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COOPERATIVA NOVA ESPERANÇA Organograma Unidade

3.2.1. Divisão do trabalho: a presença das mulheres

A divisão do trabalho, de modo geral, é feita de acordo com a posição que os indivíduos ocupam na estrutura social e nas relações de propriedade. Com o advento da revolução Industrial, notadamente acompanhado pelo desenvolvimento do modo de produção capitalista, o processo de dividir tarefas e funções foi substancialmente intensificado e fragmentado, ficando, cada vez mais demarcada, a divisão entre o trabalho na produção e o administrativo (SANDRONI, 2000). A respeito desta divisão, Marx faz as seguintes considerações:

34 Open End é um tipo de fio que possui as mesmas características do fio convencional, entretanto seu processo de produção é

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“O grupo organizado da manufatura é substituído pela conexão entre o trabalhador principal e seus poucos auxiliares. A distinção essencial ocorre entre os trabalhadores que estão realmente ocupados com as máquinas-ferramenta... Entre os auxiliares podem ser incluídos os que alimentam a máquina com o material a ser trabalhado. Ao lado dessas duas classes principais há um pessoal pouco numeroso, que se ocupa com o controle de toda maquinaria e a repara continuamente, como os engenheiros, mecânicos, marceneiros, etc., é uma classe de trabalhadores de nível superior, uns possuindo formação científica, outros dominando um ofício; distinguem-se dos trabalhadores de fábrica, estando apenas agregados a êles. Sua divisão de trabalho é puramente técnica.” (MARX; 1975, p. 480)

Em que pese o avanço tecnológico que, sem dúvida imprimiu modificações na divisão do trabalho, este permanece na sua essência, mesmo nas cooperativas, cujos princípios organizadores pressupõem o exercício do trabalho não alienado. O caráter social da divisão é evidenciado, especialmente entre as tarefas ditas manuais, para as quais não há necessidade de conhecimento técnico e que, por isso, valem menos; e as tarefas para as quais se exige saberes especializados, dando ao trabalho um valor maior. Tais diferenças são acompanhadas pelo status conferido aos respectivos postos de trabalho.

A divisão das tarefas, a partir da criação da Nova Esperança não apresenta muitas modificações. Mantida a base tecnológica, as tarefas executadas também permaneceram. Para compreender melhor esta divisão, serão analisadas as etapas do processo de trabalho na produção e na administração.

O processo produtivo na cooperativa está dividido de acordo com as etapas necessárias para a transformação do algodão em fio35. Inicia-se com a chegada da matéria prima, fardos de algodão, adquiridos após a verificação de alguns critérios técnicos que indicam sua qualidade, como: limpeza, comprimento, espessura e cor. São encaminhados a seguir, para as etapas subseqüentes que se desenvolvem nos seguintes setores da produção:

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Setor de Preparação: o lugar na “nevasca”

Os fardos são retirados do caminhão pelos funcionários da empresa fornecedora e estocados no setor de Preparação. Neste setor trabalham 37 cooperados, dos quas 12 são mulheres e 35, homens36, nas funções de Operador de Máquina, Trocador de

Lote, e Líder do setor. Primeiramente estes fardos são pesados, e de cada um é retirada uma amostra, identificada por números, e encaminhada ao Laboratório Têxtil ou Controle de Qualidade.

Laboratório Têxtil – aparelhos antigos e melhor local de trabalho.

Neste local, são realizados vários testes com o algodão relativos à coloração, comprimento e irregularidade das fibras, impureza e resistência. A partir das tarefas realizadas neste laboratório, é que são enviadas as especificações técnicas que controlam todo o processo de produção, como a titulagem dos fios por exemplo. Estão alocados no Laboratório 3 cooperados, dos quais duas mulheres com maior escolaridade e qualificação técnica, a Coordenadora de Qualidade (Nível Superior) e Analista de Qualidade (Ensino Médio), auxiliadas pelo Auxiliar de Laboratório, um homem, com menor escolaridade (Ensino Fundamental incompleto). O local de trabalho

35 Serão descritas, o mais detalhadamente possível, as tarefas realizadas em cada etapa do processo de trabalho, com base na

observação e nas declaraçoes dos cooperados, no âmbito desta pesquisa.

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+! apresenta boas condições físicas, silencioso e iluminado, distante das máquinas. Entretanto, os aparelhos utilizados são antigos, embora em funcionamento, estão defasados do ponto de vista tecnológico, demandando maior tempo na execução dos testes e alto custo de manutenção.

Terminadas estas tarefas, a classificação do algodão é enviada à Preparação, e o processamento do algodão é reiniciado. Os fardos são posicionadas em frente aos

abridores – máquinas específicas para abrir o algodão-, carreiras de 20 fardos cada,

com as mesmas especificações técnicas, para serem condicionados ao ambiente por 24 hs.

De cada fardo serão retiradas camadas, de aproximadamente 10 cm de pluma (como é chamado o algodão) e colocadas num carrinho, local de onde alimentarão as máquinas, denominadas abridores.

Essas tarefas iniciais são realizadas, predominantemente, por homens, há apenas duas mulheres. Argumentam estes cooperados, que o trabalho realizado nesse setor exige algum esforço físico, permitindo-nos verificar que as tarefas estão distribuídas de acordo com a divisão sexual do trabalho. Entretanto, Kergoat adverte que esta divisão não é um dado imutável, embora presente em todas as sociedades conhecidas, há diferentes modalidades de dividir o trabalho, as quais variam, de acordo com o tempo e espaço (KERGOAT; 2002). Conforme indica a autora, a possibilidade desta ser alterada, e até invertida, está confirmada nesta mesma etapa do processo produtivo:

....”o nosso interesse é que todos trabalhem em

tudo, menos uma mulher num serviço que é batedor de carda, que é serviço pesado, assim mesmo a Nina é meio fortona sabe, e ela trabalha na carda ainda.” (Cooperado do Setor de Preparação-12/06/2002)

Embora não haja informações relativas a doenças alérgicas ou outros problemas de saúde, o ambiente neste setor, especialmente durante a abertura dos fardos e retirada das camadas, é repleto de partículas de algodão que se dispersam no ar, produzindo a imagem de uma leve “nevasca”.

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+L Setor de preparação – a “nevasca” após a abertura dos

fardos.

Outra característica relativa às condições físicas de trabalho nesse local, é o barulho produzido pelos abridores, (ao lado da máquina não é possível ouvir outra pessoa) que exige maior entoação da voz para comunicação das pessoas.

Dando seqüência ao processo, o algodão será colocado no abridor, pelos Operadores de Máquina, para que seja feita a desflocagem e iniciado o processo de limpeza (o algodão é muito “flocado” (emaranhado) devido à sua natureza e à forte prensagem que recebe).

Cooperado do setor de preparação colocando o algodão nos abridores.

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+# Em seguida, o algodão é encaminhado automaticamente para a próxima etapa, cuja máquina denomina-se batedor. Nessa máquina a pluma sofrerá nova abertura dos flocos e limpeza (por meio de batidas) e, em seguida, sairá em forma de manta. Estas mantas podem ser transformadas em rolos de batedor que alimentarão as máquinas

cardas manuais, ou serão encaminhadas diretamente às cardas automáticas.

Esse conjunto de operações mecânicas é atentamente acompanhado pelos Operadores de Máquina (maquinista na linguagem dos trabalhadores), que interferem no processo pontualmente, quando necessário (pequenas correções no funcionamento da máquina).

A próxima etapa que se dá, ainda no setor de Preparação, é totalmente mecanizada, denomina-se cardagem. Nesse processo a pluma de algodão receberá o último processo de limpeza das fibras e iniciará uma paralelização das mesmas, eliminando as fibras muito curtas. Resulta dessa operação um véu aberto, que vai sendo afunilado em forma de pavio e que será acomodado em latas. Nesse momento, há participação dos cooperados homens na função e Auxiliares, que transportam as latas para a próxima etapa, permanece no ambiente o barulho das máquinas e não há partículas de algodão no ar.

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+M Cooperado na etapa de cardagem realizando o transporte do algodão

na forma de pavio.

Cada carda possui uma cor diferente, identificada nas latas, para que seja possível mesclar material de todas as cardas na máquina passadeira, cujo processo é denominado primeira e segunda passagens. A função de tal processo é paralelizar totalmente as fibras, alinhando-as em fitas ou mechas. Nele, as passadeiras, que possuem duas cabeças, são alimentadas por 6 ou 8 latas de carda, e as latas que saem da primeira passagem alimentam a segunda passagem.

As latas resultantes da etapa anterior são encaminhadas pelos Auxiliares, homens, até as maçaroqueiras. Cada lata resultante da segunda passagem alimentará um fuso de maçaroqueira, (tubos plásticos, maiores do que os cones, onde são enrolados os fios) cuja função é estirar ou esticar as fitas de algodão, até o título (grossura) desejado, dando ao mesmo tempo, uma leve torção no pavio para que não se rompa na próxima etapa.

É possível notar que, na Preparação, as tarefas diretamente ligadas às máquinas são executadas pelas mulheres, que ocupam majoritariamente a função de Operador de Máquinas, cabendo aos homens, essencialmente, o transporte, seja nos carrinhos ou nas latas, uma vez que essas tarefas exigem algum esforço físico.

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+N Cooperada operando a maçaroqueira. Um trabalho feminino

no setor masculino.

O Líder do setor, em qualquer etapa do processo produtivo, realiza a mesma tarefa: supervisionar o trabalho dos demais cooperados, dando algum suporte técnico; fiscalizando tempo e horário de trabalho; remanejando trabalhadores, se necessário; interferindo em conflitos pessoais e estabelecendo um elo de ligação e de negociação entre a produção e a direção. 37

Setor de Filatório: um trabalho feminino

No filatório está concentrada a maior participação feminina, 60 cooperadas e 11 cooperados, nas funções de Operador de Máquina, Transportador,Trocador de Lote, Serviços Gerais e Líder do setor. Finalizada a etapa da Preparação, entram no Filatório as maçarocas cheias que são, antes, armazenadas separadamente em lotes, pelos Trocadores de Lote, função ocupada por homens e mulheres, para serem encaminhadas às máquinas de filatório, tarefa que não exige grande esforço físico. Nessa etapa do processo de produção, o pavio será efetivamente transformado em fio, mediante a estiragem, o que é possível ser feito por meio de um conjunto de

37 Análise mais detalhada da participação das lideranças na organização do trabalho será contemplada no tópico sobre Regulação

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+O engrenagens. Para tanto é escolhido o título do fio e a torção adequada, tendo em vista sua utilização posterior. Para as malharias, é produzido um fio menos torcido; para as tecelagens, mais torcido. Neste processo, o fio será trabalhado em espulas (peça plástica mais fina e mais longa do que o cone)

Observando-se o trabalho predominante realizado nesse setor que é, operar as máquinas de fiação, verifica-se que as tarefas são realizadas em pé; há necessidade de alguém acompanhar, atento, o ritmo da máquina, e os trabalhadores interferem em momentos necessários (colocação e troca de espulas, eventuais rompimentos do fio, problemas técnicos, retirada de fiapos, etc...). Além desse trabalho, é feito o transporte dos carrinhos de maçarocas, pelos homens e a limpeza do local, realizadada, predominantemente, pelas mulheres, obedecendo-se mais uma vez, à divisão do trabalho, ancorada nas habilidades femininas. Nessa fase do processamento o chão fica repleto de pedaços de fio e partículas de algodão, exigindo que a limpeza seja feita com freqüência38. Permanece nesse local o barulho das máquinas. É nesta etapa do processo de produção do fio que, de modo geral as mulheres são mais recomendadas, pois tais tarefas exigem habilidade manual, e destreza.

Cooperada o setor de filatório. Trabalho essencialmente feminino.

38 Como o processo de produção do fio é realizado em espaços físicos diferentes, cabe lembrar que o ambiente na unidade I não

oferece boa luminosidade; as paredes estão desgastadas, há muita poeira acumulada no teto. Na unidade II, as condições físicas são melhores; o ambiente é mais iluminado e arejado.

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++ Como ocorre de forma generalizada em qualquer organização produtiva, cargos, funções e tarefas são vistos de forma sexuada, dada a visão culturalmente difundida que especifica atribuições femininas e masculinas, estando as primeiras diretamente relacionada a pouco ou nenhum esforço físico, habilidades manuais mais desenvolvidas, capricho na execução do trabalho, maior capacidade de organização e asseio do espaço físico: exigências que demandam qualificações não reconhecidas no salário39. Freqüentemente, trata-se de qualificações atribuídas à socialização no espaço

doméstico.

“Complicadíssimo, faltam horas e sobram tarefas. Bom, o que me ajuda é que eu não tenho filhos, mas tenho a casa. Sou casada, meu marido ajuda, mas alguns detalhes os homens não acabam fazendo da mesma forma, mas ajudam. Então é assim, a casa fica fechada; o dia todo é uma correria; tem que chegar em casa, engolir uma comida pra estudar[...] então no fim de semana tenho que cozinhar, tenho o que fazer na casa e deixar mais ou menos, pra, durante a semana, conseguir conciliar” (Cooperada do Setor de Filatório– 22/04/2002)

Valorizando estas características, mas reafirmando a divisão sexual do trabalho, informa um trabalhador que as tarefas de arrumação e limpeza, semelhantes às tarefas domésticas, devem ser delegadas às mulheres, que as executam com maior capricho. Em virtude destas qualidades, acrescenta, que o ambiente onde trabalham as mulheres é sempre mais organizado e limpo.

“Não, as mulheres na parte de limpeza e arrumação são melhores; eu sou obrigado a dar meu braço à torcer mas tenho que falar a verdade né? porque mulher toda vida é mais, sei lá né? tem mais jeito de arrumar as coisas; certos

39 Referindo-se à pesquisa de M. Guilbert, Hirata ressalta indicações sobre a relação entre a técnica, os equipamentos e a divisão

sexual do trabalho. Uma delas refere-se à máquinas menos complexas confiadas às mulheres que não exigem qualificação.(HIRATA, 2002, p. 200).

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tipos de serviços tem que ser mulher, embora tem duas sessão que não trabalha mulher porque é serviço pesado, mas lugar que trabalha mulher é “10”; onde a mulher trabalha é caprichado; é mais bem limpo. Então é isso aí” (Cooperado do Setor de Filatório -12/06/2002)

Não obstante o fato de que as mulheres têm sido valorizadas pelas suas habilidades - não reconhecidas no salário porque consideradas atributos naturais - e não pela qualificação, há relatos que reafirmam a imagem feminina indicada. Neste caso, delega-se aos homens maior responsabilidade na execução do trabalho, utilizando-se de uma outra visão social que confere ao trabalho masculino, qualidade superior.

“... o homem ele é mais...infelizmente, ele é mais... Um pouco mais responsável na parte que cabe à produção; eu não sei se ainda tem aquela ideologia que o homem é o chefe da família mas o homem, ele é mais responsável em produção. Não estou falando nem tanto pela cooperativa; em outras empresas que eu trabalhei pelo que eu já vi, o homem é um pouco mais responsável...”. (Cooperado do Depto Comercial- 12/06/2002)

Além de “irresponsáveis”, as mulheres são improdutivas, na visão deste cooperado. Provocam queda na produção pela perda de tempo com conversas e fofocas. Afora a concepção taylorista de produtividade, segundo a qual o tempo de trabalho não admite desperdícios, evidencia-se nesta fala o pré- conceito, culturalmente difundido, que qualifica os homens em detrimento das mulheres, conferindo-lhes uma conduta socialmente valorizada. É importante ressaltar que esta hierarquização entre os sexos mostra-se incompatível com os princípios de igualdade que devem prevalecer numa organização cooperativa.

“Nós temos perda da produção por causa disso: param pra fazer rodinhas, conversam tão sempre conversando, fofocando e a produção vai caindo, elas não

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percebem, a gente percebe porque a gente vê números certos, porque nosso (...) deveríamos ter uma produção maior do que temos com o número de cooperados que temos lá na fiação e nós não conseguimos.” (Cooperado do Depto Comercial – 12/06/2002)

A opção pelo trabalho fora de casa foi, para algumas cooperadas, imposta pelas necessidades sócio-econômicas, ou ainda, pela necessidade de complementar a renda familiar, dado o contexto de crise econômica que estão vivenciando. Há estudos que comprovam este fato, que a feminização da classe trabalhadora deve-se, sobretudo, ao empobrecimento generalizado da população, ou seja, à luta pela sobrevivência (CASTRO & LAVINAS; mimeo). Bruschini & Lombardi reafirmam esta análise, acrescentando que: “Movidas pela necessidade de complementar a renda familiar –

seja porque os salários no país são extremamente baixos, o que exige que mais de um membro da família tenha uma atividade produtiva, seja porque os sistemas públicos de atendimento, tanto na área da saúde quanto na da educação, são de má qualidade – ou impulsionadas pela escolaridade elevada, menor número de filhos, mudanças na identidade feminina e nas relações familiares, as mulheres casadas procuram cada vez mais o mercado de trabalho”. (BRUSCHINI & LOMBARDI; mimeo, p. 06)

Não obstante esta necessidade, é importante destacar que o trabalho profissional é portador de uma outra dimensão, relativa à subjetividade, que permite a construção de uma nova sociabilidade: para uma das entrevistadas o espaço do trabalho profissional constitui uma segunda família, laços de amizade e companheirismo. Para outras, o trabalho profissional lhes possibilita certa independência econômica.

“É difícil, mas a cooperativa pra mim é uma segunda família, né? Eu gosto de trabalhar aqui.” (Cooperada do setor de Filatório – 23/04/2002)

“...mas é importante a gente ter um dinheirinho, não ter que ficar pedindo pro marido, da gente poder comprar

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nossas coisas, coisas pros filhos, é bom né? “(Cooperada do setor de Filatório - 17/06/2002)

As dificuldades aumentam para as cooperadas mães. A maternidade é sem dúvida, um grande impedimento ao exercício do trabalho remunerado, e que também é condição de cidadania das mulheres. No entanto, são poucas as cooperadas que podem abandonar o trabalho profissional para dedicarem-se exclusivamente à educação dos filhos, uma vez que não possuem condições econômicas para tanto. Mesmo que algumas mães sejam atendidas na creche municipal, argumentam que os horários estabelecidos na cooperativa, diferenciados por setores da produção, impedem que seja dada aos filhos, a atenção necessária. Para as cooperadas do turno da noite, há prejuízo do descanso, do sono, realizados durante o dia e limitados a poucas horas interrompidas por causa dos cuidados com os filhos.

“Eu chego de manhã, tomo um banho; aí deito mais ou menos cinco e meia, porque eu venho de moto e é rapidinho, aí quando é dez pra sete eu levanto pra levar minha filha pra escola, aí depois eu deito de novo e quando é meio dia eu levanto pra arrumar meu menino e levar pra escola. O outro ele vai sozinho de manhã, o mais velho. Aí quando é à tarde eu busco um, depois eu busco o outro; aí nisso, eu cuido da casa, enquanto eu busco um aí, eu já vou limpando a casa e depois eu busco o outro e já vou fazendo a janta, depois eles chegam tomam banho e jantam e ai já está na hora de vir trabalhar de novo”. (Cooperada do Setor de Filatório- 26/06/2002)

Realizar a dupla jornada implica outros limites para as trabalhadoras, relativos à sua participação em outros espaços, mesmo no interior da cooperativa, como a participação administrativa e política.

“.... a participação das mulheres é boa, nós temos mais mulheres do que homens na cooperativa. Mas na participação mesmo é... O que barra muito é, muitas

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mulheres têm problema com filhos, casa, e acaba às vezes não podendo participar. Então isso acaba limitando um pouco” (Cooperada do Laboratório Têxtil – 12/04/2002).

Embora os princípios cooperativos exijam a igualdade de direitos, entre homens e mulheres, é possível constatar que os horários de trabalho por exemplo, não estão adequados às necessidades maternas. Prevalece a racionalidade econômica, traduzida no estabelecimento dos turnos e horários, para homens e mulheres, indistintamente, que atendem aos interesses da produção.

“...que o pessoal podia pensar um pouco mais no horário das sete às seis, que é muito puxado para as mulheres aqui dentro, apesar que eu não tenho filho, mas eu tenho amigas que tem, como elas sofrem, não é fácil não. Mas às vezes pode falar - mas então se está achando difícil, então sai. Mas não é dessa forma, que a gente pode pensar, e as pessoas não podem pensar desta forma, né? (Cooperada do Setor de Filatório-17/06/2002)

Contudo, outro depoimento informa que, embora permaneça a racionalidade produtiva, os depoimentos dão conta de espaços de negociação mais democráticos e que, informalmente, procuram atender as especificidades maternas.

“A cooperativa pelo o que eu falei né, porque a empresa assim é completamente diferente né, na cooperativa a gente tem mais liberdade; numa empresa não. Por exemplo, antes do dia das mães, há duas semanas atrás, qual empresa que deixa seu funcionário sair da linha de produção pra receber homenagem do dia das mães? não tem empresa nenhuma que faça isso, mesmo que ela pague uma hora no outro dia, não faz. E a nossa cooperativa é uma mãe. Porque a criança pequena sempre a criança está lá, vê se a mãe já chegou, anciosa pra mãe chegar. Os grandão não, os meus dois já estudam ... Tá um rapaz e uma moça

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já e não liga pra isso, mas as crianças pequenininhas, se a mãe não vai, já abre a boca a chora... Empresa nenhuma faz isso, faz? Não faz!.” (Cooperada do Setor de Filatório- 23/5/2002)

O processo de produção descrito anteriormente, no qual as mulheres têm