• Nenhum resultado encontrado

G. DNA fiber mapping techniques for the assembly of high-resolution physical maps Journal of

3.9. DNA “FINGERPRINTS”

No ano de 1985, as técnicas moleculares de Jeffreys foram utilizadas inicialmente para identificação em um caso de imigração que se revelou positiva, e portanto exitosa (JEFFREYS et al., 1985), e posteriormente para solucionar crimes relacionados com estupro e morte da vítima, que foram praticados no Condado de Leicestershire, na Inglaterra.

O resultado de seu trabalho revelou uma abordagem totalmente diferente do que se conhecia em termos de identificação humana, recebendo a denominação inicial de impressão digital de DNA, “DNA Fingerprint”4.

O primeiro caso de investigação com o uso da tecnologia ficou conhecido como “Caso Pitchfork”. A tecnologia inicial, para capturar e expor diferenças individuais se baseou em sequências repetidas de DNA, desenvolvidas na Universidade de Leicester por Jeffreys e seus colegas. Esse sistema permite distinguir características específicas de cada amostra. Quando o resultado foi atingido, no dia 15 de setembro de 1984, por Jeffreys e seus colegas, ficou definitivamente consagrada a terminologia “DNA fingerprints” (JEFFREYS et al., 1985).

Essa sequência de descobertas e resultados se deu em virtude de Jeffreys ter notado, durante seu trabalho com genes da mioglobina humana, que certos trechos do DNA apresentavam polimorfismos. Após analisar vários indivíduos que não tinham relação de parentesco entre si, notou que o padrão de DNA de cada um dos indivíduos examinados não

se repetia, motivo pelo qual chegou à conclusão da existência de um padrão único para cada indivíduo, surgindo daí a analogia com o termo utilizado para as impressões digitais.

Para alcançar esse resultado, utilizou uma sonda, a partir uma sequência curta de quinze nucleotídeos, que foi marcada com uma molécula radioativa. Ele buscou no genoma esta sequência que é encontrada pelo emparelhamento das bases e pela aderência à sua sequência complementar. Por meio de raios-X, foi feito o registro desses pontos radioativos (figura 6B). Após analisar inúmeras amostras de DNA, verificou que embora a sonda tivesse detectado muitas sequências similares, havia um grande número de variações entre as amostras, mesmo entre familiares. Foi então que percebeu a possibilidade de diferenciar indivíduos (WATSON, 2007).

Jeffreys, na continuação de suas observações que dizem respeito aos padrões polimórficos, estabeleceu o conceito de haver uma estabilidade no polimorfismo. Ou seja, concluiu que o polimorfismo aparecia em todas as células do mesmo indivíduo, portanto estaria presente em qualquer tecido, sangue ou fluídos corpóreos. E ainda, a transmissão dos polimorfismos para a descendência estaria garantida, da mesma forma como se transmitem os genes (RUMJANEK, 1997).

O uso do DNA pela polícia teve sua primeira vez no ano de 1986, em Northampton Shire, durante investigação de estupro e morte de uma jovem de 15 anos de idade. Exames realizados na amostra de sêmen coletado na vítima revelaram ser do tipo sanguíneo A, com uma forte presença da enzima fosfoglicomutase (WILLIAMS; JONHSON, 2008). Segundo cálculos estatísticos, essa combinação apareceria na proporção de um para cada dez homens.

Este resultado foi idêntico para a amostra colhida em outro caso de estupro, fato que se dera em 1983. Devido a contradições, após a prisão de um jovem de 17 anos, que havia confessado ser o autor do crime, embora veementemente negasse a participação no caso anterior, foi solicitada a colaboração de Jeffreys para aplicar sua técnica. Amostras de manchas de sêmen dos dois casos foram examinadas por duas vezes, chegando à mesma conclusão. O sêmem analisado provinha, nas duas amostras, do mesmo indivíduo, e não era compatível com o suspeito, réu confesso. A exoneração do suspeito foi confirmada em definitivo, até porque, num primeiro momento, já havia sido verificado ser seu tipo sanguíneo não condizente com o da amostra, motivo pelo qual havia uma flagrante inconsistência na prova material. As autoridades policiais decidiram por um rastreamento orientado para obter DNA de todos os homens residentes no local do crime e nas imediações. Estabeleceram uma

faixa de idade entre 16 e 34 anos, devido à alta contagem de espermatozoides, encontrada na amostra obtida na cena do crime, fator indicativo de que deveria pertencer a um indivíduo jovem.

No ano de 1987, foi preso Colin Pitchfork, seguindo-se à informação de haver tentado fraudar a coleta de amostra de sangue em andamento para identificação do estuprador via DNA. Após sua prisão, confissão da autoria dos dois estupros e morte de suas vítimas, uma confirmação positiva foi obtida pela realização de exame de DNA, que definitivamente o colocou na cena do crime. Pelo sistema penal britânico, por ele ter se declarado culpado, não houve contraditório e a evidência DNA nunca foi apresentada na corte (WILLIAMS; JONHSON, 2008).

Naquele mesmo ano de 1987, em Bristol, um suspeito de estupro foi declarado culpado e condenado após terem sido comparadas amostras de DNA, que o indicaram como o autor do crime, com a probabilidade de um para quatro milhões.

Estava dessa forma consagrada, para fins de identificação forense, a utilização da técnica inventada por Alec Jeffreys (LUFTIG, 2001). Porém, perdurava a dificuldade de que as análises utilizando RFLP eram extremamente sensíveis à degradação, e ainda necessitavam de amostras com grande quantidade de DNA para sua realização.

Por volta de julho de 1988, cerca de 200 casos foram encaminhados à Divisão de Biologia do Serviço de Ciência Forense, Forensic Science Service (FSS) do Home Office, buscando estabelecer perfil de DNA, resultado dos esforços de rápida adoção da nova metodologia. O Home Office é o departamento de governo no Reino Unido encarregado de policiamento, crime, contraterrorismo, e imigração. Era a junção de técnicas científicas, altamente especializadas, com a inovação na forma de investigar, que havia se provado válida após o caso Pitchfork (WILLIAMS; JONHSON, 2008), foi a pedra de toque para o novo caminho que se abriu inaugurando a era da biologia molecular nas ciências forenses.

A análise de DNA forense provou ser de extrema validade para situações como a identificação de restos mortais, em casos de desaparecidos, e identificação de vítimas em grandes catástrofes, bem como na vinculação de suspeito ao crime, comprometimento de suspeito em série de delitos de forma a colocá-lo na cena do crime em diferentes locais.

Para a análise do DNA, é imprescindível a coleta de amostra biológica, que deve merecer cuidados especiais, de modo a garantir sua integridade. Além de outras precauções, esses

cuidados se referem à escolha da amostra, coleta e seu material, transporte, e finalmente seu armazenamento. E ainda mais, é obrigatório estabelecer-se uma cadeia de custódia, que possa controlar de forma documentada, a integridade física do material coletado e garantir seu valor legal, por sua importância esse assunto virá a ser mais bem explorado na sequência.

TABELA 1 - Quantidade de DNA órgãos e tecidos (Adaptada de Kobilinsk)

Fonte: BONACCORSO, 2005, p.39; SILVA E PASSOS, 2006, p.8

Realmente, a habilidade de detectar polimorfismos em material biológico revolucionou a ciência forense. Nas palavras de Beroldigen et al. (1992), bons resultados puderam ser obtidos e devem ser debitados à da análise de RLFP e de DNA fingerprints.

A dificuldade maior reside no fato da necessidade de material relativamente não degradado e em quantidade suficiente, entendida como sendo no mínimo 50 ng de DNA no uso em sonda individual, e mais de 100ng no caso de sonda com multilocus. Além do fato de que estas quantidades não podem ser sempre conseguidas na prática forense, a outra dificuldade está relacionada ao volume utilizado, o que, quase sempre, não permite uma possível reanálise. A tabela 1 mostra a quantidade aproximada de DNA presente em diferentes órgãos e tecidos biológicos, que eventualmente podem servir como amostras para as práticas policial e forense.

Além do uso do DNA nuclear, como descrito até agora, não podemos deixar de mencionar outra possibilidade importante para a área forense: o DNA mitocondrial, presente

Tecido Biológico Quantidade aproximada de DNA Líquido

amniótico

65ng/mL (1x104 cel/mL na 16a semana de gestação)

Sangue (mamíferos)

30 a 60µg /mL (µg = 4 x 10³células, equivalendo uma célula íntegra a 6,6 pg de DNA)

Raiz de cabelo 250ng/raiz de cabelo arrancado Fígado 15µg /mg Músculo 3µg /mg Pele 15µg /mg Esperma 3,3pg/cel Célula-diplóide humana 5 a 6pg Sêmen 480 µg /Ml

nas células eucarióticas. Pelo fato de se encontrar na organela citoplasmática e fora do núcleo celular, é uma molécula de DNA extra cromossomal. Na maioria dos organismos, este DNA mitocondrial é herdado de forma uniparental materna. Tem a forma de uma dupla cadeia circular com cerca de 15.659 pares de bases, onde apenas 10% de sua totalidade não é codificante (BUDOWLE et. al.,2003). Sua importância na área forense está diretamente relacionada à maior resistência à degradação, pela natureza circular, e pelo elevado número de cópias, principalmente em se tratando de vestígios/amostras obtidas em locais de crime, onde a disponibilidade é quase sempre escassa (BUTLER, 2010). Ressalvadas as ocorrências onde o DNAmt é a única alternativa viável nos casos de identificação humana, como em situações de degradação ou na falta de DNA nuclear (como quando se trata de fragmentos de cabelo) (SALAS, et. al., 2001), a comunidade forense tem se servido deste tipo de DNA como uma ferramenta assistencial. Mas com os estudos de novos marcadores SNPs e consequente aprimoramento de seu poder discriminatório, a utilização do DNA mitocondrial tem se tornado uma opção valiosa e contributiva cada vez mais presente na área investigativa.

As limitações descritas aqui são um obstáculo e em muitos casos de evidências biológicas, exige-se a superação destas limitações para que seja possível a obtenção dos objetivos nas análises forenses. (BEROLDIGEN et al., 1992).

Há ainda a considerar que os testes utilizados nas décadas de 80 e 90 levavam mais de um mês, e às vezes dois ou três meses para apresentar o resultado de um perfil genético, além do já mencionado problema de que o material biológico poucas vezes era encontrado em quantidade suficiente nas cenas de crime para permitir resultado (GREEN, 2014).

Documentos relacionados