A aproximação com as fotos de Morada Nova tocava muito os colonos e suas famílias. Era geral o lamento por não terem fotos desse tempo. Não porque fosse bom. Mas
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SOUSA, Elisângela Maria de Oliveira. O “novo modelo de irrigação” e os colonos de Morada Nova: política para qual público? Dissertação apresentada ao Curso de Mestrado Acadêmico em Políticas Púbicas e Sociedade da Universidade Estadual do Ceará para obtenção do título de Mestre. Fortaleza, CE, 2005.
para que pudessem mostrar as pessoas “como tudo aquilo começou” especialmente, para os filhos. “Pois só quem viu,” como disse Dona Margariga, “podia acreditar que existiu um lugar como aquele, parecia que a gente tinha chegado na lua”.
O lamento dos colonos somado à ânsia por descobertas persistia, impulsionando a busca pela memória do Projeto. Assim, várias instâncias foram consultadas. Junto aos colonos mais velhos e as famílias do local nenhum material que retratasse a memória do Projeto. Apenas alguns registros de como era a Paraipaba Velha foram encontrados na memória das famílias tradicionais do local. (Ver fotos no apêndice Nº 4).
Na sede de Paraipaba diziam que nada havia e que toda a memória estava em Fortaleza, local onde também fiz exaustivas procuras. A informações eram sempre as mesmas. Os técnicos da 2ª Diretoria Regional, DR, justificavam o extravio desses registros, como uma série de documentos do arquivo que foi extraviada, quando a sede do DNOCS da Praia de Iracema foi desativada.
Um grande achado foi a informação de que um colono havia “ajuntado um monte de papel que o DNOCS jogou no mato” lá mesmo em Paraipaba. O material recuperado
constitui-se uma substantiva fonte para compreensão do modelo de colonização e mesmo dos termos de funcionamento para o “Aproveitamento hidro-agrícola das bacias do rio Curu: estudo de viabilidade técnico-econômica da área de Paraipaba”. Documento que norteou o modelo da intervenção elaborado por uma consultoria externa, contratada pelo DNOCS160.
Esse último achado, os estudos de Martins (2002, 2008), a observação direta, as entrevistas realizadas com os colonos e suas famílias, bem como entre autoridades de Paraipaba e do DNOCS permitiram fazer uma breve reconstituição do contexto de implantação do Projeto.
O DNOCS, como mostra o estudo, à época estava subordinado ao Ministério do Interior, MINTER. Atendia, portanto, às exigências dos Planos Nacional de Desenvolvimento - PNDs. Às suas instituições vinculadas cabia o desafio de executar os projetos modernizantes que levariam a cabo a modernização conservadora. Essas, por sua vez, balizavam seus escopos de atuação, em diagnósticos e proposições oriundas de especialistas, reunidos por meio de Grupos de Trabalho ou de consultorias externas, estabelecendo metas quase sempre
alheias aos objetivos dos “sujeitos” e das próprias institucionalidades locais. No caso do Curu
Paraipaba, a consultoria definiu como meta primordial
160 Além dos muitos mapas, o documento referido estava desgastado, mas permitia a leitura na íntegra. DEPARTAMENTO NACIONAL DE OBRAS CONTRA AS SECAS. (Brasil). Aproveitamento hidro- agrícola das bacias do rio Curu: estudo de viabilidade técnico-econômica da área de Paraipaba. Rio de Janeiro: Consórcio TAHAL, SONDOTÉCNICA, 1970. V.3. Cuja capa está inserida no Anexo 3.
estruturar os recursos humanos e institucionais fundamentais da área da criação de uma economia eficiente, baseada na agricultura, a fim de elevar o nível de emprego, a receita real e os padrões de vida gerais da população rural. Todavia, os benefícios a serem obtidos do programa de desenvolvimento não se restringirão ao setor agrícola, pois o "momentum" do desenvolvimento agrícola servirá para impulsionar toda a economia da área, resultando também em melhores padrões de vida para a população não- agrícola (DNOCS, 1970, p.5/1).
Não foi, portanto, uma intelligentsia do próprio DNOCS - que tendo em vista a limitada dependência das sociedades agrícolas mais tradicionais aos fatores externos à unidade de produção - que preceituou a quebra dessa tradição. De fato, a consultoria externa definia que um eficiente sistema de produção agrícola requeria uma estrutura organizacional mais complexa que a tradicional; e que assim o estabelecimento de tal estrutura, requeria que a família contasse com uma maior escala de fatores externos, justificando, por exemplo, que
A utilização de equipamento mecânico em certas atividades agrícolas é necessária para garantir eficiência na produção. Todavia, como os lotes são pequenos demais para justificar a aquisição do equipamento por cada um dos agricultores, deverá ser estabelecido para eles um serviço que providencie tal equipamento e assim eles se tornarão dependentes de fontes fora da família. O mesmo se verifica quanto aos numerosos insumos necessários: no passado, ou o agricultor produzia a maior parte deles em sua unidade agrícola (por exemplo, sementes e adubo) ou se arranjava por eles. O Projeto não pode admitir que o agricultor fique dependente de seus próprios recursos, mas deve garantir que todos consigam os serviços necessários para atingir as finalidades econômicas declaradas do Projeto (ÍDEM, p.5/6).
Pode-se dizer que o DNOCS, com sua camada de especialistas e atendendo aos interesses econômicos locais seguiu, com certo rigor, as prescrições de um modelo que receitou para as unidades de produção familiar do Projeto uma condição de dependência aos fatores externos à propriedade agrícola. Profundamente conhecedores das técnicas agronômicas e revelando um desconhecimento, ou pouco entendimento do sentido de particularidade atribuído às unidades de produção familiar, esses mediadores estimularam a dependência desses agricultores, relegando o que assinalava o clássico estudo de Kautsky, de que o pior que poderia suceder com uma comunidade de tipo auto-suficiente,
Era uma colheita ruim, um incêndio, a invasão de um exército inimigo... Mas à aproximação do inimigo, o bosque ocultava o gado e os bens móveis até que o perigo passasse; de modo que aquele podia devastar os campos, as pradarias e os bosques, bases da vida rural, mas não podia destruí-los. Se se dispusesse da força de trabalho necessária, se os homens e animais não houvessem sofrido dano grave o mal era rapidamente reparado (KAUTSKY, 1974, p.7).
Aqui Kautsky está inserido no vigoroso debate sobre o processo de dissolução e reconstituição do campesinato. Na assertiva transcrita, o autor ressaltava o caráter de indestrutibilidade da unidade caponesa medieval, em virtude, naturalmente, do seu ethos enquanto unidade familiar, destacando, inclusive, a versatilidade desse tipo de produção, cuja recuperação depende muito mais de uma farta disponibilidade de força de trabalho e de animais que de recursos naturais como a fertilidade ou abundância de terra. Bosques nos quais pudesse caçar e rios nos quais pudessem pescar eram estratégias que se valiam para assegurar a reprodução social dos membros das famílias.
Em seus termos, a concepção do projeto apregoou um modelo que submetia os agricultores familiares à dependência de técnicas vinculadas ao uso de maquinários e insumos modernos. Os mediadores – tecnocracia do DNOCS – seguiram o planejamento pré- estabelecido, reorientando, a posteriori, os cultivos com seus respectivos itinerários técnicos à mercê de diferentes conjunturas nacionais, interesses políticos locais e mais recentemente ao atendimento das demandas de mercado.
Tecnicamente falando, em aspectos de aumento de produção e produtividade, pode-se ver como inteligível a prescrição dos especialistas, pois a implantação de um projeto de irrigação pressupõe a substituição da vegetação natural por culturas que se pretende irrigar. A disponibilidade de nutrientes no solo não é capaz de suprir as necessidades das culturas, tendo em vista o regime intensivo de plantio. Para compensar essa deficiência são adicionados ao solo fertilizantes que detêm valores elevados, principalmente, de nitrogênio e fósforo.
Outro preceito da Consultoria que se quer chamar atenção diz respeito ao próprio modelo de colonização que foi apregoado como o mais vantajoso para Paraipaba. Considerando que a escolha feita afetaria a eficiência, não apenas da organização, mas da própria agricultura, os consultores enfatizaram que o método de colonização a ser utilizado seria decisivo para estabilidade da vida da comunidade. Tecendo considerações sobre os principais métodos alternativos de colonização que se adequariam ao desenvolvimento do Curu Paraipaba, a consultoria, relacionou quatro possibilidades:
i) A unidade agrícola de grandes dimensões;
ii) O povoado compacto, no qual os campos não são adjacentes às casas ;
iii) O povoado semicompacto, no qual, pequenos lotes de terra são contíguos às casas, mas os lotes principais situam- se a certa distância do povoado;
iv) O povoado disperso, em que grandes lotes são adjacentes a unidade agrícola, enquanto outros de dimensões semelhantes ficam fora do povoado.
Na organização do espaço, as distâncias entre quintal e o centro do povoado não deveriam exceder a 1.200 m. Entre a casa do agricultor e o seu lote as distâncias máximas não
deveriam superar “a 2km, no caso de unidades de horticultura; a 3 km, no caso de unidade de
fruticultura; a 4 km, no caso de pastagens não irrigadas das granjas leiteiras”. Nenhum centro do povoado deveria ficar a mais de 5 km do centro sub-regional mais próximo, ou a mais de 15 km do Centro Regional.