4 OS SUJEITOS E SUAS DIVERSIDADES: O OUTRO LADO DA ASSISTÊNCIA
4.4 Diversidade Sexual: identidades construídas
A ampliação do acesso à Política de Educação por meio da criação de instituições de ensino técnico-profissional e superior por todo o país, democratizando a oferta de vagas por meio de políticas e programas sociais de estímulo à inclusão e à permanência do público inserido, oportunizou que as populações das cidades do interior e de suas áreas de zona rural dessem continuidade aos seus estudos, criando-se a expectativa por trabalho e renda. Essa inserção resultou na visibilidade de demandas históricas que atravessam a formação sociocultural do território brasileiro e que sugerem a criação de estratégias cautelosas para lidar, por exemplo, com situações de “machismo”, homofobia, misoginia, racismo, que reverberam no espaço acadêmico como expressão dos conflitos vivenciados nas relações sociais, em que na maioria das vezes estão naturalizados e perpetuados entre gerações.
Consideramos, aqui, essencial a caracterização dos sujeitos pesquisados durante a investigação de campo, a fim de oferecer dados sobre seus perfis, nos aproximando de reflexões cabíveis quanto à temática. Relembramos que nosso universo de amostragem foi de
26 estudantes do Curso Técnico em Agropecuária, na modalidade Subsequente, os (as) quais ofereceram informações no que tange à suas sexualidades.
Apontamos anteriormente que 61% dos (as) pesquisados (as) nessa amostra são do sexo masculino, onde a maioria tem o estado civil de solteiro, tendo sido apenas três identificados como casados ou com união estável. Ao perguntarmos sobre a sexualidade do grupo, obtivemos que 81% se denominam como heterossexuais, considerando tanto os homens como as mulheres, e apenas uma pessoa do grupo, do sexo masculino, se identificou como bissexual.
Sabemos que o componente da sexualidade é de natureza íntima, portanto, não temos a pretensão de fazer dele um dado estatístico, mas de apenas apontar para duas questões: uma que se refere a possível predominância da sexualidade hétero entre o grupo em estudo, e a segunda que se refere à percepção dos sujeitos sobre a sua própria sexualidade, assim como, ela é manifestada, ou não. Dizemos isso por observarmos que quatro dos (as) estudantes respondentes ao questionário disseram não saber informar se eram homossexuais, heterossexuais, bissexuais, transexuais ou travestis. Cabe esclarecer que a pergunta não objetivou a rotulação ou a invasão da privacidade dos indivíduos, para isso, evitamos a identificação dos (as) mesmos (as) nas fichas/formulários de resposta. Pretendeu-se, apenas, captar como se estabelece a identidade sexual daquele grupo.
Não podemos apontar categoricamente o que revela o fato de quatro alunos (as) não saberem identificar a sua sexualidade, pois são múltiplas as respostas que poderíamos chegar, mas acreditamos que a dimensão da identidade sexual é apenas um dentre outros temas que precisam ser abordados dentro do ambiente educacional. A quantificação de alunos (as) homossexuais não deve ser a preocupação dos (as) profissionais que atuam na escola, e por isso, entendemos que a abertura de espaços democráticos para o debate sobre as demandas históricas dos movimentos sociais, tanto ligados ao segmento LGBT, como de outras organizações e associações de iniciativa popular, juntamente com as respostas alcançadas, através de políticas públicas estabelecidas pelo Estado, precisam ser amplamente difundidas e coletivizadas, independente da orientação ou identidade sexual, da etnia, do gênero, da classe social, uma vez que estamos tratando de assuntos que devem interessar a todos os setores da sociedade e todos os seus segmentos, haja vista, estarmos tratando de cidadania, de direitos e de justiça social.
A aproximação com os desafios enfrentados por jovens homossexuais, especificamente, do sexo masculino, no Curso Técnico em Agropecuária, durante o período
de minha atuação profissional no campus Umirim, permitiu reconhecer a Política de Educação e de Assistência Estudantil como uma alternativa para aqueles sujeitos. Enquanto profissional, nossa atuação tem sido a de promover essa discussão no âmbito institucional, fazer intervenções junto ao ambiente familiar e dar orientações sobre mecanismos de acesso à justiça, quando necessário, bem como oferecer suporte psicossocial necessário em cada caso. Entretanto, a visibilidade da temática, a compreensão de aspectos subjetivos dos sujeitos e o debate sobre as Políticas Públicas pensadas para o segmento juvenil e para os segmentos mais vulneráveis, tornam-se indispensáveis à construção de novas ações profissionais, à execução de políticas sociais no âmbito da educação e à mudança no posicionamento dos sujeitos sobre o tema.
Concordamos com Butler (2003) ao dizer que o gênero resulta de práticas culturais e processos de subjetivação, que se produzem a partir do ato de repetição de normas sociais rígidas, reforçados tanto no público quanto no privado, apresentando-as como reais, naturais, binárias e hierarquizadas, sendo estas produtoras de “violência sobre os corpos, além, de realizar, estabelecer, criar e recriar, e, eventualmente, subverter essas relações de poder”.
Diante dessa compreensão admitimos o papel da educação na construção de processos identitários e culturais que se posicionem contrários às formas estabelecidas de poder, que questionem às estruturas hierarquizadas e naturalizadas dos padrões dominantes. Para isso, não podemos nos abster da problematização entre o público e o privado, tendo sido esta relação fortemente definidora de lugares e papeis sociais durante o processo de formação do Estado Brasileiro, expressando práticas patriarcais, colonialistas e exploratórias que influenciaram a vida e os costumes do povo brasileiro, e manifesta-se até os dias atuais, expressando um modelo de sociedade extremamente patriarcal e patrimonial, que reproduz um sistema hierárquico de dominação e incorpora as dimensões da sexualidade heteronormativa (AGUIAR, 2000).
A normatização dos modelos reproduzidos pelos grupos hegemônicos da sociedade acabou por “moldar” os sujeitos, negando as suas subjetividades e suas vivências, tidas como desviantes pelo modelo dominante. A escola, como instituição reguladora, tornou- se e torna-se repetidas vezes um espaço de reprodução das normas de uma conduta moral adequada e dentro da “normalidade” preestabelecida, negando a expressão da diversidade. Neste contexto são exercidas diversas formas de violências, por diversos agentes, não estando a escola, livre da condição de agressora ou espaço da agressão.
Situando a discussão sobre as sexualidades na territorialidade rural, apontamos para a transformação desse espaço a partir da década de 1990, onde a terra perdeu sua centralidade em detrimento das ocupações rurais não agrícolas, o que acabou por conferir maior visibilidade das relações homoafetivas, uma vez que a tríade “terra, família e trabalho” perdeu força no contexto da nova organização do espaço rural (BARDUNI FILHO, 2010).
Favareto (2007), quando apresenta o seu estudo sobre o surgimento das cidades, e de sua relação com o campo, defende que se perde a dicotomia entre eles, pois, com a modernização das relações de trabalho, a partir da Revolução Industrial, acontece o fim de um tipo apenas rural, anterior a este momento histórico.
Essa construção simbólica sobre os papéis sociais masculinos e femininos também está presente no meio rural, tal como a maternidade é tida dentro da cultura camponesa como um papel do feminino, a lida no campo é vista apenas como “ajuda” pelos homens, caracterizando a divisão social e de gênero do trabalho no campo. É importante ressaltar que os Movimentos de Mulheres Camponesas – MMC e de Mulheres Trabalhadoras Rurais - MMTR têm lutado para afirmarem seus papéis econômicos, políticos, além do reconhecimento por novas configurações de conjugalidades e sexualidades.
O tema diversidade sexual agrupa duas questões centrais, sexo e gênero, onde as relações de gênero imprimem aos homossexuais maior controle sobre a sua sexualidade, caracterizando o seu comportamento como desviante, recaindo sobre sua vivência todo o preconceito da cultura heteronormativa e patriarcal, que coloca sobre o homem a obrigação da virilidade, da masculinidade expressa na força, e na repressão dos seus sentimentos, não sendo possível a demonstração dos seus afetos. Articulam-se ainda ao tema os conceitos sobre identidade de gênero, sexualidade e orientação sexual, visto que trazem compreensões sobre aspectos biopsicossociais da formação de uma pessoa. Conhecer esses conceitos e publicizar a discussão sobre o assunto é fundamental para a construção de novas concepções e desmistificação de padrões naturalizados e incorporados socialmente.
Vale lembrar o que Butler (1998) aponta sobre gênero e sexo, diferenciando-os pela sua natureza, em que atribui ao primeiro uma construção cultural e ao segundo a definição biológica natural. Portanto, homens e mulheres podem ser diferentes biologicamente, mas socialmente devem ter os mesmos direitos e deveres, sendo o processo histórico e cultural de uma sociedade que se encarregará de oferecer as mesmas oportunidades e possibilidades para ambos, ou não. Assim, Butler (1998, p. 26) afirma que, “[...] não a biologia, mas a cultura se torna o destino”.
Sobre identidade de gênero podemos dizer que se trata da forma como o indivíduo se identifica, se percebe, tanto para si como para os que o rodeiam. Refere-se à uma identificação do indivíduo na sociedade, tanto com base no papel social do gênero como no sentimento de identidade da pessoa, podendo se reconhecer com o gênero "masculino" ou "feminino", ou ambos. Esses conceitos são facilmente confundidos, quando se fala em gênero, por exemplo, é comum que as pessoas já associem à sexualidade. Da mesma forma observamos a dificuldade no entendimento sobre identidade de gênero e orientação sexual. As duas classificações são independentes, um homem transgênero (mulher que se identifica com o gênero masculino), por exemplo, pode ser homossexual (caso sinta atração por homens) ou heterossexual (caso sinta atração por mulheres), diferente do que muitos pensam.
A seguir destacamos um caso narrado pelo Gestor do campus Umirim/CE sobre uma aluna transexual na referida unidade. O discurso denota a dificuldade no direcionamento das ações que precisam ser endossadas no ambiente da escola, onde intervenções específicas são feitas para o controle de conflitos, sem que haja um plano institucional para privilegiar espaços de discussão com envolvimento de toda a comunidade acadêmica que assegure, por exemplo, esse tema como pauta. Optamos por transcrever o fragmento do texto na íntegra, conforme segue, destacando os trechos que consideramos relevantes:
Nós já tivemos aqui no campus uma aluna biologicamente homem, mas que se identificava como mulher e que se veste como mulher, com todo aparato, que namora rapazes. E o que foi que a gente fez? Receosos, juntamente aqui com a assistência estudantil, a gente sentou e bolou uma ideia, uma estratégia, porque escola de período integral, os alunos precisando usar banheiro. Então, a gente ficou receoso dessa jovem ser atacada dentro do banheiro por rapazes. Aí foi sugerido que dos banheiros a gente selecionasse um e deixasse o banheiro conjugado, um banheiro misto que entra rapazes e moças. Então a moça que não se sente confortável com aquilo vai para o banheiro só feminino, o rapaz que não se sente confortável vai para o banheiro só masculino, quem não se importa usa o banheiro misto. E hoje esse banheiro é um sucesso aqui no campus, ele entre rapazes e moças, entra professor e todo mundo se respeita e aprendeu a respeitar. Então assim, houve alguns choques? Houve. Houve alguns questionamentos, houve alunos que queriam boicotar e jogavam preservativos, às vezes até usados, muitas vezes fajutos, forja e joga ali pra inviabilizar aquele espaço, pra causar a comoção. Mas é com jeitinho é com conversa que a gente vem lidando e hoje é uma realidade e tá dando certo. E eu acho que essa é uma forma de respeitar sem excluir, porque se a gente colocasse um banheiro só para aquela pessoa que precisa usar, porque tem medo de entrar no banheiro só masculino, talvez criaríamos um problema muito maior, que é o da exclusão. E hoje, que foi esse trabalho aqui juntamente com a assistência estudantil do
campus, que a gente colocou essa ideia e que vem surtindo muito efeito (A.I. Gestor, 2017, grifo nosso).
Fica evidente o receio do gestor com relação a possíveis violências físicas e/ou sexuais contra a aluna, o que o impeliu à busca de alternativas para reduzir os riscos de tal situação. A “estratégia” do banheiro, como ressalta o entrevistado, foi motivada também pela necessidade de dar respostas às famílias das demais alunas e a elas próprias, que igualmente temiam uma “violência” praticada pela aluna transexual. Diante da não possibilidade de utilização do banheiro masculino e do banheiro feminino, então, criou-se o banheiro unissex. Neste caso, verificamos que foi mais fácil construir uma alternativa que oferecesse opção àqueles (as) que não se sentem confortáveis com a diferença.
Destacamos outro trecho, contendo o relato da coordenadora de assuntos estudantis, que trata do mesmo assunto. Ela diz:
[...] uma dificuldade muito grande pra gente colocar um banheiro unissex aqui. Foi uma luta e está sendo ainda. Porque os alunos não conseguem compreender, principalmente um aluno que se vê como mulher, ele não pode entrar no banheiro da mulher, ele só pode usar o banheiro se for unissex. Porque há um conservadorismo ainda muito grande das pessoas acharem que ele está se aproveitando dessa condição de ter se declarado mulher pra ficar olhando as meninas. E não é só por parte dos alunos, muito mais por parte dos servidores, da gestão também. A gestão também é muito conservadora, nós temos muitas pessoas aqui de famílias tradicionais. Muito complicado trabalhar a questão de gênero aqui (R.R. Coordenadora, 2017).
O registro acima revela o preconceito nas relações cotidianas, envolvendo, inclusive, os (as) gestores (as) da unidade de ensino, o que reforça a necessidade de diálogos permanentes dentro da comunidade escolar que aproximem os sujeitos dessa temática. Além disso, é preciso que seja viabilizada a construção coletiva de um planejamento institucional que contemple à reflexão sobre como as diferenças se expressam e se relacionam naquele espaço, e nas demais relações da vida em sociedade, perpassando por formações continuadas do corpo técnico e docente que atua no campus.
Apesar de não negarmos a importância da experiência e da solução encontrada naquele momento, destacamos que ela se tornou incompleta quando não foi transformada em um movimento interno de questionamento e de reflexão sobre como e porque a diferença incomoda e causa assimetrias, desconfortos, conflitos e estigmas.
Há uma forte resistência dos setores mais conservadores da sociedade para abertura ao tema, os quais acusam estudiosos da área de quererem destruir o modelo
tradicional da família e submeter às crianças, a partir do contato com o tema nas escolas, a uma formação desviante.
É notável que os meios de comunicação venham contribuindo para a tratativa do assunto nas famílias brasileiras, diante da ampla capilaridade que possui nas residências, especialmente por meio de suas telenovelas, o que confere visibilidade às discussões que envolvem o segmento LGBT e os Transgêneros. Entretanto, é legítima a luta dos coletivos para o reconhecimento de direitos e de políticas públicas para atendimento de suas necessidades específicas e de demandas ligadas à saúde, à educação, à segurança, ao trabalho, que embora se constituam como direitos elementares de todos (as) cidadãos (ãs) são negados historicamente aos grupos marginalizados, vítimas do preconceito, da exclusão e da violência. Tido como um dos aspectos da sexualidade humana a orientação sexual, segundo Araguaia (2017)79 diz respeito à atração que se sente por outros indivíduos. Ela geralmente também envolve questões sentimentais, e não somente sexuais. Nesse caso, estamos falando sobre indivíduos que se sentem atraídos sexualmente e/ou afetivamente por pessoas do sexo oposto (heteroafetividade), do mesmo sexo (homoafetividade) ou por ambos (biafetivos). Caberiam ainda outras designações, mas no momento ficaremos com essas três. O termo afetividade em substituição a sexualidade pressupõe a dimensão do sentimento, retirando a conotação meramente sexual do termo.
Com base na apresentação dos conceitos acima é possível dizer que a sexualidade não é determinável ou reduzível a elementos físicos e biológicos, devendo ser entendida como um processo de construção histórico-cultural, dinâmico e contínuo, formador da nossa identidade pessoal e sexual.
Buscamos em nossa pesquisa trabalhar a percepção dos (as) estudantes e dos (as) gestores (as) que atuam na unidade de ensino sobre essa categoria no sentido de identificar a relação que se estabelece com a diferença sexual e como a assistência estudantil se insere nessa discussão.
A compreensão dos (as) jovens sobre diversidade demonstrou um significado positivo sobre a convivência das diferenças, pela inserção de grupos étnicos e sociais em um mesmo espaço, seja o campus ou a sociedade. Dois deles destacaram junto com essa convivência a noção do respeito, onde podemos inferir que a percepção positiva agregada à categoria diversidade tem muito do desejo pessoal daqueles (as) estudantes na supressão das discriminações e preconceitos para uma convivência harmônica entre os diversos grupos.
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O texto está disponível em: <http://brasilescola.uol.com.br/sexualidade/orientacao-sexual.htm> Acesso em 13 de setembro de 2017.
Verifica-se, portanto, que o desejo comum pela passividade não pontua ou questiona a construção dessas diferenças e suas relações desiguais. Vejamos o que apontou um dos alunos entrevistados sobre esse assunto:
O campus ele está englobando diferentes classes. Tanto indígenas, os estilos também, isso eu acho que entra também [...]. Bom, eu vejo que isso é bastante significativo, porque você está respeitando realmente o que aquela pessoa quer ser, sem preconceito. Eu, até então minha orientação sexual é diferente e é até complicado eu falar sobre isso, porque eu nunca falo sobre isso para muitas pessoas, mas eu acho que isso, essa diversidade é bastante fluente aqui, porque você observa pessoas diferentes (R.C., 2017, grifo nosso).
O jovem que se autodeclarou negro e bissexual traz em seu discurso uma satisfação pela inclusão de diversos grupos no ambiente escolar atribuindo a isto uma manifestação de respeito e de não preconceito. Para o aluno, a “aceitação” institucional de segmentos sociais marginalizados confere a positividade expressa em sua avaliação, visto que nem sempre as instituições tiveram a abertura para inclusão desses setores da sociedade. Nesse sentido, concordamos com Junqueira (2009, p.369) ao dizer que:
[...] parece indispensável atentarmos para os limites de determinadas políticas multiculturalistas que, embora aparentemente generosas quanto ao “respeito à diferença”, não se mostram dispostas a favorecer um reconhecimento da diversidade que possa colocar em risco normas, valores e hierarquias estabelecidas e promover distribuição de recursos.
O aluno, quando questionado se percebia a ocorrência de discriminações e preconceitos no âmbito do campus, respondeu:
De certa forma não é só quem tem orientação sexual diferente ou um jeito de se vestir diferente. Tudo, tudo em uma forma geral sofre preconceito. As meninas também, eu vejo muitos meninos chamando as meninas de palavrão, essas coisas. Já presenciei bastante (R.C., Aluno, 2017).
O acesso de pessoas negras, indígenas, homossexuais, com deficiência, no sistema educacional, ainda que por políticas afirmativas e de inclusão, por si só não confere a reparação das assimetrias causadas pelo longo processo de exclusão, discriminação e desigualdade a que foram e ainda estão submetidos esses segmentos. É nesse sentido, que ratificamos a necessidade de fortalecermos ações e políticas institucionais que garantam o amplo debate, a desconstrução dos preconceitos e o questionamento das estruturas de poder na sociedade. Acreditamos que a Política de Assistência Estudantil pode ser uma das
ferramentas para a criação de estratégias que visem à superação dessas deformações nas relações sociais, contribuindo para a construção de uma educação integral e cidadã dos indivíduos.
Para isso, é preciso o envolvimento da educação, questionando-se de modo permanente seus valores, práticas e correlações de forças, para que possamos construir uma “cultura de reconhecimento da pluralidade e multiplicidade das manifestações humanas, das quais a diversidade sexual é autêntica expressão” (JUNQUEIRA, 2009, p. 353).
A operacionalização das políticas passa pelos sujeitos sociais, os quais são alvos também do processo ideológico ao longo de suas trajetórias que os condicionam às determinadas posturas, dentro de normas, valores e crenças que disseminam o preconceito e a discriminação. Verificamos que as experiências de cada um modificam, ou não, a forma como cada sujeito lida com a diferença de gênero, étnico-racial, sexual, entre outras que estão circunscritas na vida em grupo. Em entrevista com a diretora de ensino notamos que ela atribui à sua formação técnica a falta de habilidade para abordar situações em que se expresse uma violência ou opressão, por exemplo, contra homossexuais. Novamente observa-se a tentativa de invisibilizar a diferença para a manutenção de uma ordem aparente, negando que ali existam relações de conflito e de poder, causadoras de desigualdade.
Em sua fala a professora e gestora relatou como atua diante das situações de discriminação e preconceito no ambiente institucional ou fora dele “a medida seria o que faço, eu pego e converso, eu não gosto dessa história de preconceito [...] eu tento trabalhar todo mundo igual, então como eu não vejo muito essas diferenças, eu procuro fazer com que os outros também não vejam” e concluiu dizendo “eu não tenho muito traquejo, porque a minha