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CAPÍTULO 2: O PROGRAMA COMUNIDADE ATIVA E A IMPLANTAÇÃO

2.2 DLIS – O que é?

Como já foi mencionado introdutoriamente no capítulo que trata da revisão teórica desse estudo sobre as questões inerentes a modelos e alternativas de desenvolvimento, ficou evidente a emergência de outro paradigma que traz para o centro da discussão novas concepções e princípios.

Ora um modelo de Desenvolvimento Local apontava para o combate à exclusão social e à pobreza, ora para a competitividade local a partir do fomento à reestruturação de sistemas produtivos locais. A base de ambos foi a efetiva participação dos cidadãos ao longo de todo o processo (DE PAULA, 2002; FRANCO, 2000).

Despertar a população para a importância da participação na construção dos caminhos da vida pública do local, envolvimento, compromisso e da responsabilidade, individual e coletiva, sobre o momento presente e futuro, era parte integrante do “receituário” da metodologia adotada pelo DLIS (DE PAULA, 2002).

Sensibilizar, mobilizar, descobrir potencialidades econômicas específicas e fomentar o intercâmbio externo, aproveitando-se das vantagens locais oferecidas era pré-requisito indispensável à instalação de processos sustentáveis de desenvolvimento (SECRETARIA EXECUTIVA DO PROGRAMA COMUNIDADE SOLIDÁRIA, 2000).

Criar ciclos de superação das situações que geram exclusão era o grande desafio e o DLIS foi concebido como uma estratégia governamental capaz de proporcionar a associação necessária entre crescimento econômico e desenvolvimento, embora respaldada nas concepções e princípios sobre o endógeno, o humano, o local, o sustentável (DE PAULA, 2002).

Para o êxito da estratégia alguns aspectos eram fundamentais, sem os quais a noção de desenvolvimento estaria em xeque.

[...] A participação organizada da comunidade local; a parceria entre Estado, mercado e sociedade; a capacitação continuada para o planejamento e a gestão compartilhada do desenvolvimento; a oferta articulada e convergência de investimentos governamentais e não- governamentais; a difusão da cultura empreendedora e o apoio ao empreendedorismo local; a oferta adequada de crédito para micro e pequenos empreendedores através de investimentos de crédito produtivo popular (microcrédito) [...] (DE PAULA, 2002, p. 17).

Essa estratégia vem na contra mão dos ciclos geradores da exclusão e dos componentes sociais, políticos e econômicos que não contribuem para o exercício efetivo da cidadania (DE PAULA, 2002).

Conforme visão dos teóricos do DLIS enfocada nesse estudo, fazer com que os sujeitos sociais reconheçam possibilidades organizativas, empreendedoras e de gestão é um dos passos indispensáveis para superar a cultura da dependência e subserviência verificada em diversas localidades do território nacional ao longo da nossa história.

Buarque (2006) em seu livro Construindo o Desenvolvimento Local Sustentável faz uma alusão à necessidade de tempo e iniciativas de cunho transformador para enfrentar um modelo de organização econômica e social e suas interrelações com o espaço natural (meio ambiente) que estão postas. Portanto ele concebe o desenvovlimento local sustentável como sendo um

processo e uma meta a ser alcançada a médio e longo prazos, gerando uma reorientação do estilo de desenvolvimento, redefinindo a base estrutural de organização da economia, da sociedade e das suas relações com o meio ambiente natural. Esse processo demanda mudanças pelo menos nos três componentes do estilo de desenvolvimento [...]: padrão de consumo da sociedade, base tecnológica dominante no processo produtivo e estrutura de distribuição de renda, cada um com sua própria lógica e autonomia (mas também com relações de intercâmbio e mútua influência) (DE PAULA, 2002, p. 69).

É nesse contexto de redirecionamentos que o DLIS é adotado enquanto ferramenta governamental de planejamento do desenvolvimento local. Conforme concepção de Desenvolvimento do mesmo autor, a necessidade primeira do planejamento é “contribuir para a formação de sociedades locais mais inteligentes e aptas a lidar com os desafios do futuro” (DE PAULA, 2002, p. 12).

Para a efetiva implantação do DLIS, a partir de 2001, era necessário o cumprimento de 30 passos metodológicos. O primeiro desafio era mexer com a auto- estima das pessoas, despertar a capacidade de sonhar e a busca pela realização desses, por isso alguns autores fazem referência a uma pedagogia do DLIS (DE PAULA, 2002).

No processo de DLIS implantado nos municípios brasileiros, o efetivo exercício da cidadania e participação nos momentos de tomada de decisão davam- se a partir do processo aprender-fazendo, ou seja, vivenciando. O cenário era um dado município, onde lideranças locais, governamental e não governamental, juntas no Fórum de DLIS (instância de participação) discutiam e deliberavam coletivamente sobre assuntos pertinentes à realidade local. Assim, participavam de cursos de capacitação sobre liderança e empreendedorismo, procediam a levantamentos de informações de toda natureza para elaboração de diagnósticos, planos de desenvolvimento e agendas de prioridades governamentais e locais. Todos os documentos eram apreciados, validados e pactuados coletivamente, envolvendo as representações e parcerias locais e estaduais, para enfim os projetos elaborados serem encaminhados às respectivas instâncias do governo federal (coordenação nacional do PCA, ministérios e instituições parceiras).

A operacionalização da proposta metodológica materializava-se seguindo as respectivas etapas e passos metodológicos, conforme documentos oficiais e manuais operacionais. Veja detalhamento a seguir:

Etapa 1 Adesão ao Programa Comunidade Ativa. Etapa 2 Sensibilização.

 Reunião e articulação dos parceiros do programa.  Palestras de sensibilização.

 Capacitação sobre DLIS para Líderes do Setor Público.  Capacitação sobre DLIS para Lideranças Locais.  Curso “Liderar”.

 Capacitação para a formação do Fórum de Desenvolvimento Local.

Etapa 3 Capacitação do Fórum.

 Encontro de instalação do Fórum de Desenvolvimento Local.  Curso “Líder Cidadão”.

 Capacitação da Equipe Gestora Local.

Etapa 4 Elaboração do Diagnóstico Participativo Local.

 Elaboração do Diagnóstico Participativo Local.  Realização de entrevistas.

 Levantamento de dados secundários.

 Levantamento de projetos, programas e ações de outras instituições.  Encontros de segmentos e grupos organizados da comunidade para

levantamento de informações e discussão de potencialidades.  Oficina de elaboração do Diagnóstico Participativo Local.

Seminário de apresentação do Diagnóstico Participativo Local.

Etapa 5 Elaboração do Plano de Desenvolvimento Local.

 Seminário (oficina) de elaboração da “visão de futuro”.

 Seminário (oficina) de elaboração do Plano de Desenvolvimento Local.  Seminário (oficina) de apresentação do Plano de Desenvolvimento Local.  Curso “Saber Empreender”.

Etapa 6 Elaboração da Agenda Local.

 Seminário de elaboração da Agenda Local.

 Planejamento e realização da primeira ação da Agenda Local.

 Preparação para o funcionamento autônomo do Fórum de Desenvolvimento Local.

 Seminário regional.

Etapa 7 Negociação da Agenda Local.

 Pré-Negociação das Agendas Locais com parceiros do Programa Comunidade Ativa.

 Realização das rodadas de negociação.

 Reunião do Fórum de Desenvolvimento Local para apresentação dos resultados da negociação da Agenda Local.

Etapa 8 Celebração do Pacto de Desenvolvimento Local.

 Solenidade de assinatura do Pacto de Desenvolvimento Local.

Etapa 9 Implantação e acompanhamento das Agendas Locais.

 Monitoramento da implantação das Agendas locais.

 Acompanhamento dos Fóruns de Desenvolvimento Local e dos comitês temáticos e setoriais.

Etapa 10 Avaliação e Premiação.

 Avaliação e premiação dos municípios com o

melhor desempenho na promoção do Desenvolvimento Local.

Quadro 3: Detalhamento sobre as fases metodológicas do processo de implantação de

DLIS

Fonte: Mimeo, s/d. Organização: Adriana Rosado Maia de Lima.

A mudança de paradigma nessa metodologia visualiza-se em sua operacionalidade por ocorrer a partir de uma base real, dos limites e possibilidades vivenciados a partir do local. A base financeira é tão importante quanto o processo de planejamento, conforme os princípios do DLIS, o primeiro não pode preceder o segundo. Nesse contexto reside o “x” da questão, a eficiência ou não dessa metodologia que adotou a inversão do processo de planejamento, priorizando a descentralização, a gestão compartilhada, o empoderamento e o protagonismo de atores sociais na esfera pública, a partir do processo de organização comunitária local. Esses princípios serão contextualizados no capítulo seguinte, onde abordaremos especificamente aspectos relevantes ao objeto de estudo dessa pesquisa.

CAPÍTULO 3: CAMINHAR METODOLÓGICO DA PESQUISA ACERCA