3 ALTERNATIVAS TECNOLÓGICAS PARA PRODUÇÃO INTEGRADA DE
3.2 PRODUÇÃO ORGÂNICA DE ARROZ IRRIGADO
3.2.1 Diversos Conceitos Sobre Agricultura Orgânica
Uma agricultura praticada como sendo “orgânica”, pode ser entendida de várias formas, não havendo um consenso quanto a uma definição única.
Segundo SCOFIELD (1986), o movimento orgânico atual cresceu das influentes publicações de Howard (1940), Balfour (1943) e Rodale (1945). No entanto, o termo “orgânico”, e a expressão “agricultura orgânica”, foram usadas pela primeira vez por Lord Northbourne em seu clássico Look to the Land (Olhar para a Terra) (1940), onde possui uma visão “...da fazenda como uma unidade sustentável,
ecologicamente estável, auto-suficiente, biologicamente completa e balanceada – um viver dinâmico todo orgânico (a dynamic living organic whole)”, e ainda, “...a fazenda por si mesma tem que ter uma perfeição (inteireza, integralidade) biológica; deve ser uma entidade viva, deve ser uma unidade que tem dentro de si mesma uma vida orgânica balanceada (equilibrada)”. Acreditava ainda que “...a característica principal de real agricultura é que ela é um modo de vida em vez de um negócio, e é inevitavelmente o modo de vida de tudo, não só desses imediatamente empenhados nisto.”
Lord Northbourne acreditava que uma fertilidade real somente poderia ser construída gradualmente, sob um sistema apropriado para as condições de cada fazenda em particular, sobre períodos longos. Afirmava que fertilidade não é um fenômeno estático, é um processo vivo de mudança e troca, uma “mudança dinâmica”. É a única defesa sã contra doenças, porque doença é um sintoma de um estado de desequilíbrio. Nesta direção, a construção de uma unidade viva coerente, seria totalmente incompatível com mudanças freqüentes de sistema e com especialização. Northbourne afirmava que a agricultura mista é a real agricultura, e que a ‘agricultura’ especializada seria qualquer outra coisa, tendo que depender de fertilidade importada, e assim, não poderia ser auto-suficiente nem um todo orgânico. A adoção de uma verdadeira agricultura mista seria o primeiro passo para a perfeição da fazenda individual, e depois disto da zona rural em todos seus aspectos, como um todo orgânico saudável, rendendo verdadeiro lucro em lugar de apenas um lucro financeiro. O próximo passo seria a conservação adequada, preparação, e retorno ao solo de toda matéria orgânica. Em relação à variedade de sistemas de agricultura, Lord Northbourne, apregoava a adaptação para condições locais, tendo como princípio de funcionamento a maior diversificação possível. (SCOFIELD, 1986).
Percebe-se que Lord Northbourne caracterizava “orgânico” e “agricultura orgânica” com a visão holista da realidade, visão esta presente em muitos, se não em todos os primeiros autores e defensores de métodos alternativos de agricultura.
53
Considerando agricultura orgânica como uma proposta alternativa aos métodos convencionais quimistas e industrializados de agricultura, ou seja, uma das vertentes dos “movimentos rebeldes”, o pesquisador Sir Albert Howard é conhecido como o “pai da agricultura orgânica”. Howard dirigiu no início do século XX em Indore, na Índia, um instituto de pesquisas de plantas. Publicou em 1940 o clássico
An agricultural testament (Um testamento agrícola), onde enfatiza a importância da
utilização da matéria orgânica nos processos produtivos, e considera que “...o solo não deve ser entendido apenas como um conjunto de substâncias, (...) pois nele ocorre uma série de processos vivos e dinâmicos essenciais à saúde das plantas.” (EHLERS, 1999)
As crescentes conseqüências ambientais negativas do modelo industrial de agricultura, manifestadas a partir da segunda metade do século XX e incorporadas principalmente nos discursos das organizações ambientalistas, motivaram respostas por parte da sociedade civil e governos. Neste sentido, PASCHOAL (1994), comenta que o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) em 1980, produziu um relatório com recomendações sobre agricultura orgânica, onde esta é definida como sendo:
“...um sistema de produção que evita ou exclui amplamente o uso de fertilizantes, agrotóxicos, reguladores de crescimento e aditivos de rações animais, elaborados sinteticamente. Tanto quanto possível, os sistemas agrícolas orgânicos dependem de rotações de culturas, de restos de culturas, estercos animais, de leguminosas, de adubos verdes e de resíduos orgânicos de fora das fazendas, bem como de cultivo mecânico, rochas e minerais e aspectos de controle biológico de pragas e patógenos, para manter a produtividade e a estrutura do solo, fornecer nutrientes para as plantas e controlar insetos, ervas invasoras e outros organismos daninhos.”
Considera-se no entanto, que para uma visão mais abrangente envolvida na expressão “agricultura orgânica”, é fundamental atentar para as palavras da
International Federation of Organic Agriculture Movements (IFOAM), entidade não
governamental que apesar de ser uma federação de agricultura orgânica, reúne associações de todos os modelos alternativos ou não convencionais de agricultura. Para IFOAM (2001), a agricultura orgânica:
“...inclui todos os sistemas agrícolas que promovem a produção correta de alimento e fibras. Estes sistemas consideram a fertilidade do solo local como a chave para a produção bem
sucedida. Respeitar a capacidade natural das plantas, animais e da paisagem, visa otimizar a qualidade em todos os aspectos da agricultura e do ambiente. A agricultura orgânica reduz dramaticamente os insumos externos, abstendo-se do uso de fertilizantes químico-sintéticos, pesticidas (praguicidas), e remédios. Ao invés, ela permite as poderosas leis da natureza aumentarem os rendimentos agrícolas e a resistência à doenças. A agricultura orgânica segue os princípios globais aceitáveis, que são implementados dentro do ambiente sócio- econômico local, geoclimático e cultural. Como uma conseqüência lógica, a IFOAM enfatiza e auxilia o desenvolvimento de sistemas auto-sustentáveis em nível local e regional.”
No ANEXO 1 encontram-se os princípios da produção e processamento de produtos orgânicos da IFOAM, transparecendo uma preocupação pela criação de sistemas mais sustentáveis de produção.
O presente trabalho corrobora a posição não sectária da IFOAM, e assim, procura dar subsídios para uma visão ampliada de agricultura orgânica, uma agricultura de “retorno de matéria orgânica”, preocupada com as questões ambientais, econômicas e sociais, onde os produtos gerados destinam-se para mercados ou situações de venda diferenciadas, sendo comercializados com possibilidade de rastreabilidade mediante processos de certificação.