Capítulo 6. Os principais temas discutidos.
3. Pesquisa Científica e Planejamento Educacional.
3.2. Diversos aspectos do planejamento educacional.
Anísio Teixeira, no discurso proferido na abertura do curso para formação de especialistas em educação, realizado no CRPE/SP, defendeu a idéia de que a democratização do ensino está vinculada à necessidade de planejamento da educação:
“Não podemos selecionar os alunos. Temos que educar a todos. Não podemos selecionar os mestres. Temos de escolhê-los em camadas cada vez mais comuns. Com alunos comuns e mestres comuns, cresceram as necessidades de planejamento, as necessidades de supervisão e as necessidades de administração”79.
Anísio Teixeira também destacou o fato de que a democratização do ensino não ocorreu sozinha, houve uma mudança nos objetivos da educação escolar. Já não bastava preparar estudiosos e intelectuais:
“Também temos que preparar a grande massa de meninos e jovens para as tarefas comuns da vida, tornadas técnicas senão difíceis, pelo tipo de civilização que se desenvolveu em consequência de nosso progresso em conhecimento, e, além disto, os quadros vastos, complexos e diversificados das profissões e práticas em que se expandiu o trabalho especializado”80.
77 Anísio TEIXEIRA, Ciência e Arte de Educar, Pesquisa e Planejamento, n. 1, p. 69-78.
78 Florestan FERNANDES, A ciência aplicada e a educação como fatores de mudança social provocada, Estudos
e Documentos, vol. 5, p. 42.
79 Anísio TEIXEIRA, Por que especialistas em Educação?, Educação e Ciências Sociais, n. 7, p. 06. 80 Ibidem, p. 06.
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Essas mudanças teriam gerado a necessidade do planejamento educacional, que envolveria os seguintes elementos:
“a seleção dos conhecimentos teóricos adequados aos novos fins da educação; a formulação de conhecimentos práticos, antes confiados à espontaneidade da vida e do trabalho; a fusão, conjugação e coordenação de conhecimentos especializados em ‘todos’ globalizados, aptos a interessarem e serem compreendidos pelo aluno comum; o estudo das dificuldades desses alunos e dos recursos para vencê-las; e, todo um trabalho de administração complexo, diversificado e difícil”81.
Em relação à questão do planejamento, Fernando de Azevedo acreditava que “a educação não poderá subsistir nem desenvolver-se se não for apoiada numa sólida armadura administrativa e na amplitude e na segurança de um largo e vigoroso equipamento cultural- científico, de técnicas, pesquisas e planificação. É para isso que se criaram entre tantas outras iniciativas, os CRPEs”82.
Malcolm Adiseshiah, subdiretor geral da UNESCO, no discurso de abertura do I Curso de Especialistas em Educação, também abordou a questão da necessidade de planificação: “O planejamento educacional leva à adaptação da educação às necessidades da comunidade e às diferenças individuais. Ambos os assuntos são essenciais para uma formulação realística da política educacional”83.
Em relação à questão do planejamento educacional, Jayme Abreu destacava que as realizações nesse sentido que iniciaram-se com a Reunião Interamericana de Ministros da Educação, realizada em Lima, no Peru, em maio de 1956, e com o Seminário Interamericano de Planejamento Integral da Educação, realizado em Washington, nos Estados Unidos, em junho de 1958. Nessas reuniões destacou-se a necessidade de aumentar, de forma planejada, a educação na América Latina, sendo que o planejamento educacional deveria ser integrado ao planejamento sócio-econômico. “Do ângulo econômico, pode-se afirmar que não lograrão realização satisfatória os planos de aceleração do desenvolvimento que se prevêem para a América Latina, sem um correspondente desenvolvimento planejado da educação, que assegure a formação de todo o pessoal necessário”84.
Para Jayme Abreu, o planejamento educacional surge como uma opção em relação à antiga doutrina do laissez-faire que não conseguiu se auto-regular adequadamente:
81 Ibidem, p. 07.
82 Fernando de AZEVEDO, Teoria e experiência educativa, Pesquisa e Planejamento, n. 2, p. 35.
83 Malcolm S. ADISHESIAH, A UNESCO e a luta contra o analfabetismo, Pesquisa e Planejamento, n. 2, p. 64. 84 Jayme ABREU, Educação e desenvolvimento sócio-econômico da América Latina, Pesquisa e Planejamento,
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“Precisa o Brasil deixar, urgentemente, a fase a que chamaríamos dos pensamentos desejosos em educação, das vaguidades impressionistas, dos subjetivismos gratuitos das nossas pitonisas educacionais, para ingressar na era do planejamento educacional racionalmente estabelecido, partindo da hierarquização de prioridades lastreada por uma filosofia educacional consequente e chegando aos projetos, tecnicamente elaborados, como etapa final do planejamento”85.
Renato Jardim Moreira, diretor da Divisão de Estudos e Pesquisas Sociais do CRPE/SP, publicou um importante artigo na revista Pesquisa e Planejamento, onde discute o planejamento educacional para o Estado de São Paulo, tomando como base de informações os dados obtidos através do Levantamento do Ensino Primário realizado pelo CRPE/SP.
Para esse autor, “a organização do planejamento deve estabelecer um processo que leve à intervenção em todos os setores do ensino e não apenas naqueles que apresentam problemas imediatos mais salientes”86. Segundo Renato Jardim Moreira, haveria a necessidade de se desenvolver o chamado “planejamento integral da educação”:
“A intervenção, para ser bem sucedida, deve ser orientada por um planejamento integral da realidade educacional. Na falta deste, não há dúvida que se pode pensar, para efeitos executivos imediatos, em planejamentos parciais, que se refiram a determinados campos e problemas. A longo termo, à medida que se for definindo o planejamento integral, os planejamentos parciais irão se tornando mais dependentes do geral, até passarem a corresponder efetivamente às suas diferentes partes. Por assim dizer, os planejamentos parciais fluirão no planejamento integral, que só poderá ser estabelecido a partir dos resultados de levantamentos e de pesquisas”87.
Defendendo a mesma idéia, Joanna Mader Elazari Klein (DEPS-CRPE/SP) acreditava que o planejamento integral da educação deveria ser “calcado na conciliação entre as condições sociais que a escola precisa atender, o conhecimento objetivo da realidade escolar em que se pretende intervir e a qualificação do pessoal de que se pode dispor”88. Para a autora, a solução dos problemas educacionais brasileiros pressupunha a existência de um planejamento integral da educação.