Fonte: JUCÁ NETO, Clóvis Ramiro. A Urbanização do Ceará Setecentista: As vilas de Nossa Senhora da Expectação do Icó e de Santa Cruz do Aracati. 2007. 531f. Tese (Doutorado em Arquitetura e Urbanismo) – Faculdade de Arquitetura, Universidade Federal da Bahia, Salvador, 2007.p. 285.
O mapa populacional produzido durante a gestão do Governador Sampaio também se constitui como uma fonte valiosa para o desenvolvimento de uma análise sobre o perfil social dos habitantes da vila; através do qual podemos identificar um elemento indicativo do grau de inserção da vila no Aracati nas dinâmicas do mercado atlântico no início do século XIX. No mapa da população de Aracati, a população total da vila, como pudemos constatar, excede um pouco ao computo geral da população da vila indicada nos dados reproduzidos no quadro populacional por vilas de 1813, já que, enquanto na soma do relatório a população totalizava 6033 habitante, por meio da soma das subdivisões da população da vila, pudemos constatar um total efetivo de 6068 habitantes. A população da vila foi dividida e classificada a partir de sua faixa etária, sexo e de sua categoria social que são as de: Brancos, Pretos Livres, Pretos Cativos, Mulatos Livres, Mulatos Cativos. A inexistência da categoria indígena no levantamento
feito na vila do Aracati se explica pelo fato de nele o elemento indígena ter sido identificado na categoria social de Branco.
Dividindo a população da vila de Aracati em 1813 pelas categorias inerentes ao aspecto étnico, identificamos que entre seus 6068 habitantes, 2613 seriam brancos ou indígenas, 1315 foram identificados como negros e 2140 como mulatos. Tendo como base estes dados, pudemos perceber que 21.7% da população da vila do Aracati compunha-se de negros e 35,25% de mulatos, o que demonstra que mais de 50% da população da vila era composta por uma população de matriz étnica africana, dentre estes, 1284 (o que corresponde a pouco mais de 21% da população da vila) tratavam-se de escravos; o que é um elemento revelador acerca da inserção da vila do Aracati nas dinâmicas do mercado atlântico.
Em trabalho no qual discorre acerca da formação do Brasil no Atlântico Sul durante o século XVII116, Luis Felipe de Alencastro identifica que o Brasil se constituiu neste período a partir de uma rede de relações que o ligava diretamente à outra margem do Atlântico sul, sendo o comércio bilateral estabelecido entre as duas margens do oceano uma dinâmica rede de trocas envolvendo, entre outros, a comercialização de fumo e cachaça produzidos na América portuguesa no trato dos escravos africanos; uma dinâmica de trocas vital para a manutenção do sistema econômico que interligava a América portuguesa às colônias portuguesas na África, especialmente Angola117.
Segundo Alencastro, o comércio de escravos para a América portuguesa possuía um papel tão preponderante nas relações econômicas estabelecidas na porção sul- Atlantica do Império português que veio a mobilizar representantes da América portuguesa e de Angola quando a Coroa visou promover a quebra do monopólio na venda de escravos de Angola para os portos brasileiros; tentando abrir e direcionar esta comercialização também aos portos da América hispânica. Por contraditório que possa parecer, a manifestação contrária de representantes de Angola à abertura desta comercialização – que poderia representar um aumento das rendas em decorrência da abertura de mercados, e o conseqüente aumento da demanda e dos preços dos escravos angolanos – é um indicativo da confluência de interesses que se estruturaram e ligavam
116 ALENCASTRO, Luis Felipe de. O trato dos Viventes: Formação do Brasil no Atlântico Sul. São Paulo: Cia. Das Letras, 2000.
117 Sobre a comercialização das aguardentes neste comércio ler: FERREIRA, Roquinaldo. Dinâmica do comercio intracolonial: Geribitas, panos asiáticos e guerra no tráfico angolano (In) FRAGOSO, João; BICALHO, Maria Fernanda; GOVÊA, Maria de Fátima. (Org.). O Antigo Regime nos trópicos: A dinâmica imperial portuguesa (séculos XVI-XVIII). Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2001. pp. 339- 378.
de forma complementar o sistema econômico desenvolvido entre as duas margens do Atlântico sul português. Sobre este episódio e as manifestações dele decorrentes, Alencastro indica que:
―Interesses negreiros em comum e complementares levaram os procuradores do Brasil (leia-se: da Bahia, de Pernambuco, e do Rio de Janeiro) e de Angola a uma aliança contra a política da Coroa, aliança que nem passou pela cabeça dos procuradores das câmaras de São Paulo e do Maranhão, unidos pela prática comum da escravização de índios e igualmente contrariados pela política pró-indigena da Coroa e dos jesuítas: os primeiros estavam completamente integrados no mercado atlântico, os segundos não.‖118
Ao estabelecer uma relação entre as capitanias de Pernambuco, Bahia e Rio de Janeiro com as de São Paulo e Maranhão em meio às contendas acerca da proposta de abertura dos postos hispânicos aos escravos angolanos, Alencastro associa a preponderância da utilização de mão de obra africana nas três primeiras capitanias à inserção delas nas dinâmicas comerciais do Império; tendo a economia destas regiões uma relação bastante prolífica nas relações comerciais intercoloniais; situação diferente das duas últimas capitanias que, no século XVII, tinham na preponderância da utilização da mão de obra indígena um elemento indicativo de sua não inserção nestas dinâmicas; constatando-se a partir desta indicação que a preponderância da mão de obra indígena se dava basicamente em áreas que, no século XVII, não se encontravam muito inseridas nas dinâmicas comerciais do Império. As dinâmicas que conferiam destaque à utilização da mão de obra africana, em detrimento da nativa, nas regiões da América que estavam melhor inseridas nas dinâmicas comerciais do Império português, são justificadas tendo em vista que :
―Na América portuguesa, a guerra aos indígenas toma proporções de um rolo compressor levando ao desbarato das tribos ―bravas‖ que ainda perduravam no horizonte do colonato. Dois motivos contribuíram para este desfecho. Em primeiro lugar ao inverso do que acontecia na África central, o meio ambiente epidemiológico e as relações de forças geradas na América do Sul após o contato europeu eram seguramente desfavoráveis aos nativos. Em segundo lugar, o movimento do tráfico negreiro assumia sua centralidade, esvaziando a importância econômica do cativeiro dos índios. Doravante, e até a ruptura pombalina no século seguinte, a questão do trabalho indígena se circunscreve à regiões da América Portuguesa pouco integradas ao mercado atlântico.‖119
118
ALENCASTRO, L.F. Op. cit. p. 330. 119 Ibid. pp. 336-337.
120
120
*Quadro produzido com base nos dados referentes à vila de Aracati contidas no mapa da população da capitania do Siará grande levantados pelos capitães mores a pedido do Governador Manoel Inácio de Sampaio(Fonte:Biblioteca Nacional – Sessão de Manuscritos Documentos II – 32,23,003. Mapa da População da Capitania do Ceará extraído dos que derão os Capitães Mores em o anno de 1813.). OBS: Apesar de no computo geral desta documentação ter sido dada à vila de Aracati um total de 6033 habitantes – como podemos identificar na informação contida no mapa da população geral de cada vila da capitania, anteriormente reproduzido – na contabilização por mim efetuada para a confecção deste quadro pude identificar que a soma total dos habitantes da vila segundo este levantamento era de 6068.
** Neste levantamento, algumas vilas (dentre as quais a vila do Aracati) não identificam entre seus habitantes a categoria de indígena, nestes casos, esta ausência se mostra devido ao fato de os capitães-mores terem incluído os índios na categoria de branco, o que nos leva a identificar que a população branca de vila de Santa Cruz do Aracati era efetivamente menor do que os dados do mapa nos levam a pensar.
Acerca do menor valor conferido à mão de obra indígena, se comparada à africana – sendo a preponderância de uma em relação à outra um elemento de destaque para se pensar de que forma a região se inseria nas dinâmicas do império – Alencastro completa que:“Tal situação mudará em meados do século XVIII, sob a influência da política civilizatória pombalina, que reabilita o indígena americano, integrando-o
como mão de obra complementar ao trabalho africano.”121
Esta política de reabilitação da população indígena desenvolvida por Pombal pode ser um elemento que tenha colaborado para o fato de em Aracati, assim como em algumas outras vilas da capitania a população indígena ter sido integrada à categoria social de brancos, como pudemos perceber no quadro populacional de 1813.
Apesar do quadro populacional da vila de Aracati que analisamos ter sido feito em um período posterior à política pombalina de reabilitação da mão de obra indígena, o fato de mais de 50% da população da vila ser composta de sujeitos com matriz étnica africana é um elemento significativo para podermos pensar de que forma a vila do Aracati estaria inserida em meio às dinâmicas do mercado atlântico, sobretudo no período em que nela se desenvolvia, com destaque, as atividades ligadas à produção e comercialização do charque, produto que, conforme sabemos, inseria-se nas dinâmicas de trocas entre a América portuguesa e a África, sendo ingrediente utilizado na dieta dos negros que, aprisionados na África, seriam destinados à escravidão na América122. Os mais de 50% de habitantes de Aracati possuidores de matriz étnica africana tornam-se nesta medida um elemento elucidativo para o papel desempenhado pelo Aracati nas dinâmicas desenvolvidas na capitania geral de Pernambuco, sendo, dentre os portos do sertão da capitania geral, se não o de maior destaque, um dos que mais destaque possuía na economia ligada à produção e comercialização das carnes-secas, o que conferia à vila
121 ALENCASTRO, L.F. Op. cit. p. 339.
122Segundo Almir Leal de Oliveira: ―Na África o charque ganha notabilidade a partir de sua introdução na alimentação dos escravos que estavam sendo preparados para a travessia do Atlântico. Luis Antonio de Oliveira Mendes documentou em 1793 como teria se dado o consumo das carnes do Ceará na alimentação dos escravos. Segundo ele foi o Pernambucano Raimundo Jalamá, administrador da Companhia de Comércio de Pernambuco e Paraíba em Angola entre 1759 e 1763, que, observando as péssimas condições físicas dos escravos embarcados, o que resultava em alta mortalidade e prejuízos para a Companhia, substituiu a savelha (peixe salgado e conservado em azeite) pela carne seca na alimentação. Jalamá teria orientado as escravas a temperar as rações servidas com a carne secas: „quando pela primeira vez a escravatura provou deste gênero de comida assim temperada, e amoldada ao seu paladar, confessa fidedignamente, que lhe bateram palmas. (...) Na prevenção da economia mandou vir por conta da mesma Companhia de Pernambuco a carne salgada, e seca, a que lhe chamam do sertão, que é escaldada, e sem osso, que ali custa de 6 (centos) a oitocentos réis a arroba...‟ ‖ OLIVEIRA, Almir Leal. As carnes secas do Ceará e o mercado atlântico no século XVIII (In) DORÉ, Andrea; SANTOS, Antonio Cesar de Almeida Santos (Org.). Temas Setecentistas: Governos e populações no império português. Curitiba: UFPR-SCHLA/Fundação Araucária, 2008. pp.505-516.
uma dimensão central para uma periferia regional, nomeadamente, a ribeira do Jaguaribe.
1.3.3 – O Aracati entre o centro e a periferia
Quando consultado acerca da proposição de se criar uma vila no lugar do Aracati, (localidade situada à margem direita do Jaguaribe, próximo à foz do mesmo rio), o antigo Capitão mor/governador do Siará grande, Francisco Ximenes Aragão, expressou sua opinião ao Rei, em carta de 24 de Julho de 1744, onde dizia que:
(...) Cazo q se crie huá V.ª que virá a ser a corte deste Siará em breves annos por ficar nas margens do Rio Jaguaribe navegável as mesmas Somacas em distancia de três Legoas e de facto ao seo porto todos os annos vinte e Sinco e mais q‘ a troco de fazendas q‘ trazem Levam a Carne e courama de dezoito thé vinte mil Boys para Pern.co Bahia e Rio de Janeiro (...)123
As palavras do Capitão mor dão conta do destaque vivido pela localidade que, quatro anos depois, viria a ser elevada à categoria de vila com o nome de Santa Cruz do Aracati, a quarta criada na capitania do Siará grande. Já antes de 1730 – ano de publicação da História da América Portuguesa de Sebastião da Rocha Pita – a localidade do Aracati era conhecida pela intensa movimentação que nela se dava, em decorrência da produção e comercialização das carnes secas. Sobre a localidade e o fluxo de barcos na barra do rio Jaguaribe no período, Rocha Pita nos informa que:
―Vinte léguas para o Rio Grande, tem pelo sertão uma formosa povoação com o nome do Rio Jaguaribe, que por ela passa, o qual seis léguas para o mar faz uma barra suficiente para embarcações pequenas, que vão a carregar carnes de que abunda com excesso aquele país‖124
A indústria do charque, desenvolvida em uma região de ocupação recente como era a ribeira do Jaguaribe125, conferiu destaque à localidade onde viria a ser criada vila
123 AHU-CE: CONSULTA do Conselho Ultramarino ao rei [D.João V] sobre a necessidade de criar uma nova vila em Aracati de Jaguaribe, de 12 de Dezembro de 1746. Anexo: cópia de cartas e provisão. Caixa: 05, Documento: 304.
124
PITA, Rocha. História da América Portuguesa, Belo Horizonte: Itatiaia, 1976. pp.55-56.
125 Quando trato de ocupação recente, me refiro ao processo de colonização efetiva das terras do Jaguaribe – que começou a se desenvolver nas duas últimas décadas do século XVII, expandindo-se no início do século XVIII – apesar de levar em conta que, desde o início do século XVII, a região costeira da ribeira era visitada por agentes luso-brasileiros ao longo do processo de estabelecimento de núcleos
do Aracati, que caracterizava-se como um ponto de encontro que ligava duas correntes que tinham – por motivos diferentes e complementares – o porto do Aracati como destino. A primeira destas correntes vinha dos sertões do Jaguaribe e de outras capitanias, como o Piauí, e tinham no Aracati o destino de suas boiadas que, criadas nas fazendas estabelecidas ao longo das ribeiras, convergiam ao Aracati para – depois de um pousio, cujo fim era a recuperação e engorda do rebanho – serem abatidas nas oficinas, estrategicamente estabelecidas ao longo da margem direita do Jaguaribe; próximas ao porto por onde o charque e as couramas eram exportados, principalmente para as praças do Recife e de Salvador; estes, os principais pontos de partida da segunda corrente que para o Aracati se destinava em embarcações carregadas por víveres e demais produtos que eram dados em troca das carnes e couros produzidos na vila, produtos esses que destinavam-se a abastecer, além da própria vila, as fazendas dispostas ao longo da ribeira do Jaguaribe e demais paragens nos sertões do gado.
Em meio a esta intensa dinâmica e fluxos que perpassava a localidade, o Aracati se constituiu como um ponto onde o ―sertão‖ se encontrava e se relacionava com o ―litoral‖, relacionamento este nem sempre amistoso; haja vista as grandes contendas geradas durante os períodos em que as embarcações visitavam o porto, épocas em que se davam as charqueadas. Em carta escrita a 08 de janeiro de 1743, o já mencionado Capitão mor/governador Francisco Ximenes Aragão, recomendava a estadia de um dos Juízes Ordinários da vila do Aquiraz, na localidade, durante a época das charqueadas, visando propiciar um maior controle das contendas que com freqüência ocorriam, no Aracati, no período em que as embarcações ―visitavam‖ seu porto. De acordo com os conselheiros do Conselho Ultramarino:
―O Capp.m mor q‘ foy da Capp.nia do Ceará D. Francisco Ximenes de Aragão, em carta de outo de Jan.ro de mil sete centos e quarenta, e trez, (...) fez a V. Mag.e presente ser preciso, que no Lugar do Aracaty de Jagoaribe, onde portão os barcos, que todos os annos vão aLy fazer carnes, assistisse hum juiz ordinario com hum Tabalião da Villa do Aquiraz, em quantos os mesmos barcos se detivessem naquelle Lugar, para Se evitarem varias desordens que aLy se comessão (...).‖126
fortificados para o policiamento e segurança da região costeira a que se limitou a vaga colonizadora no Siará grande ao longo de quase todo o século XVII.
126 AHU-CE: CONSULTA do Conselho Ultramarino ao rei [D.João V] sobre a necessidade de criar uma nova vila em Aracati de Jaguaribe, de 12 de Dezembro de 1746. Anexo: cópia de cartas e provisão. Caixa: 05, Documento: 304.
O Aracati, desta forma, tratava-se, mesmo antes de sua elevação à categoria de vila, de um núcleo regional na ribeira do Jaguaribe. Elevado à categoria de vila, passou a desempenhar papel de destaque não somente no âmbito econômico, mas também no âmbito político, tendo em vista que, por encimar uma cadeia produtiva a nível regional, sua elite, parcialmente composta de agentes mercantis (que também se tornaram agentes políticos, pelo acesso que passaram a ter a instâncias de poder e representação como a Câmara da vila) que encimavam uma cadeia hierárquica de poderes na ribeira do Jaguaribe. Além do elemento econômico que favoreceu o desenvolvimento do Aracati, e sua constituição como um centro de destaque regional, devemos ter em conta que sua importância, parcialmente, se deve, também, em razão da política administrativa desenvolvida no Império lusitano, especialmente sob o governo da dinastia dos Bragança.
Ascendendo ao poder no reino português no ano de 1640, a dinastia de Bragança desenvolveu, ao longo dos reinados de seus sucessivos monarcas, um processo gradual de aumento dos poderes do Estado e de diminuição dos poderes locais. Tal política de centralização do poder pode ser identificada enquanto um processo de caráter estrutural, quando levamos em conta que este processo associava-se às políticas de centralização do Estado desenvolvidas pelas monarquias modernas na Europa127, que vivenciaram processo análogo ao de Portugal entre os séculos XV e XVIII.128 Alguns dos elementos que influenciaram e fomentaram o desenvolvimento desta política em Portugal, entretanto, não se ligavam diretamente à sua faceta enquanto Reino, mas ao seu caráter enquanto Império.
A ascensão dos Bragança ao poder em Portugal se deu em um contexto de crise em seu Império colonial que, depois de sessenta anos sob o governo dos monarcas
127 Para uma leitura mais abrangente deste processo de constituição de Estados fortes na Europa moderna bem como em outras regiões ler: ANDERSON. Perry. Linhagens do Estado Absolutista. São Paulo: Brasiliense, 2004. Para o caso especifico de Portugal, com destaque para a relação entre a monarquia e a grande nobreza portuguesa, ler: MONTEIRO, Nuno Gonçalo Freitas. O crepúsculo dos Grandes (1750 - 1832). Lisboa: Imprensa Nacional Casa da Moeda, 1998.
128Quando trato acerca do processo de centralização desenvolvido pelos Estados europeus neste contexto – e consequentemente nas colônias dos Estados que as possuíssem – entendo que tal processo não se desenvolveu unicamente segundo uma via radical (sendo a radicalidade, neste processo, mais uma exceção do que uma regra) neste aspecto concordamos com Mello e Souza, quando a autora ressalta que tal processo se guiou baseado em uma lógica conceituada pela autora como ―prática do bater-e-soprar‖; definindo que:“[a] busca oscilante da justa medida foi constitutiva do processo de construção do poder nos Estados modernos por ser imprescindível à preservação e à perpetuação do mando no mundo de então: no meu entender, os absolutismos procuraram seguir uma prática política pendular, evitando identificarem-se com um grupo social especifico e combinando rigor com certa dose de
contemporização.” SOUZA, Laura de Mello e.O Sol e a Sombra: Política e administração na América
hispânicos, havia sofrido consideráveis perdas, sobretudo em sua porção oriental. Em viagem realizada ao vice-reino da Índia, em 1663, o padre Manoel Godinho lamentava as perdas sofridas no oriente, e dizia sobre a porção oriental do Império que:
―(...) se era vice-realeza da Índia, esta agora reduzido a Goa, Macau Chaul, Baçaim, Damão, Diu, Moçambique e Mombaça, com algumas outras fortalezas e lugares de menor importância – em resumo, relíquias e o pouco do grande corpo deste Estado, que os nossos inimigos nos deixaram, ou como um memorial daquilo que dantes possuíamos na Ásia, ou como uma lembrança amarga do pouco que, agora, lá possuímos.‖129
Não somente a porção oriental do Império encontrava-se sob risco. Ao assumir o