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Diversidade versus políticas de ação social (Fundo de Apoio Social)

Capítulo I – A configuração das políticas educativas no Ensino Superior: a expansão da

1.4 Diversidade versus políticas de ação social (Fundo de Apoio Social)

A ideia de que, para a grande maioria da população, o saber ler, escrever e contar era

suficiente, começa a ser abandonada, passando a haver uma preocupação com a modernização

e mão-de-obra qualificada, o que leva consequentemente, cada vez mais ao acesso ao ensino

superior para todos. Segundo Cerdeira (2008) o sistema de apoio social aos estudantes do ensino

superior português é constituído por um conjunto de apoios diretos e indiretos. Este sistema

“tem desempenhado um papel relevante na expansão do sistema de ensino superior e na sua

acessibilidade, procurando-se com ele diminuir as dificuldades financeiras dos estudantes

provindos dos meios mais carenciados” (Cerdeira, 2008, pág. 289). Na grande maioria dos

casos é a atribuição de uma bolsa de estudo aos estudantes universitários que possibilita o

direito à educação e igualdade de oportunidades, consagrados na Constituição Portuguesa, mais

do que isso, de acordo com o artigo 74, ponto 1, “Todos têm direito ao ensino com garantia do

direito à igualdade de oportunidades de acesso e êxito escolar”; no ponto 2, alínea a), diz que o

ensino básico é universal, obrigatório e gratuito. Torna-se pertinente referir que as bolsas não

são unicamente apoios, mas sim “benefícios sociais” dado que a bolsa é apenas um dos

instrumentos de apoio ao estudante. O conceito de “benefícios sociais” permite uma visão mais

ampla sobre todo o sistema do Ensino Superior, abrangendo dessa forma a nova política de ação

social: o Fundo de Apoio Social (FAS).

A concessão de bolsas para apoios aos estudantes mais carenciados e que tenham

aproveitamento escolar é uma peça base no sistema de apoio social português sendo atribuídas

aos estudantes no âmbito do ensino superior público e também privado (Cerdeira, 2008,pág.

290). Não obstante, a legislação atualmente em vigor, não permite o tratamento de situações

não previstas na mesma, confrontando-se os Serviços de Ação Social com a rigidez do

regulamento

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, contrariando as lógicas e a intervenção necessário do Serviço Social. Com todas

as alterações legislativas que têm vindo a acontecer, os cálculos para o apuramento de

rendimentos passaram a ser feitos com base nos valores ilíquidos não sendo possível a dedução

de qualquer tipo de despesa ou fazer qualquer abatimento ao rendimento (exemplo despesas de

habitação ou/e saúde).

No caso particular dos SASUTAD têm vindo a encontrar alternativas afim de minimizar

os problemas económicos dos estudantes de modo a evitar o abandono escolar. Bessa et al,

(2014) refere num estudo exploratório, sobre o abandono escolar, considerando que constitui

uma das dimensões mais preocupante que atinge o sistema educativo nacional. Por exemplo,

apontando para que os apoios estatais (bolsa de estudo) sejam complementados, com

rendimentos obtidos através da prestação de trabalho em serviços dentro da própria

universidade. Acresce, que por um lado, a situação económica e financeira portuguesa tem

levado a uma deterioração das condições de subsistência de muitos estudantes, na medida em

que as famílias têm mais dificuldades em financiar os estudantes e, por outro, existir uma oferta

muito reduzida de trabalhos a tempo parcial, nomeadamente no mercado de trabalho externo,

para que os estudantes possam complementar o seu rendimento (Bessa et al, 2014, pág 53).

Atendendo a estas circunstâncias, foi aprovado o FAS

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, em Conselho de Gestão da

UTAD, em 2013 e publicado em Diário da Republica. A criação deste apoio surgiu do

reconhecimento de que nem todas as situações de carência económica se enquadravam no

11 Com a aplicação do atual regulamento, o valor do limiar de elegibilidade para o acesso a bolsa de estudo é de 7.770,99€ per capita. São

considerados rendimentos obtidos pela aplicação de taxas percentuais sobre o património mobiliário e imobiliário, que na maior parte das vezes não traduz a real situação económica do agregado. A forma de verificação do rendimento per capita, a contabilização de rendimentos ilíquidos e a presunção de lucros patrimoniais e mobiliários muitas vezes inexistentes, distorcem a realidade económica dos agregados familiares, inflacionando rendimentos e excluindo para fora do limiar de elegibilidade muitos agregados familiar. O conceito de aproveitamento escolar tem vindo a alterar-se, aumentando cada vez mais o grau de exigência.

regulamento de atribuição de bolsas aos estudantes do ensino superior, sendo em muitos casos,

os requerimentos a bolsa rejeitados por exceder o limite do rendimento per capita previsto na

legislação, passando essas situações a poderem ser enquadradas por este fundo.

O FAS é constituído por dotações financeiras, afetas da receita própria da UTAD e dos

SASUTAD e de empresas ou particulares, sendo que tem como primeiro financiador

empresarial o BES (Banco Espirito Santo) agora Novo Banco e o JB Memorial Trust

13

. Desta

parceria com esta instituição bancária, firmada desde 2011, há a destacar a participação neste

fundo constituído inicialmente por 10.000€ por ano, a que acresce um prémio de 0,25% sobre

os salários processados e domiciliados no BES respeitantes a novas contas dos trabalhadores

docentes e não docentes, dos investigadores e de Estudantes e ex-Estudantes

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.

Os apoios disponibilizados pelo FAS, podem funcionar segundo duas modalidades,

Subsídios de Emergência (SE) e Bolsas de Colaboração (BC). O SE destina-se a estudantes não

bolseiros com comprovadas dificuldades económicas, inscritos na UTAD em cursos de

licenciatura, mestrado ou mestrado integrado, traduzindo-se num apoio pecuniário no valor das

propinas (1019€) visando comparticipar as despesas do estudante. A BC agrupa e organiza

todas as ofertas de trabalho que já existem na UTAD, como pequenos serviços a nível da

biblioteca, cantinas, bares, serviços de informática, eventos ou receção nas residências

universitárias e ginásio. Os estudantes podem candidatar-se a estas oportunidades de trabalho,

e pelo serviço prestado recebem uma compensação monetária. O processo de candidatura aos

dois benefícios (BC e SE) é instruído através de requerimento em formulário de candidatura, e

entregue nos SASUTAD. Por razões de transparência e eficiência, os critérios que envolvem o

processo de atribuição dessa diversidade de apoios são publicados em diário da república. Este

conhecimento permite a defesa dos seus direitos e a eventual apresentação, fundamentada, de

reclamação. Nessa ideia a divulgação para esse efeito é efetuada pelos novos meios de

comunicação, página de internet dos SASUTAD bem como o envio de e-mails aos estudantes

rejeitados da plataforma.

Atualmente, cerca de 2400 alunos da UTAD recebem bolsas de estudos atribuídas pelo

Ministério da Educação e Ciência, num total de quatro milhões de euros de financiamento por

ano. A propina da UTAD subiu 20 euros, passando de 999€ para 1019€ e a verba proveniente

13 http://www.sas.utad.pt/FAS/Paginas/FAS.aspx.

do aumento reforça o orçamento do FAS. Assim, o aumento de 20 euros foi aprovado por

unanimidade, pelo Conselho Geral e canalizado o apuro desse aumento para o FAS.

No que diz respeito ao trabalho desenvolvido pelo Serviço Social nos SASUTAD, a

análise dos processos de candidatura a bolsa é o mais visível. Atualmente, além das

candidaturas a bolsa de estudo, são também analisadas as candidaturas ao FAS. As candidaturas

a bolsa de estudo são efetivadas numa plataforma informática da DGES, que se traduz como

uma prática “sem rosto” como identifica Amaro (2012, pág. 253) e nessa continuidade são

estudadas as do FAS. Os processos de bolsas de estudo rejeitados por excesso de capitação

ficam automaticamente apurados para a avaliação e atribuição do SE. É efetuada uma análise

documental relativa à situação económica do agregado, e consequente apuramento de

rendimentos. No decorrer da análise das candidaturas ao SE, verifica-se o preenchimento da

candidatura a bolsa de estudo rejeitada, porque algumas das candidaturas, são na prática mal

instruídas, sendo de salientar que é da inteira responsabilidade do estudante a informação

facultada. Relativamente às BC, os estudantes são encaminhados para os diversos postos de

trabalho propostos na Universidade, mas antes é realizado uma entrevista para apurar o perfil,

cumprindo sempre a máxima de menos prejuízo para o tempo de estudo do aluno, uma vez que

a sua principal missão é conseguir o melhor aproveitamento escolar possível.

Neste sentido os SASUTAD, pretende através da otimização e equilíbrio dos recursos

financeiros e humanos celebrar contratos entre instituição e os estudantes de forma a criar

mecanismo de financiamento/rendimento para ambas as partes. A semelhança do que vem a

acontecer em outras instituições de ensino também a UTAD viu-se a braços com as grandes

transformações ocorridas nas últimas décadas influenciadas pelos acontecimentos nacionais e

internacionais tais como o decréscimo do financiamento público associado ao défice do

financiamento privado assim como o decréscimo no ingresso ao ensino superior. Houve a

necessidade de fazer face as estas mudanças profundas e de melhorar a qualidade do ensino

superior conduzindo a revisão das estruturas de governança das IES.

Relativamente ao conceito de governança considera-se que este representa o modo como

os sistemas e as instituições de educação superior são organizados e geridos (Fielden, 2008),

significa ainda uma rede complexa de fatores que inclui a estrutura legislativa, as características

das instituições e o modo como estas se relacionam com o sistema no seu todo, o modo como

o financiamento é feito às instituições e como estas prestam contas da sua utilização, assim

como o modo como as estruturas menos formais se relacionam e influenciam o seu

comportamento (OCDE, 2003

).

Assim, existe uma deslocação gradual do estreito controlo

estatal existente para uma orientação exercida no seio da instituição levando a uma auto-

governança na sua gestão de fundos, o estado deixa de ter o controlo passando este poder para

a própria instituição, no caso em estudo a UTAD.

1.5 Evolução do Serviço Social do assistencialismo a capacitação e proatividade