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CAPÍTULO 4 – DA IDENTIDADE SOCIAL À IDENTIDADE PROFISSIONAL

5.3 PERSPECTIVA DOS/AS DOCENTES QUANTO À INTEGRAÇÃO DA ABORDAGEM

5.3.5 Relações de poder

5.3.5.3 Divisão sexual do trabalho: segregação vertical

A profissionalização feminina, iniciada no final do século XIX aconteceu relacionada aos papéis femininos tradicionais, vinculados ao cuidar, educar e ao servir, entendidos como dom ou vocação. Elas entraram no mercado de trabalho por volta de 1830 a 1870, e as atividades exercidas por elas se constituíram na extensão das atividades do mundo privado que foram

transferidas para a sociedade, produzindo mudanças profundas no mundo da mulher e, consequentemente, trazendo à tona a forma de trabalho desprovido de informações, sem proteção legal, baixa remuneração e, ainda, sofrendo a concorrência e agressividade de seus companheiros na casa e no trabalho (ALAMBERT, 1986).

A divisão sexual do trabalho é a base material da desigualdade entre os gêneros e foi trazida à tona pelo movimento feminista. No entanto, parece não evoluir no mesmo ritmo da história da tecnologia, uma vez que ainda se encontra submetida a um peso histórico que torna possível apenas o deslocamento das fronteiras do feminino e do masculino, jamais a supressão da própria divisão sexual do trabalho (HIRATA, 2002), como constatou-se a partir dos relatos aqui apresentados.

Principalmente se tem um cargo de chefia, é sempre oferecido ao homem, mesmo que sejamos a maioria fonoaudiólogas. A nossa profissão é essencialmente feminina e se tem um cargo de chefia, eles oferecem geralmente ao homem. [...] Veja quem é que trabalha num hospital quem é o chefe do setor da Fonoaudiologia. Geralmente é homem e você conta nos dedos quem é homem na profissão. Eu fico muito brava com isso, sempre fiquei. (Iara, Fonoaudiologia, Brasil).

Ainda que as profissões do cuidado sejam, em regra, procuradas essencialmente por mulheres, persiste a noção de que os cargos altos da estrutura hierárquica da instituição continuam destinados aos homens, como reiteram os/as docentes: “Quando eu vou nas reuniões de chefia é uma surpresa ter tantos homens. Era para ser mais mulher pela quantidade de mulheres que estão aqui na saúde. No campus a maioria é de mulher”. (Kauê, Educação em Saúde, Brasil). “A Enfermagem é uma profissão essencialmente feminina, tem muito mais mulheres do que homens, mas curiosamente as pessoas que estão em lugar de relevo, ou seja, que são chefes, que são diretores, são homens”. (Maria, Enfermagem, Portugal).

A presença significativa de docentes do sexo feminino nos cursos de graduação coincide com o que traz a literatura sobre a feminização das profissões de saúde. Todas as IES, campo deste estudo, são instituições públicas, onde o acesso aos postos de trabalho se dá por concurso, com menor possibilidade de discriminações de gênero; de haver garantia de direitos trabalhistas, como licença maternidade, salários iguais para a mesma função e a estabilidade no emprego; observa-se, entretanto, tanto a segregação horizontal quanto a segregação vertical. A segregação horizontal é verificada através na naturalização de determinadas ocupações femininas a partir das especificidades de gênero biologicistas. A segregação vertical é a que dificulta a progressão das mulheres aos cargos mais elevados da hierarquia profissional e, mesmo quando essa ocupação chega a acontecer, acontece mais tardiamente do que para os homens e, portanto, não tendo acesso aos cargos mais elevados também não tem acesso aos

maiores salários. Muitas dessas desigualdades são frutos do tipo de inserção no mercado de trabalho.

Eu percebia muito essa desigualdade quando eu trabalhava nas universidades particulares, mas agora na UFS não. Na pública não porque ela é mais democrática. O grupo escolhe quem vai coordenar, o grupo escolhe quem vai fazer isso ou aquilo. Então eu acho que, de uma certa forma, ela é mais democrática do que as outras universidades. (Iara, Fonoaudiologia, Brasil). O depoimento da Iara pode ser explicado por ser as instituições públicas, de fato, um espaço um tanto mais igualitário/democrático quando comparado às instituições privadas, no entanto, a desigualdade de gênero é algo estrutural e alimenta o sistema independentemente da consciência e do lugar de onde se fala. Pois a estruturação atual da divisão sexual do trabalho remete à relação social entre homens e mulheres, que atravessa outras modalidades da divisão social entre os gêneros. Na realidade investigada, constata-se que a divisão sexual do trabalho permanece nos dias atuais como uma provável reprodução inconsciente dos papéis delimitados e impostos subliminarmente a cada gênero. Diante das indubitáveis conquistas das mulheres na educação e no trabalho, assim como sua participação crescente nas carreiras de ciência e tecnologia, sobretudo a partir de meados do século XX, pode causar estranheza a afirmação da socióloga Cynthia Epstein (apud CANCIAN, 2015) de que a maior divisão social que caracteriza o mundo atual é a divisão sexual.

A sociedade continua deslocando as mulheres das posições de poder e delimitando suas esferas de atuação e, consequentemente, seus ‘papéis’ no mundo do trabalho. Há uma orientação dos espaços inerentes à mulher, cujas características sugerem uma suposta ‘inferioridade’ determinando sua posição desigual na sociedade (CRUZ, 2006). Esse fato, foi claramente constatado na realidade aqui estudada, quando em um campus de maioria feminina, tem-se grande parte dos chefes de departamento homens. Além disso, segundo Saffioti (1987), o trabalho que impõe mais poder tende a pertencer a esfera masculina, seguindo a lógica do patriarcado. É notório que o “poder do macho” é uma situação frequente no campo do trabalho.

Somos muito mais mulheres do que homens. E, no entanto, nos cargos de direção, por exemplo, o presidente é homem, o presidente científico é homem, o pedagógico sou eu, eu sou a única mulher. [...] e resulta que a decisão de querer participar, de presidir alguma coisa parte muito mais dos homens do que das mulheres, mas eu acho que não é propriamente pelas mulheres não terem uma oportunidade, porque tem. Não sei se é pelo comportamento deles um bocadinho mais proativo e o das mulheres um bocadinho menos proativas [...] depois ficaram numa condição, se calhar, mais confortável por não ter que. Não sei, é uma coisa que me faz refletir. Mas de fato, os homens aqui são poucos, mas acabam por ter uma preponderância muito grande em termos de ascensão e até mesmo de influência de opinião. Eu acho que em termos de influência de opinião, a opinião dos homens tende a sobrepor-se a opinião das

mulheres. Isso se nota um bocado. Não que as pessoas se sintam vetadas de dar a sua opinião, as pessoas se sentem livres para dizerem o que quiserem e tomarem as suas decisões. É o maior respeito de toda gente, mas é uma questão cultural. E tem a ver com o nosso desenvolvimento de deixar os homens avançarem mais do que nós. Ali não é o fato de ser homem, é mesmo a competência que a pessoa tem. E que nós temos que perceber que aquela pessoa tem de fato mais competência [...] agora por que que tem mais competência sendo homem? Por que que a mulher não chegou lá? As vezes fica a reflexão. E isso a gente vai encontrar na maior parte dos locais de trabalho em Portugal. (Maria, Enfermagem, Portugal)

Há uma incoerência no depoimento da docente portuguesa. Ela diz que os cargos de chefia são ocupados em sua maioria por homens por uma questão de competência profissional, e por outro lado questiona: Por que tem mais competência sendo homem? Por que a mulher não chegou lá? Um discurso impregnado de naturalizações. Portanto, quando a docente se refere a provável competência maior masculina para a gestão traz nesse discurso a noção de qualificação como construção social, ou seja, homens e mulheres se apropriam de processos de aproximação e qualificação de acordo com seus “atributos” de gênero. Neste sentido (DURÃES, 2012), acrescenta-se que a qualificação – na perspectiva da construção social – passa a ser reconhecida não somente pela base técnico-cientifica do processo de trabalho, mas também, em especial, passa a ser considerada resultante das relações sociais estabelecidas entre pessoas portadoras de distintas trajetórias e características. Assim, nas condições de gênero, o trabalho realizado por homem ou mulher é diferentemente reconhecido entre grupos e sociedades, dependendo dos sujeitos e das relações em jogo, o trabalho será mais ou menos valorizado.

Quando Maria fala a respeito da sobreposição da opinião dos homens à opinião das mulheres em uma realidade de docentes do ensino superior, em Portugal, merece especial atenção, pois demonstra a realidade estrutural de uma sociedade patriarcal em que o homem continua a dominar as mulheres tanto em atos quanto em pensamentos. “Os homens aqui são poucos, mas acabam por ter uma preponderância muito grande em termos de ascensão e até mesmo de influência de opinião”. (Maria, Enfermagem, Portugal).

No seu artigo, Macedo e Santos (2009) fazem referência à entrada das mulheres no mercado de trabalho português, principalmente para ocupação em postos socialmente ligados ao cuidar: educação, saúde e ação social. Todavia, no que tange as funções de liderança, observa-se que mesmo nesses espaços há a predominância masculina, o que na pesquisa ora apresentada, essas formas de visibilidade21 também se mostram presentes.

21 O conceito de visibilidade remete a uma fala de sujeitos produzida com um determinado sentido, mais com vistas à produção de verdades do que propriamente uma realidade vivenciada ou apresentada pelos sujeitos (Foucault 2015).

A segregação vertical aparece, pois, como uma barreira invisível que as mulheres enfrentam para manter-se competitivas no mercado e também na academia. É também conhecida por “Teto de Vidro”, ou seja, a falta de “oportunidade” das mulheres na hora de assumir cargos de responsabilidade, e tem relação direta com à maternidade e com as tarefas domésticas, ainda atribuída às mulheres. Fato, este, que não ocorre com os homens que podem ter maior dedicação e disponibilidade para o trabalho, visto que contam com a ajuda, normalmente de uma mulher, para cuidar dos filhos e da casa, mesmo que ela também trabalhe fora. Portanto, o fenômeno do “Teto de Vidro” supõe que a produtividade feminina é menor que a masculina, uma vez que estes estão em plena capacidade para assumir as tarefas que o mercado exige.

Segundo Meyrson e Fletcher (2000) o fenômeno Teto de Vidro propõe um modelo de discriminação que supõe que a produtividade feminina é menor que a capacidade de produção dos homens, uma vez que eles estão em plena e pronta capacidade de criação e inovação das tarefas exigidas pelo mercado. Dessa forma, as mulheres são subestimadas no cenário globalizado organizacional e passam a travar uma batalha para a sua inclusão e permanência no mercado de trabalho. Percebe-se, então, que a carreira de mulheres é dificultada por aspectos socioculturais não muito perceptivos relacionados ao gênero, e não à qualificação.

As barreiras feitas de vidro vão além do teto, pois não é o teto que está segurando o progresso das mulheres, é toda a estrutura das organizações em que trabalhamos: o alicerce, as vigas, as paredes, o próprio ar. Isso significa que mesmo com o “teto de vidro” há um labirinto de cristal que transmite uma ideia de caminho com voltas esperadas e inesperadas, dificultando a ascensão profissional da mulher. Essas barreiras não estão só no topo, mas em toda a trajetória profissional da mulher. (MEYERSON E FLETCHER, 2000, p. 136). A fala do professor, a seguir, apresenta a realidade citada quanto as barreiras encontradas pela mulher no mercado de trabalho, no entanto limita-se a compreensão de que tudo é uma questão de escolha feminina:

Acho que as possibilidades são bastante semelhantes. Acho que é uma questão de escolhas. Chega uma hora que a mulher quer ser mãe e isso atravanca na academia coisas como mestrado e doutorado que são projetos difíceis. Quando a mulher se coloca a fazer determinadas coisas, ela acaba deixando de lado outras e isso não tem nada a ver com capacidade, tem a ver com escolhas. (Moacir, Odontologia, Brasil).

A carreira feminina e sua ascensão profissional tem sido, então, dificultada por aspectos socioculturais nem sempre muito perceptíveis relacionados ao gênero.