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Capítulo 2: Trabalho e família

2.4. Divisão sexual do trabalho no contexto familiar

Como já discutimos, apesar das conquistas com relação à questão de gênero e das lutas feministas com relação à igualdade de gênero e à divisão sexual do trabalho doméstico, alguns estudos voltados a essa temática só começaram a ser pensados e desenvolvidos, no Brasil, a partir da Conferência Internacional sobre População e Desenvolvimento das Nações Unidas, que aconteceu no Cairo, em 1994. A partir de então, começaram a surgir estudos relacionados aos homens e à masculinidade, visto ter sido destaque, na conferência, a necessidade de envolvimento dos homens em questões relacionadas à sexualidade, saúde e reprodução, levando em consideração a igualdade entre os sexos e a necessidade de o homem se envolver no contexto familiar (Bruschini & Ricoldi, 2012).

Portanto, tendo em vista que as transformações que acontecem no mundo do trabalho remunerado acontecem de forma paralela e relacionada com as mudanças na família, o que tem se percebido é que, apesar de existirem novas configurações no contexto familiar – monoparentais, adotivas, recompostas, produção independente, homoparentais –, a distribuição de tarefas domésticas ainda é um desafio, inclusive para famílias formadas no modelo tradicional, ou por casais sem filhos, principalmente casais com duplo rendimento ou dupla carreira (Goulart et al., 2013).

Mesmo após o movimento feminista e a maior inserção da mulher no mercado de trabalho, esta ainda detém a responsabilidade pelas tarefas domésticas e os cuidados com as

pessoas, sejam filhos, doentes, entre outros (Bruschini & Ricoldi, 2012; Carvalho, Tenure, & Andrade, 2010). Segundo pesquisa realizada por Carvalho et. al. (2010), existem alguns obstáculos para o equilíbrio entre trabalho e família no Brasil, os quais estão relacionados a preconceitos arraigados, sobrecarga com cuidado com os filhos, pressão do relógio biológico, jornada de trabalho extensa e dificuldades com o parceiro amoroso, pois ainda recai muito fortemente sobre a mulher a responsabilidade por ordenar a esfera familiar/doméstica.

Com essas mudanças, o tempo dedicado às famílias diminuiu, principalmente devido a pressões para cumprir metas de trabalho, medo do desemprego, entre outros. As pessoas passaram a ficar mais tempo no trabalho remunerado ou levar cada vez mais trabalho para casa (Goulart et al., 2013). Nós temos, portanto, de um lado, as mulheres na luta por direitos iguais, com relação à remuneração, acúmulo de tarefas e responsabilidades e, por outro, os homens, que sofrem diante das pressões de uma sociedade ainda muito marcada pelo patriarcalismo, na qual o homem quem deve ser o provedor do sustento familiar. O que pode refletir no processo de escolha profissional entre homens e mulheres, bem como na construção da carreira.

A maior inserção da mulher no mercado de trabalho, como discutido, vem modificando as práticas tradicionais de divisão sexual do trabalho doméstico no contexto da família, que está vinculada à ações que proporcionem a sobrevivência da relação entre os sexos. Nesse sentido, podemos referenciar as ideias de Hirata e Kergoat (2007), que destacam dois aspectos importantes nessa divisão sexual do trabalho: primeiro, a ideia de separação do que é trabalho de homem e de mulher; segundo, a hierarquia na qual se tem que o trabalho do homem vale mais do que o da mulher, lembrando que o trabalho do homem seria o remunerado, atividade desenvolvida na esfera pública, e o da mulher, o trabalho doméstico, ou seja, na esfera privada, havendo, portanto, uma naturalização da desigualdade, construída

para justificar a divisão de classes, empurrando para o biológico construções que foram feitas socialmente, como discutido em capítulos anteriores.

Assim, passou a ser problematizado o discurso de que os homens estariam destinados ao trabalho chamado de produtivo e as mulheres ao trabalho de cunho reprodutivo, mas, o que se percebeu foi uma mulher inserida tanto no campo produtivo, quanto no reprodutivo. O trabalho doméstico e de cuidado dentro de casa não é reconhecido, visto que, com o capitalismo, nós temos uma nova concepção do que é trabalho, de estar associado ao mercado e não mais a um conjunto de atividades que se fazem necessárias para nossa existência, indo além de uma desigualdade sistemática. O que nos leva a duas maneiras de se pensar a divisão sexual do trabalho doméstico: na primeira, temos a constatação das desigualdades entre homens e mulheres com relação à conciliação de tarefas; na segunda, uma tentativa de balancear a divisão sexual do trabalho por meio de estratégias de conciliação, no entanto, destaca-se um paradoxo de que tudo muda, mas ao mesmo tempo nada muda (Hirata & Kergoat, 2007; Guimarães & Pentean, 2012).

Foi com os movimentos feministas, iniciados na França no início de 1970, que surgiram diversos trabalhos voltados para essa temática. Passa a se tornar evidente o trabalho invisível realizado pelas mulheres, que não era reconhecido (Hirata & Kergoat, 2007). Diante disso, devemos dispensar um novo olhar com relação ao “trabalho doméstico enquanto atividade de trabalho tanto quanto o trabalho profissional” (Hirata & Kergoat, 2007, p. 597).

Apesar de começar a se perceber o interesse por trabalho doméstico em alguns estudos, começou-se a abrir espaço para se falar em “conciliação de tarefas”, “dupla jornada”, como apenas uma atividade a mais, sem importância significativa (Hirata & Kergoat, 2007), estando a tarefa doméstica neste patamar de inferioridade.

A inserção da mulher no mundo do trabalho remunerado traz outras problemáticas, pois, no contexto histórico, a família tinha um papel prioritariamente de provisão de bem-

estar, passando, a partir da nova realidade social, a não ter mais essa condição, cabendo ao Estado, por meio de políticas sociais, prover o bem-estar (Moraes et al., 2015).

Nesse sentido, apesar de todas as discussões e tentativas de mudanças, algumas situações permaneceram semelhantes, para não dizer iguais, principalmente quando nos referimos às atividades domésticas e familiares, que consistem em diversas tarefas, que estão relacionadas entre si e que muitas vezes se sobrepõem, sendo, portanto, um conjunto de atividades que são realizadas para abarcar parte das responsabilidades familiares, que fazem parte do domicílio ou do arranjo familiar que o sujeito vive, como cuidados domésticos (lavar, passar, cozinhar, fazer compras), educação dos filhos e cuidados com a saúde (Bruschini & Ricoldi, 2012). O que se percebe é que as principais responsabilidades recaem sobre as mulheres, sendo elas a tomarem conta das atividades domésticas e do cuidado com os filhos e outros familiares (Bruschini & Ricoldi, 2012).

Estudos (Araújo & Scalon, 2006; Bruschini & Ricoldi, 2010) apresentam como é feito o processo de divisão de tarefas, no qual os homens desempenham atividades de cunho produtivo e seriam os responsáveis por gerar a renda, atividade que era desempenhada no espaço público, já as mulheres realizavam atividades reprodutivas, cuidados com bem-estar físico e emocional dos membros da família (Bruschini & Ricoldi, 2012). A atividade doméstica, apesar de estar associada a uma atribuição feminina, apenas nas últimas décadas passou a ser vista como relevante para o bem-estar da família.

Um apontamento importante é a permanência do trabalho doméstico como atribuição feminina, mesmo nesse contexto de reconfiguração das relações sociais de sexo/gênero. Mesmo em um contexto de gestão do trabalho que, de alguma forma, é delegado ou se tem a tentativa de conciliar, é papel da mulher delegar essas tarefas (Hirata & Kergoat, 2007; Guimarães & Pentean, 2012).

Verifica-se um movimento na tentativa de conciliação de tarefas, para que se vise um equilíbrio entre trabalho e família, que não deve ser pensado enquanto uma ação individual, mas uma tarefa familiar (Silva, 2007) e que afeta tanto o contexto familiar quanto o ambiente de trabalho remunerado de forma positiva, com a aplicabilidade de competências adquiridas que podem ser aperfeiçoadas em ambos os contextos (Guimarães & Pentean, 2012), e de forma negativa, afetando a saúde do trabalhador e o desempenho ou o bem-estar na família, por exemplo (Goulart et al., 2013).

Estudos realizados na União Europeia demonstram uma realidade onde o equilíbrio trabalho-família é uma prioridade, sendo um conjunto de fatores os responsáveis por isso, não só os programas governamentais, mas também as horas semanais de trabalho remunerado, a relação de gênero, a idade, a classe social, o fato de ter ou não filhos, bem como a divisão de trabalho domésticos entre os casais (Cromptom & Lyonette, 2007). Assim, se os casais conseguem, em alguma medida, combinar o rendimento duplo ou a dupla carreira com responsabilidades familiares, acredita-se que chegaram a um equilíbrio e a estabelecer uma conciliação trabalho-família. Sendo o apoio do Estado apenas uma condição que se faz necessária para um equilíbrio entre as duas esferas (Moraes et al., 2015). Além disso, outras estruturas de apoio facilitam essa conciliação, como o serviço doméstico (utilizado por famílias com melhor poder aquisitivo) e a disponibilidade de outros parentes para cuidar dos filhos, por exemplo (Sorj, 2004).

Porém, existem diversos obstáculos para que isso aconteça: a falta de equipamentos coletivos; de políticas públicas, principalmente para mulheres que possuem trabalho em tempo integral, que não estão isentas das atividades domésticas; as relações sociais (família, casal, entre outros) e as normas sociais, que acabam por negar à mulher a possibilidade de uma carreira, principalmente se forem mães (Hirata, 1996 como citado por Hirata & Kergoat,

2007), levando em consideração que elas ainda detêm maior responsabilidade pelos afazeres domésticos.

O que se percebe, na atualidade, é uma divisão das atividades domésticas pouco equilibrada, de acordo com estudiosos que pesquisam a temática (Barham & Vanalli, 2012; Bruschini & Ricoldi, 2012; Hirata & Kergoat, 2007; Pautassi, 2007; Silva, 2007; entre outros). Tem-se um movimento de estímulo à igualdade de papéis, mas a ação ainda é muito fragilizada. Portanto, partimos de uma sociedade onde existe uma mudança do papel da mulher no mercado de trabalho, mas que ainda está muito presa a padrões sociais. Houve mudanças na concepção de família, mas ela ainda é alicerçada em algumas heranças, entre as quais temos, por exemplo, a mulher assumindo muito mais as atividades domésticas e familiares do que os homens, ao mesmo tempo em que busca crescimento profissional, tendo em vista que o homem ainda assume um posicionamento de oferecer ajuda e não a parceria no trabalho doméstico, podendo por vezes gerar sobrecarga para a mulher.