Em 2012, devido à inobservância legal da exigência de licitação para a delegação do serviço público, o Ministério Público propôs Ação Civil Pública com o objetivo de impor a realização de licitação para contratação de empresa para prestação do serviço de transporte coletivo urbano, sob pena de multa diária ao representante do Município em caso de descumprimento. Considerando essa ação, o município resolveu iniciar processo de licitação por concorrência pública para a delegação desse serviço. Nesse edital, o valor estimado do contrato era de mais de R$ 114,5 milhões, para 10 linhas com extensão total de mais de 109 km e estimativa de 212 mil usuários transportados por mês. (Processo 639/2012)
Cinco pessoas jurídicas estavam participando do processo licitatório: Nordeste Transportes LTDA.; Viação Mourãoense LTDA; Expresso Nossa Senhora de Fátima (Umuarama); Brasil Sul Linhas Rodoviárias LTDA (Londrina); Sitrocam (Campo Mourão); e STADTBUS Transportes LTDA (Santa Cruz do Sul/RS).
Contudo, o Ministério Público entrou novamente com ação civil pública, determinando a suspensão do então processo licitatório até que fossem realizados os estudos exigidos pela Lei Federal 12587/2012 para o Plano de Mobilidade. Porém, como as bases contratuais podem ser repetidas no novo processo licitatório que há de ser feito, algumas considerações a respeito daquele contrato valem ser notadas:
22%
71% 1%
6%
Respeito a lotação máxima
Sim
Não
Somente nos dias de semana
Somente nos finais de semana
7.6.1 Das características e exigências para o novo Sistema
Naquele contrato de licitação, foi previsto a implantação de sistema de cobrança eletrônica através de SmartCards e em dinheiro com ao menos 3 pontos de venda de crédito eletrônico (na sede administrativa, no terminal rodoviário e no centro). Concedendo também o terminal central urbano para operação da central de vendas e de cadastramento dos usuários de cartões eletrônicos. Exigindo 15% de
outbus (espaço publicitário no exterior dos ônibus) para campanhas institucionais.
O sistema tarifário estabelecido previa 6 tipos de tarifas: cartão eletrônico (com desconto) R$ 2,25; em espécie (sem desconto) R$ 2,50; expressinho (cartão eletrônico) R$ 2,50; expressinho (em espécie) R$ 2,80; estudante (meio-passe) R$1,15; e tarifa especial para pagamento eletrônico a ser proposta (das 9:00 as 11:00 e das 14:00 as 16:00 horas).
Quanto à acessibilidade, foi exigido apenas que toda a frota fosse “dotada de mecanismo para acessibilidade de pessoas portadoras de deficiência física com dificuldade de locomoção”, ou seja, não atenta para a acessibilidade geral e a facilitação do acesso ao transporte para todos. Já em respeito à qualidade, a exigência feita foi o limite de 10 anos para os veículos utilizados no transporte e a média máxima de 5 anos de toda a frota.
Nas resoluções e normas técnicas exigidas, figuraram apenas a Resolução do Contran 316/2009 (Estabelece os requisitos de segurança para veículos de transporte coletivo de passageiros M2 e M3 – tipos micro-ônibus e ônibus – de fabricação nacional e estrangeira) e a NBR 15570 (Especificações técnicas para fabricação de veículos de características urbanas para transporte coletivo de passageiros).
Não foi considerada, naquele contrato, nenhuma norma de acessibilidade, como as normas ABNT NBR 14022 (Acessibilidade em veículos de características urbanas para o transporte coletivo de passageiros) e NBR 15646 (Acessibilidade — Plataforma elevatória veicular e rampa de acesso veicular para acessibilidade em veículos com características urbanas para o transporte coletivo de passageiros — Requisitos de desempenho, projeto, instalação e manutenção).
7.6.2 Do prazo e da abrangência do contrato
O processo licitatório foi aberto na modalidade de Concorrência Pública, do tipo “técnica e preço”, para a concessão de exploração, com exclusividade, de serviço público de transporte coletivo urbano, pelo prazo de 20 anos, podendo ser prorrogado a critério do Poder concedente. Para área de abrangência de “todo o território do Município de Campo Mourão” sobre as linhas atuais e futuramente criadas.
É importante observar que os termos destacados do contrato podem ser judicialmente contestados. No art. 16 da lei de concessões (Lei Federal 8.987 de 1995) é estabelecido que “a outorga de concessão ou permissão não terá caráter de exclusividade, salvo no caso de inviabilidade técnica ou econômica justificada”. Ademais, como já citado, a Constituição Estadual do Paraná veda a cláusula de exclusividade. A situação de exclusividade e monopólio fica ainda mais caracterizada ao ser pautado que essa concessão seria válida para linhas futuras, ou seja, que poderiam ser criadas novas linhas sem que fosse realizada licitação para delegação de tais linhas.
Outro item a ser considerado no contrato é o prazo de 20 anos prorrogável a critério do Poder concedendo. Levando em consideração o histórico do município em prorrogações da permissão sem processos licitatórios, pode-se levantar a possibilidade do serviço ser concedido exclusivamente a uma única empresa por até 40 anos sem outra licitação.
Em caso semelhante, o Ministério Público do Estado de Minas Gerais entrou com Ação Civil Pública contra a prefeitura de Governador Valadares para que a Justiça declarasse nulo o processo licitatório realizado para concessão do serviço de transporte público. Nessa ação, o prazo de 20 anos, prorrogáveis por outros 20, foi criticado como “excessivo”, pois “fere o princípio da razoabilidade, dá azo à formação de contratação ‘perpétua’, impede a realização de novas licitações e causa o engessamento na qualidade de prestação de serviços”. (SEIXAS E MARTINI, 2013).
No edital de licitação, foi corretamente estabelecido que novas gratuidades, abatimentos, descontos ou outros benefícios tarifários somente serão concedidos, ao longo da concessão, com a indicação da fonte de recursos compensatórios para não prejudicar a modicidade das tarifas e garantir o equilíbrio econômico-financeiro da concessão. Foram previstas 3 medidas alternativas ou complementares para se manter o equilíbrio econômico-financeiro do contrato:
I. atribuição de compensação financeira direta à CONCESSIONÁRIA
II. compensação de tributos municipais exigíveis da CONCESSIONÁRIA
III. adequação da oferta de serviço e/ou dos investimentos exigidos da CONCESSIONÁRIA
E, tentando evitar impasses e facilitar as questões a respeito do reajuste, como o ocorrido no último reajuste de 2012, foi estabelecida a seguinte equação:
TR = TP{1 + [0,23((PRDi-PRD0)/PRD0) + 0,48.AC + 0,14((IVRCAi-IVRCA0)/IVRCA0) + 0,15(IGPDli-
IGPDI0/IGPDI0)]}
Onde,
TR: tarifa reajustada,
TP: tarifa média da proposta financeira, PRDo: preço do óleo diesel,
AC: variação acumulada de convenções e acordos coletivos, IVRCA: índice de veículos automotores e autopeças,
IGP-DI: índice geral de preços (composto por 0,6IPA + 0,3IPC + 0,1INCC),
Porém, não tem fundamento usar uma formula que não reflita diretamente na composição do custo do transporte público. A fixação de coeficientes para o preço do óleo, salários e preços das peças não leva em consideração que são mutáveis e envolve muita mais que esses indicadores no preço final do transporte público. Um dos fatores mais importantes para tanto é o índice de passageiro por quilômetro rodado (IPK) que não está contemplado nessa fórmula. Com o aumento da taxa IPK, a tarifa deve reduzir e com a queda dessa taxa, o sistema fica mais oneroso, pois menos usuários arcariam com o mesmo preço de custo.
Outro problema dessa fórmula é o uso de índices gerais de inflação para o reajuste de serviço com cesta limitada de produtos. O índice de inflação geral IPCA é usado normalmente para reajustar salários, mantendo seu poder de compra em
relação a uma cesta de produtos e serviços definida pelas características de consumo. Esse princípio, porém, não pode ser aplicado na composição de reajuste do transporte público.
Além de o índice escolhido (IGP-DI) ser um indicador calculado por entidade privada (FGV), ele é composto pelo IPA (Índice de Preços no Atacado), IPC (índice de preços ao consumidos em São Paulo e Rio de Janeiro) e INCC (Índice Nacional da Construção Civil) (PORTAL BRASIL, 2014a). É um absurdo usar esses índices para o reajuste da tarifa de transporte, significaria aumentar a tarifa, por exemplo, no caso de o preço de cimento subir ou do tomate estar muito caro em São Paulo e Rio de Janeiro, o que acaba resultando na indexação da economia.