Fonte: Guerra e Guerra, 1964, p.9
Backheuser (1933) aplica o que denomina de princípio da “equipotencia” para propor seu projeto de divisão territorial do Brasil. Foi grande crítico da antiga divisão do país baseado nas capitanias hereditárias e que, a nosso ver, perdura até o presente.
O principio cientifico fundamental da subdivisão de territorios de um país, especialmente de um país submetido ao regimen federativo, é o da equipotencia. As diversas partes constitutivas do todo devem ser mais ou menos equivalentes, não apenas em área mas em eficiência econômica e política. (BACKHEUSER, 1933, p. 45)
Destaca-se que este autor não é favorável ao regime federativo no país, vê nesta uma grande possibilidade de aumentar o regionalismo, para ele um grande mal que facilitaria
o desmembramento do território em detrimento da união da nação brasileira. Demonstrou sempre seu apreço pelo Estado Unitário.
Há vários desses males que poderão ser totalmente evitados ou pelo menos receber esbatimento com uma boa divisão territorial. Mas o peior deles é o regionalismo, isto é, o demasiado amor ao “torrão natal”, com a exagerada preocupação de usos e costumes locais, com o hipertrofiado zelo pelos respectivos heróes e fastos históricos. Combater o regionalismo em todos os seus aspectos, políticos, econômicos ou literários, deve ser o Maximo empenho do brasileiro em bem do Brasil. Não, combate-lo vagamente, mas combate-lo de modo completo para estirpa-lo. (BACKHEUSER, 1933, p. 48)
O combate ao regionalismo é, também, um combate contra o federalismo, pois para este autor o objetivo é a constituição de um Estado Unitário. Combater o amor pelo ‘torrão natal’ bem como fazer uma “boa divisão territorial”, conforme citado, é exemplo de como o autor pensa a construção de uma Nação, ou seja, autoritária e arbitrariamente, sem considerar as diversidades históricas, espaciais de toda a sociedade brasileira. Demonstra também e de certa maneira justifica-se a oscilação entre centralização e descentralização que houve no federalismo brasileiro ao longo do século XX. Os golpes militares podem ter sido influenciados sob a vontade do Estado Unitário em detrimento da federação. Também é visível a tendência de planejar sem levar em conta a diversidade da sociedade local. Infelizmente o tempo separou Backheuser (1933) de Darcy Ribeiro e a oportunidade de conhecer seu trabalho “O povo brasileiro”, no qual, retrata a diversidade cultural no Brasil, sendo esta a principal riqueza do país.
Backheuser é tão combatente ao federalismo que afirma de forma imperativa que:
Agora é o momento para iniciar essa campanha, porque cada cidadão brasileiro, e em especial os sensatos, se vai convencendo do exagero do federalismo a que fomos levados por alguns sonhadores ingênuos e de boa fé, mas desprovidos de censo prático.
A força dos Estados sobrepujando a da União foi o nolli me tangere da época. Assim o queriam os pelotões ardorosos dos federalistas educados na doutrinação de Joaquim Nabuco e Rui Barbosa, ambos bourrés de leituras americanas, perdidos de entusiasmo pela lei básica dos Estados Unidos, que a imitação cega havia posto em voga em outras republicas sul-americanas. (BACKHEUSER, 1933, p. 67)
Não podemos deixar de registrar que não concordamos com o referido autor, mesmo distante temporalmente, entende-se que suas ideias são retrógradas e reacionárias e não contribuíram para a constituição da Nação soberana e democrática Entende-se que o federalismo é a forma política e territorial com maior potência para a garantia da democracia e
da cidadania dos brasileiros. Agrega, une e guarda as diferenças de cada grupo, comunidade e unidade federativa respeitando e convivendo com todas. A união é imprescindível na constituição da federação e não a supressão de características que de modo centralizador e autoritário são julgadas.
Sendo estas as ideias que norteiam sua concepção de Estado, Backheuser (1933) apresenta as características científicas de sua nova divisão territorial:
1) Por escopo principal a manutenção e a consolidação da unidade nacional;
2) Não se subordinar á tradição ou a outros laços que dificultem o objetivo principal, antes porem deve procurar esbate-los ou apaga-los em beneficio dessa mesma Unidade.
Para tanto:
3) Formular-se-á a nova divisão parcelando o mapa físico do Brasil sem de nenhum modo atender aos atuais limites interestaduais, considerados inexistentes, e
4) Procurar-se-á fazer os Estdos equipotentes tanto no presente, como no futuro. Equipotentes em eficiência política e não apenas equivalentes em área territorial. (BACKHEUSER, 1933, P.80)
Os fatores da ‘equipotencia’ considerados para executar a divisão territorial são: 1 - superfície – sendo a menor unidade com 100 mil quilômetros quadrados e a unidade máxima seria igual à três vezes a unidade mínima, considerando o fator clima, sendo seu limite definido pelas coordenadas geográficas ou nos acidentes físicos; os territórios (estes unidade da federação de caráter transitório podendo se tornar Estado) poderiam ser seis vezes maior que a unidade mínima;
2 - população: baseado na densidade censitária de 1920 e na densidade censitária compatível com as condições naturais de cada unidade, cada Estado com no mínimo um milhão de habitantes;
3 - eficiência econômica: baseada na eficiência do momento atual e no que possa vir a se tornar no futuro, sendo este causa ou efeito da população.
Desta maneira a “arquitetura territorial” projetada por Backheuser (1933), conforme Mapa 19, fica assim estipulada para os Estados:
1) Sempre que dentro de 3 unidades fundamentaes contiguas, isto é, dentro de uma área de 300.000 kmq, houver 1.000.000 de habitantes, formar-se-á um Estado;
2) Sempre que dentro de um Estado de área máxima se der, em uma ou duas de suas unidades componentes, a concentração de 1.000.000 de habitantes, proceder-se-á, automaticamente, á divisão com a simples formalidade de aprovação do Congresso Nacional;
3) Igual parcelamento se processará logo que os Estados de área média venham a ter, em cada uma das suas unidades componentes, população de 1.000.000 de habitantes;
4) Nenhum Estado se subdividirá abaixo da área mínima, salvo a hipotese de haver aí mais de 10 milhões de almas.
Quanto aos territórios, o critério seria análogo:
1) Agregar-se-ão unidades no maximo de 6, até que a população atinja 500.000 almas, e aguardar-se-á que suba a 1.000.000;
2) Si este milhão estiver condensado em 3 unidades, formar-se-á um Estado;
3) No caso contrario, dividir-se-á o território de modo que cada fração fique com 500.000 habitantes, cada um deles adquirindo, com isto, característicos políticos até então de posse apenas do conjunto dos dois, isto é, direito de enviar deputados ao parlamento e de ter um “governador” especial nomeado pela União. (BACKHEUSER, 1933, p. 95)