Estabelece a doutrina três pressupostos essenciais de concessão e reconhecimento da obrigação alimentar.
O primeiro deles é a existência de vínculo familiar entre o alimentando e a pessoa obrigada a suprir alimentos, conforme o artigo 396, do Código Civil, que assim dispõe:
“De acordo com o prescrito neste capítulo podem os parentes exigir uns dos outros os
152 Lafayete (1889) apud Cahali (2002; p. 108).
153 Lei 6.515/77, artigo 21: “Para assegurar o pagamento da pensão alimentícia, o juiz poderá determinar a constituição de garantia real ou fidejussória. Parágrafo 1º. Se o cônjuge credor preferir, o juiz poderá determinar que a pensão consista no usufruto de determinados bens do cônjuge devedor”.
alimentos que necessitam para subsistir”. Não obstante, apesar desse vínculo constituir o fato básico do qual a lei faz surgir essa obrigação, existem limites no tocante às pessoas que estão sujeitas a ela, que se restringem aos ascendentes154, os descendentes, os irmãos (germanos ou unilaterais)155 e os cônjuges (quando decorrente da dissolução da sociedade conjugal, uma vez que, na constância do casamento, é um dever legal). Da mesma forma, a obrigação dos pais também diz respeito aos filhos adultos (ligada à relação de parentesco), pois, em quanto menores, devem-lhe sustento (resultante do poder familiar).
Para a exigência da obrigação alimentar, o vínculo de parentesco não é suficiente, em virtude de ser primordial a presença da necessidade do titular da prestação alimentar, por não poder manter-se por si mesmo ou por não dispor de patrimônio para tanto. Dispões o artigo 1695 do Código Civil: “São devidos os alimentos quando quem os pretende não tem bens suficientes, nem pode prover, pelo seu trabalho, à própria mantença, e aquele, de quem se reclamam, pode fornece-los, sem desfalque do necessário ao seu sustento”.
Assim, afirma CAHALI:
Para além da existência do vínculo de família, a exigibilidade da prestação alimentar pressupõe que o titular do direito não possa manter-se por si mesmo, ou com o seu próprio patrimônio; assim, só serão devidos alimentos quando aquele que os reclama não tem bens, nem pode prover, pelo seu trabalho, à própria mantença (CC, art. 399).156
Em sendo assim, mesmo no caso do autor do pedido de alimentos possuir bens patrimoniais, mas não sendo estes capazes de lhe proporcionar rendimentos suficientes para sua mantença, caracterizada estará a sua necessidade de ser auxiliado a fim de proporcionar o seu sustento. Todavia, tal matéria possui grande divergência doutrinária, existindo aqueles que entendem que se o alimentando possuir bens, excluída está a necessidade, uma vez que poderá ele produzir capital para se auto-manter, alienando seu patrimônio.
No que diz respeito à impossibilidade do alimentando em prover o seu sustento, deve estar esta relacionada com a incapacidade física ou mental para o trabalho, ou seja, imaturidade para o exercício de qualquer atividade laborativa, doença ou idade avançada.
154 Art. 397: “o direito à prestação de alimentos é recíproca entre pais e filhos, e extensivo a todos os ascendentes, recaindo a obrigação nos mais próximos em grau, uns em falta de outros”.
155 Art. 398: “Na falta de ascendentes cabe a obrigação aos descendentes, guardada a ordem de sucessão e, faltando estes, aos irmãos assim germanos, como unilaterais”.
156 Op. Cit., p. 717-718.
Ressalte-se que o desemprego, por si só, não é motivo suficiente para sobrepor o dever alimentar a outrem. Será preciso demonstrar que por características pessoais ou mesmo por deficiência do mercado de trabalho, o alimentado não consegue obter uma ocupação ou, obtendo-a, sua remuneração não é condigna com sua posição social ou de sua família.
Tem-se por último pressuposto a possibilidade do alimentante. É vital que se verifique a possibilidade financeira do devedor da obrigação, para que ele não comporte prejuízos em seu próprio sustento. Portanto, não possuindo condições de fornecer alimentos, não estará obrigado a cumprir a obrigação. Conforme leciona BARROS MONTEIRO, “a lei não quer o perecimento do alimentado, mas também não deseja o sacrifício do alimentante; não há direito alimentar contra quem possui o estritamente necessário à própria subsistência”.157
Por derradeiro, ainda no tocante à possibilidade, por ocasião da fixação da prestação deve-se ter em mente o rendimento e não o valor dos bens do alimentante, pois, ninguém está obrigado a vender seus bens para socorrer o alimentado. Em sendo assim, a possibilidade do alimentante será verificada levando-se em consideração os seus rendimentos líquidos, após a satisfação de todas as suas necessidades.
Isto resulta porque aquele que possui rendimentos modestos ou que se encontra em estado de insolvência, não está obrigado a prestar alimentos, uma vez que não possui condições econômicas de suportar tamanho encargo.
Com efeito, determina o artigo 1694, § 1º, do Código Civil, que “os alimentos devem ser fixados na proporção das necessidades do reclamante e dos recursos da pessoa obrigada”.
Portanto, para a fixação dos alimentos, deve-se respeitar o binômio necessidade-possibilidade, por ser um pressuposto indispensável em qualquer ação de alimentos, ou seja, o entendimento do magistrado deve convergir não apenas para o que é necessário para a subsistência do alimentando, mas, também para o que é possível para a pessoa obrigada.
Com probidade, ensina OLIVEIRA FILHO:
Também à fixação da prestação alimentícia deve-se atentar para o binômio possibilidade/necessidade, o que significa que a manutenção do alimentado não pode converter-se em gravame insuportável ao alimentante. Assim, os alimentos hão de ser estipulados com dosado equilíbrio, acudindo às necessidades de quem
157 Monteiro apud Cahali (2002; p. 142).
os solicita, mas também as efetivas possibilidades de quem se acha obrigado a prestá-los.158
Ademais, além de se considerar este binômio, deve-se considerar também, conjuntamente, as condições sociais e pessoais do alimentando e, sempre, a capacidade financeira do alimentante, que influem na fixação do quantum alimentar a ser prestado.
Nesse contexto, prescreve CAHALI que “na determinação do quantum, há de se ter em conta as condições sociais da pessoa que tem direito aos alimentos, a sua idade, saúde e outras circunstâncias particulares de tempo e de lugar, que influem na própria medida”.159
Deverá o juiz agir de forma cautelosa e de acordo com a sua experiência no momento da fixação das prestações alimentícias, de sorte a não propiciar vantagens ou desvantagens a qualquer das partes.