4.2 O encontro entre a teoria e os dados: a teoria da acessibilidade e o encapsulamento
4.3.1 O que nos diz o confronto entre teoria e dados
A partir da análise desses exemplos, que nos mostraram alguns fatos curiosos nos usos de formas referenciais, algumas considerações se fazem necessárias.
Como pudemos notar, o fenômeno que estamos chamando de encapsulamento anafórico, tomando de empréstimo a noção de CONTE (2003), apresenta-se nas mensagens da CVL de forma peculiar, quando consideramos o universo em que isso acontece. Trata-se da operação de nomear, resumir ou encapsular, por meio de um “instrumento lingüístico” (APOTHÉLOZ e CHANET, 2003, p. 134), não uma porção do discurso registrada no cotexto precedente, como já foi mostrado pelos diversos estudos conhecidos sobre o tema (APOTHÉLOZ e CHANET, 2003; KOCH 2004a, 2004b; CAVALCANTE, 2000, 2003, 2004), mas uma porção de discurso proveniente de outro texto.
Vemos, por outro lado, que algumas das observações que já foram feitas, em relação ao uso desse mecanismo nos limites intratextuais, são também válidas para o uso no domínio intertextual. Os participantes da lista iniciam muitas vezes seu discurso, categorizando ou recategorizando o discurso do(s) outro(s), veiculado pela(s) mensagem(ns) precedente(s), e pondo em evidência um novo referente. Esse novo referente pode passar a funcionar como tema da nova mensagem, tal qual ocorre em (44). Esse fenômeno é descrito por Koch (2004a, p. 71) no domínio intratextual. Para a autora, a dupla função desempenhada pelas expressões nominais (a de rotular e a de estabelecer um novo referente para ser tematizado nos “enunciados subseqüentes”) explicaria por que tais expressões aparecem com freqüência no início de parágrafos.
Apesar de não termos quantificado as ocorrências de encapsulamento no início de cada uma das mensagens que compõem o corpus, constatamos que esse é um fenômeno bastante freqüente. Para nós, isso está ligado ao fato de que o discurso, nas listas, funciona
quase sempre como um metadiscurso138, na medida em que a discussão progride através das predicações que se fazem a respeito do discurso precedente. A impressão que sentimos, quando observamos a intrincada superposição das mensagens que versam sobre um tema polêmico como o das cotas, é que os encapsulamentos atuam como um mecanismo de “empacotamento” recursivo. A cada nova participação, haveria a reificação do discurso anterior, o que seria feito de modo mais claro por meio dos mecanismos de sumarização ou parafraseamento.
Mas, paradoxalmente, essa “objetivização” nem sempre precisa ser feita por meio de mecanismos tão rígidos quanto o uso de uma forma nominal demonstrativa, isto é, nem sempre o remetente sente a necessidade de apontar com tanta “precisão” para o alvo de sua referência. Em meio a uma discussão com muitas participações, pensamos, o tópico fica como que “saturado”. Essa saturação tornaria possível o uso de formas menos rígidas, como as descrições curtas, ou até mesmo de algumas consideradas “insólitas”, como um clítico ou o zero.
Todas essas observações que fizemos acerca dos encapsulamentos na CVL levam-nos a reafirmar as vantagens que já vimos na Teoria da Acessibilidade. Segundo nos parece, o nível de saliência discursiva dos referentes, muito embora haja outras motivações, revela-se fundamental para a escolha das formas e, até mesmo, para o não-uso delas (APOTHÉLOZ, 2001). Há uma integração intrincada entre as informações (ou entre as impressões/percepções) que nos leva a ajustar as palavras a cada uso particular que delas fazemos. Podemos dizer, lembrando a metáfora de Maturana (2001), que o discurso funciona como uma rede de relações e que, dentro dessa rede, as palavras são como nós.
Disso decorre que usar a linguagem seria algo como ajustar os nós ao funcionamento da rede. Se a percebemos firme, sustentada pela própria tecitura, os nós, provavelmente, não serão tão justos. Raciocinando em termos de emprego das expressões referenciais, talvez possamos usar um pronome (que seria um nó mais fraco quanto à carga semântica) quando
138 É interessante notar que, na lista, a freqüência de mensagens parece estar muito ligada ao nível de
polemização que se vai instaurando em torno de um determinado tema. Quanto mais intensa a polêmica, mais mensagens; quanto mais mensagens, mais vezes o discurso vai ser criticado e recriticado.
outros elementos, vindos do relacionamento entre as diversas fontes de givenness, já sustentarem essa rede. Podemos até pensar que a configuração possa sustentar-se, em um determinado momento, sem a necessidade de mais um nó, como vimos no exemplo (48), porque a entidade que queremos evidenciar já foi “trazida”, reificada pela própria dinâmica do discurso, ou seja, já está na intercognição. Ou podemos, ainda, ao detectar algum problema de funcionamento da rede, reajustar os nós para lhe dar mais firmeza, como o fez o(a) autor(a) das mensagens mostradas em (50a) e (50b).
Ao postular a integração dos tipos de givenness, Ariel vê o discurso como uma realidade cognitiva e questiona a dicotomia dêixis versus anáfora. As dificuldades quanto à separação dessas duas noções não é nova. Lyons ([1933]1977), por exemplo, já identifica contextos em que uma forma classificada como dêitica desempenha função dêitica e anafórica, ao mesmo tempo.
Em nosso meio, alguns trabalhos voltados para a descrição da dêixis indicam a dificuldade de separar, de forma absoluta, as duas noções. Cavalcante (2000), por exemplo, ao estudar os dêiticos discursivos, propõe a existência de níveis de deiticidade, em lugar de uma categoria fechada. Ciulla (2002, p. 91), desenvolvendo algumas indicações do estudo de Cavalcante (2000), vê uma “zona de interseção” entre as duas noções (grifo da autora). Os trabalhos de Cavalcante (2003, 2004), que se encaminharam para um refinamento da classificação dos diversos processos de referenciação, registram, cada vez com maior propriedade, essa transição entre as duas grandes classes139.
A novidade que vemos como importante, na proposta de Ariel, reside na crítica ao pensamento que chamaríamos de modularista, o qual separa os processos pela “fonte informacional” ou pelo tipo de memória responsável pela identificação dos referentes. Para a autora, qualquer dado nos diversos níveis do universo textual/discursivo pode atuar em
139 Em Cavalcante (2003, p. 10), por exemplo, a autora revê o posicionamento adotado em Cavalcante (2000) e
admite ser a forma dêitica “o único divisor de águas entre as anáforas encapsuladoras e os dêiticos discursivos”. Já em Cavalcante (2004), tece críticas à sua visão em Cavalcante (2003) sobre a questão do que seria considerado dado ou novo e, especificamente com relação à distinção entre anáforas indiretas e dêiticos de memória, assume que a diferença se reduz à “marcação formal da dêixis, ausente nas primeiras, e a saliência discursiva, desencadeada pelas últimas” (p. 9).
conjunto com outros para condicionar o falante a selecionar, entre as inúmeras formas possíveis, uma determinada expressão em lugar de outras.
Sob esse aspecto, não se separa o que é textual do que é extratextual. Isso nos autoriza a questionar uma outra dicotomia, a que opõe as introduções puras a anáforas indiretas, mais uma tentativa de sistematizar os diversos usos das formas referenciais.
De acordo com a conceituação de Koch (2004b),
Têm-se as anáforas indiretas toda vez que um novo objeto-de- discurso é introduzido, sob o modo dado, em virtude de algum tipo de relação com elementos presentes no co-texto ou no contexto sociocognitivo, passível de ser estabelecida por associação e/ou inferenciação (p. 253).
Um dos casos mais conhecidos de anáfora indireta é o que vemos em (51).
(51) Um português entrou numa padaria e comprou uma caixa de leite. A
balconista ficou intrigada quando viu que ele estava abrindo a caixa ali
mesmo.
O referente designado pela forma definida A balconista é facilmente identificado a partir do frame criado pela presença do termo padaria. Alguns estudiosos classificam casos como esse, em que ocorre uma relação de ingrediência (balconista seria um ingrediente de padaria), como anáfora associativa, um tipo específico de anáfora indireta140.
Ocorre que o conceito de anáfora indireta, tal como é visto na definição de Koch, é bem mais amplo. O próximo exemplo, que tomamos de empréstimo à autora, demonstra como pode haver uma espécie de “distância semântica” maior que a que acontece entre os elementos do exemplo anterior.
(52) Há alguns anos, as pichações que passaram a borrar casas, edifícios e monumentos de São Paulo e de outras cidades brasileiras – começaram a ganhar características novas. Pode-se questionar se as políticas apenas
repressivas são a melhor forma de enfrentar o problema – ainda que nesse quesito, elementar, o poder público pareça complacente, já que, conforme a reportagem, as gangues reúnem-se semanalmente com hora e local marcados.
... (KOCH, 2004b, p. 254).
Segundo a autora, a escolha de “gatilhos mais adequados” é importante para acionar os mecanismos inferenciais que vão permitir a ativação do referente. E, em casos como o do trecho mostrado acima, parece ficar claro que essa adequação depende em grande parte do contexto cultural. Não há, de fato, como negar que um certo saber sobre como se comportam as gangues é o que nos leva a associar elementos como pichações e gangues. O entrelaçamento entre esses aspectos culturais e as predicações, no interior do texto, reforça essa associação e contribui para que o leitor possa inferir, sem dificuldade e sem estranhamento141, o referente as gangues.
Voltando ainda à conceituação da autora, que admite a existência de anáforas indiretas a partir de uma relação entre elementos, tanto do cotexto como do contexto
sociocognitivo, podemos incluir nessa classificação vários dos exemplos que citamos
anteriormente. Entre esses casos estariam as situações analisadas em (30a) e em (35), nas quais a maior contribuição para a identificação ou construção dos referentes enfocados na análise parece ser originária do contexto sociocultural. A nosso ver, a consideração de aspectos externos à materialidade textual aproxima, de certa forma, a noção de anáfora indireta da Teoria da Acessibilidade.
Quanto às introduções puras, segundo Cavalcante (2003), estas ocorrem “quando a expressão referencial instituir um objeto no discurso sem que nenhum elemento do contexto discursivo ou da situação imediata de comunicação o tenha evocado” (p. 2).
Uma questão complexa é saber como determinar que alguém, ao optar pelo uso de uma determinada forma, recorreu ou não, por exemplo, ao contexto discursivo da situação
141 O estranhamento poderia ocorrer em função do uso de uma expressão definida (a forma do “dado”) para
imediata. O uso de expressões indefinidas seria uma forma regular de marcar a “novidade” do referente, como afirmam Brown e Yule (1983)142. Mas, quando a introdução se faz “sob o modo dado”, como distinguir, inequivocamente, uma categoria da outra? Onde terminariam as anáforas indiretas e onde começariam as introduções puras? A opção por uma forma definida já não estaria assinalando que o falante/escritor estaria percebendo o referente como “dado” ou passível de ser inferido?
Sem aludir à questão da definitude ou indefinitude, Cavalcante (2003) ilustra o fenômeno da introdução com o exemplo que reproduzimos em (53).
(53)
Se um homem bate na mesa e grita, está impondo controle. Se uma mulher faz o mesmo, está perdendo o controle.
(Piadas da Internet)
A autora considera que as expressões um homem, na mesa e uma mulher, por não desempenharem função de continuidade referencial, “constituem formas não-anafóricas; e, por não pressuporem o tempo/espaço dos interlocutores, são também não-dêiticas” (p. 2). Daí, conclui a autora, estas poderiam fazer parte da classe das “introduções puras”.
De acordo com a orientação de Brown e Yule (1983), que parece coincidir, nessa questão específica, com a visão de Ariel143, as formas indefinidas funcionam realmente como introduções referenciais. Nas expressões um homem e uma mulher, a indefinitude marcaria a “novidade” dos referentes. Em termos de “instrução” para o leitor, o uso dessas expressões parece sinalizar que ele terá de construir objetos-de-discurso verdadeiramente novos.
142Prevenimos que não estamos reivindicando uma relação biunívoca entre as formas indefinidas e os referentes
“novos”. Em (3.4), citando Cunha-Lima (2004) e outros autores, mostramos que essas formas também são usadas, em alguns contextos, nas retomadas anafóricas. Não há, porém, como negar que, mais regularmente, essas formas marcam a “novidade” informacional.
143 Como já explicamos em (3.6.2), Ariel parece considerar que as formas indefinidas são, realmente,
especializadas na introdução de referentes. Daí por que, ao discutir o grau de acessibilidade dos referentes, trata apenas com as expressões definidas.
Já quando se trata da expressão n(a) mesa, podemos questionar a classificação de Cavalcante. De acordo com a Teoria da Acessibilidade, fatores de todas as naturezas textual- discursivas atuam para aumentar ou diminuir o grau de acessibilidade dos referentes e, assim, influenciam a escolha das formas de designá-los. Ao que nos parece, há uma certa relação estereotipada entre o verbo “bater” e o argumento “na mesa”. Este é, como já vimos, um dos casos em que, segundo Ariel, o grau de acessibilidade do referente torna-se alto. É importante observar que essa estereotipia expressa-se no nível da sintaxe, mas não se reduz ao fato gramatical; constitui um fenômeno discursivo. No contexto discursivo da piada, que explora o machismo, o referente mesa seria facilmente inferido, como parte da ação de “bater na mesa”, atitude que seria “própria” do homem, isto é, daquele que se impõe.
Observemos, também, o que ocorre no exemplo (54), com a expressão A professora
de matemática.
(54) Joãozinho
A professora de matemática pergunta ao Joãozinho:
- Joãozinho, tem três passarinhos no galho de uma árvore. Você pega sua espingardinha e mata um. Quantos ficam no galho?
- Nenhum, professora - responde ele.
- Como, Joãozinho? Pense bem...Você tem 3 passarinhos, mata um. Quantos sobram?
- Nenhum, professora. Quando eu acertar o primeiro, os outros dois saem voando e não sobra nenhum no galho.
- Bem, Joãozinho, a resposta não foi correta, mas eu gosto muito do seu jeito de pensar.
Assim, diz o Joãozinho:
- Professora, eu também tenho uma perguntinha. Ali no banco do jardim estão sentadas três moças. Uma está comendo um sorvete, a outra está chupando um sorvete e a outra está mordendo um sorvete. Qual delas é casada? A professora, muito constrangida e vermelha, pensa um pouco e responde:
- Bem, acho que é a que esta chupando o sorvete. E o Joãozinho:
- Errado, professora, é a que está com aliança no dedo, mas eu gosto muito da sua maneira de pensar... (piada veiculada pela Internet)
Podemos notar que o referente Joãozinho, expresso no título, já denuncia para o leitor do que tratará a história: mais uma “piada de Joãozinho”, personagem que evoca a
imagem do menino levado, safado, inteligente, que tem sempre uma resposta afiada para tudo. A cena que se desenha, a partir desse título, pressupõe as expectativas do leitor quanto ao desenrolar da piada. Nesse contexto, a expressão definida A professora de matemática, iniciando a narrativa, certamente não causará estranhamento ao leitor, da mesma forma como parece natural, no exemplo (52), o surgimento da expressão as gangues.
Questionamos, com esses dois exemplos, em que medida podemos afirmar, em tais situações, que as expressões n(a) mesa e A professora de matemática constituem ocorrências de introdução referencial, não de anáfora indireta. Se o universo textual/discursivo vai muito além da materialidade textual, como podemos determinar até onde vai o limite entre o que já estava presente nesse universo e que, por isso, constitui uma anáfora, e o que está entrando nele pela primeira vez e que, por essa razão, é classificado como introdução pura? Parece-nos um tanto incoerente opor fenômenos como os que mostramos em (53) e (54) aos do tipo que apresentamos em (51) e (52). Fica evidente, na prática, a mudança de critérios: enquanto na identificação das anáforas indiretas são levados em conta outros tipos de
givenness, além do lingüístico, reconhece-se como discurso apenas o cotexto, quando se analisam os exemplos que se tentam classificar como introduções.
Se considerarmos, com Ariel, que todos os contextos se entrelaçam na recuperação ou na criação dos referentes, podemos entender que será praticamente impossível determinar onde termina a classe das anáforas indiretas e onde começa a das introduções puras. Talvez não possamos mesmo falar em introduções, se as expressões se apresentam com a marca da definitude. Essa marca indicaria a suposição do falante/ouvinte de que, em algum nível, o referente se apresentaria para o ouvinte/leitor como um objeto-de-discurso dado ou inferível, o que, de acordo com a Teoria da Acessibilidade, significa dizer que já estaria no discurso.
Com essas reflexões, não tivemos a intenção de propor uma nova classificação para os processos referenciais. Quisemos apenas chamar a atenção para aspectos importantes dos processos referenciais que, ao que nos parece, apresentam-se, às vezes, “maiores” do que as classificações. As novas conceituações de texto e discurso são, na verdade, um desafio para os lingüistas, na medida em que demandam a criação de mecanismos explicativos para fatos que
não eram antes observados ou que, pelo menos, não eram considerados objeto de estudo dessa ciência.
Como nos alerta Ariel (1996), não há referência direta, isto é, não há um “grau zero” de inferência. Qualquer ato referencial conta com algum trabalho cognitivo, com algum nível de inferência. Como ela nota, citando Quine, há incertezas até mesmo na ostensão direta. A verdade é que, como afirmam Koch e Cunha-Lima (2004, p. 296),
Os textos não são explícitos, não trazem na sua superfície tudo o que é preciso saber para compreendê-los. Não trazem tampouco uma instrução explícita de preenchimento das lacunas que permita chegar a uma conclusão inequívoca do sentido. Todo texto requer uma atividade de “enriquecimento” das formas que estão na superfície, do emprego de conhecimentos prévios e de várias estratégias interpretativas.
Encerrando o capítulo, transcrevemos aqui, a título de ilustração, uma troca de e-mails que tivemos com uma amiga, tratando de questões da referenciação. Aproveitando uma mensagem que ela havia enviado há alguns dias, cujo título era Favor, enviamos para ela a seguinte réplica, usando a comodidade de clicar no dispositivo oferecido pelo programa de e-
mails Responder, procedimento que nos livraria do trabalho de preencher o cabeçalho de uma nova mensagem:
(53)
(a) Oi, A, estou até aproveitando o teu título, porque combina com o que quero te pedir. Pois é, um favor.
Sabe nosso livro? Finalmente vai para o prelo.
Tenho um problema: citei um exemplo da Ariel, em inglês, só pra mostrar o uso do pronome pessoal sem uma menção anterior, em um trecho
conversacional. Acontece que a M quer, porque quer a tradução. O trecho é muito opaco, porque é descontextualizado. Enfim, tentei traduzir, mas não consegui fazer algo coerente. Estou te pedindo pra dar uma olhadinha. Tem um trecho já traduzido (se é que se pode chamar o que eu faço de tradução).
Na resposta, ela concorda em nos prestar o favor, mas faz a seguinte observação: “fiquei pensando que 'titulo' seria...”
Após uma sucessão de mensagens em “tempo real”, ficamos nós sabendo que ela pensava que o título a que nos referíamos era o seu, de tradutora:
pois vou te dizer o que pensei primeiro, so para dar mais pano para a manga: quando entendi que querias ajuda na tradução, pensei que o "titulo" a que te referias era o de "tradutora", mas achei meio esquisito - e pomposo demais... quando disseste, no outro mail, que era o titulo do e-mail "favor" (que eu nem lembrava mais e nem tinha lido), reli e percebi que ja tinhas dito isso, logo na primeira frase "pois é, um favor". so que essa frase me passou batido da primeira vez que li...
hehehehe!
O detalhe interessante é que, apesar de conhecer-lhe a competência em matéria de tradução, desconhecíamos o fato de ela ser diplomada nesse ofício. Nosso “conhecimento de
background” (VARELA; THOMPSON; ROSCH, 2003, p.155) não registrava esse dado e, talvez por isso, tenhamos usado o termo, sem nenhum receio de gerar uma outra interpretação. Se o estranhamento em relação ao uso do termo título não tivesse sido manifestado e, principalmente, se os interesses das interlocutoras não estivessem voltados para o estudo da referenciação, o esclarecimento acerca do que nomeamos com a palavra em questão talvez não tivesse acontecido. Por não ser esse o foco principal do discurso144, o fato de a interpretação dada ao termo, pela destinatária, não coincidir com o sentido que a remetente desejara expressar não invalidaria o ato de fala. A solicitação teria sido compreendida e atendida, independente de ter havido ou não tal esclarecimento.
A partir desse episódio cômico, vemos com clareza que referir é, de fato, conforme afirmam Mondada e Dubois (2003), desenvolver uma operação de negociação de sentidos. Ainda que muitas vezes estejamos empenhados em usar as expressões mais “apropriadas” para dizer o que desejamos que nossos interlocutores entendam, não podemos prever, com exatidão, o modelo de discurso que será construído por estes.
144 O propósito da mensagem que desencadeou a interação era, como vimos, solicitar ajuda na tradução de um
Só nos resta, assim, dar razão ao poeta Raúl Zurita, quando ele afirma que “[...] há um instante em nossa vida em que os dois milhões de anos durante os quais carregamos signos