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5. A EVOLUÇÃO DO CONCEITO DE SUSTENTABILIDADE

5.6. DIVISÃO POR TIPOLOGIA DE SUSTENTABILIDADE

Gráfico 9 – Tipologias de Sustentabilidade no período de 2000 a 2012 no jornal Valor Econômico

Fonte: Higor Lambach (2015).

Ao longo do processo de pesquisa teórico e prático, percebeu-se a intensa divisão por tipologias definidoras do conceito de sustentabilidade. A sustentabilidade não é entendida como um tripé (social, econômico e ambiental), como sugerido nas discussões internacionais,preconizado no Relatório Brundtland e adotado nesta pesquisa. Os textos jornalísticos acabam por dar mais destaque ao eixo econômico, como era de esperar pelo foco do jornal, mas não tentam abordar a complexidade da sustentabilidade, embora algumas interfaces de menos peso possam ser encontradas

O grande recorte foi majoritariamente empresarial com 2370 textos (81,06%), como era previsto, e, quase que inexpressivo nas interfaces empresarial/ambiental com 296 (10,12%) e empresarial/social 110 (3,76%). Nos recortes ambiental e social, os números também foram inexpressivos: 62 (2,12%) e 57 (1,94%), respectivamente. Na interface ambiental-social, o número foi ainda mais baixo: 29 textos (1%).

Dessa forma, é possível, inferir que o profissional explora apenas uma das faces da temática ambiental, que por definição deve ser multifacetada, multidisciplinar e multissetorial (BUENO 2007; UNGARETTI, 1998).

Considerou-se ambiental (Figura 19), ações efetivas para a redução dos danos ambientais, em sua interface com a natureza, no que se refere à biodiversidade e florestas, e/ou discussões sobre meio ambiente, ou pelo menos, debates sobre a degradação ambiental.

Nesta subcategoria, foram classificadas 62 (2,12%) matérias jornalísticas. Em sua grande maioria, as matérias aqui tinham como fonte organizações internacionais e o Estado, que impulsionam ações efetivas e pressionam as empresas para uma maior proteção ambiental.

Figura 19 – Matéria jornalística classificada na tipologia ambiental

Fonte: Jornal Valor Econômico. Disponível em:

<http://www.valor.com.br/brasil/1013660/brasil-tenta-estabelecer-medidas-para-preservar-biodiversidade>. Acesso em 30 de maio de 2015.

Já publicações caracterizadas como a tipologia empresarial (Figura 20) eram textos que, de certa forma, exaltavam a empresa pela rentabilidade empresarial ou simplesmente pela ação de prática ambiental (ganho de imagem ou greenwashing). Nesta subcategoria, foram identificados 2.370 textos jornalísticos (81,06%).

Destaca-se mais uma vez a necessidade de “proclamar” pelo desenvolvimento. A racionalidade econômica perpassa a defesa dos interesses humanos e ambientais. Todas as matérias inseridas nesta classificação revelam traços de publicidade/marketing de práticas de empresas ou discursos pelo aumento do crescimento.

Figura 20 – Matéria jornalística classificada na tipologia empresarial (econômica)

Fonte: Jornal Valor Econômico. Disponível em:

<http://www.valor.com.br/arquivo/826111/expansao-dos-gastos-ameaca-o-crescimento-sustentavel>. Acesso em 30 de maio de 2015.

A tipologia social (Figura 21) abarcou todas as ações ou discussões efetivas para a promoção de grupos sociais. Nela, foram identificadas 57 (1,94%) matérias jornalísticas.

Aqui, identificamos que o ser humano não é considerado como integrante do meio ambiente

— passa-se a impressão que ele é a espécie entre os seres vivos que domina a natureza e só se sujeita ela quando da ocorrência de grandes desastres naturais.

Figura 21 – Matéria jornalística classificada na tipologia social

Fonte: Jornal Valor Econômico. Disponível em:

<http://www.valor.com.br/opiniao/1076102/redistribuir-renda-reduz-pobreza>. Acesso em 30 de maio de 2015.

Por sua vez, as interfaces entre os tipos considerados foram possíveis pela falta de solidez em apenas uma tipologia. Também nota-se, apesar do termo socioambiental e a tendência de responsabilidade socioambiental, a interface entre ambiental e social, incide apenas em 20 textos jornalísticos analisados (1%) (Figura 22). Isso revela a falta de dimensão da efetiva sustentabilidade multissetorial pelo jornalismo, mas, sobretudo nas empresas, que também recortam o conceito para atender as demandas sustentáveis dos consumidores e, consequentemente, atingir lucros. O interessante é que a interface ambiental-social aparece muito em discursos empresariais, que divulgam até a criação de diretorias chamadas de responsabilidade socioambiental. Entretanto, não identificamos a mesma característica no conteúdo das matérias analisadas.

Figura 22 – Matéria jornalística classificada na tipologia social-ambiental

Fonte: Jornal Valor Econômico. Disponível em:

<http://www.valor.com.br/opiniao/2527582/humanidade-sustentavel>. Acesso em 30 de maio de 2015.

Na interface ambiental-empresarial (Figura 23), foram classificadas 296 matérias jornalísticas (10,12%), que estabelecem a interface entre preservação ambiental e práticas empresariais. Nelas, percebe-se uma tentativa de aliar preservação com o crescimento, mas justifica-se por um aumento de exigências em termos da legislação, ou seja, as empresas só avançam na proteção ambiental pela imposição do Estado.

Figura 23 – Matéria jornalística classificada na tipologia ambiental-empresarial

Fonte: Jornal Valor Econômico. Disponível em:

<http://www.valor.com.br/brasil/2623878/executivo-da-natura-defende-lei-ambiental-mais-severa>. Acesso em 30 de maio de 2015.

Figura 24 – Matéria jornalística classificada na tipologia empresarial-social

Fonte: Jornal Valor Econômico. Disponível em:

<http://www.valor.com.br/empresas/2931760/petrobras-reforca-plano-para-fortalecer-fornecedores-locais>. Acesso em 30 de maio de 2015.

Na interface empresarial-social (Figura 24), 110 (3,76%) matérias foram identificadas.

Nelas, as práticas são uma mistura de temáticas econômicas e sociais. Há uma convergência entre interesses econômicos e humanos na busca por uma aproximação com os consumidores e uma diminuição do impacto produtivo nas populações locais.

Por fim, percebe-se nesse quadro geral de análises, uma forte presença de interesses econômicos sobrepostos aos ambientais. Percebemos que a racionalidade econômica (LEFF, 2001) está presente e tem voz preponderante. A temática ambiental aparece de forma tímida e quando aparece não é genuína e está permeada por ações e práticas comerciais para venda.

Dessa forma, a hipótese inicial de que o conceito de sustentabilidade era usado como publicidade espontânea para empresas nas notícias sobre negócios comprova-se. Ficou nítida a presença do conceito de sustentabilidade como discurso de venda. A subcategoria práticas sustentáveis, por exemplo, é a prova de todo um trabalho de comunicação intenso e agressivo e que contamina os conteúdos jornalísticos nos espaços editoriais.

Em suma, a sustentabilidade virou um rótulo para os mais diversos produtos e serviços e o jornalismo de negócios, ainda na lógica da hegemonia desenvolvimentista, reproduz essa

“embalagem verde” sem questionamentos e críticas ao modelo de produção e consumo. O jornalismo de negócios, de maneira geral, incorpora esse discurso empresarial e acaba

reproduzindo uma ideia fragmentada, que beneficia alguns poucos em detrimento do bem-estar social e ambiental.