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Fonte: Google Maps

Aproximadamente cinquenta quilômetros separam o PAD-DF da capital do país. Vencidos os vinte primeiros, nosso cenário de pesquisa já se apresenta. A placa indica o caminho: é um horizonte largo que some das vistas, fazendo-nos acreditar que de longe, muito longe, o céu e a terra se tocam.

Figura 3 – BR 251, sentido PAD-DF Fonte: produção da pesquisadora

É uma terra vermelha, com um chão revirado por tratores, plantadeiras, colheitadeiras e homens que plantam e colhem de janeiro a janeiro. Se as pragas foram vencidas pela precisão dos herbicidas, a chuva prevista pela meteorologia foi substituída pelos pivôs que garantem a terra molhada, mesmo nos períodos mais secos do ano.

A presença deles nos extensos campos parece já fazer parte da paisagem. Uma chuvinha tranquila e fina como uma garoa cai em horários programados. É o homem quem dita os turnos da chuva. A sensação que se tem é que não estamos no cerrado e a distribuição das estações do ano parece indicar que essas lavouras vivem em um pleno verão. De fato, o uso das diferentes ferramentas da tecnologia fez com que o homem pudesse ter o controle do plantio à colheita. A terra é fértil e parece não ter descanso. Se de um lado a plantação de algodão deixa a terra coberta por um largo lençol branco, do outro o que se vê é o tomate rasteiro que pinta de vermelho a extensa plantação.

O dinamismo da terra também é anunciado na rodovia. É um vai-e-vem de caminhões carregados de alimentos. Ora é o vegetal “in natura”, ora é o processado, industrializado e enlatado na fábrica de vegetais que se avizinha das fazendas. É o

milho, a soja, o feijão que chegam ao supermercado e à mesa como alimento, trazendo impresso em cada grão o trabalho de muita gente, muitos trabalhadores.

Continuando nesse caminho, o que agora desponta na estrada é um rio, o São Bartolomeu. Sua bacia é a maior, com aproximadamente 50% da área total do DF, equivalente a 2864,05 Km2. Esse rio é bastante caudaloso e nele algumas pequenas centrais hidrelétricas (PCH) estão sendo construídas. É energia e novos empregos que se apresentam para a região. Bem próximo ao São Bartolomeu está a comunidade Café sem Troco. Esse lugarejo é bastante pequeno, mas comporta um modesto comércio, igrejas, posto policial e uma escola que atende até ao nono ano. O trabalho das pessoas dessa comunidade alterna-se entre as fazendas e uma indústria alimentícia que processa carne suína. Deixando o Café sem Troco, a menos de 2 Km estamos no PAD-DF, é o trevo que nos indica as cidades de Cristalina, Luziânia e Unaí. Fazemos a rotatória e seguimos rumo a Unaí e, em menos de 20 minutos, eis que o Programa de Assentamento Dirigido do Distrito Federal – PAD-DF se apresenta.

Constata-se que, no Brasil, o meio rural sempre foi referenciado como um espaço voltado para a produção agrícola, marcado pelo isolamento, pelo despovoamento e pela precariedade das relações sociais, em oposição à cidade, lugar privilegiado das ações do poder público e dos serviços de saúde, educação e lazer. Contudo, verifica-se, nesse cenário apresentado, um conjunto de atividades diferentes das tradicionais que outrora eram somente desenvolvidas na área urbana. Essas atividades caracterizam-se pela incorporação de novos produtos agropecuários, industriais, prestação de serviços e inclusive atividades de entretenimento, como anunciam as placas de pousadas e pesque e pague. Dessa forma, o rural assim entendido deixa de ser o espaço, por excelência, da produção agrícola e alarga-se, envolvendo tanto seus moradores quanto seus costumes e valores.

2.2.3 O cinturão verde

...isso, aqui, não nasceu assim. Quando chegamos aqui, sabe? Era todo mundo na lida. Mulher, homem, criança, e não tinha a diferença dos empregados e a gente que era os donos da terra, quer dizer, a gente tinha a licença do governo pra plantá, né? E, foi trabalho, pra isso aqui ser chamado o cinturão verde do DF. (Antônio, trabalhador rural)

O Sr. Antônio não nega que trabalhar a terra era essencial para a sua ascenção social, visto que a agricultura e a caça eram as poucas atividades possíveis. É fato que

entre os sulistas que ao PAD-DF chegaram, ninguém tinha outra profissão além daquela de agricultor e, pela necessidade de produzir para a subsistência, quase a totalidade dos membros da família deveria se engajar nos afazeres agrícolas, já que a produtividade era baixa devido às técnicas rudimentares de plantio. O fazendeiro faz a seguinte reflexão do seu passado:

Daquela época pra cá, muita água passou debaixo da ponte. Foram muitas negociações, muitas reuniões com a TERRACAP e mais ainda, muitas idas à Brasília. O que se vê, aqui, é uma terra construída, arrumada, planejada que precisou de muita tecnologia pra se tornar o cinturão verde que é hoje.

Sobre esse cinturão verde, destacam-se dois cenários. Primeiramente, a riqueza das lavouras, seja pelo plantio e manejo das plantações seja pela dimensão de cada uma delas. E, opostamente a essa paisagem, a precariedade dos povoados que fazem limites com essas mesmas lavouras. Sublinha-se que a localização dessas terras integra os povoados do município de Cristalina-GO, a Região Administrativa do Paranoá-DF, assim como os povoados rurais de:

a) Altiplano Leste, b) Boqueirão, c) Buriti Vermelho, d) Café Sem Troco, e) Capão Seco, f) Cariru,

g) Granja Progressos, h) Jardim II Itapeti, i) Lamarão,

j) Núcleo Rural Assentamento Três Conquistas, k) Núcleo Rural Rajadinha,

l) Quebrada dos Guimarães, m) Quebrada dos Néri, n) São Bernardo,

o) Sobradinho dos Melos, p) Sussuarana

Salienta-se que os dados mais recentes publicados pelo IBGE (2010), comparados a dados anteriores, mostram que a população rural brasileira continua em queda, de 32% em 1980 para 15,65% em 2010, ou seja, em trinta anos a população rural diminuiu mais de cinquenta por cento. Em dez anos (de 2000 a 2010) a zona rural perdeu dois milhões de moradores e na zona urbana houve um aumento de vinte e três

milhões de pessoas. Mesmo assim, a população do campo é tão grande que poderia até ser considerada como outro país, não só pelo fator quantidade, mas pelo fator qualidade/potencialidade. Qualidade, pela produtividade e, potencialidade, pela riqueza natural que possui como nos mostra essa área rural pesquisada. O Mapa 4 apresenta as divisas geográficas do Distrito Federal entre os Estados de Goiás e Minas Gerais.

Mapa 4 – Divisas geográficas: Distrito Federal, Goiás e Minas Gerais