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Capítulo 5 – Globalização e mundialização dos discursos educacionais para a tolerância
Dentre as diferenciações do liberalismo que desponta no século XX em relação à sua fase inicial, destaca-se a reorientação das sociedades em âmbito mundial sob a expansão globalizada do sistema capitalista. As fronteiras entre os países vão se estruturando em rearticulações mundiais e, no lugar de poderes locais antes definidores dos Estados nacionais, crescem, cada vez mais, as organizações supranacionais. Integram esse novo quadro mundial questões como a tecnologização e a modernização crescentes, bem como a expansão dos meios de comunicação e a nova organização do trabalho virtual, entre outras. Segundo Ianni,
O neoliberalismo compreende a liberação crescente e generalizada das atividades econômicas, compreendendo a produção, distribuição, troca e consumo. Funda-se no reconhecimento da primazia das liberdades relativas às atividades econômicas como pré-requisito e fundamento da organização e funcionamento das mais diversas formas de sociabilidade; compreendendo não só as empresas, corporações e conglomerados, mas também as mais diferentes instituições sociais. “Neo” liberalismo porque se impõe e generaliza em escala mundial (IANNI, 2004, p. 280).
Nessa nova fase, os princípios de igualdade, liberdade e fraternidade, que norteavam o liberalismo clássico, compartilham o mesmo espaço com aqueles princípios que surgem articulados com a modernização das sociedades e o constante processo de globalização e mundialização. Na década de 1980, fala-se em qualidade total, Estado mínimo e privatização, entre outros, estruturados segundo as leis do mercado capitalista na sua fase concorrencial global. Dessa forma, “baseados nos princípios da liberdade e igualdade econômicas, nas relações entre proprietários de mercadorias, uns e outros beneficiam-se do intercâmbio, troca, competição, emulação, produtividade, lucratividade, escolha racional, individualismo” (IANNI, 1997, p. 284).
Se na política do Estado de bem-estar social o indivíduo cedia suas pretensões privadas ao governo central cujas decisões se articulavam em favor de interesses gerais, no novo cenário, sobre o qual o liberalismo se refaz, o indivíduo é novamente convocado. É nesse contexto que se valoriza o indivíduo com suas aptidões, talentos e habilidades, apregoadas como uma exigência da nova orientação econômica focada nos interesses privados que, paradoxalmente, requerem a existência de uma sociedade global. Quando as diferentes nações se comunicam e se relacionam entre si no âmbito da globalização e o indivíduo é convocado, a questão sobre a diversidade torna-se
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fundamental. Da mesma forma, a necessidade da tolerância impõe-se como urgência no surgimento de uma nova sociedade orientada, em sua totalidade, pelas regras do mercado.
Enfatizando as contradições da sociedade em processo de globalização, Ianni (1996) afirma que, ao mesmo tempo em que esse processo promove a integração, a comunicação e as articulações entre as nações, promove também, no confronto com o diverso, o acirramento das relações de desigualdade e dominação. Nessas contradições, a proclamação do respeito à diversidade, como afirmação da identidade de um grupo ou país específico, tende a se fundamentar sobre as bases da cultura que se faz hegemônica.
A tolerância aparece, desse ponto de vista, como um direito concedido e não como um direito próprio do outro. Nesse sentido, ela se apresenta como uma condescendência, um favor que se concede a alguém que o recebe passivamente. Outro aspecto igualmente relevante para a discussão que se segue diz respeito ao conceito de cultura marginalizada. Com esta designação, a cultura outra é percebida como marginal, ou seja, como uma cultura que precisa ser tolerada. Dessa forma, ainda que implicitamente, sob o discurso da tolerância e do respeito à diversidade, é afirmada a existência da soberania de uns sobre outros. Os soberanos definem os referenciais, deliberam sobre o diferente e decidem em que medida é conveniente que ele seja ou não tolerado. Segundo Ianni, mesmo onde a diversidade for compreendida a partir das próprias culturas marginalizadas, a busca se faz por intermédio dos recursos, modelos e padrões estabelecidos pelo outro, hegemônico. Nesse sentido, “a busca ou afirmação da diversidade, enquanto originalidade ou identidade, com freqüência mobiliza recursos do outro, do país dominante, da cultura invasora (IANNI, 1996, p. 34).
Segundo essa leitura, o capitalismo se desenvolve como um sistema “desigual, combinado e contraditório” ao qual as desigualdades são inerentes e necessárias, mas que precisam ser controladas mundialmente de forma a não prejudicar o desenvolvimento do capitalismo como um sistema global hegemônico. Diferença e homogeneização, riqueza e pobreza, guerras e discursos pela paz subsistem, assim, no interior de um sistema que se mantém aparentemente incólume. Para Ianni,
Globalização rima com integração e homogeneização, da mesma forma que com diferenciação e fragmentação. A sociedade global está sendo tecida por relações, processos e estruturas de dominação e apropriação, integração e antagonismo, soberania e hegemonia. Trata-se de uma configuração histórica problemática, atravessada pelo desenvolvimento desigual, combinado e contraditório. As mesmas relações e forças que promovem a
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integração suscitam o antagonismo, já que elas sempre deparam diversidades, alteridades, desigualdades, tensões, contradições (IANNI, 1996, p. 36).
Tais processos, estruturas e relações não representam apenas uma rearticulação mundial do capitalismo contemporâneo, mas, sobretudo, um processo que se encontra implícito em sua própria estrutura e que se consolida com seu desenvolvimento. Sob esse ponto de vista, o capitalismo já se faz mundial desde o início da era moderna, como um modo de vida ocidental que se expande e se universaliza. O mundo sem fronteiras que hoje se consolida revela novos modos de ocidentalização, de colonização, novos desdobramentos que, em síntese, seguem a mesma orientação já presente na transição para a sociedade capitalista moderna. Nesse sentido, Ianni (2004) afirma que “o mundo moderno se inicia internacional ou mundial. Desde o princípio, o capitalismo, como modo de produção e processo civilizatório, revela-se mundial” (p. 132). A reflexão a seguir busca explicitar a educação com suas exigências de tolerância e respeito à diversidade nesse contexto. São abordadas as relações entre os discursos, pensamentos, embates e significados referentes à tolerância, presentes na sociedade capitalista em processo de globalização.
Desde seu nascimento, o capitalismo se expande por intermédio das relações econômicas entre as nações, seja na forma mais simples da fase mercantilista, seja no modo mais complexo como ocorre no atual capitalismo globalizado. Tais relações se ampliam e complexificam de tal modo que na década de 80 do século passado se institui um cenário que hoje conhecemos como sociedade globalizada.Neste contexto, o mundo bipolarizado pelo embate entre os pólos capitalista e socialista representado pelas duas então grandes potências mundiais, os Estados Unidos da América (EUA) e a extinta União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS), cede espaço a outro mundo caracterizado pelo desenvolvimento e expansão da forma de vida própria do capitalismo ocidental e da cultura americana conhecida como a american way of life. A queda do Muro de Berlim (1989) marca o fim do confronto entre os dois sistemas político- econômicos e o início da expansão globalizada do capitalismo como processo civilizatório que, ampliando-se para além do setor econômico, redefine a própria cultura, política e educação em nível mundial. Essa nova fase do capitalismo articula os aspectos econômicos em sua forma internacionalizada com seu discurso ideológico que assume dimensões universais. Neste contexto, revigora-se o ideário liberal que se
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impunha desde o início da modernidade, assumindo abrangência universal na medida em que o capitalismo se estende a quase todas as nações e culturas.
Dentre os marcos formais que definem o processo de globalização estão os acordos multilaterais entre países e regiões com os quais se superam as tradicionais relações bilaterais entre países e configuram um novo cenário mundializado tanto em termos público-estatais quanto privado-empresariais. Os acordos multilaterais entre as nações são firmados buscando alcançar um objetivo pretensamente comum e universal: o desenvolvimento econômico e social dos países, especialmente, daqueles em situação de subdesenvolvimento. Nessa reorientação do mundo, os organismos internacionais tais como ONU, OMC, BIRD e Banco Mundial, passam a atender aos interesses de uma sociedade cada vez mais globalizada. Na visão de Ianni, tais organizações se colocam como
Guardiãs da ‘saúde’ econômica mundial e nacional, mas sempre tendo em conta também a garantia das condições propícias ao funcionamento e à expansão das corporações transnacionais. Vistas em conjunto e em suas peculiaridades, as organizações multilaterais e as corporações transnacionais revelam-se na prática poderosas estruturas mundiais de poder, em geral sobrepondo-se à maioria dos Estados nacionais (IANNI, 2004, p. 121).
Junto a esses organismos, surgem outros que, extrapolando as relações econômicas, abrangem os ambientes da cultura, da educação, da assistência social como a UNESCO (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura), o UNICEF (Fundo das Nações Unidas para a Infância), ambas articuladas com agências que se dedicam ao desenvolvimento econômico dos países-membros, como o PNUD (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento) e o grupo ligado ao BM (Banco Mundial) – como o BIRD (Banco Internacional para a Reconstrução e o Desenvolvimento) – que exercem influências sobre as diretrizes educacionais, concebendo a educação como uma alavanca para o desenvolvimento econômico e social.
Nesse sentido, compreende-se que a educação pensada mundialmente segue à sombra do desenvolvimento econômico iniciado logo após a Segunda Guerra Mundial. Um exemplo da vinculação da educação com os objetivos econômicos foi a Aliança para o progresso40 que objetivou uma articulação das economias mais potentes do
40 O Programa Aliança para o Progresso foi elaborado pelos EUA na década de 1960 no sentido de
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mundo no sentido de promover o desenvolvimento econômico e social aos países da América Latina. Essa ajuda marca a primeira década do desenvolvimento (1960-1970), denominada como Primeiro Decênio das Nações Unidas para o Desenvolvimento Econômico. Entretanto, apesar dos reais ou supostos esforços em prol do desenvolvimento com base no princípio da interdependência e da unificação do mundo, os processos inerentes à globalização também tiveram como efeito o
Empobrecimento das populações, no endividamento dos Estados, nos conflitos e tensões sociais, nas guerras civis locais imediatamente internacionalizadas, nos movimentos organizados contra a exploração econômica e a dominação cultural, na proliferação dos regimes militares, nos mecanismos articulados pelas elites locais imbuídas da ideologia do desenvolvimento e da segurança nacional, nas violações dos direitos humanos, na revolta estudantil em âmbito mundial e nos movimentos de contracultura no final da década (EVANGELISTA, 2003, p. 94).
Reconhecendo a importância da educação como fator de desenvolvimento, a UNESCO é convocada para trazer sua contribuição no sentido de reverter a situação mundial e conduzir as nações ao caminho do desenvolvimento. Assim, em 1970, inaugura-se o Segundo Decênio das Nações Unidas para o Desenvolvimento, declarando o ano de 1971 como o Ano Internacional da Educação. Em 1970, é criada a Comissão Internacional para o Desenvolvimento da Educação que elabora o relatório Aprender a ser (FAURE, 1972), focando os problemas educacionais, sobretudo o analfabetismo, considerados inaceitáveis num mundo em que havia sido alcançado um elevado grau de desenvolvimento científico-tecnológico e mudanças substanciais no trabalho, as quais exigiam da educação uma profunda revisão de suas categorias teórico- práticas, incluindo os aspectos fundantes de espaço e tempo.
A idéia de progresso passa a envolver a dimensão cultural a partir da correlação que se estabelece entre cultura e desenvolvimento. Com isso, as especificidades culturais de países, regiões e grupos são destacados como aspectos importantes do
e técnicos das grandes potências mundiais. O esforço para o desenvolvimento tinha como pano de fundo a luta pela consolidação do regime democrático sob os moldes capitalistas, buscando evitar outras revoluções, a exemplo de Cuba. Dentre as investidas, a modernização da educação torna-se fundamental, sendo criada, para tanto, a USAID. Segundo Evangelista, “os EUA prossegue em sua intenção de modernizar a educação e, na década de 1960, o Programa da Aliança para o Progresso, a par das reformas em outras dimensões das sociedades latino-americanas, prevê a modificação nos seus sistemas educacionais. Com a Aliança para o Progresso institui-se, na esfera do governo dos EUA e subordinada ao seu Departamento de Estado, a USAID cuja atuação se estende para os países da América Latina” (Evangelista 1997, p. 66).
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processo geral de globalização41. Desse modo, a diversidade cultural passa a ser entendida como um potencial de riqueza e desenvolvimento da humanidade. Nestes termos, concomitantemente com as reestruturações que abrangiam a educação, a UNESCO estimula a ampliação do conceito de cultura que passa a ser compreendido como obra de todos os homens, e não apenas de uma elite, defendendo, portanto, sua garantia como um direito de todos e o respeito pela diversidade (EVANGELISTA, 2003). Dentre os problemas subjacentes à educação e a valorização das culturas no contexto da globalização, Evangelista ressalta as intenções da UNESCO para a educação afirmando que
A esperança na educação como meio de construir a paz entre as nações, povos e gentes, e sua potencialização pela revolução das comunicações são desafiadas pelas manifestações de intolerância às diferenças e de exclusão do “outro”, que se expressam na violência de nacionalismos, fundamentalismos, guerras, revoluções (EVANGELISTA, 2003, p. 57).
Considerando as inquietações com a reavaliação da ajuda internacional para o desenvolvimento e a preocupação com a educação, na década de 1990 é elaborado o Relatório Educação: um tesouro a descobrir (DELORS, 2003) pela Comissão Internacional de Educação para o Século XXI. O documento que será melhor analisado no segundo item deste capítulo divide-se em três partes, sendo que a primeira traça um quadro geral do mundo atual em termos dos problemas, conflitos e incertezas gerados pela busca do desenvolvimento mundial. Ressalta-se a missão que cabe à educação nesse contexto porquanto representa um importante instrumento na conquista da paz entre as nações e na continuidade dos processos de desenvolvimento econômico e social.
A segunda parte trata dos fundamentos da educação na atualidade, considerando as mudanças que vêm ocorrendo na sociedade, em particular no mundo do trabalho que agora se estende da formalidade para a informalidade. Nesse novo contexto, a educação se fundamenta em quatro pilares, a saber, aprender a conhecer, aprender a fazer, aprender a viver juntos e aprender a ser. Tais pilares se ligam entre si pelos liames da Educação ao longo de toda a vida, o princípio da constante renovação posto pela
41 Um breve histórico das Declarações aprovadas pela UNESCO, bem como os desdobramentos no
sentido do respeito à diversidade cultural no mundo em globalização a partir da década de 1960 é explicitado por Evangelista (2003).
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sociedade em permanente evolução que exige um indivíduo dinâmico, flexível e útil por toda a sua vida.
Na terceira parte, o Relatório expõe algumas orientações sobre como o sistema educacional pode materializar essas propostas gerais, envolvendo da educação pré- escolar ao ensino superior, da educação especial à alfabetização de jovens e adultos, dos problemas de gênero aos desafios da tecnologia educacional, da globalização aos novos papéis do professor. Em todos os capítulos, o Relatório apresenta pistas e recomendações que sintetizam as idéias apresentadas e ainda oferecem diretrizes para a concretização das propostas sugeridas.
Por mais que valorize a educação para todos e por mais que ressalte os valores humanos como o direito à crítica e à autonomia, o Relatório deixa claro um conceito reducionista de educação que privilegia a aprendizagem voltada para o fazer e a prática. A educação se vincula, explicitamente, às exigências que se colocam na sociedade atual, alertando aos envolvidos no processo educacional para a necessidade de incorporar as rápidas transformações que acontecem na atualidade. O conceito de tolerância e diversidade vem ligado às transformações econômicas e sociais do século XXI na marcha do desenvolvimento. Neste espírito, os documentos que tratam da tolerância e da diversidade foram aprovados nas conferências da UNESCO, dentre os quais se destacam a Declaração sobre princípios da tolerância e a Declaração universal sobre a diversidade cultural a serem analisadas no próximo item.
5.1 - A tolerância e a diversidade cultural nos documentos da UNESCO
Embora seja mais enfatizado a partir da década de 1990, o tema da tolerância já se encontra em discussão desde a criação da ONU, em 1945. A Carta das Nações Unidas, aprovada na Conferência das Nações Unidas no dia 26 de junho daquele ano, em S. Francisco, teve como tema central a Organização Internacional que entraria em vigor no dia 24 de Outubro de 1945. Num mundo totalmente arrasado pela Segunda Guerra e permeado por conflitos latentes, a Carta das Nações Unidas dá um passo importante na defesa da tolerância pautada na igualdade de direitos, tanto dos indivíduos quanto das nações, à justiça e ao progresso social. Esses princípios, que seriam reafirmados décadas mais tarde, colocam em primeiro plano entre os objetivos
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da ONU, a finalidade de conduzir os países “a praticar a tolerância e a viver em paz, uns com os outros, como bons vizinhos”42.
A tolerância é condição tanto para a paz tão almejada num contexto de conflitos e incertezas mundiais quanto para o desenvolvimento econômico e social dos países e, no limite, para a sobrevivência da própria humanidade. A referida Carta reafirma também o direito, devido a todas as pessoas, de liberdade de pensamento e religião assim como de opinião e expressão, já assegurados pela Declaração Universal dos Direitos do Homem, de 1948. A educação, compreendida no documento como instrução43, é conduzida para o exercício da tolerância no sentido de promover o desenvolvimento da e o respeito pela pessoa humana. Dessa forma, a instrução promoveria a compreensão, a tolerância e a amizade entre os povos como meios necessários para obtenção da paz, conforme disposto no seu artigo 26º. De acordo com esta declaração,
A instrução será orientada no sentido do pleno desenvolvimento da personalidade humana e do fortalecimento do respeito pelos direitos humanos e pelas liberdades fundamentais. A instrução promoverá a compreensão, a tolerância e a amizade entre todas as nações e grupos raciais ou religiosos, e coadjuvará as atividades das Nações Unidas em prol da manutenção da paz.
Na primeira Conferência Geral da UNESCO (1946), são criadas diversas comissões que elaboram declarações sobre os problemas, avanços e objetivos para a educação, que influenciam até hoje as políticas educacionais nacionais em todo o mundo. As declarações internacionais44 aprovadas desde a fundação da UNESCO até a data da elaboração da Declaração Mundial de Educação para Todos enfatizam a necessidade da tolerância e alertam para a eliminação da discriminação de qualquer
42 Disponível em http://www.onu-brasil.org.br/documentos_carta.php. Acessado em julho de 2008. 43 A instrução compreende a aprendizagem e o acúmulo de saberes construídos pela humanidade e,
conforme o relatório Delors, se inscreve no âmbito do fazer ligado às expectativas de progresso econômico e social, pressuposto da tolerância. Contrário à essa redução do sentido educativo, a educação, segundo o pensamento de Marcuse (1970), extrapola o “treinamento, aprendizagem, preparação para a sociedade existente” e segue na direção de compreender os fatos em sua constituição não aparente, no sentido de uma mudança efetiva da realidade. Compreende, assim, uma educação humanística que procuraria distanciar a humanidade das suas condições regressivas, mesmo que isso se direcionasse contra os interesses vigentes.
44 Dentre essas declarações destacam-se a Declaração Mundial de Educação Para Todos: Satisfação das
Necessidades Básicas de Aprendizagem (1990); a Declaração de Nova Delli, que faz parte do Plano Decenal de Educação Para Todos (1993); Declaração de Salamanca: Sobre Princípios, Políticas e Práticas na Área das Necessidades Educativas Especiais (1994); Educação Para Todos: Declaração de Cochabamba (2001), que enfatiza a necessidade da alfabetização ao alcance de todos os jovens e adultos.
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espécie, seja ela racial, de gênero, étnica ou religiosa. A Declaração de Princípios sobre a Tolerância (DPT) foi apresentada na Assembléia Geral da ONU, em 1993 e aprovada na 28ª Conferência geral da UNESCO, em Paris, no dia 16 de novembro de 1995, este considerado como Ano Internacional da Tolerância45. Esta declaração busca atender à exigência da tolerância promulgada pela Carta das Nações Unidas, que propõe a tolerância como uma das finalidades da ONU que visa a convivência das nações como bons vizinhos.
A DPT é dividida em seis artigos, dos quais, o primeiro esclarece o significado da tolerância, enfatizando o papel do Estado e das dimensões sociais abrangidas por essa política; ressalta também o papel da educação na efetivação desse ideal. Além dos objetivos traçados, a Conferência definiu, no artigo 6º, o dia 16 de novembro – dia da aprovação do documento – como o Dia Internacional da Tolerância. Com a criação deste dia, a ONU conclama todos os países membros a promoverem a “organização de