6 ANÁLISE DOS DADOS
6.2 Análise das categorias
6.2.5 Divisão sexual do trabalho na cooperativa
As entrevistas e observações na Cooperativa evidenciaram que a divisão do trabalho está envolta de uma perspectiva de gênero. Nas atividades operacionais, os Catadores destacam-se coletando os materiais recicláveis na Cidade e operando a prensa. Por outro lado, as Catadoras atuam nas atividades de triagem dos materiais. Para Silva, nas Cooperativas de Catadores e Catadoras de Materiais Recicláveis:
Existem atividades que são realizadas majoritariamente por mulheres - a triagem, por exemplo. Já os homens são incumbidos de trabalhos que exigem maior esforço físico concentrado - como o transporte do material para as mesas de triagem e para o despacho nos caminhões - ou estão relacionados à utilização de maquinário, como prensa e empilhadeira (SILVA, 2017, p. 17).
Em relação ao trabalho de triagem, a pesquisa evidenciou que até a data de fechamento do lixão, com o início do envio dos materiais da coleta convencional à CTR, as Catadoras ainda se dirigiam constantemente ao lixão para retirada de material reciclável não separado pela população ou, separado, mas coletado incorretamente pelo serviço municipal de limpeza urbana, na coleta convencional.
Em uma das visitas da Pesquisadora a Cooperativa no ano de 2017, foi possível verificar que dentro do grupo das sete Catadoras, havia duas grávidas que estavam realizando esta atividade proibida pela PNRS e também, de grande risco a saúde de todas. Situação confirmada pelos próprios Catadores entrevistados.
Quando perguntados se somente as Catadoras faziam este trabalho irregular, eles responderam que dois dos Catadores mais novos do grupo também ajudavam nas atividades, mas, eles, operadores da prensa e maridos das Catadoras grávidas, somente realizavam a atividade caso não houvesse energia para o trabalho na prensagem dos materiais.
No que se refere ao trabalho de representação política da cooperativa e ao trabalho administrativo, as catadoras são as únicas executoras. Fazem isto, encenando o teatro em diversas Escolas do Município e nos contatos com a Prefeitura, onde atuam para representar e/ou defender os interesse de todo o grupo da RECICLANEP, no que diz respeito a todas as negociações possíveis e o acompanhamento do Convênio/Contrato estabelecido entre ambas.
Atualmente, das sete Cooperadas, cinco ocupam todos os cargos de natureza administrativa, sendo o principal deles o de presidente.
Para o Cooperado João, esta separação de trabalho ficou estabelecida desta forma, porque as próprias Cooperadas acham melhor tomar a liderança das atividades administrativas. Porém, numa versão contrária, elas afirmaram que não tiveram alternativa, a não ser encabeçar estas atividades, pois os demais membros não teriam a mesma vontade de assumir as tarefas administrativas necessárias, por alegarem não possuir visão na administração cooperativista e nem demonstrarem vontade para aprender. Por esta razão as mulheres se dispuseram a estes trabalhos.
Na fala abaixo, a Cooperada Madalena afirma ser a família e a necessidade de trabalho fatores motivacionais para o trabalho administrativo, comprovando que estas atividades são executadas por elas mais por necessidade do que a liderança evidenciada pelos Catadores.
“Mas é esforço mesmo! Você querer aprender, você querer ajudar. Pensar no serviço nosso, pensar na nossa família também porque a gente sabe que emprego não tá fácil pra ninguém” (COOPERADA MADALENA).
Assim, as Catadoras acumulam atividades administrativas com atividades operacionais, mas parece não haver em relação aos Catadores, o entendimento do quanto o trabalho delas, fora das atividades operacionais, é tão fatigante quanto o trabalho de força física deles na coleta e prensagem. Perguntados quem trabalha mais na cooperativa, Cooperados e Cooperadas tiveram repostas contrárias;
“as vezes a gente tá indo em reunião aí pelo projeto e é o dia inteiro. Eles acham que porque eles estão aqui fazendo braçal e acha assim que eles estão fazendo mais força por estar fazendo braçal, mas nós, mentalmente, tá ruim” (COOPERADA MARIA). “Trabalhar nós trabalha mais” (COOPERADO JOÃO).
Uma das Cooperadas, também, evidenciou que o trabalho administrativo compromete seus horários de almoço e até mesmo seus finais de semana, mas que os demais membros do grupo não enxergam este sacrifício que, de acordo, com elas, se reverte para todos os membros.
“as vezes até mesmo nos finais de semana a gente é mais obrigado a vim do que os outros. Termina o horário de serviço aqui, a pessoa já tá indo embora e a gente tá na rua ainda ou a gente tá no final de semana trabalhando. Tem vez que na hora do almoço a gente engolia a comida pra trabalhar. Ninguém vê isso” (COOPERADA MADALENA).
Além de realizarem um trabalho duplo na Cooperativa foi evidenciado que ainda enfrentam outra jornada de trabalho em seus lares sem a colaboração de seus esposos e companheiros, que também são catadores. Por isso, ao serem questionadas se o trabalho cooperativo estende-se à vida privada, as três entrevistadas afirmaram que não.
No entanto, o trabalho na Cooperativa permite que elas possam se dedicar ao trabalho reprodutivo de cuidados com os filhos, por exemplo, de forma mais cuidadosa sem terem o medo de perderem seus rendimentos, fruto dos rateios mensais, devido às tarefas realizadas por elas como idas ao médico, reuniões escolares, dentre outras.
De acordo com o Cooperado João, não há deduções na remuneração das Cooperadas por atrasos ao trabalho devido a estas atividades. Ele cita inclusive que isto foi deliberado em assembleia, constando em ata. “Nesse sentido, o trabalho cooperativo possibilita maior flexibilidade e tolerância em termos de horários para esses tipos de atendimentos (conciliação entre atividades produtivas e reprodutivas)” (SILVA, 2017, p. 17).
Não há diferenciação de rendimentos em relação a gênero, de acordo com as Cooperadas Vera e Madalena, Catadores e Catadoras, recebem o mesmo valor do contrato de prestação de serviços, o mesmo valor pelo rateio com a venda dos recicláveis e a mesma porcentagem do Bolsa Reciclagem, o que foi evidenciado de outra forma em IPEA (2013) onde catadoras são menores remuneradas que catadores. Estudo de Wirth (2010) com cooperativas de catadores de São Paulo também constatou uma remuneração maior entre catadores em detrimento de catadoras.