percurso formativo. Isso é tão forte e perceptível que a LDB estabeleceu como obrigatório o ensino de história e cultural africana e indígenas, por exemplo. É neste contexto que é possível falar em proteção integral, visando a partir da formação, garantir a todos o acesso aos direitos e garantias e fundamentais independentemente de qualquer condição.

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